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Eysan chegou ao seu chalé naquela manhã com um sorriso impossível de disfarçar. Por mais que mordiscasse o lábio, a bochecha, ou tentasse esconder o rosto com as mãos, era inútil. Qualquer um de seus irmãos perceberia o quanto ela parecia estar nas nuvens. Bom, Cassius a tinha deixado nas nuvens. Aquele momento compartilhado na estufa ainda rodava na mente da semideusa. Além do que tinha acontecido entre os dois, com a forma com que os corpos se encaixaram perfeitamente, ela pensava nas declarações trocadas e no fato de ambos terem expressado os mesmos sentimentos. Eysan sabia que o que tinha sentido na enfermaria durante o ataque havia sido verdadeiro e intenso de um jeito que até a surpreendeu, mas ter a confirmação de que ele sentia o mesmo e a queria da mesma forma, tornava tudo ainda mais especial. Valeria a pena até mesmo lidar com uma maldição no dia seguinte.
Antes que seus outros colegas de chalé acordassem, ela correu direto para tomar um banho e poder se arrumar para o restante do dia. Em frente ao espelho, se recordava dos toques de Cass e da forma como ele a olhava. Era a primeira vez que tinha sentido algo parecido. Levou a mão até os lábios e sorriu com os olhos fechados, se recordando da sensação. Estava absurda e completamente apaixonada pelo filho de Júpiter. Sabia que não podia se desconcentrar das suas vivências como guerreira e curandeira, principalmente em um momento tão instável para todos na ilha, mas mal podia esperar para se encontrar com ele novamente. O combinado era que treinariam juntos naquela tarde e só de pensar nisso, seu coração já acelerava. Eysan compartilhou que precisava daquela ajuda, afinal estava longe de ser uma exímia lutadora, principalmente em batalha corpo a corpo. Ela era muito mais habilidosa com os poderes, mas não era sempre que podia usá-los, então precisava do treino.... E principalmente, precisava estar com ele outra vez.
Devidamente pronta, Eysan se apressou até o campo de treinamento. Seus olhos procuravam ansiosos pelo filho de Júpiter, louca para pular em cima dele, apesar de não ter certeza de como deveria se comportar em público. Assumiriam um envolvimento ou ainda era cedo demais para isso e o melhor seria esconder por um tempo até que todo mundo estivesse bem? Sinceramente, ela esperava pela primeira opção, mas entendia que era estranho se sentir absurdamente feliz enquanto sabia que o mundo ao seu redor estava longe de estar em paz.
Quando seus olhos finalmente encontraram Cassius, a filha de Perséfone sorriu abertamente, sem conseguir se conter, e começou a caminhar na direção dele, sentindo o coração batendo mais rápido a cada passo. No entanto, antes que pudesse alcançá-lo, seu caminho foi cortado por Luke, filho de Apolo e um colega da enfermaria. "Ah, oi Luke." A semideusa sorriu sem graça para o rapaz, apesar de seus olhos ainda buscarem por Cassius do outro lado do campo. Luke comentava alguma coisa sobre como era bom estar com ela ali e como sentia falta da companhia dela fora da enfermaria. Eysan tentava prestar atenção, mas sua mente insistia em se distrair. Luke sempre foi um amigo legal, gentil, presente quando ela precisava de apoio na ocupação, mas havia algo na forma como ele a olhava que a deixava levemente desconfortável. Ele parecia muito mais interessado nela do que ela jamais conseguiria corresponder. "Ah é sim. Não sabia que você estaria treinando hoje também, eu pensei que era sua hora de plantão na enfermaria. Eu vou ficar a noite." Explicou, apressando suas palavras para que a conversa terminasse logo, enquanto desviava o olhar procurando novamente por Cassius. "Desculpa, eu não posso fazer dupla com você hoje." Disse, negando com a cabeça e sorrindo discretamente em um pedido silencioso de perdão. "Já tenho minha dupla. Esse é o Cassius. Ele era do Acampamento Júpiter, não sei se vocês se conhecem." Indicou, ao notar que ele tinha se aproximado, finalmente lhe dando a oportunidade de inspirar o perfume dele novamente. O aroma a levava diretamente para o momento compartilhado na estufa. Queria tanto estar sozinha com ele outra vez. "Cass, esse é o Luke. Ele também é curandeiro." Observou como o filho de Apolo se apressou em se aproximar de Cassius. O movimento não era agressivo, mas também não parecia amigável. Trabalho com a Eysan na enfermaria. Ele completou a informação, apesar de Eysan pensar que já estava implícito e era desnecessário que ele utilizasse aquele tom. "Ele e toda a equipe. São várias pessoas." Foi a vez de Eysan completar, sorrindo para Cassius. Estava sem graça com o comportamento indevido do curandeiro e queria sair dali logo. Não era naquele clima que esperava ser seu reencontro com o filho de Júpiter. "Enfim, vamos, Cass? Você vai me ensinar a treinar, certo?"
Cassius não respondeu de imediato. Ele deixou que o silêncio existisse entre eles. Não um silêncio vazio, mas carregado. Como se cada palavra que ela tivesse dito precisasse encontrar espaço dentro dele antes de ganhar resposta. O peito ainda subia e descia com intensidade, mas agora não era só desejo que o atravessava. Era algo mais fundo. Mais perigoso. Quando ela confessou que tinha se sentido perdida desde aquela noite, o olhar dele suavizou de um jeito que quase ninguém jamais vira. Não era fraqueza. Era reconhecimento. Ele levou a mão ao rosto dela com cuidado, como se aquele toque fosse precioso demais para ser descuidado. O polegar dele roçou o lábio inferior que ela havia mordido segundos antes, quase em reprovação suave, quase em adoração. — Você acha que foi só você? — Murmurou. A voz saiu mais rouca do que ele pretendia, carregada de algo que ele não tinha prática em nomear. Ele respirou fundo antes de continuar, como se admitir aquilo exigisse mais coragem do que qualquer batalha. — Eu passei a noite inteira tentando fingir que aquilo não tinha me afetado. Que era só o calor do momento. A adrenalina. — Um sorriso quase amargo surgiu nos lábios dele. — Mas eu sabia que não era isso. — Os olhos claros não se afastaram dos dela. Havia ali uma intensidade diferente agora, não só desejo, mas vulnerabilidade exposta. — No instante em que você me tocou… — Ele fechou os olhos por um segundo, como se ainda pudesse sentir — Eu senti algo mudar dentro de mim. — A mão dele desceu do rosto dela para a nuca, segurando-a ali, firme, como se precisasse garantir que ela não fosse desaparecer enquanto ele dizia aquilo. — Eu fiquei com medo de ter sido só eu. — A mandíbula dele tensionou levemente. — De você só ter cuidado de mim como cuida de todos. E de eu ter interpretado tudo errado. — Havia orgulho ali, misturado com receio.
Cassius não estava acostumado a duvidar de si. Muito menos em algo tão íntimo. — A ideia de ter sido só mais um ferido… — ele soltou um pequeno riso sem humor — Me incomodou mais do que qualquer ferida. — Ele aproximou o rosto, roçando a ponta do nariz no dela, o gesto íntimo, carinhoso, completamente distante da imagem do soldado impenetrável que todos conheciam. A mão dele deslizou da bochecha até a nuca, segurando-a ali com firmeza protetora. — Você me encontrou naquela noite, Eysan. Não foi o contrário. — O beijo que ele deu em seguida não foi urgente. Foi profundo. Demorado. Um beijo que dizia “eu estou aqui” mais do que qualquer palavra poderia. Quando se afastou, a testa dele permaneceu encostada na dela, como se aquele ponto de contato fosse o que mantinha o mundo equilibrado. — Eu nunca senti isso antes. — Ele não desviou o olhar ao dizer. — Nunca senti alguém me atravessar assim. — A chuva contra o vidro parecia mais distante agora. Como se até o céu tivesse diminuído o volume para ouvir. — Eu passei a vida inteira sendo o que esperavam de mim. — Ele inspirou lentamente. — Forte. Estratégico. Impecável. — A mão dele deslizou pela lateral do corpo dela, não com pressa, mas com atenção, como se estivesse confirmando que ela era real. — E você aparece e me desmonta com um toque. — Havia admiração ali. E algo quase reverente. — Você me faz querer coisas que eu nunca me permiti querer. — Ele engoliu seco, mas não recuou. — Faz essa ilha parecer menos sentença… e mais começo. — Quando ela disse que estava disposta a tudo, o olhar dele escureceu, não de ameaça, mas de decisão. Ele ergueu o queixo dela levemente para que ela o encarasse. — Eu não sei o que o destino vai fazer com a gente. — A voz agora era firme, mas não fria. — Sei que pode nos testar. Separar. Ferir. — Os dedos dele apertaram de leve, não para machucar, mas para reforçar. — Mas eu sei que, enquanto eu estiver de pé, você não vai enfrentar isso sozinha. — Ele respirou fundo, como se aquela promessa tivesse peso. — E se isso for imprudência… — O canto da boca dele se ergueu de leve — Então eu escolho ser imprudente com você. — O beijo que veio depois foi lento. Seguro. Não de alguém dominado pelo impulso, mas de alguém que fez uma escolha consciente.
Quando abriu novamente os olhos, Cassius não piscou. Ele a observou como se estivesse diante de algo que não fosse apenas belo, mas sagrado. Cada botão que se soltava era como uma pequena rendição dela ao momento e uma rendição dele àquilo que sentia. Quando o primeiro se abriu, o ar pareceu mudar. No segundo, ele já não respirava direito. No terceiro, o desejo deixou de ser algo que ele tentava controlar e virou algo que ele simplesmente aceitava. Os olhos dele acompanhavam cada movimento dos dedos dela com uma intensidade quase hipnótica. Não havia vulgaridade naquele olhar — havia fome, sim — mas também havia reverência. Admiração profunda. Como se ele estivesse absorvendo não apenas o que via, mas o que aquilo significava: ela estava escolhendo se despir diante dele. Escolhendo confiar. Quando a camisa finalmente cedeu e o tecido caiu sobre a bancada, o mundo pareceu reduzir-se à visão dela. As curvas reveladas não eram apenas formas, eram história. As tatuagens desenhadas na pele dela prenderam o olhar dele imediatamente. Ele se aproximou um passo, quase instintivamente, os dedos subindo devagar para traçar a linha de uma delas com cuidado. — Você é… — Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo — Ainda mais do que eu imaginava. — O polegar deslizou até uma cicatriz discreta acima das costelas. O toque ali não foi carregado de desejo. Foi carregado de respeito. — Você também luta. — A voz saiu baixa, quase orgulhosa. — E ainda assim consegue ser… isso tudo. — Ele não terminou a frase, porque não havia palavra suficiente. Quando ela voltou a se aproximar, o contato dos corpos fez algo dentro dele se acender com força total. O calor da pele dela contra a sua fez o corpo dele reagir imediatamente, um arrepio descendo pela espinha enquanto as mãos dele encontravam naturalmente a cintura dela. E quando os dedos dela começaram a percorrer o peitoral dele, ele fechou os olhos por um segundo. Não de fraqueza. De sensação. O toque dela era lento. Consciente. Como se estivesse estudando cada músculo, cada cicatriz, cada parte dele que sempre fora armadura. Cassius sentiu o próprio corpo responder ao menor deslizar dos dedos dela. O coração acelerou ainda mais quando ela tocou exatamente a cicatriz que havia cuidado na noite anterior. Ele abriu os olhos para olhá-la naquele instante. Havia algo quase devastador em ver alguém tocar suas marcas daquele jeito, não como lembranças de dor, mas como partes dele que mereciam ser conhecidas.
Quando a boca dela desceu pela mandíbula dele, ele perdeu o ar. Os dedos apertaram de leve a cintura dela, não para dominar mas porque ele precisava se ancorar. Precisava segurar algo real enquanto o corpo inteiro reagia ao caminho que os beijos dela traçavam. Cada toque dela parecia incendiar pontos diferentes do corpo dele. Quando os lábios alcançaram o centro do peito dele e a mão dela pousou sobre o coração, Cassius sentiu algo quase insuportável: ela estava sentindo o que ele sentia. E o ritmo não mentia. Ele inclinou a cabeça levemente para trás quando ela beijou aquele ponto, a respiração saindo mais pesada. A pele arrepiava sob cada toque, sob cada beijo demorado. — Ele bate assim por sua causa… — Murmurou, a voz mais rouca, mais entregue. Quando ela voltou aos lábios dele e o puxou para um beijo intenso, Cassius respondeu com a mesma profundidade. A boca dele a encontrou com vontade, com certeza, com algo que já não tinha medo de existir. As mãos dele deslizaram pela lateral do corpo dela, explorando com firmeza contida, sentindo o calor, a textura, a realidade dela ali. Ele a olhava como se estivesse tentando memorizar tudo, o jeito que ela respirava, a curva dos ombros nus, o desenho das tatuagens contra a pele, o brilho nos olhos dela quando dizia que não se arrependeria. — Você não faz ideia do que isso significa pra mim… — Confessou contra os lábios dela, entre um beijo e outro. Havia pura excitação ali, sim, o corpo dele reagindo a cada toque, a cada pressão, mas havia algo ainda mais intenso: orgulho. Uma sensação quase feroz de que ela era dele naquele instante, e ele era dela. Quando ela falou sobre o mundo acabar amanhã, algo no olhar dele se tornou ainda mais determinado. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, firme, olhando-a como se quisesse que ela entendesse sem margem para dúvida. — Se o mundo acabar amanhã… — Murmurou — Eu vou agradecer por ter vivido isso hoje. — E então a beijou novamente, profundo, intenso, como se estivesse selando uma escolha que ia muito além do corpo.
Cassius sentiu o mundo se inclinar no instante em que ela o puxou ainda mais contra si. O encaixe dos corpos, a perna dela envolvendo sua cintura, o calor imediato que se espalhou entre eles, tudo aquilo o fez soltar um suspiro baixo, quase instintivo, contra os lábios dela. Não havia mais distância. Não havia espaço para dúvida. Ela o queria ali. Sobre ela. Com ela. E quando ela sussurrou que era dele, algo dentro dele queimou mais forte. A palavra amor atravessou Cassius como um golpe direto. Ele congelou por meio segundo. Amor. Ele nunca fora o amor de ninguém. Nunca fora escolhido assim. Nunca fora desejado com essa certeza na voz. Soldado, líder, arma, herdeiro do céu — tudo isso ele sabia ser. Mas amor? O estremecimento percorreu seu corpo inteiro. Não foi fraqueza. Foi algo mais profundo. Algo que fez aquele novo Cassius — despido da armadura, respirando contra o corpo dela — parecer melhor do que qualquer versão anterior. Não era posse. Era escolha.
As mãos dele seguraram firme a cintura dela, os dedos marcando a pele com pressão controlada, enquanto ele a beijava com intensidade crescente, não apressado, mas firme. A boca dele percorreu a dela com fome contida, como se cada beijo precisasse afirmar que aquilo era real. Quando ela se inclinou para trás e a bancada fria tocou suas costas, Cassius foi junto, o corpo encaixado ao dela como se aquele fosse o único lugar possível. O cabelo escuro dela espalhado sobre a pedra criou um contraste quase hipnotizante — pele quente contra superfície fria, respiração quente contra ar úmido da estufa. — Você não faz ideia do que isso faz comigo… — Sussurou contra a boca dela. E então foi a vez dele. Cassius começou a descer os beijos devagar, como se estivesse mapeando território sagrado. Primeiro o maxilar. Depois o pescoço, demorando-se ali, deixando a respiração quente contra a pele dela antes de selar novos beijos mais lentos, mais firmes. As mãos deslizaram pela lateral do corpo dela, subindo e descendo com atenção quase devota. Ele não tinha pressa. Queria descobrir. Queria sentir cada curva, cada reação, cada suspiro que escapava dela. Os lábios desceram pelos ombros, depois pela clavícula, explorando cada pedaço de pele revelada com cuidado e intensidade equilibrados. Ele beijava como quem aprende e memoriza. — Amor… — A palavra saiu baixa, carregada de desejo e de algo ainda mais profundo. Quando as mãos dele alcançaram o restante das roupas dela, o movimento foi lento. Não havia arrancar. Não havia urgência brusca. Ele mantinha os olhos nos dela enquanto deslizava o tecido para longe, quase como se pedisse permissão silenciosa a cada gesto. Cada nova parte revelada fazia o olhar dele escurecer ainda mais. Ele a observava não apenas com desejo, mas com deslumbre absoluta. — Você é inacreditável… — Murmurou, quase para si. Os dedos traçaram as linhas das tatuagens, desceram pelas curvas com reverência, como se estivesse descobrindo um segredo precioso. Ele não escondia o quanto a desejava. O corpo dele reagia a cada centímetro revelado, mas havia algo além da excitação ali, havia exaltação, havia fascínio. A boca dele voltou a descer, explorando outros lugares, beijando onde antes apenas tinha tocado. O ritmo era calculado no melhor sentido, não por frieza, mas porque ele queria elevar cada sensação dela ao máximo, provocar, observar, aprender o que fazia a respiração dela falhar. — Eu quero você inteira… — Sussurrou contra a pele dela. As mãos continuavam firmes, seguras, nunca forçando, sempre conduzindo com intenção clara. Ele estava descobrindo. Descobrindo como ela reagia. Como se movia. Como suspirava.
Cassius não olhava para ela como um homem que apenas desejava. Ele olhava como quem já decidiu. Quando ela abriu mais as pernas e o puxou contra si, ele soltou um som baixo, quase um rosnado contido, a respiração falhando por um segundo. O encaixe dos corpos fez o sangue dele pulsar mais forte — não havia mais espaço entre eles. Não havia mais recuo. — Você não devia me provocar assim… — Murmurou, a voz escura, carregada. Mas o jeito que ele segurou as coxas dela dizia o contrário: ele queria cada segundo daquela provocação. A boca dele desceu devagar pelo pescoço dela, não mais com delicadeza contida, agora havia fome. Ele beijava com pressão, marcava com intenção, os dentes roçando a pele antes de os lábios selarem de novo, como se quisesse deixar sinais visíveis de que ela era dele naquele momento. Ele se afastou apenas o suficiente para terminar de se livrar do restante das roupas, os movimentos rápidos, decididos, mas ainda mantendo os olhos presos aos dela. Quando ele terminou de se livrar da própria calça, o movimento foi direto, quase impaciente, não por descontrole bruto, mas porque o corpo já não aceitava mais barreiras.
