ββ πππ£πππ ππ.
flashback, inΓcio do semestre.
Era estranha, a sensaΓ§Γ£o de um lar que nΓ£o era mais lar. Taemi vivera sob o teto dos pais sem qualquer dΓΊvida de seu amor por eles ou por aquele lugar, mas, ainda assim, tudo parecera desmoronar de frente aos seus olhos em apenas alguns dias, como se nunca houvesse existido. Ela jamais achou que veria a famΓlia como estranhos depois dos vinte e um anos de sua vida fazendo nada alΓ©m de adorΓ‘-la, porΓ©m, sua inocΓͺncia de antes nΓ£o era mais a mesma. NΓ£o havia nada de inocente nas palavras de Γ³dio que ouvira seu pai cuspir no rosto do irmΓ£o, na complacΓͺncia de sua mΓ£e ao manter-se calada enquanto as ouvia, no pedido -- nΓ£o, nΓ£o um pedido, ordem -- do pai para que o filho mais velho, ao qual dedicara tanta atenΓ§Γ£o por vinte e quatro anos, saΓsse e nunca mais voltasse.
Aquela podia ser uma casa, sim, mas certamente nΓ£o era um lar; porque, para Choi Taemi, lugar algum era um lar sem Choi Taeoh.
Ela tentou conviver com aquilo. Por dias, semanas, meses tentara engolir que o prΓ³prio pai havia expulsado seu irmΓ£o de casa para nunca mais voltar. Taeoh, que chegara a sacrificar os prΓ³prios sonhos para realizar os dos pais; Taeoh, que escondera e mentira sobre quem era pelo medo da rejeiΓ§Γ£o -- nΓ£o sΓ³ da famΓlia, mas de si mesmo; Taeoh, que amava tanto a irmΓ£zinha ao ponto de guardar o segredo dela por anos, mesmo em uma Γ©poca que nΓ£o o entendia. Ela tentou, porΓ©m, o estrago em seu Γ’mago havia sido feito. Como podia confiar em pais que mandavam a prΓ³pria prole embora por conta de quem elas amavam? Como podia confiar neles quando agora sabia que, se alguma vez descobrissem sobre a sexualidade da Γ³-tΓ£o-querida filha caΓ§ula, acabaria da mesma forma que o irmΓ£o?
Porque, por mais que Taemi fosse cheia de amor, nΓ£o era justo ter que sacrificar uma parte dele para que a outra vivesse.
A conversa sobre a mudanΓ§a veio pouco tempo depois. Embora houvesse dado as melhores desculpas que conseguira elaborar -- βeu sinto que nΓ£o estou aproveitando a universidade o suficiente, sabe? Talvez se convivesse com pessoas diferentes, fizesse mais amigos...β, βserΓ‘ bom para mim, prometo! Aprenderei a ajudar na casa e experimentarei coisas novas, coisas que me prepararΓ£o para o futuro!β --, os trΓͺs entendiam muito bem que a razΓ£o era o quarto vazio de Taeoh, pois a residΓͺncia dos Choi nunca esteve tΓ£o silenciosa como naqueles meses. Taemi ia cedo para a universidade e voltava tarde, comia rΓ‘pido e trancava-se no quarto no mesmo segundo em que dizia βboa noiteβ. Contudo, os pais decidiram comprar as mentiras e aceitar os desejos da filha. NΓ£o por sentirem-se culpados ou acharem que de fato seria bom para ela, e sim pelo medo de que, se continuassem a prendΓͺ-la ali, afastariam-na de vez. EntΓ£o, pelos dias seguintes, Taemi vasculhou a internet em busca de uma nova moradia.
A procura encerrou-se na carismΓ‘tica e adorΓ‘vel Rose Garden Pillar. NΓ£o era tΓ£o sofisticada quanto os pais esperavam, e isso era o que a fazia melhor ainda. Um ambiente em que podia se sentir confortΓ‘vel, na seguranΓ§a de uma casa somente de mulheres, prΓ³ximo o bastante da universidade para que a comodidade do apartamento dos Choi nΓ£o fizesse falta, e ocupado por algumas garotas que jΓ‘ conhecia da prΓ³pria BCU -- assim, nΓ£o estaria morando com completas desconhecidas. βPerfeito.β
Quando o dia finalmente chegou, sua despedida nΓ£o foi nem um pouco como a imaginara anos atrΓ‘s, ao fantasiar sobre o dia em que diria adeus ao ninho para voar por conta prΓ³pria. As lΓ‘grimas nostΓ‘lgicas nΓ£o estavam lΓ‘, e os abraΓ§os demorados e apertados viraram curtos e indiferentes, com uma certa pressa por parte da garota. βNΓ£o precisam entrar, eu dou meu jeito.β Disse, parada em frente ao batente da porta, ao virar-se para encarar os pais uma ΓΊltima vez antes de irem embora. Seus rostos murcharam no mesmo instante, no entanto, concordaram com o pedido. Com uma reverΓͺncia e um aceno de mΓ£o, Taemi os assistiu saΓrem no carro luxuoso, sem saber se o que sentia era pesar, alΓvio ou uma mistura terrΓvel dos dois.
Girando o corpo novamente para encontrar-se de cara com a porta, ela respirou fundo. Sentia os dedos que apertavam a mala suarem e, de repente, a percepΓ§Γ£o de que estava verdadeiramente sozinha atingiu-a como uma parede de tijolos. Sozinha, sem ainda descobrir se aquilo era algo bom ou ruim. Sozinha, pela primeira vez.
Bem, aquela casa podia nΓ£o ter Choi Taeoh, mas isso nΓ£o precisava significar que nΓ£o seria um lar. Talvez -- e apenas talvez -- pudesse ser um tipo de lar diferente.