Baron se recorda exatamente do momento em que tivera a conversa mais estranha com seus pais, aquela que jamais esperaria que eles começassem e como um flashback, aconteceu enquanto ele encarava a mais nova tela em branco. O jantar naquela noite era Gaisburger Marsch, um ensopado de carne da Suábia, também o prato preferido de sua mãe, não estava ruim, mas também não estava tão apetitoso para o paladar do garoto Blade, talvez por ainda possuir o gosto de whisky - muito dele - em suas papilas gustativas ele não conseguisse diferenciar muito bem o sabor. E então vieram as perguntas: “Você é gay?” Não, mas não era um problema se fosse. “Você é assexuado?” Talvez fosse, mas ele continuou negando. “Você nunca nos apresentou nenhuma namorada, por quê?” Ele não poderia dizer que nunca tivera uma por não saber se conectar com ninguém, então o improvável aconteceu. “Eu tenho uma namorada e irei apresentá-la.” As palavras saíram de sua boca como um impulso, seu cérebro sequer tivera planejado algo assim e então todo o seu flashback foi deixado para trás ao ouvir a porta do estúdio em que trabalhava se abrindo. A tela já havia tomado forma, ou melhor, eram pinceladas grossas, com rostos e objetos apenas sugestivos, sem precisão de nenhum desenho, em contraste com um fundo enigmático e sombrio, com pinceladas verticais azuis e pretas, o suficiente para um bom entendedor do Expressionismo moderno saber de quem era sua autoria, “B”. "Mama, bist du angekommen?“ Perguntou se a mulher já havia chegado, sem levantar os olhos da tela de pintura, estava concentrado para tirar sua atenção sobre algo desnecessário, sabia que sua mãe tivera saído para visitar um novo espaço para uma galeria futura e que quando terminasse viria lhe fazer uma visita, no entanto, pela falta de resposta, Baron se obrigou a levantar os olhos e se virar para a porta e como uma surpresa, não era sua mãe e sim Mizar Eakins. Merda. Sua teia de segredos pareceu esvaída, obviamente não todos eles estavam expostos, mas um o suficiente preocupante estava nas mãos de quem não devia.
E então, como um recorte no tempo, ele esperava por Mizar, no restaurante glamouroso sugerido, obviamente, para manter seu papel, Baron piscou para duas moças solteiras, um pouco mais velhas que ele em uma mesa próxima a sua, ambas coraram por sua tamanha indiscrição. Típico. Era bom ver, que ele ainda possuía algum controle sobre seu corpo e como ele fazia as pessoas reagir diante de suas falsas propostas afetuosas, uma imagem bonita, atrai resultados bonitos, não é? O epigrama concebido como estilo fala de maneira rápida o que deve ser compreendido brevemente. E então, logo a garota surgira em seu campo de visão, em seguida depositando um beijo em seu rosto e sorrindo como uma doce criatura. E ela não era doce, todos sabiam disso… Assim como ela sabia que Baron também não era o estúpido que aparentava ser, para cair em seu jogo de sorrisos. ”Não é um dia ruim.“ É uma vida ruim. Completou mentalmente com um perfeito sorriso, expondo dentes extremamente brancos e que jamais refletiriam seus pensamentos. ”E você, princess?“ Perguntou por conveniência, não estava verdadeiramente interessado em saber sobre como ela havia passado o dia em toda a sua trivialidade usual, pedindo em seguida o cardápio de comidas para o garçom, não beberia hoje, pelo menos não na frente dela, afinal, Mizar já tinha um de seus segredos, não precisava de outro. Baron poderia ganhar um prêmio como melhor ator, se um dia descobrissem como ele fingia ser, ou melhor, imitava um adolescente de dezessete anos com seus pensamentos limitados, tudo isso diretamente vinculado ao perspectivismo como fundamento interpretativo do mundo. Pontos para Nietzsche! Certamente, ter formulado tal doutrina lhe renderia diversos admiradores, Baron B. Blade sendo um deles. Ele ouviu atentamente e para cada sílaba pronunciada era como lava borbulhando ruidosamente dentre de um vulcão prestes a entrar em erupção.”Nenhuma opinião.“ Falou com o tom mais despretensioso formulado por suas cordas vocais, seus lábios estavam ligeiramente em linha reta, formando quase um pequeno sorriso e seu olhar estava focado no cardápio de comidas, como se sua resposta fosse sobre um assunto trivial e sem importância, o que interiormente não era, mas ele ainda precisaria fazer o seu papel de melhor ator para ganhar o melhor prêmio. E como tal característica de um coringa, ele sempre tivera, tanto a personalidade como a perspicácia e, obviamente, uma nova carta, que combinada a sua trazia a vitória certa. ”Sabe que hoje eu também estava me questionando sobre algo…“ Ele falou baixando o cardápio e inclinando-se sobre a mesa, mostrando total interesse no que viria a falar, um sorriso malicioso surgindo no canto de seus lábios. ”Consulta com terapeutas, um relacionamento homoafetivo com uma bolsista, seguido de um término e então pais conservadores e com vários cifrões no lugar de pupilas, inclusive, você ainda tem ido à missa aos domingos?“ Ele deixou que seu sorriso se estendesse mais, fingindo completa inocência na última pergunta. ”Então é isso que o amor é? Um término porque seus pais não estavam felizes?