Zine 'A estória de sujar o chão de palavra'- RENATA Texto: Renata Pinheiro @autoratransa Juiz de Fora, novembro de 2020 Publicação independente Identidade visual: Francisco Brandão @franciscob
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Zine 'A estória de sujar o chão de palavra'- RENATA Texto: Renata Pinheiro @autoratransa Juiz de Fora, novembro de 2020 Publicação independente Identidade visual: Francisco Brandão @franciscob
A estória de sujar o chão de palavra
por Renata Pinheiro
1555 caracteres em 294 palavras.
2 minutos de leitura.
Entre uma estrela de calor e o chão, eu sou aquela que rasteja. O calor da minha pele quase-menina, reflete luminosa o calor do sol no centro da terra. Borboleta ou jabuti? Não sei. O sonho de toda mulher é ser livre. Isso sei. O morrer e o viver entram em um bar e quem vai pagar a conta sou eu. Caminho com a mesma vontade de uma rocha sedimentar. Tesa. Rápida, passo por todos os seres vivos que pisaram sobre a terra e sobre todos os que rastejaram também. Sou eu o falo de deus? Deus com dê minúsculo é heresia, dizem me alguns. Amedrontada minto. Choro e peço, peço não, suplico perdão àquela figura masculina, paterna e pavorosa. Quanto á. Parece que faltava algo aqui. O céu laranja de ontem me lembrou o beijo mais molhado e nojento que já provei. O belo e o horror em contraste me lembraram você. A minha imagem refletida naquela rocha no céu, parecia sorrir e lançar quebrantos. Parecia felina a imagem feminina da quimera de pedra. A mulher em ruinas. Qual é a idade de uma rocha? A palavra tão jovem inveja a pedra e a figura que agora encara o golem mulher é também palavra e mulher. O feminino como palavra e figura. A figura é o meu e o seu corpo e juntos somos adubo fértil pra Ela. Ela que é tudo que de certa forma vive, delira, sonha, morre e renasce. Deliro ou sonho palavra? Acredito que seja coisa de palavra. O feminino é a estrela de calor, a roseira da palavra. Quanto espinho nesse corpo. Poesia travesti é sujar o chão de palavra. O sol é uma estrela e nela pretendo viver quando for mulher. Hoje sou cágado, amanhã, quem sabe?
#acervopoetasmalditos1
teu nome sobre as asas do vento
Enquanto nossos corpos, separados, se desconectam
eu, feito ave selvagem, galopo rajadas furiosas de vento
e na turbulência do calor febril do desejo,
borbulho em lodorenta luz verde
ao soar o piar mais aterrorizante de todas aves, o meu.
Um grito de amor e desejo sobre a imensidão do abismo, vazio
#acervopoetasmalditos2
O mistério dos ventos
O vento verde que sai do mato mais gelado do morro
acerta meu rosto cansado e esperançoso.
Feito chuva fina, o frio perfura a minha carne
feito rajada de agulhas finas e mortais.
O verde do vento através dos buracos
preenche minha alma de um frio imensurável,
que rodopia, faz tempestade, tufão, trovão e some
com o abrir dos meus olhos que incansavelmente procuram você.
Ouça as preces do vento, dizem os mais velhos,
para que não pereça mas tenha a vida eterna.
E o verde do vento, por mais que pareça torturante
soa como a prece da saudade,
soa como quando a gente se separa,
soa como sensação de quando você se vai.
fragmento
II
A figura tépida de ti me assombra em momentos inusitados
seja em dia de sol ou dia de chuva,
apareces.
Busco a leveza e a calmaria de um lago
mas encontro barulho e vento.
Tu vens
pra onde vais?
Busco a ti com sede
e sempre te bebo com as mãos.
Minha mãe se presenciasse tal imagem
perguntaria:
Estas com as mãos furadas?
Eu logo acrescentaria que sim.
Poesia #110419
Poesia a despeito da saudade
Te encontro em horas marcadas;
horas inesperadas;
horas iguais.
Te encontro no tempo.
Te encontro em lugares imaginados;
lugares idealizados;
lugares normais.
