Já caí inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Clarice Lispector.
Sweet Seals For You, Always
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Já caí inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Clarice Lispector.
E por um momento eu pensei em desistir, mas segundos depois decidi resgatar o que nos faz bem. Mas nunca foi minha intenção, depois de tudo, apesar de tudo, te por distante de mim. Digo, literalmente, porque com toda essa confusão ao redor de nós, eu continuei aqui com você e deixei de lado tudo o que me fazia pensar assim e me concentrei em conquistar o que tínhamos e ainda temos. Afinal, desistir de você seria a mesma coisa que desistir de mim. Porque sem você eu sou apenas um corpo sobrevivendo da forma mais banal e ocupando um espaço desnecessário na Terra. E sabe o que é engraçado? Mesmo com toda essa confusão de ficar ou ir embora, com toda a bagunça que você faz em minha cabeça, eu quero continuar insistindo em nós porque eu realmente te amo. Mesmo morrendo internamente e até que vagarosamente, seu amor me basta. Até porque, amor é isso, não é? Não abandonar, não desistir, se equilibrar por dois sobre uma corda só quando mal se aguenta.
E uso as palavras de CFA para dizer “Não acredito que maus fluidos, por mais fortes que sejam, consigam destruir um amor bonito, limpo”. Katherine Franco
De uns tempos pra cá, tenho acordado no susto. Sempre com a estranha sensação de estar atrasado para um compromisso que não existe. Sempre com aquela angústia desnecessária de estar devendo ao mundo um poema que nunca será escrito. Olho na agenda, nada marcado. Coloco meus óculos e confirmo nitidamente que não tenho realmente nada agendado para os próximos dias, quiçá meses. Devo estar atrasado comigo, com o meu passado. Alguma saudade que eu deixei para trás está cobrando minha companhia, como se fosse um chope ou uma dúzia de bolinhos de bacalhau que eu deixei em alguma conta pendurada no balcão do meu bar predileto.
Eu me chamo Antônio.
Você esbarrou em mim, me deu um sorriso meio desengonçado e olhou diretamente nos meus olhos. Desde aquele momento eu sabia, que era com esse olhar que eu gostaria de acordar todos os dias.
O Pequeno Bob.
Sabe por que muita gente quebra a cara na vida? Porque acredita no errado, dúvida do certo, abandona o verdadeiro e valoriza o falso.
Até a onde conhecemos as pessoas? Até a onde podemos definir caráter pela aparência? Até onde podemos ser cegos por não dar ouvidos a razão? Até onde as mentiras chegam e até onde deixamos que elas se arrastem e continuem? Até aonde iriamos por uma amigo? Por nossos corações?
Henrique Pires.
Tu me aguentas? Eu sou eu. Com tudo que há em mim. Com meu lado preto, cinza, rosa e azul. Com minha cara amassada, amarrotada, descansada e maquiada. Com meu corpo perfeito e com celulite. Com rosto de boneca e dedo torto. Com sorriso largo e cara fechada. Não tenta me mudar, nem me colocar numa redoma de vidro. Num mundo intocável, numa jaula, numa prisão. Sou um bicho livre. E, acima de tudo, tenho força. Personalidade. Se tiver que modificar algo em mim será por vontade própria. Não por vontade alheia.
Clarissa Corrêa.
Você é minha luz no fim do túnel, mas não sei se é o céu ou só um trem em minha direção.
Nice Rodrigues.
Nunca foi sorte, sempre foi Deus.
A fotografia denota nosso daltonismo afetivo: enxergamos o amor cor-de-rosa através da câmera, quando na realidade ele é roxo-escuro. Como um hematoma.
Gabito Nunes.
