(essa, na verdade, foi sim entregue)
Eu queria que você ouvisse através do meu silêncio, através das palavras que eu não digo, das canções que me lembram você e você nem sabe. Eu sei que tudo isso é impossível, mas você já deve ter percebido: não costumo falar o que eu sinto. Minha mãe me chamou esses dias para dizer que ela vê uma angústia em mim cada vez que olho nos olhos dela, ela também disse que tenho que começar a falar o que fica preso na minha garganta e depois de me abraçar por todo o tempo que chorei tudo o que andei impedindo de sair de mim e de me aguentar falando entre soluços que eu não conseguia ela finalizou: você precisa pelo menos tentar.
E nos últimos dias isso foi tudo o que fiz. Ainda não me sinto preparada o suficiente para realmente falar sobre todos os sentimentos que me compõem, mas tenho pelo menos pensado neles. Não sei se cheguei a lhe falar alguma vez, mas evitá-los era tudo o que eu fazia. Fugir era tudo o que eu fazia. As paredes, Deus e meu travesseiro sabem o esforço que tenho feito para colocar em palavras tudo que me aflige. Eu quase me sinto preparada.
Depois de pensar bastante e resolver deixar algumas coisas no passado eu finalmente decidi escrever sobre você. Quando eu te conheci eu vi de imediato a sua solidão, mais do que isso, eu senti ela como se fosse minha, eu queria tanto te salvar de algo que eu nem sabia o que era que nisso me perdi um pouco. Eu não te culpo, caso seja isso que você esteja pensando. Eu me culpo por isso e por não consegui evitar o que veio depois: a vontade de ter por perto e de conversar com você o tempo todo, a vontade de te escrever e de provar (ainda não sei se pra você ou pra mim) que eu merecia uma chance de ser amada, de amar alguém; o nervosismo ao te ver e o aperto no coração quando você falava de um outro alguém.
Eu deveria ter te falado tudo isso, eu sei que deveria, mas eu simplesmente não consegui, entende? Eu nunca precisei falar essas coisas pra alguém antes e o pensamento de ter que falar me assustava, perceber que você era tão importante assim me assustava. Então, eu me esforcei cara. Só eu sei o quanto me esforcei pra te esquecer, e apesar de ter achado que havia conseguido vejo que, na verdade, nunca pensei em realmente colocar um ponto final na sua participação na minha história. Ainda não pensei o suficiente pra achar uma razão, mas o que eu acho agora é que eu nunca quis de fato colocar um ponto final.
Eu não sei como encerrar esse texto, não sei se tem uma forma correta de encerrar. Mas eu gostaria que você soubesse que eu ainda estou aqui, que essa é uma das poucas vezes que não fui embora da vida de alguém e que no momento em que você precisar sabe onde me encontrar. A música que está tocando agora (graças ao aleatório, por mais improvável que possa parecer) é let her go e eu acho que você entende o que isso significa.
Eu me vejo como uma estrutura resistente agora e meu professor de química falou em uma aula que não é um agente qualquer que provoca reação em uma estrutura resistente, de todas as definições que eu atribui a você ao longo do tempo, e de todas as definições que eu provavelmente ainda vou atribuir agente qualquer não é e nunca será uma delas.