Você atravessa a rua sem olhar para os lados. Há meses vem fazendo isso, e talvez nem perceba. Eu percebo. Tento pegar na sua mão como se você fosse uma criança que precisa ser protegida de todos os males do mundo, mas sei o quanto você odiaria que eu fizesse isso. Aí eu não faço. Não posso proteger você de você mesma. Você dorme com a porta aberta e sua janela já não conhece o trinque. Todas as noites, acordo para te dar algum tipo de segurança, mesmo que você já nem mais saiba o que essa palavra significa. Sei que você já não reconhece a própria casa, assim como não reconhece seu próprio corpo e não se importaria se ambos fossem embora. Por isso, continuo acordando. E passando a chave. E fechando a veneziana. Preciso manter você do lado de dentro – sei o que tudo o que existe lá fora te assusta. Você pega no sono com uma vela ligada. Bem ao lado da sua cama, a vela fica acesa até queimar. Às vezes eu a apago, depois de trancar a porta. Às vezes fico sentada ao seu lado esperando que ela queime. Enquanto isso, checo sua respiração. Seu pulso. Para ter certeza de que nenhum carro atropelou você enquanto eu não estava olhando por nós duas. Você nunca sabe direito quantos remédios tomou. Por isso, sempre acaba tomando mais um. Mais um. Mais um. E eu continuo aqui, me perguntando qual é o jeito mais gentil de dizer que talvez você já tenha engolido comprimidos demais. Mas não adianta… Você nunca acha que tomou o certo. E engole mais uma dessas suas pílulas. Isso me apavora.
"Love was always something heavy for me" Ana F. (via salt-waterroom)