“ Perguntou com o cenho franzido, Baron nunca tivera amado alguém além de si mesmo, o que nem ele sabia se fazia. O amor era talvez o sentimento mais patético, mas também o mais bonito e delirante e ele não sentia que era capaz de compreender além das pinturas obcecadas com o seu próprio mundo atormentado. ”Não importa, não acho que você seja a pessoa certa a me explicar sobre isso.“ Ele acenou com a mão como se fosse algo insignificante, voltando a recostar na cadeira e relaxar contra ela. ”Mas eu tenho uma proposta irrecusável para você.“ Com isso, tirou de dentro do bolso de seu blazer preto uma caixinha de veludo da mesma cor e a empurrou levemente para a garota. ”Eu preciso de uma namorada e creio que sou a melhor opção para os seus pais, o que te faz também precisar de um namorado.“ Lembrou-se de pegar na joalheria o par de alianças de compromisso, sofisticadas e escuras, como o próprio rapaz. ”Não se preocupe, eu não vou me apaixonar por você.“ Falou convicto, Baron nem mesmo sabia se esse sentimento verdadeiramente existia.
como uma artista de retratos, mizar tinha contato com diversos sorrisos em suas diversas formas. admiradora da genuinidade em tais, conseguia perceber que nenhum dos dois estavam sendo sinceros com a feição posta nos rostos durante aquela mesa reservada para dois, mas assim como ela, baron também era um artista: observador de forma teatral, estudado nos mínimos detalhes. finalmente alguma vírgula do rapaz a interessava, de um modo quase masoquista envolto de uma curiosidade inconsequente. a ideia de descobrir o que havia dentro do recipiente fútil e resistente que ligavam o nome do rapaz a um atleta estúpido que saia dos piores filmes de comédia romântica para no final acabar namorando a protagonista sem nenhum ponto da personalidade sem sal. a verdade era que, durante aquele jantar, o garoto automaticamente se tornou um coadjuvante como ela, de uma alma admiravelmente obscura igual era possível observar nos quadros, obrigados a permanecer em um mundo de feições forçadas e frases previamente calculadas para que pudessem sentir os holofotes sociais que eram de tamanha importância nos sobrenomes que carregavam. por incrível que pareça, enquanto baron era amado por seus sorrisos, mizar cresceu rodeada de palavras de ódio e aprendeu a agir em meio a estas. era a vilã e sua mãe havia ensinado a viver com isso desde criança, como se fosse um rótulo a levar com orgulho durante uma passeata de conquistas fundamentais do ensino médio. as palavras maldosas que saiam de seus lábios chamavam atenção e ganhavam admiração daqueles que não tinham coragem de fazer o mesmo, enquanto os sentimentos e medos eram escondidos dando passagem para um personagem sem história que está em um grupo social apenas para direcionarem o ódio do público. a vida era uma peça de teatro e todo mundo fazia parte da platéia sem noção nenhuma de transformar a história por viverem confortáveis nos seus papeis, mesmo que obrigados.
only good things to say, prince. ― o sorriso mudou a tradução em poucos segundos, mostrando agora uma provocação clara como se tivesse pronta para sair gritando para todos o que havia aprendido naquele dia e, infelizmente para o blade, não se referia a aula de história que a jovem havia permanecido acordada pela primeira vez durante o inicio daquele semestre. mizar cheirava a hipocrisia, a vontade de todos verem quem os outros realmente são para que distanciasse a atenção dos seus problemas ao ter reações diferentes para observar. eram os únicos momentos que se sentia em controle de algo, como uma roteirista dos acontecimentos ao seu redor. era fácil ver a jovem comparando sua vida com algo possível de ser ver pela televisão, principalmente depois de ter entrado em depressão. se sentia intrusa no meio das pessoas, como se vivesse na pela de outro humano: a verdadeira filha dos eakins. pensamentos melancólicos costumavam cercar seu dia e sua cabeça em diversos momentos, enquanto em outros permaneciam em brancos, igual um arquivo novo do photoshop pronto para ser pintado da forma que quisesse no momento que desejasse. o sorriso de mizar desapareceu por um instante quando escutava as palavras saírem da boca do rapaz. naquele momento a única cena que se formava era a sua imagem desferindo diversos golpes no rosto presunçoso que via em sua frente até que não sobrasse nada além daquele sorriso estupidamente irritante. não demonstrava exteriormente a raiva, forçando seu rosto a permanecer neutro enquanto fechava o menu e deixava disposto na mesa para que o garçom retirasse. a pergunta final feita por baron não havia passado em sua cabeça pela primeira vez naquele momento: era realmente coerente a ideia de amor? ela não chegava nem ao menos amar os seus pais, aqueles que haviam lhe criado. não amava a si mesma. seria assim capaz de amar outro ser humano, ainda mais quando esse era aquele que havia sido criada para desprezar? e mesmo assim, depois de meses de término ainda pensava em riley como a única coisa verdadeira que sentiu durante sua vida. ― admito desvantagem... three for one? geez, eu queria me divertir hoje. ― deu uma risada sem humor algum, levantando as mãos em uma falsa rendição. seu relacionamento homoafetivo era de conhecimento dos seus pais, assim como o tratamento psicológico que os mesmos pagavam, mas a ideia de sua ex-namorada ser uma atual bolsista não poderia nem ao menos passar na cabeça da grande modelo eakins.