Ele voltou a se encaixar entre as pernas dela, dessa vez deixando claro o quanto estava duro, o quanto a queria, pressionando-se contra ela sem disfarce. O olhar dele escureceu. — Só eu. — A voz saiu baixa. Firme. — Só eu vou ter você assim. — Havia ali o primeiro traço claro de possessividade. Não agressivo. Não sufocante. Mas primitivo. Ele a queria. E a ideia de outro sequer imaginando aquela visão fazia algo feio e intenso atravessar o peito dele. A boca dele desceu novamente, beijando sobre o peito dela com mais sede agora, mais intensidade. As mãos seguraram firme a cintura enquanto ele alternava entre beijos lentos e outros mais profundos, sugando de leve a pele, como se quisesse provar cada centímetro. Ela reagia. E isso o enlouquecia. — Você faz ideia do que faz comigo? — Murmurou contra a pele dela, a voz rouca. O corpo dele se movia contra o dela num ritmo instintivo, lento no começo, mas carregado de promessa. Não era ainda urgência total. Era antecipação. Era fricção suficiente para fazer o ar entre eles queimar. Ele voltou aos lábios dela, beijando-a com mais força, segurando o queixo dela entre os dedos para mantê-la ali, olhando para ele. — Não fala que é só minha se não for de verdade… — Sussurrou. — Porque eu não sei dividir. — O ciúme ali não era racional. Era visceral. Ele nunca tinha sido “amor” de ninguém. Nunca tinha sido escolhido assim. E agora que era, ele não queria perder. As mãos dele desceram pelas coxas dela, apertando com firmeza, puxando-a ainda mais contra si. O corpo reagia inteiro. O calor subia. A respiração ficava mais pesada. Ele encostou a testa na dela por um segundo, tentando recuperar o fôlego. — E porque eu estou completamente louco por você… — Confessou, a voz baixa, quase incrédula com a própria intensidade. E então voltou a beijá-la como se estivesse tentando devorá-la, mas ao mesmo tempo memorizar cada reação, cada gemido abafado, cada arrepio.
Cassius segurou o rosto dela por um segundo antes de descer a mão lentamente pelo corpo dela outra vez. O olhar dele estava diferente agora — menos controle, mais instinto. Sem pressa, ele terminou de livrar os dois das últimas barreiras entre eles. Não havia brutalidade. Havia intenção. Havia a consciência de que aquele momento era novo. Único. Quando voltou a se posicionar entre as pernas dela, o corpo dele já estava inteiro entregue àquela necessidade. Ele não a invadiu. Não a tomou. Ele avançou devagar, deixando que o primeiro contato mais profundo acontecesse como uma revelação. O ar saiu pesado dos pulmões dele no instante em que sentiu. Os olhos dele se fecharam por um segundo. Depois se abriram imediatamente para encará-la. — Olha pra mim… — Murmurou, a voz grave, quase exigente. Ele queria ver. Queria saber exatamente como ela reagia. Queria que aquele momento fosse compartilhado, não apenas sentido. O primeiro movimento foi lento. Cauteloso. Quase reverente. Ele se movia devagar, como se estivesse aprendendo o ritmo dela, adaptando o próprio corpo ao dela. Não havia pressa em acelerar. Havia curiosidade. Havia prazer na descoberta. As mãos dele seguravam firme a cintura dela enquanto o corpo começava a encontrar um ritmo natural. A respiração dele já estava descompassada, mas o controle ainda existia, não para se conter, mas para prolongar. — Amor… — A palavra saiu quase como um suspiro. Ele inclinou o corpo para frente, aproximando ainda mais, encaixando-se completamente contra ela enquanto o movimento se tornava mais fluido. A testa dele encostou na dela, o contato visual mantido entre uma respiração e outra. O prazer não era explosivo ainda. Era crescente. Profundo. Aquele tipo que começa devagar e vai tomando o corpo inteiro sem pedir permissão.Ele desceu a boca para o pescoço dela novamente, beijando enquanto o corpo se movia num ritmo constante. Cada reação dela, cada suspiro, cada tensão nos músculos, fazia o ritmo dele ajustar. Não era só desejo bruto. Era conexão. As mãos dele deslizaram pelas costas dela, depois desceram pelas coxas, segurando firme enquanto ele aprofundava o movimento com um pouco mais de intensidade. — Você sente como a gente encaixa? — Murmurou contra a pele dela. Havia uma satisfação quase possessiva no jeito que ele se movia. Não violento, mas seguro. Ele sabia que estava dando prazer. Sabia que ela reagia a ele. E isso alimentava algo primal dentro dele. O ritmo começou a ganhar mais força. Ainda não descontrolado, mas mais confiante. Mais quente. A chuva lá fora parecia acompanhar. Os trovões ecoavam como se o céu estivesse assistindo, julgando, ameaçando e Cassius simplesmente não se importava. Ele apertou o corpo dela contra o dele com mais firmeza, a boca voltando aos lábios dela, beijando com intensidade crescente, como se cada movimento precisasse ser reforçado por outro. — Isso é tão gostoso. — A voz saiu entrecortada. — Você é muito gostosa. — O prazer já não era só físico. Era emocional. Era a certeza de que aquilo não era casual. Não era impulso vazio. Ele estava inteiro ali. Cassius manteve o ritmo, firme, quente, cada movimento agora menos cauteloso e mais confiante. O corpo dele já não buscava apenas sentir, buscava provocar. Tirar dela reações. Sons. Perder o pouco controle que ainda restava. Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, obrigando-a a encará-lo enquanto continuava a se mover. Os olhos dele estavam escuros. Famintos. Desafiadores. — Eu sei que você está sentindo… — Murmurou, a voz rouca, quase um comando disfarçado de provocação. — Mas eu quero ouvir. — O polegar deslizou pelo lábio inferior dela, puxando-o de leve antes de soltá-lo. — Mostra pra mim, amor… — Sussurrou, inclinando-se para morder o canto da boca dela num beijo mais sujo, mais intenso. — Quero saber o quanto você gosta de mim assim. — O ritmo dele aumentou só um pouco, o suficiente para arrancar dela uma reação mais forte.
A paixão era realmente um sentimento surreal. Inexplicável. Mas tão intenso e verdadeiro que fazia com que toda uma realidade virasse de cabeça para baixo de um dia para o outro. Era assim que Eysan se sentia naquele momento. Vivenciando um sentimento inexplicável, mas que tinha absoluta certeza de que a havia mudado para sempre. Ela agora sentia que havia encontrado em Cassius algo que sequer sabia que estava procurando. Aquela sensação de completude tão forte que até o que parecia errado se tornava certo quando estava com ele. Ouvi-lo explicando tudo que tinha sentido na noite anterior e como se conectada com os próprios sentimentos dela, dava certeza para a filha de Perséfone. Eles haviam sido feitos um para o outro e finalmente, no meio daquele caos, tinham se encontrado. Quem sabe era uma obra dos deuses do destino? Planejaram para que se encontrassem naquela ilha, pois sabiam que provavelmente os acampamentos separados dificultariam para eles. Não sabia dizer, mas a certeza que tinha era que o sentimentos que tinham um pelo outro eram recíprocos e ambos perceberam o rumo da própria vida mudar no instante em que se tocaram pela primeira vez. Tinha certeza de que eles estavam dispostos a lutar um pelo outro enquanto pudessem fazer isso. Tinha certeza de que não haveria arrependimento no que faziam e por isso, ela estava com cada vez mais vontade de se entregar completamente para Cassius. Não sairia daquela estufa sem terminar o que haviam começado, porque seu coração, sua alma e seu corpo ansiavam por ele com a mesma necessidade vital que sentia pela própria conexão com a natureza.
Eysan sentiu o olhar dele quando começou a desabotoar a camisa que vestia. Percebeu como ele acompanhava seus movimentos com extrema atenção, como se também estivesse precisando disso para sobreviver. O modo como ele a observava a incendiava por dentro, despertando uma necessidade crescente do toque e do peso das mãos dele sobre sua pele. Era delicioso sentir-se desejada daquela forma. Novamente, a semideusa nunca havia se sentido assim com ninguém. Se arrepiou com o toque dele em sua cicatriz e sorriu de canto, aproximando seus lábios dos dele novamente, beijando-o suavemente em resposta para as palavras bonitas. "Você que é lindo, Cass. Eu poderia passar o resto dos meus dias te admirando." Desde o abdômen definido, aos cabelos dourados que ela agora envolvia com os dedos apenas para sentir a maciez. As costas fortes que eram o encaixe perfeito para os seus dedos. O sorriso bonito que a desarmava e a faziam esquecer do mundo e os olhos intensos que pareciam devorá-la. Para alguém que sempre esteve conectada com a terra e o submundo que tinha debaixo dela, eram os olhos de Cassius que a deixavam perto do céu. Ela os encarou com a mesma intensidade quando o filho de Júpiter segurou seu rosto para dizer aquelas últimas palavras que selavam a escolha dos dois naquele dia. Sorriu, apaixonada e emocionada, assentindo com a cabeça, confirmando que estava tomando a mesma decisão que ele. Que o mundo desabasse sobre eles amanhã! Naquele momento, eles estavam escolhendo o próprio coração e isso bastava para torná-los mais felizes do que jamais haviam sido.
Mesmo que a bancada da estufa não tivesse sido pensada especificamente para acomodar dois semideuses, naquele instante parecia ter encontrado sua verdadeira vocação. Enquanto isso, o ambiente ao redor criava um mundo à parte para os dois. As plantas que cresciam automaticamente motivadas pela fotocinese passiva de Eysan, haviam se enroscado nos vidros da estufa, como se criasse uma barreira que impediria qualquer um de ver o que acontecia ali dentro, assim como de atrapalhar. Era o momento apenas dos dois. Eysan mal conseguia organizar os próprios pensamentos, pois ela só conseguia pensar em como o corpo de Cassius sobre o seu tinha o encaixe perfeito. As mãos dele a tocavam com uma segurança que a fazia arder e os beijos que ele distribuía pela sua pele, lentos e deliciosos, provocavam arrepios que se espalhavam por todo seu corpo, a fazendo delirar de desejo. Era possível que ele tivesse sido feito especialmente para tocá-la? Naquele momento tinha certeza que sim, pois apesar de ser a primeira vez que estava se entregando a Cassius, sentia como se ele soubesse exatamente onde tocá-la e onde beijá-la para fazer com que seu corpo reagisse, se derretendo ainda mais por ele. Os dedos dele tinham a intensidade certa, a boca tocava os lugares certos, era como se Cassius já entendesse como ela funcionava e o que a traria mais prazer sem nunca tê-la tocado antes. Eysan suspirou, permitindo que o próprio corpo respondesse por ela. Seus dedos se fecharam na nuca dele, puxando de leve seus cabelos em um pedido silencioso para que não parasse. Se possível, nunca parasse. A outra mão, deslizava pelas costas definidas dele, sentindo cada músculo que se movia sob seus dedos. As palavras dele eram o complemento perfeito para terminar de enlouquecê-la. Suas pernas entrelaçaram a cintura dele mais uma vez, o trazendo para mais perto novamente. Qualquer mínima distância naquele momento era insuportável. Um gemido escapou de seus lábios e foi abafado contra a pele dele quando sentiu o contato com seu corpo descoberto. Talvez Eysan estivesse com mais pressa do que deveria, mas como poderia não estar? Olha o que Cassius estava fazendo com ela. A deixando completamente e absurdamente maluca por ele. A desfazia de forma que a única coisa restante era seu desejo e paixão. Movida por seu desespero de senti-lo logo, Eysan ergueu o rosto, aproximando seus lábios do ouvido dele para murmurar, mesmo com a respiração ofegante. "Eu te quero tanto…" Murmurou com urgência. E sem sequer perceber, suas mãos, finalmente, encontraram o tecido da calça dele.
Quis ajudá-lo a se livrar da última peça que a atrapalhava naquele momento. Seus dedos deslizaram com pressa, impacientes até o fecho da calça. Com a ajuda de Cassius, conseguiram jogá-la para longe. Quando finalmente o observou sem ela, faltou ar por um segundo. Foi impossível não sentir o desejo crescer ainda mais, tomando cada parte do seu corpo. Eysan apoiou-se nos cotovelos e o encarou, mordiscando o próprio lábio inferior enquanto o percorria com os olhos. Céus. Cassius era tão lindo. Ela queria mais tempo. Queria poder explorá-lo com calma usando seus dedos e sua boca, para assim como ele estava descobrindo cada detalhe dela, poder fazer o mesmo com ele. E ela o faria em breve. Agora que ele era seu, não o deixaria escapar. Mas naquele momento, a visão dele daquela forma a deixava desesperada, tomada por uma necessidade que já não conseguia mais conter. Quando ele finalmente se aproximou mais, encaixando-se contra ela, Eysan arqueou as costas e o segurou com mais força. Pelos deuses. Conseguia sentir que ele a queria tanto quanto ela. Eysan não iria aguentar "Cassius… Para de me provocar…" Praticamente implorou, com a voz falhando. Abriu suas pernas um pouco mais para poder acomodá-lo entre elas e segurou-se firme nos ombros dele, apertando suas unhas ali. Eysan buscou pelos lábios dele, retribuindo o beijo na mesma intensidade. Era difícil manter os olhos abertos quando o corpo pedia para se render, mas ela se obrigou a encará-lo quando Cassius segurou seu queixo. Não queria que restasse nenhuma dúvida. "Eu não estou dizendo da boca pra fora." Seus dedos deslizaram para a nuca dele, puxando-o para mais perto, mantendo as testas unidas. "Amor, você não vê? Eu não quero ser dividida. Eu não quero ser de mais ninguém." A boca de Eysan também começou a distribuir beijos pelo rosto, pescoço e ombros de Cassius. Seu corpo estava gritando que era apenas ele quem podia deixá-la daquele jeito. Deliciosamente feita e pronta para ele e para recebê-lo. Praticamente derretendo para senti-lo de uma vez.
alternative universe @ eysan yaprak instagram post (fotografada por cassius) :
𝒔𝒑𝒓𝒊𝒏𝒈 𝒗𝒊𝒃𝒆𝒔 🌸🌺🌷
Cassius não respondeu de imediato. Ele apenas sentiu. Sentiu quando Eysan o puxou para mais perto, quando o mundo ao redor deixou de importar e a estufa — bagunçada, viva, cheia de terra espalhada e vasos fora do lugar — se tornou apenas um cenário irrelevante diante do que acontecia entre eles. Sentiu o alívio quase vertiginoso de ser correspondido, como se algo que ele carregava em silêncio há tempo demais finalmente tivesse encontrado espaço para existir. O beijo voltou diferente. Não havia mais a cautela inicial, nem o cuidado excessivo de quem testa um limite. Havia urgência. Um desejo contido que finalmente encontrava passagem. Os lábios dele buscaram os dela com mais firmeza, não bruscos, mas decididos — como alguém que tem medo de perder aquilo se hesitar por mais um segundo. Cassius sentiu o gosto dela, o calor, o ritmo que se encaixava de forma perigosamente perfeita ao seu. As mãos dele subiram devagar, explorando com uma atenção quase devota. Primeiro a cintura, firme, puxando-a para mais perto. Depois as costas, sentindo cada movimento, cada resposta silenciosa do corpo dela ao toque. Não havia pressa em ir a lugar algum, havia uma necessidade quase urgente de sentir. De gravar aquela textura, aquele calor, aquele momento na memória como algo que ele pudesse carregar quando tudo ao redor voltasse a exigir dele o papel de soldado.
Quando Eysan o guiou até a bancada, Cassius sequer tentou impedir. Vasos foram empurrados para o lado sem cuidado, terra caindo no chão, pequenas destruições que ele ignorou completamente. Nada daquilo importava. Nada fora dela importava. Ele a colocou sentada sobre a bancada com um cuidado que contrastava com o caos ao redor, as mãos firmes sustentando-a como se ela fosse algo precioso demais para cair, mesmo ali, sobre terra e folhas espalhadas. O contato fez a eletricidade percorrer o corpo dele de forma quase dolorosa. Cassius sentiu como se cada nervo estivesse em alerta, como se a presença dela despertasse algo que sempre esteve ali, mas nunca tivera permissão para existir. A estufa parecia reagir junto: flores se abrindo mais, folhas tremulando sem vento, o ar pesado de vida e sensação. E dentro dele, um turbilhão que ele já não tentava controlar. — Se dependesse só de mim… — Murmurou contra os lábios dela, a voz baixa, carregada de algo perigosamente próximo de um sorriso — Eu ficaria aqui com você. — O pensamento se expandiu rápido demais. A ideia do dormitório vazio, do retorno à rotina sem ela, pareceu subitamente insuportável. A estufa, bagunçada e viva, parecia um lugar melhor. Um refúgio improvável. Um lar temporário. — Talvez… — Acrescentou, quase brincando, quase sério demais — Esse lugar pudesse ser nosso chalé. — O trovão que respondeu foi violento, fazendo o vidro vibrar e a luz rasgar o espaço por um segundo inteiro. Cassius sentiu o impacto atravessar o corpo, o aviso claro e furioso vindo do céu. Júpiter estava atento. Desaprovando. Reclamando aquilo que acreditava lhe pertencer. Mas Cassius não se afastou. Pelo contrário, apertou Eysan mais forte contra si, como se aquele gesto fosse uma declaração silenciosa de desafio. Pela primeira vez, ele conseguiu ignorar completamente as vozes na própria cabeça — as ordens, as expectativas, o peso do nome do pai. Tudo desapareceu diante da urgência simples e crua de beijá-la de novo. — A gente não precisa parar mais. — Murmurou, antes de voltar à boca dela. — Nunca mais. — O beijo retomou mais intenso, mais seguro. Não havia dúvida agora, apenas vontade. Cassius a segurava como se tivesse medo de que ela desaparecesse se afrouxasse o toque, encaixando o corpo contra o dela, sentindo cada reação, cada suspiro. As mãos dele se moviam com uma mistura de reverência e desejo, como alguém que descobria algo belo demais para tratar com descuido. Ele estava maluco por ela. A constatação não trouxe pânico. Trouxe calma. Um tipo estranho de paz no meio da tempestade. Enquanto a chuva castigava o mundo do lado de fora e os trovões continuavam a rugir no céu, Cassius se permitiu ficar ali, inteiro naquele momento, apaixonado de uma forma que jamais pensou ser capaz.
