Pode sentir cada pedacinho de suas costas doerem pela tensão que percorria seus músculos, tendões e nervos. Cada neurotransmissor parecia gritar ao cérebro de Cecilia de que ela devia ativar o modo luta e fuga e simplesmente sair de cena, pois há anos Avery a abalava de uma forma que ela não conseguia lidar muito bem. Quando ouviu a fala dela, foi inevitável soltar uma risada pelo nariz - porque isso demonstrava que o desespero e a ansiedade que aquele encontro sempre causava não vinha apenas de seu lado, era claro que não. Os olhos se voltaram para os de Avery, como se não tivesse medo do que poderia ver e sorriu, em ironia “I don’t know, will you take me to rehab?” o tom de voz tornou-se bem baixo, para que apenas ela pudesse ouvir, enquanto seu olhar analisava seu rosto, com atenção e com cautela. Sabia que tinha de tomar cuidado onde pisava, o que dizia. Querendo ou não, o medo de se magoar mais uma vez ou de a magoar. Sabia que nem sempre amor era o suficiente para manter duas pessoas juntas - e não fora suficiente para as manter. “Estou brincando. Realmente vou precisar de uma se formos continuar essa conversa” e dizia aquilo de forma simples, porque para Cecilia não era uma surpresa aquilo: era muito difícil se manter perto dela, não tinha dúvidas de que era recíproco. Comprimiu os lábios quando as bebidas chegaram e o copo tocou sua mão. Dezenas de flashes passaram por sua mente, de cada vez que Avery dormiu em sua casa, os drinks preparados, os baseados enrolados, os shots direto da garrafa. Respirou fundo, o mais discreta que pode. “Um brinde ao seu sucesso, Avery. Sempre. Independente do… rumo da vida” ela feu de ombros e levantou o copo aos lábios, mal sentindo o álcool. O que lhe afetava mais era o olhar dele sobre si. Esperava e torcia pelo sucesso dela, ainda que de longe. Torcer de perto era difícil demais ainda. Ouviu a fala de provocar de volta a si e logo o revirar de olhos, riu de maneira nasalada. Era difícil medir as palavras e até relembrar algumas sensações do passado. Não se esquecia, nunca, do calor que ela a fazia sentir. Mas as mágoas? As dores? Os desentendimentos? Tornavam-se sempre uma mistura de sensações. Como se fosse fácil demais se lembrar por que foi apaixonada por ela e difícil se lembrar por que haviam terminado. “Isso” ela apenas concordou com um sorriso irônico “Pelo menos dessa vez você não vai ter que se preocupar uh?”
A morena balançou a cabeça em negação e deu uma pequena revirada de olhos. Tão previsível que ela fizesse piada com coisas sérias. Suspirou. “Not to day”, deu a resposta curta, pois a longa iria envolver alguns outros detalhes que ela não via a necessidade de adentrar naquele momento. Avery acompanhou os altos e baixos de Cecilia, mais baixos do que altos para ser sincera, e sabia que tinha culpa em alguns deles, por força-la a situações tão desconfortáveis que sua única válvula de escape era o abuso das substancias. Ainda assim, Avery nunca a forçou a nada, sabia que ela precisava de ajuda, de cuidados e só o fez com o consentimento. De nada adiantaria levar Ceci a força, ela tinha que querer. Contraditório como a Petterson conseguia respeitar tudo, menos o que era mais importante para Cecilia, que era tê-la ao seu lado, oficialmente. Avery limitou em sorrir e assentir a resposta seguinte, era obvio que as duas precisavam daquilo para continuar. E era obvio que a morena não queria se afastar, ao menos não por agora. A saudade faz coisas estranhas com a gente, como oferecer veneno a pessoa que você mais amou, só para não ter que passar mais alguns minutos, horas ou dias na sua ausência. O álcool era veneno, e ela entregava o copo na mão de Cecilia para mantê-la mais tempo perto. Egoísta, Avery sempre o foi. “independente do rumo da vida”, repetiu as palavras enfatizando-as. Era difícil não se deixar doer pelas pequenas coisas como estas, independente lhe soava como ‘mesmo eu não estando aqui’, quando tudo que ela queria era que Cecilia estivesse. Queria ter achado uma forma de fazer dar certo, mesmo que não fosse como namoradas, que fosse como amigas, mas sempre que tentava acabava misturando as coisas, confundindo as coisas. Bastava um olhar diferente, um toque que durasse mais do que alguns segundos, e ela sabia que se perderia em Cecilia, assim como a outra se perderia nela. Como pode falhar tantas vezes com a mesma pessoa? Como continuava falhando? Os olhos se fecharam por alguns segundos enquanto a ouvia retrucar, e morena suspirou impaciente. Oh céus, ela não queria cair naquela estrada de novo. O copo voltou a tocar os lábios e desta vez ela fez algo incomum, mas que acreditava que Cecilia sabia bem o que significava, pois ela costumava fazê-lo. Virou a bebida por completo na boca, conseguia sentir o queimor descendo pela garganta, afundando qualquer resposta teimosa ou orgulhosa que viesse a tona. “É isso que você acha? Que não me preocupo ainda?”, soltou o riso soprado, com um pequeno traço de cinismo. “Admito que seria mais fácil se eu não me importasse mais com você, mas não é o caso Cecilia, e eu continuo aqui, querendo te ver bem, querendo seu sucesso, quero que seja feliz...” querendo você... ela teria dito, mas sabia que perdeu isso algum tempo atrás.