como uma artista de retratos, mizar tinha contato com diversos sorrisos em suas diversas formas. admiradora da genuinidade em tais, conseguia perceber que nenhum dos dois estavam sendo sinceros com a feição posta nos rostos durante aquela mesa reservada para dois, mas assim como ela, baron também era um artista: observador de forma teatral, estudado nos mínimos detalhes. finalmente alguma vírgula do rapaz a interessava, de um modo quase masoquista envolto de uma curiosidade inconsequente. a ideia de descobrir o que havia dentro do recipiente fútil e resistente que ligavam o nome do rapaz a um atleta estúpido que saia dos piores filmes de comédia romântica para no final acabar namorando a protagonista sem nenhum ponto da personalidade sem sal. a verdade era que, durante aquele jantar, o garoto automaticamente se tornou um coadjuvante como ela, de uma alma admiravelmente obscura igual era possível observar nos quadros, obrigados a permanecer em um mundo de feições forçadas e frases previamente calculadas para que pudessem sentir os holofotes sociais que eram de tamanha importância nos sobrenomes que carregavam. por incrível que pareça, enquanto baron era amado por seus sorrisos, mizar cresceu rodeada de palavras de ódio e aprendeu a agir em meio a estas. era a vilã e sua mãe havia ensinado a viver com isso desde criança, como se fosse um rótulo a levar com orgulho durante uma passeata de conquistas fundamentais do ensino médio. as palavras maldosas que saiam de seus lábios chamavam atenção e ganhavam admiração daqueles que não tinham coragem de fazer o mesmo, enquanto os sentimentos e medos eram escondidos dando passagem para um personagem sem história que está em um grupo social apenas para direcionarem o ódio do público. a vida era uma peça de teatro e todo mundo fazia parte da platéia sem noção nenhuma de transformar a história por viverem confortáveis nos seus papeis, mesmo que obrigados.
only good things to say, prince. ― o sorriso mudou a tradução em poucos segundos, mostrando agora uma provocação clara como se tivesse pronta para sair gritando para todos o que havia aprendido naquele dia e, infelizmente para o blade, não se referia a aula de história que a jovem havia permanecido acordada pela primeira vez durante o inicio daquele semestre. mizar cheirava a hipocrisia, a vontade de todos verem quem os outros realmente são para que distanciasse a atenção dos seus problemas ao ter reações diferentes para observar. eram os únicos momentos que se sentia em controle de algo, como uma roteirista dos acontecimentos ao seu redor. era fácil ver a jovem comparando sua vida com algo possível de ser ver pela televisão, principalmente depois de ter entrado em depressão. se sentia intrusa no meio das pessoas, como se vivesse na pela de outro humano: a verdadeira filha dos eakins. pensamentos melancólicos costumavam cercar seu dia e sua cabeça em diversos momentos, enquanto em outros permaneciam em brancos, igual um arquivo novo do photoshop pronto para ser pintado da forma que quisesse no momento que desejasse. o sorriso de mizar desapareceu por um instante quando escutava as palavras saírem da boca do rapaz. naquele momento a única cena que se formava era a sua imagem desferindo diversos golpes no rosto presunçoso que via em sua frente até que não sobrasse nada além daquele sorriso estupidamente irritante. não demonstrava exteriormente a raiva, forçando seu rosto a permanecer neutro enquanto fechava o menu e deixava disposto na mesa para que o garçom retirasse. a pergunta final feita por baron não havia passado em sua cabeça pela primeira vez naquele momento: era realmente coerente a ideia de amor? ela não chegava nem ao menos amar os seus pais, aqueles que haviam lhe criado. não amava a si mesma. seria assim capaz de amar outro ser humano, ainda mais quando esse era aquele que havia sido criada para desprezar? e mesmo assim, depois de meses de término ainda pensava em riley como a única coisa verdadeira que sentiu durante sua vida. ― admito desvantagem… three for one? geez, eu queria me divertir hoje. ― deu uma risada sem humor algum, levantando as mãos em uma falsa rendição. seu relacionamento homoafetivo era de conhecimento dos seus pais, assim como o tratamento psicológico que os mesmos pagavam, mas a ideia de sua ex-namorada ser uma atual bolsista não poderia nem ao menos passar na cabeça da grande modelo eakins.