De repente, Cassius sentiu a armadura pesar como nunca antes. Não era apenas o couro úmido pela umidade da estufa ou o metal escondido sob as camadas que puxava seus ombros para baixo — era o que ela representava. Dever. Função. Expectativa. O homem que o mundo exigia que ele fosse. Ali, com Eysan entre os braços, aquela couraça parecia errada. Estranha. Como se não pertencesse àquele momento, àquela versão dele que finalmente respirava sem ordens sussurradas ao ouvido. Ele não queria ser sentinela. Não queria ser o filho de Júpiter. Queria ser apenas o homem que ela merecia — e queria — agora. Com um gesto lento, quase solene, Cassius levou as mãos às fivelas de couro. Afrouxou uma, depois outra, até que a armadura cedeu e ele a deixou escorregar pelos ombros, abandonando-a sobre o chão de terra da estufa. O alívio foi imediato, profundo, quase chocante. Era como se tivesse despido algo que fazia parte dele há tempo demais. Vulnerável, exposto e, ainda assim, sem medo algum. Os lábios dele voltaram a encontrar os dela, mas desta vez desceram, lentos, pelo canto da boca até o pescoço. Cassius beijou a pele de Eysan com uma intensidade contida, quente, como se quisesse memorizar cada detalhe, cada arrepio que sentia sob os próprios lábios. A mão deslizou pela lateral do corpo dela até a coxa, firme, presente, explorando com uma intimidade que fez seu próprio fôlego falhar. — Eysan... — Murmurou contra a pele dela, a voz baixa. — Você está me deixando maluco. — O calor subiu rápido demais, espalhando-se pelo corpo dele até tornar a camiseta fina um incômodo. Cassius se afastou apenas o suficiente para puxá-la por cima da cabeça, jogando o tecido para qualquer canto esquecido da estufa. O abdômen definido ficou à mostra, marcado por cicatrizes que contavam histórias demais, inclusive aquela que ela havia cuidado na noite anterior. O peito dele subia e descia de forma visível, o corpo ainda reagindo aos beijos, à proximidade, ao desejo que não dava trégua. Cassius segurou a mão de Eysan com cuidado e a guiou lentamente por seu próprio corpo, fazendo-a deslizar pelos músculos tensos do abdômen até parar exatamente onde a cicatriz repousava. Ali. Onde ela o tocara antes. Onde tudo começara a sair do controle. — Você não faz ideia… — Disse, inclinando-se para deixar beijos suaves enquanto falava, a boca traçando um caminho quente pela pele dela — Do quanto foi difícil resistir a você naquela enfermaria. — Outro beijo. Mais lento. Mais carregado.
Cassius manteve a mão sobre a dela por mais um segundo, sentindo o calor compartilhado entre suas peles, antes de erguer o rosto e encará-la com uma intensidade que já não tentava esconder. Os olhos claros estavam diferentes. Não havia cálculo. Não havia defesa. — Desde ontem à noite… — Começou, a voz mais baixa, mais crua do que ela já tinha ouvido — Eu não consegui tirar você da cabeça. — Ele voltou a beijá-la enquanto falava, lento, quente, deixando que as palavras se misturassem aos toques. As mãos dele desceram pelas coxas dela com firmeza, apertando devagar, explorando cada reação, cada suspiro que escapava dos lábios dela. O corpo dele se inclinava mais contra o dela, como se cada centímetro de proximidade fosse necessário. — Quando você me tocou… ali na enfermaria… — Murmurou entre beijos no canto da boca dela, descendo pela mandíbula — Eu soube que tinha acontecido alguma coisa diferente. — Outro beijo. Mais lento. Mais intenso. — Eu só não quis admitir. Porque eu não podia. — A mão dele subiu pelo pescoço dela, segurando de leve, não como domínio, mas como necessidade — como se quisesse sentir a pulsação ali, confirmar que ela estava tão viva quanto ele se sentia naquele instante. — Pela primeira vez em anos… — Os lábios dele roçaram os dela novamente — Eu fiquei ansioso para voltar ao acampamento. Não por ordens. Não por relatórios. Por você. — Cassius apertou-a contra si outra vez, a respiração pesada, o peito subindo e descendo contra o corpo dela. — Eu fiquei com medo de você não ter sentido nada. De eu ter sido só mais um paciente entre dezenas que você cuidou naquela noite. — Ele riu baixo, quase incrédulo. — Mas eu… eu fiquei desejando o seu toque. Não como cuidado. Não como curandeira. — O polegar dele deslizou pela mandíbula dela, depois pelos lábios, devagar. — Eu desejei o seu toque do jeito mais bonito e mais gostoso que uma mulher pode querer tocar um homem. — Os beijos voltaram, agora mais lentos, mais cheios de intenção, como se cada um fosse uma confirmação daquilo que ele dizia. — Você é tudo que eu nunca pensei que fosse querer… — Confessou, a testa encostando na dela por um instante antes de descer a boca novamente para os lábios. — Forte. Doce. Corajosa demais para alguém que vive cercada por morte. Linda de um jeito que me tira o ar. Inteligente. Viva. — A mão dele voltou a percorrer as pernas dela, subindo devagar enquanto a outra permanecia firme em sua nuca, segurando-a perto. — Você é livre de um jeito que eu invejo. E é a única pessoa que conseguiu me fazer querer ser mais do que o que esperam de mim. — Cassius a beijou outra vez, profundo, inteiro, sem reservas. — Eu estou louco por você, Eysan. E não é só desejo. Não é só isso aqui. — Ele encostou a testa na dela novamente, respirando junto. — É você. — Cassius manteve a testa encostada na dela por alguns segundos depois do último beijo, a respiração ainda pesada, os lábios próximos o bastante para que qualquer palavra nascesse quente entre eles. A tempestade lá fora parecia não dar trégua. A Ilha nunca dava. Ele sabia. Sabia que qualquer relacionamento dentro daquele acampamento era quase um desafio ao destino. Missões davam errado. Profecias surgiam do nada. Monstros atacavam sem aviso. Um passo em falso e alguém deixava de voltar. Gostar de alguém ali não era simples, era perigoso. Era abrir um ponto fraco num mundo que se alimentava de fraquezas. Cassius deslizou os dedos devagar pela lateral do rosto dela, depois pelo pescoço, como se precisasse reafirmar que ela ainda estava ali. — Não importa até quando isso dure. — Ele a puxou para mais perto uma última vez, firme, decidido. — Seja por um dia. Por um mês. Ou até o céu decidir nos separar. — O beijo que veio em seguida foi diferente. Menos urgente, mais profundo. Como se estivesse selando uma escolha. — Vai continuar sendo você.
A filha de Perséfone nem pensou em hesitar quando sentiu seu corpo ser erguido e colocado com extrema facilidade em cima da bancada da estufa. Nunca imaginou que aquele espaço poderia ser tão útil para alguma coisa além de apoiar vasos quando necessário. Ainda bem que haviam investido em uma peça de tamanho grande e resistente. Seus braços ainda envolvendo o pescoço de Cassius e uma de suas mãos agora acariciavam o rosto dele com delicadeza e cuidado, conforme ela tentava se concentrar nas palavras alheias, por mais que o coração disparado e o corpo em chamas quisessem apenas voltar a beijá-lo novamente. Um sorriso automaticamente apareceu nos lábios de Eysan quando ele mencionou a possibilidade da estufa se tornar o mesmo que um chalé para eles. Ela escutou o trovão, sentindo que estava tão violento que poderia derrubar a estufa em breve, mas não era tão poderoso quanto o que ela sentia. Portanto, não se importou. Apenas retribuiu a necessidade de proximidade de Cass e trouxe o rosto dele para perto para poder selar os lábios mais uma vez. "Eu ia gostar disso... Muito." Murmurou contra os lábios dele, sem esconder o sorriso bobo. Afinal, como havia acabado de dizer, ela não sabia se ia ser capaz de parar agora que havia tido a certeza do que estava sentindo. Retribuiu o novo beijo com a mesma intensidade. Sua mão deslizou do rosto alheio e se encaixou na nuca de Cassius, enquanto a outra ainda explorava as costas e ombros do semideus, mesmo que a armadura atrapalhasse um pouco o que ela realmente queria fazer.
Cass pareceu perceber isso também, pois quando Eysan abriu os olhos após o beijo, ela o observou abrindo as fivelas da armadura. A morena apoiou suas mãos na bancada e se inclinou com a cabeça levemente para o lado. O som metálico das peças tocando o chão ecoou pelo ambiente da estufa, quando ele ficou sem a armadura e camiseta, a semideusa mordeu o próprio lábio inferior, quase sem perceber. Pelos deuses. Não seria uma invasão de monstros, nem tempestade, nem trovão, nem maldição alguma. Era Cassius. Ele iria matá-la. De desejo. De paixão. Fechou os olhos novamente para aproveitar os beijos em seu pescoço. Sentiu aquele arrepio delicioso descer por sua espinha. Afastou os cabelos escuros para um dos lados, oferecendo mais espaço, permitindo que ele a explorasse da maneira como quisesse. Se Eysan o estava deixando maluco, ele definitivamente não fazia ideia do que ele estava fazendo com ela. A mão que ele tinha posicionado sobre o abdômen definido agora deslizava pela cicatriz feita pelo corte do Leão. Eysan havia passado a noite inteira preocupada se a pomada cicatrizante realmente fizera efeito e se tinha conseguido deixá-lo forte o bastante para mais uma batalha. Mesmo cuidando dos outros semideuses, era impossível não pensar se Cassius voltaria vivo no dia seguinte. Se voltaria para ela. Tê-lo ali, agora, vivo, dizendo aquelas coisas, tocando-a daquela maneira, era surreal. Da melhor forma possível. Era tudo o que ela desejara acontecendo ao mesmo tempo.
Ainda em silêncio, a turca correspondia aos beijos na mesma intensidade proposta por Cassius. Estava chegando ao pico de sua excitação por ele. O coração disparado contra o peito. Sua pele se arrepiava enquanto, paradoxalmente, o corpo queimava sob o toque dele. A boca entreaberta buscava ar, enquanto ela tentava manter o mínimo de foco para escutar cada palavra que ele dizia, deixando-as guardadas eternamente em sua memória. Eram as palavras que ela desejara ouvir durante toda a noite anterior. Será que o filho de Júpiter tinha alguma noção do poder que tinha sobre ela? Sorriu, por fim, erguendo os olhos para Cassius e segurando o rosto dele, perto do seu. "Tudo que eu quis desde ontem à noite, é que você voltasse para mim e cumprisse a nossa promessa, Cass." Ela murmurou, deslizando a mão até a nuca dele e passando as unhas levemente pela pele, em um gesto praticamente inconsciente de carinho. "Porque, no momento em ficamos sozinhos ali, eu tive a certeza de que estava perdida para sempre." Ela riu baixinho e brevemente, apenas buscando espelhar a felicidade que estava sentindo naquele momento. "Eu queria te beijar, te tocar, te conhecer de todas as maneiras possíveis. Nunca senti essa conexão com ninguém." Encostou a testa na dele e abaixou os olhos, como se estivesse confessando um segredo perigoso para ser dito em voz alta. "Não pensava que era possível isso... Se apaixonar ao primeiro contato." Mordeu o lábio inferior novamente, escondendo o sorriso bobo que aparecia em sua boca. As plantas ao redor pareciam observá-la curiosa enquanto se declarava, compartilhando da ansiedade de sua dona e reagindo à intensidade das emoções da filha de Perséfone. "Mas você me mostrou que sim." Completou, erguendo seus olhos para ele novamente. Encará-lo naquele momento apenas parecia confirmar tudo o que sentia. Queria ficar para sempre embaixo daquele olhar. "Você também é tudo que eu ainda não sabia que precisava. Todos os meus dias aqui tem sido incompletos e eu pensava que era apenas o fato dos mistérios que me trouxeram até essa ilha, mas o que eu precisava era encontrar você, filho de Júpiter." Afirmou, com toda a sinceridade de seu coração. Ela se sentia completa pela primeira vez na vida. Ceylan sabia que as coisas a partir daquele momento não seriam fáceis para eles. Nem estava pensando apenas no fato de Júpiter querer amaldiçoá-la, mas que a invasão dos monstros na noite anterior era um aviso de que as coisas iriam se complicar. Eles seriam colocados em missões fatais que poderiam separá-los para sempre, os inimigos poderiam se aproveitar daquela paixão para atingi-los. O destino era o maior inimigo dos semideuses. Ainda assim, viver aquele momento fazia tudo valer a pena. E depois de tudo o que ele dissera, Eysan tinha certeza de que ele sentia o mesmo. "Estou disposta a tudo com você, Cass."
Seus olhos se fixaram aos dele talvez da forma mais segura e intensa daquele dia. Estava certa de que era com o filho de Júpiter que ela queria ir até o final. Mais segura do que nunca, afastou o seu tronco do dele por um segundo, apenas o suficiente para poder levar a mão até o primeiro botão da camisa que estava usando na enfermaria e abri-lo. Seguiu para o segundo botão, erguendo seus olhos para ele no mesmo instante. Os dedos deslizaram com calma pelos outros botões, ainda que um leve tremor denunciasse a intensidade do momento. Enquanto abria cada um de seus botões, todo o medo do futuro também ia por terra. Em todas as lutas que teriam dali para frente, queria estar com ele, mesmo que o fim estivesse próximo. E se tivessem apenas aquele dia... Fariam tudo que queriam. A camisa começou a se abrir o suficiente para revelar mais das curvas do seu corpo e deixar seu sutiã de renda a mostra. Seria a primeira vez que Cassius também veria suas tatuagens*. Algumas delas escondiam cicatrizes que a curandeira também tinha de batalhas que precisou enfrentar em seus anos de semideusa, como aquela acima de suas costelas.
Eysan não desviou o olhar de Cassius enquanto abaixava a camisa e a deixava cair na bancada. Aproximou-se novamente, reduzindo o espaço entre eles até que seus corpos se tocassem outra vez. Seus dedos, agora livres, deslizaram pelo peitoral de Cassius com lentidão. Dessa vez, ela estava aproveitando o calor sob sua palma e o fazia como se quisesse memorizá-lo. A ponta dos dedos traçou o desenho dos músculos até alcançar a cicatriz outra vez. Ergueu seus olhos para o filho de Júpiter novamente. "Eu não quero te tirar das suas responsabilidades. Sei do nosso destino." Disse, segundos antes de seus lábios tocarem a mandíbula de Cassius, em seguida desceu para logo abaixo da clavícula, em um beijo demorado e quente. Desceu devagar, espalhando beijos pelo peito dele, enquanto sua mão esquerda deslizava pelas costas definidas de Cassius. Quando sua boca alcançou o centro do peito dele, apoiou a mão ali, sobre o coração. Sentiu o ritmo forte sob a palma e afastou-se para poder erguer o rosto para ele novamente. "Mas hoje quero dar preferência a como o seu coração bate quando está comigo." Deixou mais um beijo ali, antes de traçar o caminho até a boca novamente. Os dedos de Eysan deslizaram até a nuca dele outra vez, firmes. "Porque, se o nosso mundo acabar amanhã, sei que eu não vou me arrepender de nada disso." Completou, segundos antes de puxá-lo para um novo beijo. Extremamente intenso e delicioso, que a fazia querer suspirar. Se amar era algo que uma semideusa nunca deveria fazer, ela seria a mais rebelde de todas, pois Eysan queria se entregar completamente à Cassius e ao sentimento que a fazia queimar e tremer ao mesmo tempo.
Com o fogo reacendendo em seu corpo, Eysan não perdeu mais tempo e aproveitou a proximidade entre eles para abrir um pouco mais as pernas, criando espaço suficiente para puxá-lo ainda mais contra si. Precisava sentir aquela pressão e o encaixe perfeito que fazia seu corpo inteiro reagir. Levantou sua perna direita e a circundou na cintura dele, para pressioná-lo mais contra seu corpo. O movimento diminuiu qualquer distância que ainda restava. O contato arrancou da turca um suspiro contra os lábios dele, a respiração falhando por um segundo. Mas não perdeu tempo antes de iniciar um novo beijo. Sua boca voltou à dele imediatamente, faminta e desesperada, querendo reafirmar tudo que tinha acabado de confessar um para o outro. Inclinou-se para trás aos poucos, sentindo o frio da bancada tocar suas costas nuas. Seu cabelo escuro se espalhou pela pedra e Eysan trouxe Cassius junto dela. O corpo dele encaixado ao seu a aqueceria novamente. Precisava dele ali. Sobre ela. Com ela. Seus lábios roçaram o maxilar dele, descendo até perto da orelha. "Eu sou sua, amor." Sussurrou, com sua voz carregada de desejo. Suas mãos desceram pelas costas dele outra vez. Queria deixar claro para o filho de Júpiter o quanto queria estar com ele. "Seja por um dia. Por um mês. Ou até o céu decidir nos separar..." Repetiu as palavras dele. "De hoje em diante, toda e apenas sua."
