é só que dói um pouco quando eu lembro assim
A rua é a mesma em todas as repetições de cena, os passos são os mesmos na coreografia e as falas iguais, pois não existem mais. O reencontro parcelado, concentrado num mesmo ponto da cidade, onde concordamos em fingir não nos conhecer. Cômico pensar que sempre nos vemos num mesmo lugar, que nunca frequentamos, apesar de termos visitado tantos outros dessa capital com jeito de interior.
Atravessando a rua, ou passando lado a lado, sem a graça da paixão ou o conforto do amor. Sem saudade da memória ou vontade de verdade, sem demanda de perguntas. Só olhos desviantes e dois estranhos que reconheceriam a risada do outro em qualquer lugar.
[E a minha graça tu já não entende]
Não haveria conversa possível e personagens tão antagônicos, como também não existe apagamento. Todas as características incorporadas ainda sabem sua fonte, ainda que não doa mais. Ainda que não seja mais uma história difícil de contar.
Ficou com as quedas de infância, a frustração de adolescente e quaisquer outros relatos que sejam constituintes, mas não centrais. Importantes, mas apenas dados históricos de uma vida longa.
Metros separam o contato visual e físico, anos separam a última vez que fomos algo bonito de se ver e eras separam o que podia ter sido, em outro universo, com outras pessoas. Se você não fosse você e eu não fosse eu. Não procuro mais culpados, já sei quem são. Não elaboro além da conta, sei que você não o faz também.
[O que o amor vira quando chega o fim?]
Tudo está exatamente nos lugares em que deveria estar, entretanto, não te parece cômico teu peito ainda pintado da minha cor favorita e eu ainda usando a tua camisa mais antiga?
Ainda que a cor não seja mais minha, ainda que a camisa já tenha deixado de ser sua há tanto. Não te parece cômico não esquecer de nada enquanto esquece gradualmente de tudo?