Era e sempre fora uma mulher de negócios, e assim se portava em toda sala de reuniões que adentrava para tratar de assuntos importantes como o rumo do que chamara de segunda casa por uma vida inteira. Helena respirara aquela empresa por intensos dez anos, subindo de cargo por mérito próprio, aos poucos, até chegar onde estava, justamente num ponto crítico do qual tinha receio da baixa chance de recuperação total. Ninguém daquela sala, como nova acionista, a enxergava como tal. Claramente era uma intrusa, alguém que estava lá por qualquer motivo que não o por merecer, e ela tinha total conhecimento desse fato. Embora suas boas intenções e o alto potencial para ajudar na tomada de decisão, também sabia que estava lá porque havia feito algo errado. E a presença de Benjamin não ajudava a fazer com que pensasse o contrário.
Ainda sentia-se culpada, e boa parte dessa culpa vinha da lembrança daqueles olhos castanhos esverdeados tão limpos quando caía a noite. Senti-los em cima de si o tempo todo durante as falas de seus novos colegas de trabalham fizeram com que a morena perdesse o foco algumas vezes, coisa com a qual não estava acostumada em seu dia a dia. Ela fora a última a apresentar algumas ideias de melhoria baseadas nas pesquisas das últimas colheitas e contratos feitos com investidores estrangeiros, mostrando dados importantes da lucratividade do outro lado como modelo principal para que seguissem com a variação de mercado do ano seguinte, mesmo não sentindo-se confortável em fazê-lo com Edward e Benjamin na sala. Quando a reunião acabou, tudo o que fez foi sair silenciosamente, rumando para a própria sala de cabeça erguida.
Era dentro do escritório onde sentia-se mais protegida. Fechar a porta e não precisar ter que encarar nenhum outro homem daquela maldita sala lhe trazia paz, afastando toda a sensação ruim que pensava nas costas. A irritavam. Mas teriam que engoli-la, de qualquer forma. Tinha certeza de seu potencial e de que, melhor do que qualquer um, havia apresentado soluções, e não mais problemas, como qualquer outro. A morena caminhou para perto das enormes janelas com persianas, abrindo-as, para que alguma claridade entrasse por completo. O dia estava nublado, e os pássaros voavam baixo, então ria chover. Abraçou os próprios braços, tocando o tecido preto e transparente da blusa social que usava por cima da outra de alças, muito fina, e igualmente preta. Virou-se apenas ao tocar do telefone e o bater da porta, ao mesmo tempo. Tudo aconteceu rápido demais, até o momento em que viu Benjamin adentrar a sala ampla, virando-se aos poucos à medida em que ele se aproximava. “Ben…?” Os olhos negros arregalaram-se de leve com o corpo dele tão perto, naquele meio abraço que a pegou com tudo o que tinha. O dela, tão menor, quase desequilibrou-se, fazendo-a segurar-se nos braços do moreno instantaneamente, não apenas pela surpresa, mas também pela falta de jeito. Estava perdida, embora eufórica por dentro e com o peito inflado de saudade. A mão gelada dele contrastou com o rosto quente da Garcia, que agora o encarava para escutar com atenção cada palavra proferida. Helena não precisava que Benjamin concordasse com ela em tudo, mas sim que entendesse. E, se ele estava ali e agora, abrindo o coração com sinceridade, entenderia como se sim, sua mente e coração estavam livres e abertos para no mínimo resolverem as coisas de uma vez por todas. “Eu não sei onde vamos chegar depois dessa bagunça toda. E eu também não sei se um dia você vai me perdoar, ou se vamos voltar ao que éramos antes, mas eu estou feliz só de você ter decidido que sou alguém por quem vale a pena tentar insistir. Obrigada por voltar.”
A Garcia subiu as mãos pelos braços do mais novo até o rosto bonito em carícias, fazendo o mesmo com a face ao usar ambos os polegares, delicadamente, alcançando as maçãs do rosto. O olhava, como se não houvesse o visto por quinze anos. “Me desculpe, Ben. Por tudo.” Murmurou, abraçando-o finalmente e beijando sua bochecha demoradamente, para encará-lo novamente logo após. “Eu também senti a sua falta.”
Uma corrente de alivio misturada com algo que ele não interpretou a principio percorreu todo o comprimento da alongada silhueta de Benjamin Campbell quando a carícia e a resposta positiva se transformaram em algo só. Seu coração novamente acelerou. Todavia, dessa vez não de um jeito que o fez pensar em sair correndo. Na realidade, as palavras e o toque o deixaram paralisado, estatelado, por alguns segundos se perguntando mentalmente o que responder, o que dizer, ou como agir. Benjamin, que era geralmente decidido em sua indecisão se afundara nela ainda mais no meio daquela situação, já que em parte o que ele queria de fato fazer, perpassava por tantos limites. Limites criados indiretamente por ele e por Helena, embora nunca proferidos em voz alta mas, que ambos sabiam que existiam.
Os lábios prensaram. Uma. Duas. Três vezes. Até ele conseguir soltar um suspiro longo e acariciar a bochecha da mais baixa com o polegar, ainda encarando os imensos olhos castanhos que frequentemente o deixavam nervoso.
É possível, e vocês ão de concordar comigo, que há momentos em que não há nada a dizer, tudo o que poderia já foi dito e tudo o que está prestes é implícito. É possível, que aquele fosse um daqueles momentos. Porque Benjamin queria, definitivamente dizer que havia morrido de saudades, mas, já que havia feito. Mas, Benjamin queria também dizer que havia morrido de saudades do toque de lábios que, por tantos motivos eles nunca haviam dado e que talvez tivesse chegado ou até passado da hora. Mas, aquilo era implícito. Talvez explícito para qualquer um que olhasse os pequenos e furtivos encontros incalculados ou até calculados dos dois.
Aquele era um daqueles momentos. Em que as palavras, ao menos ao Campbell, fugiam porque havia tanto a dizer e ao mesmo tempo nada. Fazendo com que, sua ação unica fosse o pequeno múrmurio, talvez até abaixo dos quase frequentes 15 decibeis que usava, gerando o “Eu senti muito a sua falta e eu sinto muito.” antes de finalmente ter a coragem de escorregar a mão direita que segurava o rosto da Garcia até sua nuca, levando consequentemente o polegar da bochecha ao contorno de seu rosto e selar, sem qualquer pressa os lábios. Parando ali, estancado entre-lábios pelos milissegundos de quem espera uma resposta a ação.