Dio sabia que Verena era uma das mais assíduas frequentadoras das missas de domingo. Ela recebia a hóstia e, todas as semanas, renovava seu contato com o Senhor. Feriados como aquele eram levados muito a sério, em especial porque ela podia conjugar seus deveres cristãos com sua vocação pessoal. Daario nunca teve chance alguma de escapar da brincadeira. “Dio há de me perdoar. Ele sabe que vou rezar 20 Pais Nossos e 10 Ave Marias quando estiver no meu quarto… E Ele também sabe que eu faço tudo o que faço por amor a todas as criações dEle. Que melhor forma de se aproximar do paraíso, do que através de uma conexão sobrenatural com outra pessoa?” Pendeu a cabeça para o lado. Já tinha pensado muito sobre o assunto, e havia convencido até mesmo a pappa de que seu passatempo era louvável. Claro, Verena sabia como persuadi-lo… “Ah, Daario, você já devia saber que eu só paro quando quero. E que você fica uma graça de bochechas roxas.” Sorriu, jogando o cabelo para trás dos ombros ao se ajeitar no tampo da barraca para encará-lo melhor. Ainda não haviam aberto a barraca, mas ele, como bom soldado, estava ali para ajudá-la, e Nena se viu aumentando o sorriso ante a constatação. Sempre confiável, ainda que não quisesse, exatamente, seguir seus conselhos — ordens. “E me ver triste? Você nunca conseguiria.” Provocou, mordiscando o lábio inferior. “Além do mais, não é como se estivesse ferindo a sua dignitude¹. É só um beijinho inocente, e dessa vez você vai ficar bem longe do Lorcan. Prometo que vou proteger o seu BV, soldato!” Piscou, assentindo levemente ao se recordar do episódio anterior. “Smettila di piagnucolare! Sembri un bambino piangente!² Quantas vezes eu preciso dizer que sim? O seu maior problema não é a aparência, ciccio, mas o que está aí dentro.” Fez uma careta, pulando do tampo para puxar Lorsan consigo, dessa vez tocando no peito do príncipe. Não era como se estivesse cansada de inflar o ego do ranudense, mas algo parecia furado no balãozinho do moreno, e Nena precisava cuidar daquilo, se quisesse que seu plano ele fosse um sucesso. “Porque eu sou a escolha óbvia, é claro! Ninguém resiste a mim. Estão esperando que eu faça isso, mas você é a novidade. E elas vão te amar.” Revirou os olhos com graça, erguendo-se na ponta dos pés para ajeitar o cabelo do moreno depois de mexer na gola do — ugh — jeans (babysteps, Nena!). “Bene, talvez você precise de alguma prática antes de qualquer coisa…” Pendeu a cabeça para o lado, analisando o conjunto da obra. “Comece comigo, se estiver com medo delas. Eu prometo não morder.”
Se não estivesse um tanto apreensivo, ele teria rido da justificativa encontrada pela italiana para tornar aquilo mais cristão. Verena podia ser bastante criativa quando queria, sendo que Lorsan sabia que conseguiria o que quer que fosse naquele ritmo. “ Espero mesmo que ele perdoe ”, respondeu, sem convicção, o tom entediado em razão da atividade. Não se dedicava a pensar acerca da questões sobrenaturais, mas tinha certeza que a Brunneleschi estava mentindo. Se acreditava nela, era porque queria. Algo semelhante a uma exclamação de desgosto escapou de seus lábios quando ouviu sobre as bochechas roxas, sentindo a pele esquentar novamente. “ Não estou com vergonha, Verena. Pare com isso ”. Virar o rosto para o outro lado não adiantaria de nada, mas mesmo assim ele o fez, esperando que a vergonha passasse, ou que o sangue azul circulasse. Não que pudesse afastar seu rosto da vista da mais nova quando ela se punha a sua frente, impedindo que escapasse. Nessas horas, só lhe restava suspirar, esperando o próximo vexame. Era verdade que temia as oscilações de humor da filha de Lorenzo, imaginando que algo bobo como negar um pedido para ficar na barraca do beijo faria com que começasse a chorar. Azar o dele que tivesse passado perto do lugar errado e na hora errada. “ Certo. Vou acreditar em você se parar de mencionar Lorcan. Essa piada já perdeu a graça ” — era essa a forma mais fácil de fazer com que perdesse a paciência, e esperou que o olhar de aviso bastasse para calar as provocações. Pouco entedia de italiano para que pudesse acompanhar as exclamações da garota, embora tivesse certeza de que estava sendo xingado. “ Escolhas óbvias podem ser boas escolhas também ”, argumentou; qualquer coisa para se livrar daquilo. Não existia a mínima possibilidade de amarem-no, mas ele não frustraria as expectativas de Verena. “ Ei, pode parecer surpreendente, mas eu já fiz isso antes. Algumas vezes... ”, esclareceu, deixando que mexesse em seu cabelo e na gola da camisa. Quando a outra disse para que começasse com ela, contudo, Lorsan elevou as sobrancelhas, pego de surpresa. “ Não estou com medo de um bando de garotas ”, emendou, com um riso nervoso, levando uma mão até a cintura alheia com cuidado, sem saber se a oferta se tratava de uma brincadeira. “ Mas não vou dispensar o treino ”, concluiu, para então se aproximar devagar.