Cassius ouviu cada palavra dela como se fossem passos dados em terreno instável — não porque fossem frágeis, mas porque mexiam em tudo o que ele mantinha cuidadosamente alinhado dentro de si. Quando Eysan se aproximou, o mundo pareceu encolher. Ele a viu antes de pensar nela. Viu o modo como a luz filtrada pela estufa desenhava sombras suaves no rosto dela, como o contraste entre a postura antes mais expansiva e aquele momento mais contido só a tornava mais bonita. Mais real. Havia algo na forma como ela se movia — como se não tivesse medo de ocupar espaço, de sentir, de existir — que o desarmava por dentro. Cassius não estava acostumado a reparar assim em alguém. Não com esse cuidado quase reverente. Não com essa consciência dolorosa de cada detalhe. Ela estava perto demais. Perto o suficiente para que ele sentisse o calor do corpo dela atravessar o espaço mínimo entre os dois. Perto o suficiente para que a respiração dela se misturasse à sua, bagunçando o ritmo que ele tanto se esforçava para manter. Ele quis fechar a distância. Quis tanto que os dedos chegaram a se contrair ao lado do corpo, como se o impulso tivesse vida própria. Imaginou, contra a própria vontade, como seria ceder por um segundo. Um momento roubado da vigilância constante, do peso do céu, das expectativas que carregava desde sempre. E depois? O dia seguinte veio rápido demais à mente. Ele passando por ela no acampamento. Os olhares que teriam de fingir normalidade. As perguntas silenciosas. O risco de algo que não poderia simplesmente ser deixado para trás. E se ela acordasse arrependida? E se aquilo significasse mais para ele do que para ela? Quando Eysan falou da própria paixão pela vida, Cassius sentiu o estômago se revirar de um jeito estranho, quase agressivo. A imagem dela apaixonada — rindo, vivendo, sentindo tudo intensamente — sempre fora algo que ele admirara. Mas, naquele instante, uma pontada inesperada se instalou em seu peito ao imaginar que essa paixão pudesse um dia ter outro nome. Outro rosto. Outro alguém que não fosse ele. Ciúmes. O reconhecimento veio silencioso e incômodo.
Ele era um soldado. Fora moldado para obedecer, para carregar responsabilidades que não escolheu, para aceitar expectativas como verdades imutáveis. Viver sempre fora algo secundário. Sobreviver, cumprir, proteger — isso ele sabia fazer. Eysan, ao contrário, parecia feita de abertura. De possibilidades. De uma liberdade que ele não se permitia nem sonhar em voz alta. Houve um instante breve e perigoso em que Cassius sentiu inveja. Não amarga, mas profunda. Inveja da forma como ela sentia. Da coragem que tinha de perguntar, de se aproximar, de colocar o coração à frente mesmo sem garantias. E, ao mesmo tempo, uma vontade quase dolorosa de viver tudo aquilo com ela. O trovão distante ainda parecia ecoar dentro dele. Júpiter. O nome não precisava ser dito para pesar. Cassius sentiu a presença do pai como sempre sentira: não como carinho, mas como medida. Como limite. Como lembrete de que amor nunca fora o seu forte — e talvez nunca devesse ser. Amor distraía. Amor criava pontos fracos. Amor fazia soldados hesitarem. Ainda assim ali estava ele. Parado. Sentiu o calor do corpo dela tão perto que era impossível fingir indiferença. Os olhos dele desceram outra vez para os lábios dela, traindo cada pensamento que ele tentava organizar. Seus dedos se fecharam lentamente ao lado do corpo, como se precisassem de algo sólido para ancorá-lo. — Eysan… — A voz saiu mais baixa do que ele pretendia. Rouca. Ela o estava desafiando. Não de forma agressiva. Mas do jeito mais perigoso possível: pedindo que ele escolhesse a si mesmo. — Você fala como se tudo fosse simples — Disse, por fim, a voz baixa, controlada à força. Deu um meio passo para trás — não para fugir, mas para respirar. Para lembrar quem era. O soldado retomou parte do espaço, ainda que o homem não tivesse ido embora. — Eu passei a vida inteira seguindo ordens. — Continuou, sério, honesto demais para o próprio conforto. — Carregando expectativas que nunca foram minhas. E você… — Fez um gesto breve em direção à estufa, às plantas, a ela — Você parece viver como se o amanhã fosse algo a ser descoberto, não temido. — Havia admiração ali. E algo mais perigoso. — Parte de mim quer… — A frase morreu antes de nascer. Ele cerrou o maxilar, respirou fundo, desviando o olhar por um segundo como se o céu ainda pudesse vê-lo através do vidro. — Quer esquecer tudo isso por um momento. — Voltou a encará-la. Firme. Dividido. — Mas eu não sei o que isso custaria. Para você. Para mim. — E, mesmo com este pensamento, ele não foi embora. — É só que é... complicado. — Ficou ali, à distância de um passo mal calculado, os olhos presos nos dela, o coração batendo forte demais para um homem que sempre acreditara que controle era tudo o que precisava. Cassius ergueu o olhar para encontrar o dela. Havia ali expectativa, coragem, vulnerabilidade. Nada de joguinhos. Nada de manipulação. Apenas verdade. Aquilo quase o quebrou. — Você acha que eu não sinto? — Perguntou, finalmente, num tom controlado à força. — Que eu não penso nisso desde a noite passada? O problema é que eu fui treinado para ignorar essas coisas. — Continuou. — Para colocar dever acima de tudo. Emoção acima de nada. Meu pai… — Engoliu em seco. — Júpiter não vê isso como virtude. Vê como fraqueza. Como distração. Como algo que tira homens do caminho. — O trovão distante pareceu responder à lembrança, ainda que mais fraco agora. Cassius fechou os olhos por um breve instante e, quando os abriu, havia neles algo diferente. Não rendição. Não negação. Conflito puro. — Tudo em mim diz para ir embora. — Confessou, num sussurro. — Mas tudo o que eu sou… quer ficar. — Os olhos dele buscaram os dela, intensos, sinceros, carregados de uma vontade contida que já não conseguia mais esconder. — Tudo o que eu quero fazer… — Murmurou, quase inaudível, traído pela própria sinceridade — É algo que eu não aprendi a lidar. — Cassius deu um passo à frente. Não foi decidido. Não foi planejado. Foi como se o próprio corpo tivesse tomado a frente antes que a mente pudesse erguer mais uma muralha.
A distância entre eles diminuiu até se tornar quase inexistente, e ele se viu preso ao rosto dela com uma atenção que beirava a reverência, como se estivesse memorizando algo que temia perder. Os olhos primeiro. Escuros, vivos, cheios daquela intensidade tranquila que sempre o desarmava. Depois o desenho do nariz, delicado, firme. A curva da boca, que ele já conhecia demais para alguém que nunca havia tocado. O jeito como o cabelo dela caía, rebelde, moldando o rosto de uma forma que fazia seu peito apertar de um jeito perigosamente doce. Ele estava perto demais agora para fingir que aquilo era apenas curiosidade. A chuva do lado de fora parecia responder à aproximação. O som contra o vidro da estufa ficou mais forte, mais urgente, como se o céu estivesse perdendo a paciência. Cada gota parecia marcar o tempo que ele estava gastando ali — tempo que deveria pertencer às rondas, às ordens, às responsabilidades. Mas Cassius não se afastou nem um centímetro. Por dentro, hesitava. Por fora, permanecia. Ele pensou em tudo o que gostaria de fazer — não em gestos grandiosos, não em promessas impossíveis, mas em coisas simples demais para alguém como ele admitir. Gostaria de ficar ali. De dividir o silêncio. De sujar os dedos de terra ao lado dela, mesmo sem saber direito como ajudar. Gostaria de limpar as vidraças embaçadas pela chuva só para ter uma desculpa de permanecer mais alguns minutos. Gostaria de ouvir a voz dela falando de plantas, de ciclos, de vida… e fingir, nem que fosse por um instante, que o mundo lá fora não existia. A constatação veio clara demais para ser ignorada: Ele estava apaixonado. O reconhecimento fez seu estômago afundar — não de medo, mas de verdade. E como se o céu tivesse ouvido, um trovão muito mais forte rasgou o ar, vibrando no vidro da estufa com violência suficiente para fazê-lo engolir seco. Um aviso? Um castigo antecipado? Ou apenas a lembrança cruel de que nada, absolutamente nada, jamais seria simples para ele?
Cassius fechou os olhos por um segundo breve demais para ser notado. Quando abriu, a decisão ainda não existia por completo — mas a escolha de ficar, sim. — A verdade é que eu… — Começou, a voz baixa, controlada à força — Eu ficaria feliz em ajudar no que você precisar. — Os olhos não deixaram os dela. — Desde que eu esteja aqui com você. — Com cuidado quase cerimonial, ele levou a mão até a flor que ela ainda segurava. Seus dedos tocaram os dela por um instante inevitável — quente, consciente, escolhido. Pegou a flor com delicadeza, aproximou-a do rosto e inspirou seu perfume lentamente, ainda olhando para Eysan por cima do botão, escondendo um pequeno sorriso que ele não tentou disfarçar totalmente. Então, sem pedir permissão, mas, também sem pressa, levou a flor até a orelha dela. Ajeitou uma mecha de cabelo para encaixá-la ali. Foi o primeiro toque intencional desde a noite anterior. Os dedos dele permaneceram ali por um segundo a mais do que o necessário, como se precisassem confirmar que aquilo era real. Que ela estava ali. Que não tinha recuado. Cassius retirou a mão devagar, o olhar sério outra vez, mas diferente. Mais exposto. — Você sabe que nada disso é simples pra mim. — Confessou em voz baixa. — Esquecer das ordens. Responsabilidades. Do meu pai… — O trovão distante ainda ecoava, mas ele não desviou o olhar dessa vez. — Mas… — Respirou fundo — Fingir que isso não existe também não é. — E ali, a poucos centímetros dela, com a chuva castigando o mundo do lado de fora e a estufa respirando vida ao redor, Cassius permaneceu. Dividido. Incapaz de ir embora mesmo sabendo que o preço, um dia, poderia ser alto demais.
Cassius ergueu a mão com uma lentidão quase solene, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar aquilo que estava se formando entre eles. Os dedos tocaram primeiro o ar, depois a pele — deslizando pelo contorno do rosto de Eysan com um cuidado que o surpreendeu tanto quanto a ela. Era um gesto carinhoso, íntimo, de alguém que jamais aprendera que podia ser assim. O polegar roçou a linha da mandíbula, subiu até a maçã do rosto, como se ele estivesse tentando gravar aquela sensação na memória, junto com cada traço dela. Era ali. Naquele lugar. Naquele momento. A pergunta que ela fizera ainda ecoava dentro dele — o que você quer fazer comigo, aqui e agora? — e, pela primeira vez, a resposta veio clara, cristalina, sem ordens interferindo, sem listas de deveres, sem o peso do céu esmagando seu peito. Ele queria beijá-la. Queria sentir a maciez da boca dela, confirmar que aquilo tudo era real, que não estava inventando aquela tensão, aquele puxão quase físico que o mantinha ali. Queria se permitir, nem que fosse só por aquele instante roubado do mundo. — Filha de Perséfone... — Murmurou, a voz baixa, rouca, como se dizer aquilo em voz alta fosse atravessar um limite invisível. O polegar dele desenhou um pequeno arco na pele dela, como se pedisse permissão sem precisar das palavras. — De todas as coisas que eu quero fazer com você, aqui e agora, todas elas terminam em sua boca. — A distância entre eles desapareceu aos poucos. Cassius aproximou o rosto, sentindo a respiração dela se misturar à sua outra vez, quente, familiar demais para alguém que ele mal ousava chamar de mais do que amiga. Os lábios dele encontraram os dela com calma, sem pressa, como se estivesse saboreando algo que esperara tempo demais para provar. O beijo foi suave no começo, cuidadoso, mas carregado de uma intensidade contida, daquelas que só nascem da espera. Havia ternura e necessidade misturadas ali; a maciez da boca dela contra a sua fez o mundo perder contorno por um instante, e Cassius sentiu o peito se expandir, como se finalmente tivesse espaço para respirar. As mãos dele permaneceram firmes, uma no rosto dela, a outra pousada com respeito na cintura, sustentando o momento como quem sustenta algo precioso demais para ser apressado.
Então, outro trovão, só que este explodiu perto demais. A claridade tomou a estufa inteira, branca e violenta, seguida de um estrondo que fez o chão parecer vibrar. O som foi tão próximo que Cassius perdeu o fôlego. Instintivamente, afastou a boca da dela apenas o suficiente para respirar, o peito subindo e descendo de forma tensa, os olhos arregalados por um breve instante. O aviso era claro demais para ser ignorado. Ele ergueu o olhar por um segundo, como se o céu estivesse ali, dentro da estufa, observando. Aquilo deveria ter sido suficiente para fazê-lo reconsiderar. Mas não foi. Cassius voltou o olhar para Eysan, buscando nos olhos dela respostas — ou permissão. Talvez um sinal de medo. Talvez arrependimento. Então, ele negou levemente com a cabeça, um gesto pequeno, decidido. Não dessa vez. — Eu não vou fugir — Disse baixo, quase como um juramento quebrado aos céus. — Não mais. — Então, num ímpeto que vinha do fundo do peito, apertou os lábios contra os dela novamente. O segundo beijo foi diferente: mais profundo, mais intenso, carregado de tudo o que ele tentara conter. Havia urgência ali, mas também escolha. Cassius beijou Eysan como quem finalmente aceita o próprio coração — com cuidado, com desejo, com uma entrega silenciosa que não precisava de palavras. O mundo podia desabar lá fora; naquele instante, ele escolheu ficar. Com ela.
Dessa vez, Eysan optou por ouvir tudo em silêncio. Ainda assim, seu coração estava gritando. Batia forte como se fosse pular de seu peito, desesperado para saber qual seria a resposta que teria de Cassius. Por mais que fosse fazer o seu melhor para se manter madura diante de uma negativa e não demonstrar o seu real sentimento na frente dele, ela sabia que não conseguiria continuar o trabalho na estufa. Seria obrigada a sair correndo para o seu chalé e se acabar em lágrimas por lá, de tão intensa que havia sido sua conexão com o filho de Júpiter. Ela se considerava uma pessoa tranquila e já tinha passado por alguns casinhos breves durante o tempo no Acampamento Meio Sangue, porém nada tinha sido tão forte quando o que sentiu na noite passada. Estranho, talvez, se pensassem que sequer se conheciam tão bem, mas a filha de Perséfone agora estava tendendo a acreditar que estava nisso a beleza da coisa toda. Ela havia se conectado com ele de uma maneira intensa e genuína. Daquela forma que os filmes fazem parecer que é impossível de acontecer na vida real. Daquela forma que era uma vez e nunca mais. Seria um baque se ele não estivesse sentindo o mesmo. Ainda assim, Eysan seguia em frente ao loiro. Seus olhos fixos nele, enquanto começava a escutar as primeiras palavras e ignorar todo o restante lá fora. Júpiter que lançasse uma maldição contra ela no dia seguinte... Mas agora ela não se importava com nenhum de seus trovões.
A princípio, pensou que tudo estaria perdido. Ele tinha se afastado um passo e novamente colocava vários poréns na situação em que estavam vivendo, o que já estava sendo suficiente para Eysan pensar que era uma completa boba e que ele não sentia nada por ela. No entanto, como se estivesse lendo seus pensamentos, Cassius continuou. Os olhos da turca, que antes começavam a apagar o brilho, pareciam agora reluzir três vezes mais. Afinal ele estava dizendo que sentia. Que esteve pensando nela desde a noite anterior! O problema estava nos deveres de semideus. Poderia parecer que Eysan não entendia, mas ela sabia que estavam fadados ao fracasso. Em algum momento, algum missão terrível iria levá-los ao fim, mas isso aconteceria de qualquer forma e era nisso que estava o ponto. Ela não queria passar sua breve vida sem poder viver aquele sentimento. E esperava, mais do que tudo, que Cassius entendesse isso. Ela estava ali, tão vulnerável como ele, lidando com aquele sentimento e indo contra as regras tanto quanto ele... Just a girl standing in front of a boy asking him to love her.
Quando ele voltou a se aproximar, Eysan prendeu a respiração. Ninguém nunca a tinha olhado daquela forma. Cassius parecia observá-la como se fosse a mulher mais linda do mundo. Algo que ela nunca pensou ser, mas estava sendo extremamente delicioso experimentar a sensação. Esperava que ele estivesse experimentando o mesmo, pois a semideusa também o achava tão atraente que era difícil manter qualquer linha de raciocínio perto dele... Tanto que já tinha perdido várias vezes apenas naquele encontro. E a cada segundo que passava, ela apenas se sentia ainda mais presa naquele poder que Cassius tinha. Não queria a companhia ou ajuda de mais ninguém. Queria apenas que ele ficasse. Assim como precisava de ar para viver, precisava que ele ficasse. Então fica comigo. Respondeu mentalmente a confirmação do filho de Júpiter de que ele queria continuar ali com ela, enquanto seus olhos seguiam os gestos dele. Deixou que ele pegasse a flor que ela segurava, colorida e perfumada, espelhando todo o sentimento de Eysan por Cassius. Ela sorriu quando ele sorriu, tão genuína quanto, pois estava sentindo a emoção da paixão recíproca. Novamente, aquele sentimento que ela pensou que só existiam nos filmes. O toque em seu cabelo a fez estremecer levemente. Depois foi o dedo em sua mandíbula. Eysan até fechou os olhos por um momento. Se Cassius soubesse o quanto ela estava desejando por ele naquele momento e o poder que tinha ao fazer as mínimas coisas, não brincava daquela forma. Conforme ele subia o toque pelo seu rosto, ela institivamente se aproximou mais. O corpo agora estava mais quente do que nunca, apesar dos arrepios. "Hm..." Ainda de olhos fechados, perdida na sensação, ela respondeu o chamado dele, para ser positivamente surpreendida com a revelação final. Era aquilo que ela queria ouvir. Exatamente isso. Ele reproduzindo tudo o que ela também estava desejando naquele momento. "Então faça, filho de Júpiter."
