Tinha uma lista de coisas que seria mais adequado para Clive pensar enquanto estava ali na frente da garota. Mas a única coisa que ele conseguia pensar era o quão linda ela era. A curvinha de seus olhos e o desenho dos seus lábios — principalmente quando eles sorriam para si — tinham sido a primeira coisa que o Reynor observara ao olhá-la no show. Lembrava-se de ter reparado na forma como as luzes do palco, ainda que distantes, refletiam em sua íris como se pintados por um pintor renascentista. “Acho que codorna faz mais jus ao sentimento mesmo”, falou em concordância. Não deveria, mas notava que ostentava um pequeno sorriso. Tampouco conseguia precisar o que tal gesto significado. Não tratou de dar-lhe muita atenção, sabendo que poderia ser traído por desejos silenciados. E como dizia o ditado, foi salvo pelo gongo. O gongo, nesse caso, tinha sido a própria saída da garota para trocar-se no banheiro. Por um momento chegou a reprimir uma vontade de acompanhá-la. Aquilo estaria fora de qualquer cogitação. Então manteve-se na mesma posição, apenas adotando a intensa vontade de andar em círculos; sinal de sua própria ansiedade. Pegou uma moeda que tinha no bolso e passou a jogá-la para cima, desafiando-se a pegá-la novamente, ainda no ar, sem direcionar um olhar para ela. Enquanto isso, sua mente tratou de revisitar os pensamentos que lhe incomodavam em relação àquele encontro. Apesar de excitação de encontrá-la depois daquele dia, sabia todos os riscos que qualquer aproximação — apenas aproximação, não iria sequer considerar outras coisas — poderia acarretar. Ainda que ser professor nunca lhe emergira como uma vontade, sabia que era um cargo que poderia ajudá-lo por hora. E, para isso, existia um limite que não poderia — não deveria — ser cruzado. Além disso, existiam outros fatores. Nesses, ele sequer tentaria adentrar agora. Conhecia bem as faíscas de seu incêndio. “Ah” falou, sendo pego de surpresa ao vê-la sair do banheiro. Por um momento não disse nada, apenas olhou sua roupa. “You’re beautiful” falou, repreendendo-se. Mas eu tinha acabado… Ignorou, sabendo que não adiantaria nada agora. Assentiu uma vez, como se disse que estava pronto para ir. “Bem, sinto dizer que ainda não tenho carro. Não sei se virei a ter, mas por enquanto apenas bicicleta. Só assim arrumo uma maneira de me obrigar a me manter em forma.” falou, deixando um sorriso ser pintado em seus lábios do final da frase. “Mas vamos mesmo precisar de carro? Pensei que não iríamos muito longe”, admitiu, logo pensando que aquela poderia, na verdade, ser uma boa ideia. Ao menos estariam longes o suficiente do quadrante da Academia, diminuindo grandemente a possibilidade de serem flagrados juntos. “Seu carro tem lugar para eu guardar minha bicicleta?”
A inquietação, que a morena pensara ter extinguido após alguns instantes para pensar com clareza, retornou tão logo o elogio foi proferido por Clive. As palavras acompanhadas do tom aveludado trouxeram-lhe lembranças do show há algumas semanas — principalmente do arrepiar de sua pele ante os sussurros em seu ouvido e a risada sempre presente naquele diálogo tão agradável. “— Merci...” — Viu-se respondendo, no ápice de seu nervosismo. Caso visse a cena sob uma perspectiva de longe, Vênus já teria se estapeado, isso era certo. Jamais sentira-se assim tão ansiosa, hesitante até. O que acontecera com a mulher confiante que conhecera aquele homem encantador? Bem, ela acabara de descobrir que estava em sérios apuros, especialmente considerando como não conseguia deixar de pensar no quanto ele era atraente. Ela abriu um pequeno sorriso, não podendo evitar o deslizar de seu olhar pelo corpo masculino. Realmente, estava em ótima forma. “— Parece-me uma opção bastante sustentável e saudável. Só não muito viável para mim porque minha casa não é perto o suficiente.” — Tal qual a da maioria dos estudantes, considerando que cada uma das famílias dali parecia possuir extensos lotes de terra. Vee pressionou os lábios ante a indagação alheia. Sim, o mais prudente certamente seria ir para o mais longe possível de AIE, mas não seria ela a dizer isso em voz alta. “— Hum... Claro! Podemos ir a pé então ou... Certeza de que não é melhor irmos de carro? Eu receio não ter espaço para a sua bicicleta, mas posso te dar uma carona amanhã... Quer dizer, isso seria ruim, não é? Posso te trazer de volta para cá para buscar a bicicleta também.” — Para alguém brilhante na resolução de problemas, a Blanchard não poderia estar falhando de maneira mais vergonhosa. Só podia imaginar que o desconforto que sentia vinha do local em que estavam, por isso, desejava sair dali o mais rápido possível.