permitiu que baron continuasse falando, arqueando a sobrancelha quando o mesmo falou sobre proposta. era como se soubesse o que iria acontecer em seguida de uma forma que não hesitou em revirar seus olhos a ver a caixa preta se aproximando de si. pegou a caixa com uma delicadeza forçada para não fazer uma cena no restaurante, fazendo questão de passar suas longas unhas na pele do rapaz antes de separar o objeto das mãos masculinas que segurava. abriu a caixa sem fazer nenhum espetáculo, com um olhar mórbido desejando que tivesse uma faca no lugar do palhaço de mola e fosse diretamente para o rosto da jovem. infelizmente aquilo acabaria o sofrimento dela, encontrou apenas um entorpecente realista: duas alianças. levantou o olhar para o jovem do outro lado da mesa, com um sorriso enorme nos lábios completamente teatral. em contrapartida, sua voz saiu em uma tonalidade baixa, feita exatamente para que ninguém mais os ouvissem: ― eu irei escolher o que você vai me comprar daqui para frente. sem discussão. ― o fato era que, baron brandon blade não poderia estar mais certo. sua mãe diariamente aparecia com suas frases passivo-agressivas pedindo para que a jovem entrasse em um relacionamento heteronormativo para apagar qualquer rastros da ❝ fase ❞ que havia vivido em seu penúltimo ano escolar. aquilo finalmente iria calar a boca da vadia em salto alto. ela iria vencer, mas mizar sentia como se devesse aquela vitória pelo resto de sua vida. devolveu a caixa para o lado do rapaz, estendendo sua mão direita em cima da mesma intencionalmente sendo a mão coerente para a adição de uma aliança de compromisso no dedo anelar. ― paixão serve apenas para pessoas com alma, prince. negócios são mais coerentes para nós. ― deu de ombros, sorrindo para o rapaz sem tirar os olhos do dele. um curativo no meio da ferida enorme que havia causado na sua família, um silêncio para o outro. poderiam estar caminhando para uma vida infernal e, se fosse o caso, a mizar faria questão de sentar no trono piorando cada escolha. ― contratos precisam de cláusulas. ― batia suas unhas na mesa em volta da caixa, quase como se trancasse o objeto em suas mãos até terminar de falar. ― você não irá tocar em mim quando estivermos sozinhos… e não ira tocar em outra pessoa. ― sua mão livre agora segurava a taça do pedido que havia feito anteriormente, bebendo goles lentos fazendo questão de fazer o garoto esperar, mas manteve o dedo indicador da mão direita levantado para que ele não falasse. tirou a taça de seus lábios, relaxando o dedo que indicador e voltando a bater inquietamente na mesa (como uma maneira clara de provocá-lo). ― não tenho roupas que combinam com chifres de touro! mas se quiser manter sua libido ativa, podemos contratar alguém para isso… ― seu sorriso era quase provocador. apesar de querer aquele acordo, ela não iria deixar passar sem dizer algo. não era uma submissa completa e baron deveria esperar tal comportamento. ― você não vai mandar em mim, me contrariar em público e muito menos falar sobre a navarro para os meus pais: essa não tem discussão. sem elogios, sem indiretas em mesa de jantar ou qualquer chance de pensar nela. eu posso acabar com a sua vida sem precisar de segredinho e a culpa nunca irá cair em mim, você sabe disso. ― relaxou sua mão direita, voltando a beber alguns goles de sua bebida antes de deixar a taça na mesa. ― por agora, é tudo. feeling lucky today? ― deu um sorriso simpático, liberando a caixa de veludo da sua mão, mas ainda deixando seu membro disponível para ele assinar o contrato com a aliança.