permitiu que baron continuasse falando, arqueando a sobrancelha quando o mesmo falou sobre proposta. era como se soubesse o que iria acontecer em seguida de uma forma que não hesitou em revirar seus olhos a ver a caixa preta se aproximando de si. pegou a caixa com uma delicadeza forçada para não fazer uma cena no restaurante, fazendo questão de passar suas longas unhas na pele do rapaz antes de separar o objeto das mãos masculinas que segurava. abriu a caixa sem fazer nenhum espetáculo, com um olhar mórbido desejando que tivesse uma faca no lugar do palhaço de mola e fosse diretamente para o rosto da jovem. infelizmente aquilo acabaria o sofrimento dela, encontrou apenas um entorpecente realista: duas alianças. levantou o olhar para o jovem do outro lado da mesa, com um sorriso enorme nos lábios completamente teatral. em contrapartida, sua voz saiu em uma tonalidade baixa, feita exatamente para que ninguém mais os ouvissem: ― eu irei escolher o que você vai me comprar daqui para frente. sem discussão. ― o fato era que, baron brandon blade não poderia estar mais certo. sua mãe diariamente aparecia com suas frases passivo-agressivas pedindo para que a jovem entrasse em um relacionamento heteronormativo para apagar qualquer rastros da ❝ fase ❞ que havia vivido em seu penúltimo ano escolar. aquilo finalmente iria calar a boca da vadia em salto alto. ela iria vencer, mas mizar sentia como se devesse aquela vitória pelo resto de sua vida. devolveu a caixa para o lado do rapaz, estendendo sua mão direita em cima da mesma intencionalmente sendo a mão coerente para a adição de uma aliança de compromisso no dedo anelar. ― paixão serve apenas para pessoas com alma, prince. negócios são mais coerentes para nós. ― deu de ombros, sorrindo para o rapaz sem tirar os olhos do dele. um curativo no meio da ferida enorme que havia causado na sua família, um silêncio para o outro. poderiam estar caminhando para uma vida infernal e, se fosse o caso, a mizar faria questão de sentar no trono piorando cada escolha. ― contratos precisam de cláusulas. ― batia suas unhas na mesa em volta da caixa, quase como se trancasse o objeto em suas mãos até terminar de falar. ― você não irá tocar em mim quando estivermos sozinhos... e não ira tocar em outra pessoa. ― sua mão livre agora segurava a taça do pedido que havia feito anteriormente, bebendo goles lentos fazendo questão de fazer o garoto esperar, mas manteve o dedo indicador da mão direita levantado para que ele não falasse. tirou a taça de seus lábios, relaxando o dedo que indicador e voltando a bater inquietamente na mesa (como uma maneira clara de provocá-lo). ― não tenho roupas que combinam com chifres de touro! mas se quiser manter sua libido ativa, podemos contratar alguém para isso... ― seu sorriso era quase provocador. apesar de querer aquele acordo, ela não iria deixar passar sem dizer algo. não era uma submissa completa e baron deveria esperar tal comportamento. ― você não vai mandar em mim, me contrariar em público e muito menos falar sobre a navarro para os meus pais: essa não tem discussão. sem elogios, sem indiretas em mesa de jantar ou qualquer chance de pensar nela. eu posso acabar com a sua vida sem precisar de segredinho e a culpa nunca irá cair em mim, você sabe disso. ― relaxou sua mão direita, voltando a beber alguns goles de sua bebida antes de deixar a taça na mesa. ― por agora, é tudo. feeling lucky today? ― deu um sorriso simpático, liberando a caixa de veludo da sua mão, mas ainda deixando seu membro disponível para ele assinar o contrato com a aliança.