Eu tento negar todos os dias, que não sinto falta da voz que estremecia minha alma. Eu tento todos os dias declarar com firmeza que estou tão bem, a ponto de não depender de ninguém. Eu olho o céu enegrecido e finjo contemplar apenas as estrelas e a lua, quando na verdade, espero desesperadamente uma resposta. Nas melodias que o mundo canta para mim, eu tento encontrar o som que guiava meu passos, que me fazia dançar como um pássaro livre que voa sem impedimentos ou obstáculos. Eu me arrasto por aí, gritando palavras que não me descrevem, eu pinto a cara para que não vejam a palidez de meu ser, que anda fraco, necessitado, que precisa tanto de um abraço que não existe mais. Eu sinto saudade das noites tranquilas, do conforto na alma, do refrigério que teus afagos e carinhos traziam. Eu morri, sem saber que a morte é capaz de nos deixar vivos, como uma espécie de castigo, tormento, que me faz ver a vida, mas não permite viver. Por onde tu andas? Onde tu estás agora que não vem me socorrer?! É provável que tu estejas por aí, admirando silenciosamente minha vida, arquitetando em sua mente sábia uma forma de cumprir todos os propósitos e promessas que um dia me fizeste, mas eu rejeitei. O arrependimento não mata, mas produz uma dor tão dilacerante quanto a da morte, e hoje, eu a sinto com tanta intensidade que meus poros espirituais sangram. As lembranças chovem sobre mim, como um chuva de granizo impiedosa, que destrói e desestrutura tudo que acerta. Eu entreguei meu bem mais precioso, sem sabor o exato valor que ele tinha. Eu me perdi na estrada da vida, enquanto olhava para mim mesmo, enquanto acreditava nos meus próprios conhecimentos e ideologias. Eu só queria que soubesse o quanto tu faz falta, o quanto eu sinto saudades de ti. Por favor, perdoe minhas palavras tolas, esqueças meus pensamentos vergonhosos a respeito de ti. Era pura birra, marra de criança que quer tudo instantaneamente. Eu te amo, e mesmo que hoje morra, não deixarei de te amar, Deus.
Desabafos para Deus
Se você quer alguém rastejando atrás de você, sugiro esquecer ter me conhecido e comprar uma iguana ou algo assim. Se tem uma coisa que eu sei nesse mundo é de mim. Me conheço. No meu corpo tem cromossomos de uma zebra africana. Estou sempre fugindo dos leões. Algumas pessoas escolhem ser livres. Outras não têm chance de escolha, apenas são. E nunca mudam, mesmo que queiram. É uma questão de fase: paixão não revelada é paixão morta, amor não demonstrado é amor morto. Só mais uns dias e pronto. Estarei oficialmente no limbo, na liberdade anestésica de absolutamente nada sentir.
Gabito Nunes.
Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim. Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos - acordar, comer, caminhar, dormir, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria - tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las - vaga e precisamente de: A Grande Falta. Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias e ventos que cintilava ao sol, pequena joia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gotas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A Grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo esverdeado. Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizava-se às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando até o cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas em outras vezes adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos. Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe parâmetros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo, A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele. Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo. Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia. Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente, a cada um deles partindo-se a casca, quebrando-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo. Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes - quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente - povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais. Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia - um certo dia, um dia qualquer, um dia banal - deu-se conta que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que dera-se conta. Mas foi assim: olhando-se ao espelho, pela manhã, percebeu o claro reflexo esverdeado. Está de volta, pensou. E no mesmo instante, tão imediatamente seguinte que confundiu-se com o anterior, cantava, novamente ele mesmo. No segundo verso, pequena contração, tinha novamente entre os dedos o caco de vidro luminoso. Mas antes que a mão sangrasse, havia preparado um drinque, embora fosse de manhã, e bebia lento, todo intenso. Antes de engolir o líquido, seu corpo ganhou vértices súbitos, emoldurando o desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos abertas, olhos fixos na distância. Foi um dia movimentado, aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la. Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas, até afundarem os sulcos em torno dos lábios. Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve. Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos - enfim, houve um dia, marco, em que o tocaram de leve no ombro. Ele olhou para o lado. Ao lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa olhava-o com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham se tornado tão aceleradas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvisibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves. Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.
Caio Fernando Abreu.
Nada do que estava vivendo me pertencia. Não suportava mais olhar para as pessoas todos os dias e fingir uma simpatia que não tinha. Arrepiava da cabeça aos pés imaginar que alguém pudesse penetrar o meu escudo e me fazer feliz por um instante. Tinha um medo danado até de andar com a cabeça erguida dando bom dia para quem cruzasse o meu caminho. Já pensou se em um desses bom dia alguém tivesse me ganho? Cruzes. Iria me apaixonar. Iria fazer planos. Iria querer me tornar melhor. Depois de sugar todo o meu amor acabaria indo embora com a cara mais lavada e a desculpa mais antiga do mundo ”o-problema-sou-eu-e-não-você” e eu ficaria sem saber o que fazer, como sempre.
Os porquês de Amélia Roswell.
Quando alguém te machuca, você sente ódio e quando você machuca alguém, você fica amargo, mas se sente culpado também. Conhecer a dor nos ajuda a crescer, a madurecer e crescer significa ser capaz de pensar e tomar decisões próprias.
Naruto Uzumaki
Quando você sai da presença de Deus, você vai morrendo aos poucos
Myles Munroe
Sinto falta mesmo é de não sentir nada. Eu não sentia nada. Era tão bom.
Martha Medeiros