O momento em que os lábios dele finalmente se juntaram ao seu, fez as pernas de Eysan amolecerem. Mesmo que percebesse toda a delicadeza e suavidade daquele primeiro contato, sabendo que ela também queria apreciar a novidade daquele toque, Eysan ainda sentia a intensidade atravessar seu corpo, afinal naquele beijo, estava a confirmação de algo que vinha crescendo dentro dela desde a noite anterior. Um simples encontro de bocas, delicado e cuidadoso, mas tão significativo. Delicioso. Ela buscou absorver cada milésimo de segundo daquela proximidade. Queria prolongá-lo, gravá-lo para sempre na memória, porque sabia que aquele era um daqueles momentos raros que mudam tudo. Sentia o coração bater mais forte, o peito aquecer, uma sensação nova e ao mesmo tempo assustadoramente boa tomar conta dela. Nunca ninguém a tinha feito se sentir assim antes em um primeiro beijo. Não tinha nada de casual ali. Existia sentimento. E isso mudava tudo. Mas, ao mesmo tempo em que desejava aproveitar a calma daquele primeiro contato, uma urgência crescia dentro do peito. Precisava de mais. Existia sentimento, mas existia também o desejo carnal e ela não escondia o quanto o queria. Quando ele se afastou ao ouvir o trovão, Eysan não se incomodou como da primeira vez na porta. Além de estar absorta no que estava vivendo, toda a explicação que Cassius havia dado minutos atrás, a fez entender o conflito que ele vivia em relação ao que ele sentia e o que o dever de semideus parecia obrigá-lo a fazer. Eysan não queria prejudicá-lo com o pai, e talvez fosse egoísta o que estava fazendo, mas, naquele momento, não conseguia se arrepender. Júpiter não tinha o direito de controlá-lo daquela forma. Quando ele retornou os olhos para ela e Yaprak percebeu algum tipo de questionamento, ela também ergueu sua mão para o rosto dele. "Eu estou com você, Cass." Afirmou, sem hesitar. Eram tempestade e primavera, filho do céu e ela do submundo, mas agora que Eysan havia encontrado aquele sentimento, lutaria por ele. "Não importa o que aconteça amanhã ou depois. Eu estou com você." E então, a escolha dele de não fugir do que sentia foi o que bastou para Eysan saber que ele também estaria com ela.
O beijo então voltou, tão delicioso quanto antes, era verdade, mas dessa vez ela conseguia sentir a urgência. Um suspiro escapou sem querer entre seus lábios quando Cassius a segurou com mais força, e Eysan soube, sem qualquer dúvida, que não era a única a sentir tudo aquilo. Seu corpo inteiro reagiu. Ela sabia que cada parte dele estava esperando exatamente por aquilo. As suas mãos subiram instintivamente, uma permaneceu segurando a lateral do rosto dele, enquanto a outra se perdeu na nuca, entre os fios claros do cabelo macio. Se antes ela estava ignorando todas os sinais da tempestade, agora o mundo inteiro tinha desaparecido, até mesmo as plantas que ela deveria estar cuidando. Para Eysan, só existia Cassius e aquele desejo maluco que ela estava sentindo por ele. Mais do que desejo, na verdade... Paixão maluca. Os lábios da semideusa corresponderam ao beijo de Cassius sem pensar suas vezes. Ela se moveu para aprofundar o beijo, deixando que a respiração ofegante se misturasse à dele e que a proximidade fosse tamanha para que ele pudesse perceber todas as batidas do seu coração. Havia algo quase desesperado na forma como ela o buscava. Em seguida, Eysan deslizou suas mãos novamente, dessa vez para os ombros do filho de Júpiter, que mesmo em partes coberto pela armadura, ela ainda conseguia sentir sua firmeza. Apertou seus dedos ali e sorriu entre o beijo. "Desde ontem a noite, eu estava maluca por você. Completamente maluca." Ela murmurou entre os lábios dele, tirando meio segundo para respirar, antes de morder o lábio inferior de Cassius delicamente e puxá-lo de volta para si, afim de recomeçar um novo beijo.
Movida por um impulso que já não conseguia controlar, Eysan o segurou com mais força e começou a dar pequenos passos para trás, guiando Cassius para um canto mais afastado da estufa. Seus pés esbarraram em um dos vasos pelo caminho e ele tombou no chão com um som alto, espalhando terra pelo piso. Ela nem se importou. Que caíssem todos. Faria as plantas crescerem de novo no dia seguinte mesmo. Naquele momento nada importava além dele. O beijo que a filha de Perséfone iniciou ganhou pressa e vontade, aquele desespero delicioso de quem espera tempo demais por algo. As mãos dela subiram dos ombros para o pescoço de Cassius novamente e os dedos se enroscando levemente nos fios claros de seu cabelo enquanto o puxava para mais perto. Queria sentir que era real, que ele estava ali, que não iria se afastar outra vez. Havia algo no gosto dele que a deixava tonta... No melhor sentido possível. Cada vez que seus lábios se encontravam de novo, Eysan tinha a sensação de estar descobrindo algo completamente novo e mais gostoso. Outro vaso foi derrubado quando ela se encostou cegamente contra uma das bancadas e puxou Cassius para ficar sobre si, mas o barulho se misturou ao som da sua própria respiração acelerada e Eysan praticamente nem escutou. Até porque a estufa inteira parecia girar ao redor deles. As flores reagiam ao que ela sentia sem que precisasse pensar. Pétalas começavam a se abrir, trepadeiras se alongavam pelas paredes. Algumas flores mais leves chegavam a flutuar ao redor dos dois. Era sua fitocinese funcionando no estado mais puro e sincero. Quanto mais o coração disparava, mais a natureza respondia. Apaixonada pela vida... Apaixonada por ele. "Será que podemos ficar aqui para sempre?" Perguntou ao afastar um pouco a boca dele, dando selinhos demorados no canto dos lábios de Cassius. Ainda mantinha seus braços entrelaçados ao redor dele, como se tivesse medo de soltá-lo e tudo desaparecer. "Não quero voltar para o chalé." Não queria se despedir. Não agora que finalmente o tinha tão perto. Talvez Júpiter poderia fazer aquela chuva durar o dia inteiro e Eysan teria a desculpa que esteve se escondendo dela e por isso sumiu. "Quero ficar com você." Ergueu o rosto novamente para encará-lo. Seus lábios agora estavam entreabertos, avermelhados e Eysan o encarava como se fosse a única coisa que ela poderia ver no mundo. "Quero você me beijando até o sol se pôr e depois disso também." Sorriu verdadeiramente, aproximando sua boca novamente da dele. Melosa talvez? Mas a sensação era que esteve segurando todas aquelas palavras por séculos. Sem conseguir se conter, desceu beijos rápidos da boca para o pescoço do semideus. "Você faz minha primavera sair do controle, Cassius." Literalmente. Sussurrou, voltando a encará-lo. Como ele era lindo, pelos deuses. Beijá-lo estava sendo maravilhoso, mas ao mesmo tempo, Eysan agora sabia que estava completamente perdida... No melhor sentido possível. "E eu não sei se consigo parar."
Quando Eysan disse para ele não ir, algo dentro de Cassius simplesmente cedeu. Não foi um pensamento elaborado. Não foi racional. Foi visceral. Um estalo seco, como metal sob tensão rompendo de uma vez. Aquele não — alto, urgente, desesperado demais para ser apenas educação — atravessou todas as defesas que ele havia construído ao longo dos anos. Ele virou o rosto para encará-la no mesmo instante. E então ela disse que precisava dele. Não como se pedisse ajuda. Não como quem delega uma tarefa. Mas como quem confessa algo que não sabe se deveria. Cassius sentiu o impacto no peito, forte o suficiente para roubar-lhe o ar por um segundo. Precisar dele. Aquilo não fazia parte do mundo dele. Ele era útil, eficiente, obediente. Era chamado quando havia perigo, quando algo precisava ser feito sem hesitação. Não quando alguém sentia sua falta. O olhar dela subiu até o dele, e naquele momento tudo o que ele conhecia pareceu perigosamente pequeno. Amor nunca fora seu forte. Júpiter nunca ensinara isso. Nunca tolerara isso. O que Cassius aprendera era disciplina, controle e silêncio. Emoções eram distrações. Afetos eram fraquezas exploráveis. Agora, diante dela, tudo isso parecia insuficiente. E em apenas um segundo, Cassius sentiu o mundo perder a forma conhecida. O dever, as ordens, a Ilha, a profecia… tudo recuou para um plano distante, borrado. Restou apenas Eysan, à sua frente, os olhos arregalados pelo próprio impulso, o rosto corando de vergonha logo em seguida, como se tivesse medo de ter ido longe demais. Ela tentou se explicar. Ele quase não ouviu. Porque dentro dele, algo que sempre esteve adormecido começou a se mover. Não era coragem. Não era força. Era um sentimento sem nome, um território que ele jamais aprendera a mapear. Cassius Lancaster nunca fora treinado para lidar com aquele tipo de precisar. Soldados eram necessários. Ferramentas eram úteis. Pessoas eram recursos. Mas ninguém nunca precisou dele daquele jeito. E isso o aterrorizou. Os olhos dele, traidores, não conseguiram se manter no rosto dela. Desceram sozinhos. Para os lábios. Para o jeito como ela respirava, como se o mundo inteiro estivesse suspenso naquele intervalo mínimo entre eles. Cassius sentiu o próprio corpo reagir antes da mente. Um calor súbito. Uma tensão elétrica percorrendo-lhe os ombros, o peito, as mãos. Teve vontade de beijá-la. Não era um pensamento abstrato. Nem uma curiosidade distante. Era uma vontade concreta, quase física, urgente. A ideia de fechar a distância, de sentir a boca dela contra a sua, foi tão intensa que ele deu um meio passo à frente sem perceber. O rosto dela estava perto demais agora. Muito perto. O cheiro. A presença. A sensação estranha de que, se cruzasse aquela linha, nada voltaria a ser como antes. Cassius não piscou. Não desviou. Por um instante perigosamente longo, deixou que seus olhos dissessem tudo aquilo que ele jamais ousaria verbalizar. O desejo. A confusão. A necessidade de ser visto por ela não como soldado, não como sentinela, não como filho de Júpiter, mas como homem. Quase tocou seus lábios nos dela. Quase.
Então, um trovão cortou o céu como uma lâmina. O som foi alto, profundo, impossível de ignorar. Vibrou no ar, reverberou no peito de Cassius como um aviso ancestral. Ele congelou. O primeiro reflexo foi erguer o olhar para o céu, os músculos tensos, o maxilar travado. Engoliu em seco, sentindo aquele velho peso se assentar novamente sobre os ombros. O lembrete cruel e conhecido: amar era fraqueza. Emoção era distração. Distração levava à morte. Júpiter jamais aceitaria isso. Jamais aceitaria um filho que se entregasse ao sentimento, que permitisse que uma paixão — ainda mais uma grega — interferisse no dever. Cassius fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, como se precisasse se arrancar daquele momento à força. Quando voltou a encará-la, afastou-se um passo inteiro. A distância doeu mais do que ele esperava. — Parece que vai chover — Disse de repente, a voz um pouco mais rápida do que o habitual, quase ríspida. — Dá pra sentir no ar. Melhor entrarmos logo. — Foi uma desculpa simples. Prática. Funcional. Do tipo que ele sempre usava quando precisava reorganizar o próprio caos interno sem dar explicações. Cassius se virou antes que Eysan pudesse responder e atravessou a entrada da estufa primeiro, passos firmes demais para alguém que, segundos antes, quase tinha perdido completamente o eixo. Assim que entrou, seguiu alguns metros à frente e apoiou as duas mãos em uma das bancadas sujas de terra, inclinando levemente o corpo para frente. Respirou. Uma vez. Duas. Três. O cheiro de terra úmida, folhas esmagadas e vida recém-cultivada preenchia o espaço, mas ele não estava ali para apreciar aquilo — pelo menos, não naquele primeiro momento. Precisava baixar o ritmo do coração, alinhar pensamentos, recolocar a armadura invisível no lugar. Controle, repetiu mentalmente. Postura. Dever. Lucidez. Endireitou-se devagar, limpou uma das mãos na lateral da armadura e virou-se para ela já com o semblante recomposto, quase impecável. O soldado estava de volta. Ou, ao menos, tentando estar. — Fique à vontade — Disse, agora com a firmeza conhecida. — Vou ficar de vigia aqui dentro e nos arredores imediatos. Depois da batalha de ontem, não dá pra descartar a possibilidade de algum monstro ter ficado para trás. — Indicou a entrada com um breve movimento de cabeça, como se aquilo fosse apenas mais um posto estratégico a ser coberto. — Você pode cuidar dos seus afazeres tranquilamente. Eu aviso se notar qualquer coisa fora do normal. — Era o discurso perfeito. Distante o suficiente para não levantar suspeitas — nem nela, nem nele mesmo. Mas bastaram poucos minutos para que a atenção de Cassius começasse a escorregar. Não por fraqueza. Por curiosidade. As plantas reagiam a Eysan de um jeito que ele nunca tinha visto antes. Folhas se erguiam levemente quando ela passava. Algumas flores pareciam abrir mais, como se respondessem à sua presença com uma alegria silenciosa. Até o ar parecia mudar, tornando-se mais denso, mais vivo, quando ela se movia entre os vasos. Cassius cruzou os braços, fingindo vigilância, mas seus olhos a seguiam sem que ele percebesse. Não era só ele, então. Não era o único afetado. A constatação veio acompanhada de um pensamento estranho e quase um sorriso interno que ele não se permitiu externar: parecia que ele não era o único que ficava feliz em vê-la. Antes que pudesse se perder demais nessa observação, o som da chuva começou.
A chuva lá fora ganhou corpo rápido demais. Cassius desviou o olhar para o exterior por um instante, observando a água escorrer pelas placas de vidro. Não era uma garoa passageira, daquelas que refrescam o ar e seguem adiante. Era pesada, impiedosa, batendo contra o vidro da estufa como se quisesse lembrar a todos ali dentro que a Ilha nunca dormia de verdade. Cassius manteve o olhar fixo por alguns segundos a mais do que o necessário, acompanhando a água escorrer em filetes grossos, distorcendo o mundo além das paredes de vidro. O trovão anterior ainda ecoava em sua mente. Aviso ou repreensão? A pergunta surgiu inevitável. Júpiter nunca fora sutil. Quando queria ser ouvido, o céu respondia. — Se continuar assim… — Murmurou, quase para si mesmo. A imagem veio clara: madeira recém-reparada, estruturas improvisadas, mãos cansadas trabalhando desde o amanhecer para conter o estrago da batalha do dia anterior. Não tinham sido feitas para enfrentar uma chuva daquele porte. A água poderia ceder o solo, enfraquecer apoios, abrir brechas perigosas. E brechas, na Ilha, nunca ficavam vazias por muito tempo. Monstros sentiam fraqueza. Cassius passou a mão pelos cabelos, o maxilar se contraindo levemente. Parte dele gritava que o lugar certo para estar era lá fora — no acampamento, verificando defesas, redistribuindo sentinelas, antecipando riscos. Esse sempre fora seu papel. Prevenir antes que algo desse errado. E, ainda assim, ali estava ele. Na estufa. Com ela. — A chuva pode comprometer algumas áreas do acampamento — Comentou em voz alta dessa vez, virando-se parcialmente para ela. O tom era sério, preocupado. — As barricadas ainda estão recentes. Se o solo ceder, alguém vai ter que reforçar tudo outra vez. — Cruzou os braços, postura rígida, olhar atento como se pudesse enxergar o que estava acontecendo além da estufa apenas pela força da concentração. — Talvez eu devesse ir. — Mas então, quase contra a própria vontade, seu olhar voltou a Eysan — ao modo como ela se encaixava entre as plantas. Como aquele espaço parecia existir em função dela, como se fosse uma extensão natural do que ela era. — Mas talvez — Continuou, mais baixo — Eu devesse ficar aqui caso algo tente se aproximar daqui quando você não deveria estar sozinha. — Era uma justificativa lógica. Uma que ele podia sustentar sem se sentir completamente culpado. — Vou ficar atento. — Decidiu, mais para si do que para ela. — Se a chuva piorar a ponto de virar risco imediato, eu saio para verificar o acampamento. Até lá… — O olhar dele percorreu a estufa uma última vez antes de se fixar nela novamente. — Eu fico aqui. — Não soou como rendição. Nem como desafio aos deuses. Soou como alguém tentando, pela primeira vez, equilibrar céu e terra.
Cassius soltou o ar devagar, como se aquela decisão precisasse ser estabilizada dentro dele antes de se tornar real. Ajustou a postura mais uma vez, ombros retos, pés firmes no chão de terra batida da estufa. O soldado ainda estava ali. Sempre estaria. Mas agora… observava. O som da chuva continuava forte do lado de fora, mas ali dentro tudo parecia existir em outro ritmo. Mais lento. Mais atento. Cassius percebeu isso com uma clareza incômoda. Cada passo de Eysan parecia provocar uma resposta silenciosa: folhas que se inclinavam, caules que se retesavam, flores que se abriam um pouco mais do que antes. Era impossível não notar. — Então… — Começou, quebrando o silêncio, a voz firme, mas sem a rigidez de uma ordem. — O que exatamente você precisa fazer aqui? — Descruzou os braços e deu alguns passos lentos pelo espaço, não para se afastar dela, mas para observar melhor o ambiente. Passou os olhos pelos vasos, pelas trepadeiras, pelos brotos recentes que despontavam como se ignorassem completamente o caos da Ilha. — Parece que elas sabem quando você chega — Comentou, quase em tom de constatação. — Não é impressão minha. As plantas… as flores… — Fez um gesto breve com a mão — Reagem a você. — Parou a poucos metros dela agora, mantendo a distância justa, mas atento. Os olhos claros acompanharam o movimento de uma flor que acabara de se abrir lentamente ao lado de Eysan, como se estivesse respondendo a algo invisível. — É como se você fosse parte disso tudo — Acrescentou, mais baixo. — Como se a estufa respirasse diferente quando você está aqui. — E ele também. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Cassius sustentou o olhar nela, não como sentinela avaliando riscos, mas como alguém genuinamente interessado. — Isso é incrível. — Disse, com um leve inclinar de cabeça. — Por onde você costuma começar? — Não era um interrogatório. Era conversa. Simples. Quase casual. — Talvez eu possa ajudá-la em algo.