Te encontro no espaço.
Te encontro em fotografias de ontem;
fotografias de anteontem;
fotografias escuras de amanhã.
Só não te encontro agora.
Me encontre agora em qualquer lugar;
qualquer sofá;
qualquer lar.
Só me encontre agora.
devaneio #251117
mania de você cabelo meio louro alto meio bobo parece meio um tesouro e que o pirata seja louco pois já basta eu de bobo que não te chupa no meio do povo.
Esse verso sujo, feito de tesão, tava guardado bem aqui, onde homem nem mulher alguma toca. Quem toca em mim sou eu. Toco gostoso. Toco com gosto de beijo molhado de tesão, que por muita vontade de arrancar a beiça da boca, porém não arranca por puro amor àquele protetor da caixa de som da alma.
Carta #170219
Ao passares por mim, sendo um mero desconhecido, terás a impressão que sou um apressado; um hermético; um esquisito; um mistério. E podes com toda certeza acreditar nisso. Sou um em milhões de mim. Não terei nenhuma vontade de mostrar me eu, para ninguém. Vê-se o que há de ver e acreditar. Não serei eu mesmo para o prazer de ninguém. Faz parte de mim, ser o que te provoca confusão e questionamentos de prolixidade .
Há algo muito efêmero sobre o jeito como me vês. Sempre perdendo eu em mim mesmo – ou em você. Buscas a minha verdadeira feição de mim. As vezes acredita que sou mormaço; uma pedra; uma joia; um lar. Mas sou eu mesmo, minha própria ilusão. Não sou nada disso e ao mesmo tempo, sou todas as coisas que a imaginação humana concebe.
Estou exausto de outras interpretações de mim. Sou o que posso chamar de eu. Não me confunda com o meu mistério – mesmo ele sendo eu –. Quero que me veja nu, nu de qualquer interpretação vazia de mim. Conhece-me melhor a cada dia, enquanto esse mistério crava em ti, vales profundos na alma e na consciência. Tenha cuidado, amor.
Quem me conhece a mais tempo, já tem uma ideia melhor do que eu possa ser. Eles se aproximam do verdadeiro significado de mim ao perceber que sou uma anunciação de uma tragédia; Uma onda nervosa antes da maré embriagada ter sua ressaca violenta; O teto a girar antes de um vômito fétido de álcool; A brisa úmida, com cheiro de terra, antes de cair do céu tromba d'água violenta e cravar buracos imensos; O encher de ar dos pulmões de pedra dos gigantes que assopram por detrás das cordilheiras, ventanias e furacações*; Sou o aviso cósmico do Big Bang; Sou a sirene que vem atrasada na evacuação de um crime ecológico. Sou a luz de um trovão antes dele estourar em um vale de montanhas duras; Sou os segundos antes da reação de um apaixonado ter o seu coração quebrado. Sou o que antecede o caos.
Estou exausto de outras interpretações de mim mas quero que continue a sua jornada. Quero que demore o tempo que for necessário. Sei que é exaustivo e fatigante, mas o meu mistério é tudo que sou. Não sei de onde ele saiu, porém acredito fielmente que seja parte do mistério do mundo. Talvez seja eu mesmo a representação desse mistério. Talvez eu seja arrogante por pensar assim, mas acredito que todos nós sejamos parte do mesmo mistério, porém eu me permito ser parte dele – e ser ele.
Te escrevo e te espero em todas as oportunidades que vida nos der. Espero que o nosso mistério se resolva no fim – mesmo o fim sendo tão relativo e inefável. Espero que você seja a resolução desse meu mistério.
Te escrevo porque gosto de ti e porque acho que te amo – as vezes tenho certeza – do fundo do meu coração. Que o seu mistério não se apague e me deixe sozinho no escuro.
Te escrevo porque a saudade de ti tem cravado grotas profundas nesses sertões de mim.
Te espero, – mesmo que para sempre – no nosso lar: que é a vida quando você está por perto. Sei ser trovão e você também sabe. Te espero.
Só teu,
17/02/2019.