As pessoas aceitam os piores acordos no período de desespero, mas ele estava mesmo desesperado? Sabia que conseguiria tal acordo com qualquer outra garota do colégio ou fora dele, mas por que ajudar alguém como Mizar? Alguém que parecia precisar, tanto quanto ele, de ajuda, mas não movia uma palha e fazia exigências como se estivesse no poder de fazer tal coisa. Ele deixou que sua língua saísse e umedecesse seu lábio inferior, terminando sorrindo maliciosamente. A resposta para todas as suas questões, lhe pareceu simples o suficiente para que até uma criança estúpida pudesse identificar. Talvez porque uma pequena parte de Mizar Eakins, era tão masoquista como ele e isso lhe direcionava energias para aceitar até mesmo tais propostas insanas e infantis que ela tivera a coragem de lhe propor, além de que, ele gostava quando surgiam dificuldades, sem dúvidas era mais divertido ocupar sua mente com pensamentos inconclusivos e oscilantes que com algo tão monótono e banal, em resumo, era apenas mais doloroso e a dor era o melhor sentimento que ele carregava consigo, dava-lhe ânimo para continuar vivo e sentir mais daquele tipo exótico de poder, afinal, sensações de poder e dor poderiam ser demasiadamente prazeirosas, dependendo do referencial, claro. Ele apenas deu de ombro com o comentário dela sobre escolher o que comprava, não se importava com o que ela comprasse ou quanto dinheiro gastasse. "Continue no preto e você não terá nenhuma discussão." Aquela era sua única condição, Baron não estava ali se divertindo ou em seu melhor momento de bom humor, preto sempre seria a única opção de cores, não porque lembrava um funeral, mesmo que a situação parecesse uma, mas por motivos de contrastes, como um pintor expressionista, claro, que se referia ao sentido da profundidade, como nas telas que esboçavam sensações de dimensões variadas por terem sido utilizados contrastes preto-e-branco. 'Negócios são mais coerentes para nós'. Ela nunca esteve tão certa, aquela relação não se passava de um negócio, Baron não deixaria que passasse uma impressão diferente disso, um pequeno sorriso no canto de seus lábios refletiu sua completa satisfação, ele realmente gostou daquela sentença. "Não, realmente não combina." Refletiu ainda com o pequeno sorriso nos lábios. Dentre todas as coisas que ela tivera falado, aquela provavelmente teria sido a única coisa que ela teria completamente acertado. Seu pequeno sorriso ainda estava congelado em seus lábios com o restante das palavras da outra.
O que Mizar Eakins conhecia sobre ele? O que ele a permitiu conhecer. Baron era conhecido por sua personalidade de 'olho da tempestade', vivendo o momento e mergulhando na ação, mas era exatamente isso que ele queria mostrar para as pessoas, mas assim como a própria tempestade, partes sombrias estavam escondidas, podendo ser letal para os corajosos que tentassem encarar. Baron poderia ser letal para qualquer um que o conhecesse a fundo e isso era o problema. Ele tinha vícios - incontáveis deles -, cicatrizes irreparáveis e um coração muito sombrio, se ainda existia sangue circulando por suas cavidades, esse deveria ser mais gélido que o próprio gás, expulso por uma estrela, formando uma nebulosa. Ele nunca tocou com pura luxúria em uma garota e não seria agora que o faria, e, definitivamente, não com Eakins, luxúria talvez não fosse um dos seus pecados capitais, pelo menos não de maneira sexual. Ele balançou levemente a cabeça concordando, mas logo ignorando o silencioso 'mandamento' sobre se manter quieto enquanto ela falava, Baron nunca aceitou bem o fato de receber ordens, nem mesmo tivera assinando seu pacto e ela já queria todos os direitos sobre suas ações. "Negócios são negócios." Com