Para Eysan a sensação de um quase beijo era difícil de colocar em palavras. Era algo que só fazia sentido para quem estava vivendo. Conseguia sentir a respiração de Cassius se misturar com a sua, quente e próxima, enquanto seus olhos insistiam em permanecer presos aos lábios dele. Seu corpo esquentava e ela sentia o coração aumentar as batidas conforme podia senti-lo se aproximar. Pelos deuses, ela queria tanto isso que estava sendo doloroso esperar para que ele juntasse os lábios aos seus. Estavam tão próximos e perdidos naquele momento que ela não pensou ser possível que algo pudesse atrapalhá-los, por isso, começou a fechar seus olhos e erguer o rosto para poder alcançar os lábios dele e acabar com aquela distância torturante. Quando o trovão atingiu o céu, Eysan sentiu o ar mudar e abriu os olhos para ver o semideus desviar o rosto para o céu. O observou reagir diante da força e percebeu que o momento tinha acabado. Estaria mentindo se não dissesse que não ficou um pouco decepcionada. Seus ombros murcharam e a filha de Perséfone abaixou os olhos para as próprias mãos, enquanto concordava com ele. "Parece que vai." O que para Eysan não tinha importância alguma. Ela gostava de chuva, ela era necessária e parte do ciclo que mantinha tudo vivo. E, naquele instante, não pôde evitar pensar em como um beijo sob a chuva teria sido perfeito. Se fosse com ele. Mas Cassius parecia enxergar a situação de outra forma, pois a rapidez com que entrou na estufa, foi como se ele quisesse fugir do que quase aconteceu entre eles. Antes de segui-lo, Eysan enviou um último olhar para o céu. Que grande hora para aparecer Júpiter. Pensou, mas não falou em voz alta.
Em seguida, se dirigiu para dentro da estufa. Dessa vez, sua postura era definitivamente diferente da anterior. Não tinha a primavera de antes, mas parecia tomada pelo inverno. Estava com os braços cruzados e encarava Cassius com os olhos levemente cerrados, como se tentasse decifrá-lo. Ela não estava maluca, estava? Ele também havia sentido. Tinha certeza disso. Não era possível que apenas o coração dela tivesse disparado naquela enfermaria na noite passada e que só ela tivesse ficado sem ar com a proximidade. Não era possível que só ela estivesse agora com a sensação de que faltava alguma coisa. Aquele beijo devia ter acontecido. "Certo. Vou fazer isso. Obrigada, filho de Júpiter." Respondeu com o tom de voz muito menos animado do que antes. Eysan se virou para poder começar a utilizar a fitocinese com as plantas da estufa. Havia algumas mudas que precisavam de cuidados urgentes e uma área inteira reservada para as ervas da enfermaria que ela precisava organizar para que houvesse remédios suficientes no dia seguinte. Movia as mãos entre os vasos com delicadeza, observando enquanto as flores se abriam e as plantas começavam a crescer mais rápido. Tudo aquilo era reflexo direto dos seus sentimentos naquele momento. Estavam um turbilhão. Então mesmo que buscasse se concentrar no que precisava fazer, não conseguia parar de pensar em Cassius e no que quase aconteceu. Era impossível ignorar o jeito como ele a olhou. Era sério que ele realmente iria fingir que nada daquilo existiu? Que não tinham estado tão perto de fazer algo que os dois pareciam querer? Escutou os comentários seguintes e desviou os olhos para ele novamente. Cassius era a tempestade e ela era primavera. Ele estava colocando todo o acampamento em suas costas, enquanto Eysan acreditava que ele merecia um pequeno momento para pensar viver algo que poderia ser bom. Estavam presos na Ilha sem nenhuma ideia de como poderiam sair de lá. Haviam acabado de serem atacados. Ambos tinham feito tudo o que podiam até agora. Não era justo que aproveitassem o fato de estarem vivos, pelo menos uma vez? "Eu acho que deveria continuar aqui. Já pensou que a chuva também pode ser o aviso de uma coisa boa, Cass?" Perguntou, dessa vez com o tom de voz um pouco mais leve. Em seguida, deu alguns passos na direção dele, segurando uma pequena flor entre os dedos. "Por exemplo, ela é necessária para fazer a vegetação crescer saudável. Às vezes ela vem para limpar o que estava pesado demais. Ela faz a terra respirar outra vez. A chuva também abre espaço para que algo novo e bom possa crescer." Eysan voltou a encará-lo com delicadeza e sorriu diante das percepções alheias. "Minha fitocinese também funciona de forma passiva. Todas as plantas aqui sentem o que eu estou sentindo quando eu me aproximo. Se estou triste, elas murcham. Mas se eu estou me sentindo bem... Se estou me sentindo feliz... Apaixonada pela vida...." Ela indicou a flor que tinha na mão e também aquelas que estavam nos vasos ao redor. Todas abertas e pareciam mais coloridas que nunca. "Elas também sentem o mesmo." Cassius era o responsável por isso naquele dia. Ele a estava fazendo experimentar emoções que nunca experimentava. Se os céus estavam dando resposta para ele, a terra também dava para Eysan e representavam o efeito da companhia dele para a filha de Perséfone. Sorriu verdadeiramente quando ele elogiou seu poder e assentiu. "Teria gostado de ver o que eu podia fazer no Half-Blood. As coisas estão diferentes aqui..." Ele sabia, já que imaginava que todos os semideuses estavam passando pelo mesmo agora com os poderes falhando.
Quando Cassius perguntou no que ele poderia ajudar, Eysan mordeu o lábio inferior, pensativa. Ela tinha duas opções. Não arriscar e realmente falar alguma coisa para fazerem envolvendo a estufa. Havia trabalho de sobra ali e seria fácil transformá-lo em um assistente dedicado por algumas horas. Mas não, não era isso que queria. O que ela queria era tão óbvio que parecia estar escrito em cada flor aberta ao redor deles. Não queria deixar Júpiter, deveres no acampamento ou tempestades ficarem entre o que estavam sentindo. Pelo menos, o que ela tinha certeza de estar sentindo. "Cass, tem pelo menos um milhão de coisas no que você poderia me ajudar agora..." Aproximou-se mais um passo dele. Conseguia sentir o ar mudando outra vez. A mesma eletricidade de antes que se misturava com a tensão deliciosa que fazia seu coração bater mais rápido. Aquela sensação hipnotizante de estarem perigosamente perto de algo que os dois evitavam admitir. "Eu ficaria feliz com qualquer uma delas..." Continuou, deixando seu tom de voz mais baixo, uma vez que estava próxima o suficiente para que ele entendesse o que falava. "Desde que eu possa fazer com você." Aproximou-se mais um passo, mais do que o suficiente para sentir o calor dele e perceber que um pequeno movimento para que a distância entre os dois desaparecesse de vez. Era isso. Arriscar. Usar o lado submundo de sua personalidade. Se ele recuasse de novo, entenderia o recado. Ele não sentia nada. Mas não podia mais fingir que não queria tentar. Não depois de perceber o quanto queria aquele beijo. "A pergunta aqui é o que é você quer fazer, Cass?" Seus olhos permaneceram fixos nos do semideus, enquanto os lábios ela aproximava cada vez mais. "Você. Não o que seu pai gostaria que fizesse. Não o que os outros sentinelas gostariam que fizesse. Não o que a lista de deveres diz que você deveria fazer. O que você está sentindo vontade de fazer comigo, aqui e agora?"
“You’re the reason I believe in fate.” — Cassius & Eysan ♥ (@bloombcnes)
ETHAN HAWKE and JULIE DELPY as JESSE and CELINE BEFORE SUNRISE (1995) dir. Richard Linklater
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Cassius percebeu o sorriso antes de perceber o próprio nervosismo e isso o desarmou de um jeito que batalha nenhuma jamais conseguiu. Incrível como Eysan sempre o recebia assim. Aberta. Serena, apesar do caos. Como se a ilha não estivesse coberta de destroços, feridos e perguntas sem resposta. Aquele sorriso — simples, honesto, sem cobrança — vinha se tornando perigosamente familiar. Pior! Vinha se tornando necessário. Cassius não era alguém acostumado a sorrir aberto, nem alguém que acordava com motivos para isso. Sorrisos, para ele, sempre foram consequências raras de vitórias duras. E ainda assim, ali estava ele, sentindo surgir um desejo estranho, quase juvenil, de querer retribuir. Mas ele resistiu. Filho de Júpiter não costumava se distrair assim. Não no meio de uma reconstrução, não depois de uma batalha, não com soldados e semideuses dependendo de ordens claras. Ainda assim, quando Eysan falou, algo dentro dele se deslocou, como se o mundo tivesse perdido volume por um segundo, restando apenas aquele timbre calmo, aquele meio sorriso que parecia sempre existir para ele. E foi aí que a armadura começou a falhar. Não fisicamente — a couraça estava firme, limpa apesar da noite longa, marcada apenas por alguns arranhões recentes. Mas a outra, aquela que ele vestia há anos, feita de disciplina, silêncio e autocontrole, essa sofreu um pequeno e perigoso trincado. O maxilar se manteve firme, a postura correta, mas os olhos o traíram. Desceram por ela rápido demais, subiram devagar demais. Ela parecia cansada. Cassius percebeu antes mesmo que ela dissesse. O modo como sustentava o peso do próprio corpo, a forma como os olhos carregavam algo além de atenção — privação, talvez. O tipo de cansaço que ele conhecia bem demais. O tipo que vinha depois de noites sem dormir por dever, não por escolha. Quando ela confirmou que havia passado a noite na enfermaria, algo apertou em seu peito com uma força inesperada. Não era dor. Era incômodo. Um incômodo quente, insistente, que não combinava com ele. — Você não dormiu. — Constatou, antes mesmo de pensar se deveria dizer aquilo em voz alta. Era para soar como observação. Saiu como preocupação. — Você não devia ter virado a noite inteira. — Disse, num tom baixo, sério, quase repreensivo. — Nem mesmo em dias como esse. — A ironia não passou despercebida nem para ele mesmo. Também não dormira. Também empurrara o corpo além do limite. Ainda assim, o pensamento de ela fazendo isso o incomodava de um jeito diferente. Porque Cassius não gostava da ideia de Eysan se quebrando para manter todos inteiros. Foi nesse ponto que o pensamento mais incômodo surgiu — indesejado, mas impossível de ignorar. Júpiter. Cassius quase conseguia imaginá-lo, em algum lugar além da ilha, se contorcendo de indignação. O filho, dividido entre razão e emoção. Entre dever e impulso. Abandonando, ainda que por alguns minutos, a postura impecável para se preocupar daquela maneira com uma semideusa grega. Uma grega. Se o pai estivesse observando, certamente não ficaria satisfeito. Emoções eram fraquezas. Laços eram riscos. E Cassius sabia disso desde cedo. Talvez por isso o incômodo fosse tão grande, não apenas por estar sentindo tudo aquilo, mas por estar permitindo-se sentir. Um soldado não se permitia isso. — Você devia ter descansado, Eysan. — Disse, num tom baixo, firme, tentando recuperar a autoridade que costumava lhe servir de escudo. — A Ilha não se sustenta se quem cuida dos feridos cai primeiro. — Só então percebeu que estava sendo… demais. Pigarra discretamente, desviando o olhar por um segundo. Corrigindo-se. — Quero dizer… — uma pausa curta, quase imperceptível — É o que seria estrategicamente mais seguro. — Péssima desculpa. Ele sabia. Ela provavelmente também.
Quando Eysan perguntou sobre seus ferimentos, Cassius sentiu o coração acelerar de forma irritante. Não por dor. Por ela. Pela maneira como o nome dele soou em sua boca. Pela preocupação explícita, sem filtros, sem a frieza que ele conhecia tão bem nos olhares alheios. — Estou funcional. — Respondeu primeiro, quase automático, como se estivesse em um relatório. — Nada crítico. Arranhões. Alguns cortes. Já tive piores. — O que era verdade. Mas não toda a verdade. Havia outros ferimentos. Mais profundos. Alguns mal cicatrizados. Nenhum deles comparável àquele cuidado silencioso da noite anterior, às mãos dela firmes e gentis, à forma como o mundo pareceu menos pesado por alguns minutos. Quando ela admitiu que havia ficado preocupada com ele, Cassius sentiu o impacto como um golpe direto, sem armadura. Alguém o esperou. Alguém se preocupou. Ele não estava acostumado a isso. Estava acostumado a relatórios, ordens, expectativas. A ser útil. Eficiente. Substituível. Não a ser… sentido. — Não precisava se preocupar. — Disse, por reflexo. — Eu sabia o que estava fazendo. — Mas as palavras saíram ocas. Fracas. Ele sabia. Quando Eysan mencionou a promessa, algo suavizou em seu olhar sem que ele tivesse controle suficiente para impedir. Um detalhe mínimo, quase imperceptível mas ali. — Eu não faço promessas em vão, Eysan. — Respondeu, sério. — Eu disse que voltaria. — Para você. Não disse. Pensou. E isso já foi perigoso o suficiente.
Ao ouvir a provocação suave sobre a estufa, Cassius respirou fundo. Aquilo seria fácil de recusar. Ele tinha trabalho. Deveres. Responsabilidades. Uma lista inteira de motivos perfeitamente aceitáveis para ir embora agora e voltar a ser o responsável e dedicado filho de Júpiter. — Ah... Eu posso chamar alguém — Começou, já preparando a fuga. — Há outros semideuses disponíveis, eu— Falhou. Respirou fundo. — Urgente, né? — Repetiu, como se estivesse avaliando uma missão. O canto da boca quase subiu. Quase. Ele segurou. — Bom... Se você for sozinha, pode ser perigoso e vai acabar no lugar errado. — Acrescentou, com um humor contido. — Melhor eu acompanhá-la, então. — Ele mostrou a direção. Cassius escolheu o caminho mais longo sem comentar. Vegetação densa, cheiro de flores no ar — elas até pareciam mais abertas e mais bonitas desta vez, estranho. Cassius caminhava ao lado dela como quem atravessa um campo minado interno. Por fora, a postura era a mesma de sempre: passos firmes, olhar atento ao entorno, atenção dividida entre o caminho e a segurança do acampamento. Por dentro, no entanto, havia um ruído constante, um conflito que ele não conseguia silenciar. A razão lembrava tudo o que estava em jogo. A profecia. A ilha. As perdas. O fato de que vínculos, naquele lugar, tinham o péssimo hábito de virar fraquezas exploráveis. A emoção, por outro lado, era insistente demais para ser ignorada. Ela estava ali, caminhando ao seu lado, falando pouco, respirando perto o suficiente para que ele percebesse o ritmo. E, sem querer — ou talvez querendo demais — Cassius começou a ajustar o passo ao dela. Cada passo era acompanhado de um diálogo interno cansativo: isso não é necessário, isso é imprudente, isso vai dar errado. E ainda assim, ele continuava. Porque quando começaram a andar lado a lado, o espaço entre eles parecia menor do que deveria. Porque os pensamentos dele escorregaram, traidores, para a lembrança da noite anterior. Para o toque dela segurando sua mão. Para o jeito como aquilo tinha ficado gravado nele de forma indevida. E então aconteceu. O movimento foi mínimo, ridiculamente pequeno. Um ajuste de passo. Um desvio involuntário. O dorso da mão dele tocou a dela. O efeito foi imediato. Cassius sentiu o choque subir pelo braço, o corpo reagindo antes da mente. Os dedos se afastaram rápido demais, como se tivesse encostado em algo proibido. O rosto esquentou. O coração acelerou de um jeito que ele não sentia em batalha nenhuma. Para Cassius, foi como se algo tivesse se alinhado de maneira extremamente errada ou perigosamente certa. — Eu… — Começou, e parou. Diminuindo o passo, Cassius quase deu meia-volta. Por um instante real, pensou em desistir ali mesmo. Dizer que precisava voltar. Que outro sentinela poderia levá-la. Qualquer coisa que o afastasse daquela sensação absurda de estar sendo puxado para fora de si mesmo. — Desculpe — Disse rápido, seco demais. — Foi… distração. — Distração. Outra mentira mal construída.Sentiu o rosto esquentar, algo raríssimo, quase humilhante. Limpou a garganta, desviando o olhar para qualquer ponto que não fosse Eysan. — Eu realmente deveria… — Começou outra vez, tentando se convencer de que iria embora. — Há relatórios para revisar. Patrulhas para reorganizar. Eu só— Não terminou. Ele respirou fundo, fechou a mão em torno do punho da espada como se aquilo fosse uma âncora. O silêncio entre eles era denso. Cheio de coisas que ele não dizia. Cheio de vontades que ele se recusava a nomear. — Deixa. A estufa fica logo depois daquela fileira de árvores. — Explicou, meio contrariado — ou até desnorteado — apontando à frente. — Vamos continuar.
Cassius percebeu que já estavam próximos da estufa quando o cheiro das plantas ficou mais forte no ar. Terra úmida, folhas recém-regadas, flores que pareciam reagir à presença dela de um jeito quase consciente. A estufa surgiu à frente deles pouco depois, o vidro ainda marcado pela poeira da reconstrução, mas intacto. Vida preservada. Cassius registrou isso de forma automática, como fazia com qualquer outro ponto estratégico da Ilha. Seguro. Funcional. Estável. Parou a um passo da entrada e se virou para ela. — Destino alcançado — Disse, num tom baixo, quase sério demais para o contexto. Como se estivesse encerrando uma escolta oficial. — Nenhum contratempo no caminho. — Cruzou os braços por um instante, postura firme, o corpo ainda levemente inclinado na direção dela sem perceber. Os olhos percorreram o ambiente ao redor antes de voltar para Eysan, demorando um pouco mais do que o necessário. — Eu posso ficar por aqui fora. — Completou, como se estivesse oferecendo cobertura. — Garantir que ninguém atrapalhe seu trabalho. Ou… — Fez uma pausa curta. Calculada demais para ser natural. — Posso voltar para as minhas obrigações no acampamento. — O silêncio que se seguiu foi pesado, cheio de coisas não ditas. Ele manteve o olhar nela, sério, mas havia algo diferente por baixo da compostura rígida. Expectativa. Um traço mínimo de incerteza. — Você ainda precisa de mim, Eysan? — Perguntou, finalmente. A voz era firme, mas o peso da pergunta ia muito além do que parecia. — Ou prefere que te deixe com as plantas? Até porque eu tenho a impressão de que você e elas já têm um relacionamento antigo. — Fez um gesto vago com a mão, indicando a estufa. — Não sei se seria educado da minha parte ficar por aqui atrapalhando — Completou, mas com uma ironia suave escondida nas palavras. — Especialmente considerando que elas claramente gostam mais de você do que de mim.
