Os olhos azuis da mais velha rolaram quase cento e vinte graus. Ela estava vomitando, não queria dizer que estava doente ou precisasse ir a enfermaria. Muito antes de se casar, Johanna nunca frequentava hospitais a não ser em um estado precário, ou uma experiência de quase morte. Se tivesse febre, dores de cabeça, gripe ou qualquer outra queixa, a ex-assistente tomava algumas pílulas e xaropes e continuava a trabalhar, frequentar as aulas e comparecer a compromissos — — Me pegou. — — Concedeu a mais velha, apenas porque não se sentia enérgica o suficiente para explicar a diferença entre um mal estar e precisar de ir a enfermaria a loira. Não o bastante, Verena decidiu escolher aquela hora, dentre todas as outras, para fazer perguntas sobre Lorcan. Joan apenas se sentou em sua cama, descansando e tentando fazer com que a voz, tomada pelo sotaque italiano, assumisse o teor de um zumbido atrás de si, no entanto, a finlandesa não gostou do tom que a amiga usou para defender o marido. Sim, Lorcan era educado, inteligente, polido e gentil… Ela sabia de todas as qualidades do irlandês e era por isso que havia um anel no seu anelar esquerdo, mas isso não quer dizer que eles não tinham problemas. — — Nem tudo é um conto de fadas, Verena. Um dia, quem sabe, você vai perceber isso. — — Ela não queria soar grosseira, mas não é porque Lorcan tinha assumido o papel de príncipe no cavalo branco no conto de fadas de Verena que as coisas em um casamento de verdade eram fáceis. De fato, era injusto, já que Johanna não havia aberto seus problemas com a amiga e a sua irritabilidade podia ter a ver com o fato de que ela não estava em seu melhor momento para ter aquela conversa e ela quase apelou para uma de suas desculpas padrões quando a italiana as jogou em sua cara, fazendo a mais velha suspirar. Verena estava agindo de maneira mimada, querendo tirar as informações da Joan com birra e pirraça e sinceramente a vermelha não estava com a menor disposição para lidar com aquilo. — — Casamento não é como uma crise no seu Dior favorito! É algo complicado, que envolve sentimento de duas pessoas que estão sofrendo. Você entende isso? Que eu e Lorcan estamos sofrendo? Porque parece que você está tentando saber o que aconteceu como quem quer saber de uma de suas fofocas, como um capricho! Além disso, você tem o Lorcan em um pedestal e depois de tudo o que aconteceu eu não quero que você me julgue por ter tirado ele de você apenas para fazê-lo sofrer em um casamento disfuncional. — — Não queria magoá-la, mas não havia só qualidades da duquesa, e para ser sincera, ela se sentia como um lixo e agora ela estava agindo como um. Verena era doce, meio infantil e imatura as vezes, mas não fazia por mal… Joan sabia disso e se arrependeria assim que sua irritabilidade diminuí-se. — — Se importa de sair agora? Eu realmente preciso descansar.
Bene, Verena pedira por aquilo, non? Era melhor do que o que vinha experimentando com a amiga, nas últimas semanas. Deveria estar satisfeita ao escutar as palavras de Johanna, mas o tom que ela usava trouxe tão somente uma careta surpresa à face da Brunelleschi mais nova. Ela soava igualzinha a Frederica quando Verena chorava por um casamento desfeito. Nem tudo é um conto de fadas. Sure. Umedeceu os lábios, repuxando-as esquinas para baixo ao arquear as sobrancelhas. “You know what, Johanna? You’re right. ¹” Viu-se respondendo após alguns segundos de contemplação silenciosa ante todas as palavras da Turlach. “You’re always right, actually. ² Um dia, quem sabe, eu me torne alguém igualzinha a você, a mamãe, e a todas as pessoas infelizes desse mundo. Quer dizer...” Piscou algumas vezes, entreabrindo os lábios ao passar os dígitos pelo queixo, como se estivesse pensando. “Because you are, right? Unhappy. At the present moment. ³” As palavras saíam rápidas e Verena tinha certeza de que não estava falando metade delas da forma certa --- quando nervosa, o inglês se embolava em sua língua. Em sua defesa, não haviam lágrimas nos olhos da Brunelleschi ao soltar a risada ferida, retirando a chave do bolso do vestido para destrancar a porta do quarto, ainda que estivesse bloqueando a passagem. Foram as palavras seguintes, entretanto, que obrigaram a Medici a franzir as sobrancelhas. “Na verdade, eu não entendo pelo que vocês estão passando.” Admitiu, por fim, alisando a saia do vestido com alguma perícia --- Nena não queria olhar nos olhos de Johanna --- antes de dar de ombros, tentando denotar uma indiferença que não existia. “Aparentemente, eu sou imatura demais pra entender que todo casamento tem problemas, e só uso eles pra fofocas. Yeah, I’m that stupid 4.” Distorceu as palavras da Turlach, sabia, mas não era como se não estivesse ferida, também. Então era aquilo que Johanna verdadeiramente pensava dela? Nena sabia que era assim que Frederica a via; Briana, também, mas nunca imaginara que a Ros---Turlach estivesse no grupo. Depois de tudo que Verena fizera por ela. Great. Entrelaçou as mãos atrás do corpo, recostando-se na porta para que a finlandesa não visse que estavam cerradas. E então, ela usou a cartada de Lorcan. Chiaro. “Vaffanculo, Johanna! E Scopare Lorcan troppo! 5” Arregalou os olhos ao explodir, ciente de que estava gesticulando como o clichê italiano. Detestava xingar, mas... Oh, Nena não aguentava mais aquilo. “Eu pus a nossa amizade acima de qualquer coisa que eu senti por ele há séculos.” Despejou, sentindo o sangue acumular nas bochechas ao tentar segurar o choro. Vero, ela tinha chorado diversas vezes ao descobrir que o seu crush de infância e primeiro amor se casaria com Johanna, mas Verena decidira que aquilo não podia acabar com a amizade das duas. Isto é, até a Turlach reviver aquela ferida antiga. “E nós duas sabemos que ele nunca foi meu.” Abaixou o tom de voz, revirando os olhos de maneira cínica. Ora, se ele fosse seu para ser tirado, como Johanna sugerira, não estaria noiva de Gustav, mas dele, vero? Assim que escutou o pedido, Verena assentiu, rodando a maçaneta sem que Johanna precisasse pedir de novo.. “Chiaro, Duchessa. Mi vedrò fuori. 6″ Mas, como Verena era Verena, antes que saísse, encostou a lateral do rosto contra a porta, semicerrando os olhos ao aconselhar com a voz embargada. “Quando estiver pronta, fale com alguém.”