De repente me vejo a beira do precipício, jogar-me ou estagnar?
Sigo uma luz obscura, confusa e obtusa. Sigo incessantemente esse faixo de luz. Obscura, porém luz. Ela não brilha tanto como as estrelas, mas deixa um rastro, uma busca, um caminho. Vou caminhando. Após horas a fio, absorta em pensamentos que degladeiam a alma e ofuscam o eu interior, sigo. Sigo nessa busca inecessante. Sigo seguindo um coração ávido de incertezas, ansiedades e incoerências, mas sigo. Persisto. Os autofalantes me conduzem, vou caminante, como se chegasse ao caminho de Santiago de Compostella. Sigo ainda sim, com os pés calejados sobre o barro. Parece que ao longe vejo um desfiladeiro. Um caminho estreito que leva minha’lma. Leva meu corpo que se debate contra o pensamento. O físico e o imaterial conflitam entre si e não vejo. Enxergo apenas a luz. Uma luz ofuscada que não deixa o branco vir. De tão escuro, as cores unem-se. Vejo o preto embevecido de branco-azulado, um verde-amarelecido, um róseo-maríneo, um, ou dois.
Sigo sem cessar. Sigo a procurar. É como se os leões estivessem em minha mãos e não soubesse a melhor maneira de cerrar os punhos e calar-lhes.
Quero que o rugido esmaeça, torne-se canção.
Sigo, sigo outra vez. A imagem defaz-se. Vejo o desfiladeiro novamente. A luz-rastro obscuro me guia, e vou abraçando o desconhecido. Desfazendo as certezas e dando as mãos aquilo que não sei o que é.
Primeiro o dedo mindinho, depois o anelar, até chegar ao indicador e apontar para toda a mão. Depois os braços que abraçam aquilo que nem sei, mas terei ou não.
Vou caminante, as vozes não cessam, persistem. Me lançam, me engolem. Calo-as. Uso as sabedorias tradicionais e calo-as. Mas, desta vez os punhos não cerram, eles abrem-se em lótus. Os punhos deixam ressurgir uma vitalidade lampejante, mais rápida que balas e munições de guerra. Que abrem-se em pétalas, cometas reluzentes que vão abrindo os caminho, vão guiando-se por si e por uma essência fulgaz-persistente. É alei dos paradoxos inebriantes.
O facho de luz vai abrindo-se em flor, do obscuro ao esbranquiçado, clareando até a transparência, irradiando-se em focos de visão plena.
Vejo o desfiladeiro outra vez. O caminho caminante, o fazer fazendo-se. Vejo adiante a estrada de barro, vejo as sementes lançadas sobre a terra, ainda árida. Mas, veio chuva. Irrigou o solo. Continuo andando, os pés rachados vão pingando água trans-lúcida. As vozes continuam a dizer dizeres. Falam línguas, dizem claridades, clarividência.
As sementes, o chão molhado, os brotos verdes resplandecentes. Vejo, vejo tudo.
Até chegar ao topo do desfiladeiro. Paro. Olho, enxergo.
Penso com a serenidade de quem faz leões miarem tais onças pequeninas.
Olho outra vez. Olho, enxergo com mais Força.
Penso um taco mais de tempo.
Tempo que a ampulheta nem sequer é capaz de registrar.
E sem pestanejar, sinto.
Sinto que é hora de partir. Desapegar, soltar as amarras e voar.
Voar como aquela menina que outrora vira pássaros plenos no céu das estrelas luminosas e que vagalumeiam aquele céu infinito escuro. Torna-se azul claro e foi.
De sonho despertou e saltou no precipício que é a vida.