absoluta certeza ele não a tocaria quando não fosse necessário, contatos físicos desnecessários também não eram a sua praia, quando a questão de outras garotas, ele não fazia o que fazia por prazer, mas por status, não sentia nenhum tipo de tesão ou algo banalmente adolescente referido ao desejo sexual, apenas para manter seus próprios negócios, talvez fosse melhor ter a desculpa de 'tenho uma namorada' para afastar rumores sobre seus hábitos não mais galanteadores. Ele sentiu sua mandíbula travar com o comentário - supostamente engraçado - sobre conseguir outra pessoa. "Minha libido está muito bem controlada, obrigado." Então, seu olhar maldoso surgiu em seu semblante, soltou um pequeno sorriso e deixou que sua sobrancelha se arqueasse, pretensiosamente. "Você vai precisar desse tipo serviço? Quem sabe uma garota... Bem, sinto-lhe dizer, mas haverá reciprocidade." Falou, inclinando-se para que só a mesma ouvisse. "Eu tenho que manter a minha reputação de ser bom no faço, baby." Bem, essa talvez fosse só mais uma mentira, afinal, ainda era virgem, mas não era o que as fofocas de corredores afirmavam. Muitos poderiam não saber o que eram protonebulosas planetárias, mas o garoto Blade era obcecado com objetos astronômicos desde os 4 anos de idade, ele hoje entendia o que queriam dizer sobre ser uma das fases da morte de uma estrela, ele também sabia que Mizar era o nome de uma estrela, a mãe da garota havia dito em um dos diversos encontros com sua mãe, após a mesma ter comentado sobre a paixão pelas estrelas que Baron tivera, seria aquela uma deixa para o mesmo se apaixonasse pela estrela dela? Na época, ele veementemente não cogitou tal hipótese, mas agora poderia fazer um pouco mais de sentido, Baron era o retrato da perfeição para a família alheia e isso era um grande, muito grande engano, um engano humano e um erro cometido por desconhecidos... No entanto, quem o conhecia mesmo? Talvez ninguém e isso mostrava como Baron era. Pensando enquanto ela falava, percebeu que era como uma supernova, uma do tipo II, pois apenas uma desse tipo poderia anunciar o fim da vida de uma estrela por meio de uma explosão catastrófica, após um colapso sobre si, este sendo grande o suficiente para ser capaz de destruir uma estrela por inteiro. Ele a mataria se ela resolvesse ultrapassar o limite que ele lhe permitiu conhecer, obviamente, não seria uma morte no sentido literal com sangue e vísceras, mas algo mais ao seu estilo, dramático e artístico com sua toxidade inebriante. Ele sabia que o faria, talvez Mizar soubesse também ou, na melhor das hipóteses, talvez ainda fosse ingênua e não conhecesse a peculiar mente que somente Baron Brandon Blade poderia exprimir.
Baron entendeu a deixa, ela realmente achava que ele não seguiria suas regras? Talvez não as seguisse realmente, não por não concordar, mas por pura obsessão com o próprio sofrimento e autodestruição, mas isso só seria possível saber se ele aceitasse - momentaneamente - o acordo. Foda-se essa merda. Pegou a caixinha de veludo preta e retirou o círculo menor, puxando, não tão delicado, a mão da garota e deslizando perfeitamente o anel em seu dedo, faria uma anotação mental por ter acertado o tamanho."Considere a mim como Alcor... Não importa o que aconteça, sempre seremos atraídos gravitacionalmente." Se referindo as estrelas Mizar e Alcor, que antes acreditavam ser estrelas duplas, mas não múltiplas e hoje se sabe que elas são atraídas entre si. Pegou mais uma vez na caixinha das jóia e tirou o outro círculo, colocando em si e selando o contrato com sua aliança. "Você quer assinar algo também?" Perguntou com incredulidade, mas tentando disfarçar da maneira mais inocente possível, com um pequeno sorriso.