"Está tudo bem, Cass." Buscou pelos olhos dele, mantendo um sorriso contido e tranquilo nos lábios, esperando que perceber que estava bem seria suficiente para acalmá-lo. Eysan realmente não tinha dormido e sabia que o semblante cansado iria espelhar isso, mas não pensava que fosse motivo para que Cassius se preocupasse mais do que o necessário. "Não é a primeira vez que acontece e infelizmente, algo me diz que não vai ser a última." Pelo nível do último acontecimento, com três monstros atacando ao mesmo tempo, duvidava que teriam paz por muito tempo. Alguma coisa grande parecia estar acontecendo. "Eu sei que devia, mas não tinha como. É algo parecido com aquilo que você me falou noite passada... Voltou para a batalha machucado, porque era o que precisava ser feito. Eu também tenho um senso de dever que não me deixa parar." Por mais cansada que estivesse, deixar a enfermaria no caos de uma batalha era impossível para Eysan. Estrategicamente falando, poderia ser mais seguro, mas ela se culparia pelo restante de sua existência se perdesse algum colega por não estar lá para ajudar. "Mas eu juro que estou bem. A carinha de cansada desaparece daqui a pouco. Prometo que você não vai precisar se horrorizar com minhas olheiras por muito mais tempo." Contorceu o nariz e fez uma careta fofa, piscando para ele em seguida. Internamente, Eysan pensava um pouco mais do que deveria sobre o fato do semideus estar demonstrando preocupação com ela e se aquilo poderia significar que Cass tinha sentido o mesmo que ela. Para Eysan era mais fácil. Tinha a primavera em sua personalidade, por sua ligação com Perséfone, dificilmente conseguia esconder sentimentos e emoções por muito tempo. Elas se abriam como as flores. Já Cassius, pelo pouco que ela havia conseguido captar na noite anterior, parecia muito melhor em segurar os seus. Por isso também, não conseguiu acreditar fielmente quando ele disse que não tinha nenhum machucado crítico da noite anterior. "Ontem você estava agindo como se aquele corte que o Leão fez no seu abdômen não era nada, Cass! Como vou acreditar que não tem nada demais? Eu acho que eu deveria dar uma olhada mais tarde. Ou pelo menos preparar alguma poção para você..." Imaginava que o orgulhoso filho de Júpiter negaria, mas esperava que ele também soubesse que ela não desistiria. Poderia ser que não fizessem curativos, mas ele teria que tomar alguma poção para cicatrizar os ferimentos. Quando ele afirmou saber o que estava fazendo, Eysan concordou com a cabeça. "Pelo que eu vi de você treinando, aposto que não tem monstro páreo para você, Cass, mas eu não consegui não ficar preocupada. Pensei em como você estaria o tempo todo." Ergueu os olhos para encarar os dele, segurando o contato por alguns segundos, como se pedisse desculpas por isso. Ela não queria complicar as coisas e também não esperava que ele retribuísse nada, mas estava sendo mais difícil fingir que a preocupação não existiu do que simplesmente dizer logo o que tinha acontecido.
A expectativa de Cassius aceitar seu convite fez o coração de Eysan disparar, mas ela fez de tudo para não parecer tão decepcionada com a possível negativa. Precisava se lembrar que ele era Sentinela e tinha muitos deveres ali que eram uma prioridade. "Muito perigoso. Eu diria que seria imprudente se não me acompanhasse." Concordou com a sugestão alheia, segurando-se para não sorrir. Mas bastou que ele se virasse para indicar o caminho, com aquela postura firme que ela achava que combinava tanto com ele, para que Eysan soltasse a respiração e se deixasse levar pela sensação maluca que fazia seu estômago revirar. Agindo como uma boba adolescente... Que poder era aquele que Cassius tinha, pelos deuses?! Durante o caminho, a filha de Perséfone fez alguns comentários sobre a vegetação ao redor. Não comentaria o motivo para que as flores estivessem mais abertas do que o normal, claro, mas acabou se empolgando vez ou outra, enquanto apontava para algumas plantas específicas que ela mesmo tinha criado ali. Discretamente, desviava os olhos para o loiro sempre que podia e observava o perfil extremamente atraente dele, o modo como o cabelo se movia enquanto andava, a respiração que, em determinado momento, até parecia acompanhar a sua. Não se lembrava de já ter se sentido assim antes... E não foi preciso muito para que tudo se intensifiasse. Quando a mão de Cassius tocou a sua durante o caminho, Eysan sentiu o corpo inteiro se arrepiar e o coração disparar ainda mais. Mordeu o lábio para conter o sorriso e assentiu diante da desculpa dele. "Não tem problema, acontece, não é?" E poderia acontecer mais vezes, pensou. Mas não queria deixá-lo mais envergonhado ainda. Sabia que os dois tinham personalidades diferentes e respeitava o fato de ele ser mais firme com regras e deveres. Qualquer distração poderia ser vista como algo negativo para Cassius e ela não queria que ele se afastasse. "E obrigada por me trazer até aqui. Não tivemos nenhum contratempo, porque você estava comigo." Ele cruzou os braços e se aproximou um pouco, o que fez Eysan perder o foco por um segundo. Não era justo que ele fosse tão bonito assim. Umedeceu os lábios, antes de erguer os olhos para o semideus e tentar conectar as palavras que ele dizia em sua mente, afastando os pensamentos impróprios para o momento que insistiam em surgir. O que ele disse? Voltar para o acampamento? "Não! Não volta!" Ela falou alto e desesperada demais e acabou arregalando os olhos com seu próprio descuido. Foi sua vez de sentir o rosto esquentar de vergonha. "Digo... Eu..." Respirou fundo. "Eu faço as plantas gostarem de você também. Não disse que queria saber algumas coisas sobre mim? Essa é a oportunidade de começar. Estamos no lugar em que uso os meus poderes o tempo inteiro. Então, sim, eu preciso de você." Respondeu, enfim, a pergunta feita por ele. "Preciso de você." Repetiu, mas dessa vez, o fez em tom de voz mais baixo e sincero, aproximando-se um passo dele e erguendo os olhos para fixá-los ao de Cassius. Não deveria fazer isso, sabia que não. Havia acabado de considerar que sua mania de agir de forma imprudente as vezes poderia afastá-lo e aquilo era o que Eysan menos queria fazer. Mas seus instintos a impediam de pensar. Sem conseguir se conter, deixou o olhar descer lentamente até os lábios dele. Permaneceu ali por alguns segundos, em silêncio, sentindo o coração bater forte demais para ser ignorado. "Fica, Cassius." Ela estava disposta a usar seus poderes para quebrar alguns vasos e fazer plantas crescerem mais do que o necessário se precisasse, apenas para que Cassius pudesses ter uma justificativa para dar aos colegas que perguntassem dele mais tarde. Mas não podia deixá-lo ir assim.
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O dia seguinte amanheceu sem alívio. A luz cinzenta atravessava o acampamento como um lembrete incômodo de que todos ainda estavam ali, vivos, mas longe de seguros. O cheiro de fumaça persistia no ar, misturado ao de sangue seco, terra revolvida e metal queimado. A enfermaria estava cheia desde antes do sol subir direito; gemidos baixos, passos apressados, vozes cansadas se misturavam num ruído constante que ninguém mais parecia notar. Cassius não foi até lá. Não por descaso. Não por orgulho ferido. Mas porque, quando a adrenalina baixou e a noite deixou de empurrá-lo para frente, veio o espaço para pensar e pensar foi o que mais o colocou em risco. Ele sabia exatamente o que sentira ao lado de Eysan. Sabia o quanto aquilo o desestruturara. O toque dela ainda vinha à memória com facilidade demais. O modo como o tempo parecia ter desacelerado. A vontade clara, quase avassaladora, de puxá-la para perto, de esquecer o mundo por um instante e isso era justamente o problema. Eles não estavam ali para isso. Estavam ali tentando sobreviver, tentando decifrar uma profecia que não prometia finais felizes, tentando manter pessoas vivas num lugar que parecia exigir perdas como pagamento constante. Cassius conhecia bem esse tipo de cenário. Já tinha visto laços nascerem em meio ao caos… e serem usados contra quem os criava. Então ele fez o que sempre fazia quando algo ameaçava fugir do controle. Trabalhou. Passou a manhã inteira ajudando a reorganizar o acampamento: recolhendo animais que haviam se soltado no ataque, levantando estruturas improvisadas, distribuindo tarefas, mantendo a ordem com uma eficiência quase mecânica. O corpo doía com novos cortes, hematomas mal disfarçados sob a armadura mas nenhum deles foi suficiente para fazê-lo voltar à enfermaria. Parte disso era teimosia. Parte era medo. Medo de reencontrá-la e perceber que nada tinha mudado. Ou pior: que tinha mudado demais! Entre o vai-e-vem constante, Cassius a viu antes de perceber que estava procurando por ela.
No meio do caos organizado do acampamento, das vozes sobrepostas, dos passos apressados, do ranger de estruturas improvisadas, Eysan se destacava de um jeito quase cruel. Não porque estivesse chamando atenção de propósito, mas porque tudo nela parecia puxar o olhar de Cassius, como se o resto do mundo tivesse perdido um pouco da nitidez. Cassius sentiu o peito apertar. Por um instante, esqueceu do barulho, da profecia, do peso do dia. Pensou apenas em como tudo nela chamava sua atenção e em como isso era um erro. Ele cerrou o maxilar, respirou fundo e desviou o olhar à força, como se tivesse sido pego fazendo algo proibido. Aquilo não era hora. Não era lugar. E definitivamente não era algo que ele pudesse se permitir. — Merda… — Murmurou baixo, mais para si do que para qualquer um. Ele ficou onde estava por alguns segundos demorados, dividido entre a razão que gritava para manter distância e algo mais silencioso mas insistente que o puxava na direção dela. Cassius, então, respirou fundo, endireitou os ombros e começou a caminhar. Não rápido. Não decidido demais. Cada passo parecia um pequeno acordo consigo mesmo: só vou conversar. Só isso. Quando se aproximou o suficiente para ser notado, parou a uma distância respeitosa, como se ainda estivesse se lembrando de que precisava manter limites. O olhar encontrou o dela por um instante breve demais antes de descer, analisando a movimentação como se aquilo fosse o verdadeiro motivo de estar ali. — Bom dia, Eysan. — Disse, a voz firme quase formal, mas mais baixa do que costumava usar com qualquer outra pessoa. — Eu… — Começou, pigarreando baixo, buscando as palavras certas. Ou pelo menos palavras aceitáveis. A mão foi à lateral do corpo, ajustando a tira da armadura que nem precisava de ajuste. Um gesto automático, quase defensivo. — A reconstrução demorou mais do que o previsto. — Disse, num tom neutro, técnico demais. — Alguns animais se espalharam, as barricadas cederam em dois pontos, e… — Fez um gesto vago com a mão — …Achei melhor resolver isso antes que virasse outro problema. — Pausa. Ele respirou fundo, como se estivesse avaliando se aquilo soava convincente até para si mesmo. — Além disso, alguns campistas precisaram de escolta ao longo do dia. — Acrescentou rapidamente, reforçando a desculpa. — Nada grave. Só… logística. — Cassius levantou o olhar outra vez, dessa vez mantendo-o por um segundo a mais. — Não achei apropriado interromper você aqui por algo que podia esperar. — Completou, firme, quase correto demais. — Você com certeza tinha trabalho mais importante. — Era uma desculpa limpa. Funcional. E completamente incompleta. Por um breve momento, algo vacilou no olhar dele. Não culpa explícita, mas a consciência incômoda de que havia prometido algo e falhado em cumprir no tempo que desejava. — Mas agora… — Concluiu, endireitando-se um pouco mais — …Eu estou aqui. Vivo. Como prometi.
Apesar da concentração e eficiência de sempre enquanto tratava dos feridos da batalha do dia anterior, quem a conhecia bem perceberia que algo nela estava diferente. Em alguns momentos, Eysan deixava o olhar escapar na direção da porta da enfermaria e se perdia em pensamentos. Eram poucos segundos, mas acabava acontecendo. Infelizmente, não conseguia se conter em pensar no que havia acontecido naquele lugar na noite anterior. Principalmente nos momentos finais, quando acompanhara Cassius até a porta e se deixara levar pelo seu instinto de preocupação, segurando a mão dele. Lembrava-se também exatamente do momento em que sua respiração quase falhou quando os olhos dele desceram para seus lábios. Foi por pouco tempo, mas o suficiente para deixá-la imaginando o que poderia ter acontecido se não estivessem em um momento tão complicado em que ambos precisavam seguir suas responsabilidades. Além de tudo, ele tinha prometido que se encontrariam naquele dia. E Eysan queria muito vê-lo. Talvez ele nem se lembrasse da noite da mesma forma que ela. Talvez nem se lembrasse da promessa. Ainda assim, precisava saber se estava bem. No entanto, até aquele momento, Cassius ainda não tinha aparecido na enfermaria. Nem mesmo para acompanhar alguns dos outros semideuses feridos. Ele não se lembra mais da promessa, Eysan. Pensou, enquanto terminava de criar um remédio cicatrizante para os feridos. Nesse momento, acabou colocando um pouco mais de força que o normal em macerar as folhas. Não seja boba. Você é adulta. Momentos como aquele não existem na Ilha. Foco no que importa. "Terminei esse remédio." Avisou, entregando o medicamento para o colega. Em seguida, deu uma olhada no movimento ao redor e ao perceber que a enfermaria estava muito mais vazia do que mais cedo, assentiu. "Parece que vocês estão dando conta por aqui, vou dar uma passada na estufa." Por mais que aquela fosse sua ocupação oficial, também ajudava na horta e na estufa, uma vez que seu poder ativo era fundamental naquele tipo de atividade também.
Escolheu um caminho mais longo, propositalmente cercado de vegetação. O motivo era aquele que tinha comentado com Cassius na noite anterior... Gostava do cheiro de flores. Internamente, sabia que também precisava distrair sua mente daquele que a ocupava desde a noite anterior. Seria impossível fazer isso continuando na enfermaria. Optando por aquele novo caminho, acabou próxima de um espaço em que semideuses estavam reunidos ajudando na reconstrução pós batalha... E pelo que parecia uma obra dos deuses do destino, entre todos os presentes, o primeiro que seus olhos encontraram foi o filho de Júpiter. Eysan parou em seu lugar, quase prendendo a respiração de forma involuntária. A armadura caía muito bem nele. Seu coração estava batendo um pouco mais forte do que deveria e era vergonhoso dizer que as flores ao redor começar a se abrir aos poucos. Passivamente, a fitocinese costumava funcionar na natureza de acordo com seus sentimentos. Ficou imóvel até ele terminar de se aproximar e tentou conter sua expectativa antes de Cassius falar alguma coisa. "Bom dia, filho de Júpiter." Respondeu com um meio sorriso. Estava tentando descobrir o que fazer em seguida. Acompanhou os movimentos dele com o olhar, tentando decifrar se ele também estava diferente. Ou se tudo aquilo era coisa da sua cabeça. Quando ele começou a explicar sobre a movimentação do dia, Eysan assentiu, olhando ao redor. "Faz todo o sentido. Pelo que estou vendo aqui, seria impossível que apenas os construtores e o pessoal do campo dos animais dessem conta sozinhos." Fez uma pausa, antes de continuar, assentindo diante da suposição alheia. "Eu estava na enfermaria até agora sim. Na verdade, depois que você saiu, só parei para tomar um banho e comer alguma coisa bem rápido. Ficamos nos revezando durante a madrugada toda até de manhã, mas agora está tudo mais calmo." Não disse em voz alta, mas o que realmente queria saber era outra coisa. Queria saber dele... Como ele estava. O que tinha acontecido na floresta. Se ela fez mal de não ir junto. "E você? Seus ferimentos melhoraram?" Perguntou, sem conseguir mais se conter. "Fiquei muito preocupada com você, Cass." Acabou admitindo novamente antes de pensar em segurar a língua. "E com todos. Com todos vocês." Completou, fechando os olhos por um instante, se repreendendo pela nova perca de controle. Em seguida, passou a mão pelos cabelos, como se isso ajudasse a disfarçar o nervosismo.
Quando Cassius mencionou a promessa, os olhos de Eysan sorriram juntamente com ela. "Então você lembrou." Por um momento pensou que ele estaria falando sobre o dia sem realmente considerar que tinham combinado de se encontrar. Apenas um assunto que ele falaria com qualquer outro ali. "Sim, você prometeu. Voltaria vivo... Para mim." Completou, se perdendo em Cassius e nas lembranças da noite anterior. A proximidade, a respiração próxima, os olhos bonitos que encaravam seus lábios... Era muito maluco como o pouco tempo que haviam passado juntos a tinha tirado de área daquela forma. Piscou, logo em seguida, voltando à realidade quando se lembrou que já não estavam mais sozinhos na enfermaria como na noite anterior. Pelo contrário, havia movimentação por todos os lados. Desviou o olhar, passando a mão pelo cabelo, antes de voltar-se para ele novamente. "Fico muito feliz que tenha cumprido essa promessa, Cass. De verdade." Ela sorriu levemente para Cass, segurando seu olhar nele. Não revelaria isso a ele, mas sinceramente, não sabia o que seria capaz de fazer se caso alguma coisa grave tivesse acontecido. "Bom, filho de Júpiter..." Sorriu de canto, inclinando a cabeça para o lado. Tinha dúvidas se deveria perguntar se aquele era o momento que fariam o que tinham combinado antes, mas parecia que Cassius estava dedicado aos afazeres da Ilha no momento. "Você disse que reconstruiu barricadas, recolheu animais, ajudou na escolta, mas... Acho que tem uma semideusa aqui que não sabe como chegar na estufa sozinha. Três anos na ilha não foram suficientes, sabe? Talvez você possa ajudar? Acho que também podemos colocar essa tarefa como urgente."
