Grito minha tristeza há muito tempo. Mas o mundo não ouve. Quem ouve, não se importa e se sobrou um punhado que tenha o mínimo de afeto e porventura dedique um punhado de atenção, nada podem fazer. Afinal todos tem também suas dores, suas batalhas e também esperam que alguém ouça, estenda a mão ou simplesmente empreste os ombros os ouvidos e um punhado de palavras anestésicas, que não levam a dor embora, mas aliviam o peito na hora da queda. Então não há tempo para desabar. Me resta apenas seguir vivendo mesmo com dor, mesmo triste, mesmo sem forças. Tenho que ficar de pé no exato momento em que minhas pernas são cortadas. Enquanto isso devo ser atento as dores dos outros, ajudar quem amo, quem me importo porque em alguma medida, ser útil e solidário aos demais me faz sentir menos inútil, menos derrotado, menos triste quando consigo de algum modo trazer um pouco de alento, mesmo que não consiga nenhum pedaço dele pra mim mesmo. Insegurança, ansiedade, medo... Todo dia comigo. A sensação é a de ter sido preso pela perna com uma bola de ferro e atirado ao mar para se afogar. Quando estou perto da morte, a corrente se solta e com o instinto de sobrevivência e as últimas forças que restaram, tento emergir. Porém, instantes após o alívio e a felicidade de finalmente poder respirar, acreditando finalmente estar salvo. Imediatamente após sentir um punhado de ar penetrar os pulmões sem sequer ter tirado o rosto da água, sou puxado de volta para o fundo e preso de volta às correntes. As vezes me permitem respirar um pouco mais e outras menos. Mas nunca sair totalmente da água. O que há de bom e valioso o bem mais precioso, nem parece meu. Parece mentira que no meio de tanta dor esse brilho exista. A todo momento penso que posso perder. Aliás, uma certeza que paira na minha cabeça e desola ainda mais meu peito, pois, para que permaneça comigo se faz totalmente necessário que eu enfim consiga sair da água. Provavelmente seja esse fato iminente que me dê forças para tentar sempre emergir, mas engoli muita água e a corrente não se rompe. A bola de ferro cresce e fica cada dia mais pesada ancorada no fundo. O pouco de ar que consigo na superfície, não me oferta força sobrenatural para vencer esses titãs. Já não aguento mais. Não há super-herói para salvar e a todo instante, gritam: “Só depende de você“ , “você é forte“ , “você consegue“ , “porque não serra a corrente“? "já tentou usar um cilindro de oxigênio para respirar aí em baixo?“. Respostas obvias para cada uma dessas indagações e afirmações. Enfim, vejo a todos no momento do respiro. Estarei como sempre animado, sorridente, positivo, brincalhão, solidário, amável... Depois volto ao fundo e o ciclo continua até que as forças acabem.