catalina
A explicação dos motivos que levavam Finnick a optar pelo ramo questionável foram facilmente compreendidos por uma Catalina já bem acostumada a toda uma situação familiar desequilibrada. Não que ela mesma se lembrasse uma ocasião específica em que fizera um ato de rebeldia como aquele, isso porque não exatamente importava para Olivia o que a filha fizesse, contanto que não atrapalhasse a fonte de renda da família. — Finn, se é algo que você quer continuar, acredite, eu não vou te julgar. Nem é meu lugar fazer isso. — Deu de ombros, e mal o Campbell sabia o quanto aquela frase era verdadeira. Poderia a integrante de uma família de traficantes, diariamente vivendo naquele meio criminoso e fazendo parte de uma enorme quantidade de atrocidades julgar alguém? Sabia que não. — Mas se você continuar com isso só pra contrariá-los, então de certa forma, eles continuam te controlando. Você tem que fazer o que quiser, sem se importar se eles estão notando ou não. E se eles não te dão o valor que você merece, eu aposto que vai encontrar quem dê. — Catalina não era do tipo que dizia palavras vazias apenas em busca de reconfortar alguém, muito pelo contrário. Sua honestidade costumava até mesmo chatear muitas pessoas. Tudo o que dizia ali era sua opinião verdadeira, especialmente porque ela mesma era um exemplo do que havia acabado de constatar.
A explicação de seu TOC foi escutada com toda a atenção pela jovem, ainda apoiada no carro e encarando o amigo. Lembrou-se de um dos traficantes com quem precisara lidar, anos antes, e da maneira como ele sempre precisava cumprimentá-la três vezes, e se despedir também. Não havia se importado com aquele detalhe na época, especialmente porque de nada alterava a relação profissional deles, mas com as palavras de Finnick a lembrança a atingiu momentaneamente. Lina então assentiu, algumas perguntas sobre aquilo se juntando com as relativas ao emprego inesperado. — E isso te atrapalha? Quer dizer, eu imagino que um pouco, mas quero dizer…você já não conseguiu fazer algo por conta disso? — A pergunta seguinte dele a fez dar risada, e então maneou a cabeça na direção do elevador que ficava no estacionamento. — Eu, e todas que você tiver. — Respondeu enquanto caminhava, apertando então o botão e logo adentrando o recinto espelhado. — Mas antes de qualquer coisa, eu preciso de um banho, acho que tenho sangue na minha roupa. E também preciso de gelo, minha mão está me matando.
Em poucos minutos chegaram no andar do apartamento da Gil Blanco, e assim que adentrou, o São Bernardo se aproximou animado para cumprimentar o casal. Após lhe dar uma breve atenção, deixou sua bolsa no balcão e abriu a geladeira, pegando ali dois pacotes de hambúrgueres congelados, entregando um ao amigo que também tinha a mão machucada. Apoiou os cotovelos no balcão do lado de dentro da cozinha, encarando o Campbell que se encontrava de frente, do lado oposto. Encostou o objeto gélido na mão dolorida, grunhindo baixo de dor mas logo suspirando com o alívio que seguiu. Então, voltou a olhar Finn com um sorriso de lado, com malícia. — Se quiser, pode me acompanhar no banho. Acho que têm alguns truques pra me ensinar.
Com a sugestão, Catalina umedeceu os próprios lábios, aguardando os segundos que ele precisaria para entender que a proposta era somente uma piada com a recente descoberta, e assim que a expressão do mais velho denunciou o entendimento, ela deu uma risada alta demais.
› QUANDO CATALINA LHE CONFRONTOU sobre suas verdadeiras intenções e desejos ao continuar a fazer aquele tipo de emprego ou não, finnick engoliu em seco, e desviou o olhar da morena, não conseguindo sustentá-lo por mais tempo algum durante aquele assunto. passou uma das mãos pela boca, em um gesto silencioso e inconsciente de quem tinha muito para dizer, mas que estava, na verdade, se esforçando para se calar. ele não tinha respostas concretas para dá-la, era isso o que tinha medo. no fundo, podia sentir uma voz lhe dizendo que ser um gigolô havia começado a se tornar fácil e confortável demais, e agora sua mente que detestava mudanças radicais demais se estagnara em um único local, não lhe dando brechas ou motivos lógicos (como os que a amiga latina claramente estava lhe mostrando ali, no presente momento) para poder se mexer e sair da própria situação. “se você continuar com isso só pra contrariá-los, então de certa forma, eles continuam te controlando” -- lhe foi como um soco no estômago. era como se houvesse corrido livre por anos para depois descobrir que, na verdade, estava apenas andando dentro de uma gaiola muito maior. chacoalhou a cabeça levemente, em sinal de aceitação, como se aceitasse os conselhos de lina, mas na verdade afastando os pensamentos daquele assunto, como se ele não existisse mais. em seguida, na próxima vez que voltou a falar, já focou no próximo assunto (o do toc), deixando o de gigolô para trás. afinal, aquilo era o que o campbell fazia de melhor: ignorar assuntos importantes que talvez pudessem lhe comprometer de alguma maneira.
❛ Bem... Já, várias pequenas coisas do dia-a-dia. Tipo, eu já não consegui comprar roupas numa loja porque tinha muitas coleções e muitas cores separadas e eu não conseguia parar de contar e arranjar padrões. As lojistas acharam que eu tava de sacanagem ou sei lá-- Me tiraram da loja. Até hoje eu tenho vergonha de voltar numa GAP. ❜ ›› confessou, suspirante, conforme seguia a latina para dentro do elevador. sorriu animado para a amiga, tentando pensar em alguma história boa o suficiente que pudesse prender a atenção dela por alguns instantes, quando ela falou que precisava de um banho, reclamando da dor na mão. sentindo a adrenalina passar naquele instante, como se ele próprio lembrasse dos próprios nós dos dedos, finnick sentiu as mãos começando a formigar de dor, e ele as puxou para perto do rosto para poder analisar, com uma careta, os próprios machucados. adentrou o apartamento pouco tempo depois, cumprimentando o são bernardo com um sorriso largo e cansado, e seguindo para a cozinha junto de catalina, onde a sensação gelada do hambúrguer veio de extremo agrado para o moreno, que soltou um ligeiro gemido prazeroso ao se acomodar em um dos bancos da cozinha e colocar a peça sobre os machucados, com um sorriso de alívio formando-se em seus lábios. estava tão distraído que a frase maliciosa de catalina o atingiu em cheio.
❛ ...--!!?? Q-Quê?! ❜ ›› gaguejou, sentindo o rosto ficar todo vermelho pela insinuação. silêncio estabeleceu-se no cômodo por alguns segundos até que finnick finalmente processasse a brincadeira, se sentindo ainda mais envergonhado.
❛ Vai se foder, Lina. ❜ ›› xingou, rindo junto dela, apesar do claro constrangimento que ela ter lhe feito passar. passou o hambúrguer para a outra mão, já que as duas estavam machucadas, mas franziu o cenho. com certeza aquilo não seria o suficiente -- e ainda bem que benjamin havia lhe ensinado algo de primeiros-socorros alguma vez na vida! quem diria que iria ser útil algum dia, huh?
❛ Então, mas falando sério, agora. Vai lá tomar seu banho, mas me diz antes se você tem por aqui uma caixa de primeiros-socorros fácil que eu consiga usar pra fazer uns curativos melhores do que hambúrgueres congelados e tal. ❜















