Escrevo por vocês, mas, sobretudo, escrevo porque a escrita constitui a única linguagem capaz de metabolizar aquilo que a consciência, isoladamente, jamais conseguiria suportar. Escrevo porque a dor, quando destituída de expressão, tende a cristalizar-se em silêncio; e o silêncio, prolongado além de sua vocação contemplativa, converte-se em uma forma discreta de desaparecimento.
Escrevo porque esse gesto antecede qualquer pretensão estética. Não é um ofício, tampouco um hábito: é uma necessidade ontológica. Há algo em mim que apenas encontra inteligibilidade quando transfigurado em palavras. Tudo o mais permanece disperso, como fragmentos de uma realidade cuja coerência se dissolve antes mesmo de ser compreendida.
Pergunto-me, por vezes, o que restaria de mim caso a escrita me fosse subtraída. A hipótese é inquietante. Talvez sobrevivesse apenas um corpo atravessando os dias com a aparência de existência, enquanto a consciência vagaria errática por um labirinto de simulacros, confundindo aparências com verdades e ecos com presenças.
Escrever, portanto, não representa uma fuga do mundo, mas um movimento de resistência contra sua opacidade. É a tentativa de instaurar alguma ordem provisória sobre o caos íntimo, de conferir densidade ao indizível e de resgatar, entre as ruínas das desilusões humanas, um vestígio de sentido.
Se algum dia eu deixasse de escrever, não perderia apenas um modo de me comunicar. Perderia a arquitetura que sustenta minha própria identidade. Porque há existências que respiram pelo corpo; a minha, suspeito, respira pela linguagem. E talvez seja essa a razão de continuar escrevendo: para não permitir que a parte mais essencial de mim se dissolva silenciosamente na vertigem das ilusões que insistimos em chamar de realidade.