Cassius estava quase atravessando a porta quando a frase dela atrasou o passo. “Beber escondido dos líderes…” Ele parou por meio segundo, o bastante para qualquer sentinela perceber que aquilo tinha sido registrado. O reflexo veio automático: postura mais reta, maxilar firme, a versão dele que normalmente advertiria sem pensar duas vezes. Virou o rosto para olhá-la por cima do ombro e foi aí que titubeou. Eysan mordia o lábio inferior, o sorriso contido demais para ser inocente. — Isso é… — começou, no tom exato de quem ia soltar uma bronca histórica — …Explicitamente contra as regras. — Houve uma pausa curta demais para ser confortável. Cassius inspirou fundo. E, pela primeira vez, não seguiu com o protocolo. — Como sentinela, eu deveria dizer que isso coloca em risco a ordem, a segurança e a disciplina do acampamento. — Continuou, sério, quase didático. — E que eu definitivamente teria que intervir. — Cassius inspirou fundo. E, pela primeira vez, não seguiu com o protocolo. O olhar voltou para ela. E então… algo cedeu. — Como Cassius… — Corrigiu, a voz mais baixa — …Eu vou fingir que essa parte da conversa não aconteceu. — Um canto da boca se ergueu, contido, quase traindo o humor. — Pelo menos até amanhã. — Acrescentou. — Depois disso, eu me reservo o direito de perguntar quem são esses líderes distraídos o bastante pra deixar isso acontecer. — Ele balançou a cabeça, como se estivesse levemente derrotado por ela.
Então, Cassius sentiu o pedido antes de entendê-lo. Quando a mão de Eysan segurou a dele, algo dentro dele cedeu, não de forma explosiva, mas perigosa, como uma muralha antiga começando a rachar por dentro. O corpo inteiro respondeu, instintivamente inclinando-se um pouco mais perto, como se a distância entre eles tivesse deixado de fazer sentido. Por um segundo longo demais, ele esqueceu da batalha. Esqueceu do dever. Os olhos claros desceram até as mãos unidas, depois subiram lentamente até o rosto dela. Havia ali algo que ele conhecia muito bem em soldados antes de marchar: medo contido, esperança forçada, vontade de acreditar. Isso o atingiu com uma força muito maior do que qualquer golpe. — Eysan… — A voz saiu mais baixa do que pretendia. O polegar dele se moveu sozinho, um gesto pequeno, quase inconsciente, roçando de leve o dorso da mão dela. Não era abraço. Não era beijo. Era o máximo que ele se permitiu antes de perceber que estava indo longe demais. Cassius deu meio passo à frente. Ficaram perto o suficiente para que a respiração se misturasse outra vez. Por um instante perigoso, os olhos dele desceram para os lábios dela e o mundo pareceu estreitar, como se a ilha inteira estivesse segurando o fôlego junto com eles. Ele quase cedeu. Quase. O dever veio como um puxão interno brutal. Cass fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e, com um esforço visível, recuou apenas o necessário para recuperar a postura, ainda sem soltar a mão dela. — Eu prometo. — Disse, agora firme, mas carregado de algo mais profundo. — Não porque você pediu… mas porque eu quero cumprir isso. — Os olhos voltaram aos dela, sérios, intensos. — Vou voltar vivo. — Repetiu. — E bem o suficiente pra você reclamar que eu devia ter descansado mais. — Um canto da boca se ergueu, breve, quase um sorriso. — Amanhã. — Continuou. — Sem monstros. Sem correria. Sem enfermaria. — A mão dele apertou a dela uma última vez, como se estivesse guardando aquela sensação para levar consigo. Então, com cuidado, quase com relutância, soltou a mão dela. Cassius ajustou a armadura, virou-se em direção à noite que o chamava de volta, mas antes de cruzar a porta, parou. Olhou para trás uma última vez. — Não vai ser a ilha que decide. — Disse, convicto. — Sou eu. — E então saiu. Levando consigo o peso do dever e a promessa de voltar.
— FINALIZADO.
Cassius manteve a postura ereta quando Eysan voltou a se aproximar ou tentou tentou manter. O primeiro toque dela fez o corpo reagir antes que a mente tivesse tempo de intervir. Um estremecer breve, quase imperceptível, percorreu-lhe a espinha, e ele apertou a mandíbula no mesmo instante, como se pudesse ordenar ao próprio corpo que se comportasse. Os olhos claros se fecharam por um segundo quando ela afastou a mecha de cabelo de sua testa. Não foi fraqueza, foi estratégia. Um segundo para reorganizar o mundo, para lembrar-se de quem era, do que carregava no nome, do que ainda estava acontecendo lá fora. Filho de Júpiter. Soldado. Dever antes de tudo. — Trabalho conjunto. — Repetiu, a voz firme, controlada, quase excessivamente contida. — Certo. — Mas entender não tornava fácil. Quando ela se afastou para a pia, Cassius soltou o ar devagar, como se tivesse acabado de atravessar uma linha invisível. Passou a mão pelo rosto suado, sentindo o coração bater mais rápido do que devia , não pela dor, mas pelo que estava acontecendo lá dentro. Você está perdendo foco. Isso não é hora.
Quando Eysan voltou e começou a limpar os ferimentos, ele desviou o olhar para um ponto neutro da enfermaria, fixando-se nele como se fosse um exercício de sobrevivência. Ainda assim, detalhes escapavam: a calma nos gestos, a precisão quase ritualística, a forma como ela parecia segurar o caos sem precisar levantar a voz. O ardor do curativo arrancou-lhe uma inspiração funda. Dessa vez, não conseguiu esconder. — Está… — pausou, buscando a palavra certa — …suportável. — Mentira parcial. Doía. Ardia. E cada toque tornava tudo mais intenso — física e emocionalmente. O suor escorria agora sem disfarce, e ele se odiou um pouco por isso. Odiou mais ainda por perceber que não era só a dor que causava aquilo. Quando a pomada tocou o corte do abdômen, Cassius segurou a maca com força, os músculos tensos, a tempestade interna respondendo de leve sob a pele, não para lutar, mas para suportar. — Você é… extremamente boa no que faz. — Disse, baixo, sincero demais para ser apenas um elogio técnico. Percebeu isso tarde demais e pigarreou, tentando recuperar a compostura. — Profissionalmente falando, claro. — Ao ouvir que ela sabia que ele voltaria ao campo de batalha de qualquer forma, um quase-sorriso surgiu — breve, cansado, mas humano. — Não é desobediência. — Murmurou. — É… chamado. — Chamado do dever. Do nome. Do que esperavam dele.
Então ela pediu licença. E quando o braço dela passou por suas costas para ajustar a gaze, o mundo desacelerou. Cassius ficou absolutamente imóvel — metade disciplina, metade medo de ceder. Sentiu o calor do corpo dela, a proximidade cuidadosa, a respiração quase alinhada à dele outra vez. Por um instante perigoso, pensou em virar o rosto, em dizer alguma coisa que não devia. Pensou em ouvir o conselho médico e obedecer. Pensou em ficar. Pensou no quanto queria isso. E odiou-se por pensar. Depois, disse a si mesmo. Depois. — Você não estragou nada. — Respondeu, controlado, quando ela brincou sobre os cinco minutos. — O tempo necessário é o tempo necessário. — O olhar encontrou o dela por um instante mais longo do que deveria. Havia ali algo que ele não sabia nomear — respeito, admiração, vontade. Tudo misturado. Cassius desviou o olhar logo em seguida, respirando fundo, endireitando os ombros. — Eu vou voltar para a batalha. — Disse, firme, como promessa e penitência. — Porque é o que precisa ser feito. — Uma pausa. A voz baixou, traindo o conflito interno. — Mas… — Acrescentou — Quando isso acabar... Quando a noite acabar... — Os olhos voltaram aos dela, sinceros, sem armadura por um segundo raro. — Eu quero te ver de novo. — Disse. Não como flerte aberto. Como intenção. — Sem sangue. Sem urgência. Sem monstros. — O silêncio se assentou entre eles. Cassius Lancaster voltou a vestir a disciplina como uma armadura, mas agora sabia: não era invencível. — Mas só… — Acrescentou, endireitando levemente os ombros — …Se você também quiser, é claro. — O olhar claro encontrou o dela, aberto, sem pressão. Não havia expectativa ali, apenas respeito. Como se aquela escolha não pudesse, de forma alguma, ser tomada por ele. — E de preferência longe da enfermaria. — Completou, com um meio sorriso contido. — Acho que já passei tempo demais aqui por hoje. — Ele se levantou devagar da maca, testando o próprio corpo, aceitando a ajuda do curativo como um acordo silencioso entre eles. Pegou a camisa suja, começou a se trocar com movimentos precisos, mas menos apressados do que antes. Ainda assim, não parecia pronto para ir embora sem dizer mais nada. — Quando não tá salvando todo mundo… — Comentou, casual demais para não ser proposital — …O que você costuma fazer? — Amarrou o cinto da armadura, ajustou as tiras, mas manteve a atenção nela. — Leitura? Caminhar? — Arriscou. — Ou é do tipo que só lembra de respirar quando o caos acaba? — Deu dois passos em direção à porta, depois parou e olhou para trás uma última vez. — Bom, amanhã eu descubro. — Marcou, simples. — Depois que o sol nascer. Se a ilha permitir.
Eysan não sabia dizer com palavras exatas o que estava acontecendo ali, mas era obviamente diferente do que cuidar de qualquer outro semideus na Ilha. Era curandeira desde o Acampamento Meio Sangue e não se lembrava de outra vez em que tivesse sentido o tempo simplesmente parar como naquele momento. No entanto, considerando que estavam em meio a um ataque, ela não podia se dar ao luxo de tentar entender o porquê. Não tinha tempo para isso. Enquanto ruborizava levemente pelos elogios de Cassius, precisava também se esforçar para manter o foco e terminar aquele curativo para que ele voltasse para sua batalha. "Profissionalmente, é claro." Ela concordou com a cabeça, forçando a si mesma a parar de corar. A troca de assunto iria ajudá-la nisso. "Os poderes me ajudam muito. Quando eles funcionam do jeito que eu quero, consigo entrar em contato com vegetações muito eficientes e poderosas para a medicina. E já faço isso a bastante tempo! Comecei a ajudar na enfermaria do Acampamento Meio-Sangue até cedo. Como eu disse, não sou grande coisa com as outras coisas." Riu levemente, dando de ombros. Tinha muito apego a sua adaga de Ferro Estígio, mas precisava admitir que não era a melhor a utilizando em combates corpo a corpo. "Então, não se preocupe... Eu sei e entendo que você precisa ir e voltar a lutar." O encarou com firmeza para que ele soubesse que ela não estava chateada ou encarava aquilo de maneira errada. O chamado de um guerreiro semideus era mais forte do que qualquer coisa e Eysan tinha ciência disso. Era mais forte do que a família, como quando precisou deixar a avó que a criou para seguir para o Acampamento. Mais forte do que amigos, tantos perdidos em guerras. E certamente, em algum momento, seria também mais forte que o amor.
Passou a gaze com cuidado ao redor do abdômen dele, ajustando a pressão conforme o fazia. Precisou dar algumas voltas a mais, para garantir que a medicação mágica faria seu trabalho e impediria que o corte voltasse a sangrar. Percebeu, mais uma vez, que estava fazendo um esforço maior do que o necessário para manter o foco, mas seguiu até o fim. Quando terminou, ergueu os olhos para encontrar os dele e sentiu novamente aquela estranha sensação de o tempo desacelerar... Naquele instante, acabou pensando como queria que tudo tivesse se resolvido mais fácil. Cassius não ia precisar ir. Assentiu quando ele afirmou que voltaria para a batalha e desviou o olhar para recolher os utensílios sobre a maca. Tinha entendido que aquele momento havia acabado. Mas quando o filho de Júpiter afirmou queria vê-la novamente, interrompeu tudo o que fazia e voltou-se para ele novamente. "Eu quero." Respondeu sem hesitar. "Eu quero te ver também. E sim! Por favor, sem monstros e sem enfermaria." Concordou, espelhando o meio sorriso dele, mas o seu precisava admitir que era mais aberto. Não conseguia disfarçar o lado primavera de sua personalidade. "Apesar que você não vai conseguir fugir da minha necessidade de saber se minha pomada funcionou." A curandeira indicou o curativo que havia acabado de ser feito. Em algum momento ele precisaria voltar aos seus cuidados para garantir que tudo estava sendo cicatrizado. "Mas também quero conhecer o filho de Júpiter sem a correria de um dia de batalha." Cassius seria disciplinado sempre? Ou deixava a rebeldia correr suas veias as vezes? Assim como ele parecia interessado em seus gostos, também estava curiosa para saber detalhes sobre o semideus. "Ler, caminhar..." Concordou com a cabeça, enquanto o acompanhava até a porta da enfermaria. Também andava devagar, querendo estender a breve conversa o máximo que poderia. "Gosto do cheiro das flores e de sentir a natureza nos meus pés. Gosto das estrelas e de sentir a brisa no rosto. Gosto de nadar. Beber escondido dos líderes nos horários mais inapropriados." Mordeu o lábio inferior levemente para esconder o sorriso sugestivo de brincadeira. Sabia que ele era um Sentinela de seu dormitório. "Amanhã você vai descobrir." Eysan se apoiou no batente da porta da enfermaria e ergueu os olhos para ele, mantendo um sorriso leve. Cassius parecia muito melhor e a filha de Perséfone estava aliviada por isso. Apesar do gosto ruim, pelo menos sua poção e medicamentos estavam funcionando. A única coisa que fez sua expressão tranquila mudar, foi o complemento da frase dele. "A ilha não tem que permitir. Você vai voltar da batalha vivo e bem, e nós vamos nos encontrar amanhã." Não era sua intenção forçar a barra, mas deixar claro que estava preocupada e não aceitaria que ele não retornasse no dia seguinte. A possibilidade disso acontecer, na verdade, fez o coração de Eysan apertar. Mesmo que não fosse para vê-la, mesmo que tivesse desistido do encontro, ele tinha que voltar. "Promete, Cassius." Aproximou-se dele e segurou sua mão sem conseguir raciocinar o que estava fazendo. Sua preocupação, a fez com que não pensasse antes de agir. Apenas seguia seu instinto de não deixá-lo sair dali sem acalmá-la. "Vai voltar vivo e bem pra mim."
continuando daqui
Eysan ignorou a tentativa do filho de Júpiter de fazê-la parar de dar atenção aos ferimentos dele e fingiu não ter escutado essa parte da conversa, o enviando apenas um olhar significativo de quem não seria convencida a sair dali antes de ter certeza que ele estava bem. Ela iria cuidar dos outros feridos também, passaria a noite inteira nisso, mas Cassius era a sua prioridade no momento. Eysan agradeceu pelas palavras dele em relação a sua ocupação e tirou a atenção dos panos que pressionava contra o ferimento para fixar seus olhos nos dele mais uma vez. "Se entende isso, então não deveria se forçar tanto a não tentar demonstrar dor ou que precisa de um apoio agora. Não é sinônimo de fraqueza. É um trabalho conjunto, certo? Você me protege lá e eu te protejo aqui." Eysan sorriu para ele e naquele momento, algo se perdeu do protocolo. Respiravam juntos, no mesmo ritmo. Sem perceber, aproximava-se mais. Quase distraída, ela ergueu a mão para afastar uma mecha de cabelo que grudava na testa dele por causa do suor. Fez isso com cuidado e delicadeza. Seus dedos deslizaram de leve pela pele quente, e por um segundo a atenção dela se desviou mais do que deveria. Deixou que seus olhos o seguissem enquanto ele se acalmava. Quando Cassius abriu os olhos, ela também pareceu sair de um transe e sorriu de canto, balançando a cabeça em negação. "Imagina, eu... Nada." Aproveitou que precisava levar os panos sujos de sangue até a pia e usou daquele momento para respirar fundo e voltar ao foco.
Passou a limpar o ferimento em seguida. Fez isso com o corte profundo do abdômen e também com o do braço. Retirou o excesso de sangue seco e avaliou a profundidade do ferimento, certificando-se de que não havia resíduos do ataque do Leão. Terminou de limpar os machucados o mais rápido que conseguiu. Em seguida, pegou a tigela com a mistura cicatrizante que havia preparado. Tinha criado aquela pomada a partir de resinas vegetais e folhas que ela havia desenvolvido com seus poderes. Com a Fitocinese enfraquecendo na ilha criar plantas com ativos curativos era mais difícil para ela, mas aquela Eysan conseguiu se lembrar de como cultivava no Acampamento. Na época, as dicas foram enviadas por sua mãe em sonho. "Isso vai fechar o machucado. Vai arder um pouco, mas é rápido. É a melhor pomada que eu já desenvolvi." Precisou voltar a se aproximar dele e com os dedos, espalhou uma camada generosa sobre o corte do abdômen, cobrindo toda a extensão com cuidado. Ao ouvir a pergunta, a turca ergueu o rosto para ele novamente. "Tenho a sensação de que mesmo que eu dissesse para ficar, você iria ir, Cassius." Já havia percebido a teimosia do semideus e Eysan não pretendia lutar contra isso. Balançou a cabeça em concordância. "Mas sim, vai poder voltar para o campo. Eu diria para não se esforçar demais, mas também acho que não vai adiantar de muita coisa, estou certa?" Esticou um sorriso de canto. Nenhum de seus conselhos costumava funcionar entre os residentes da ilha. Em seguida, pegou as gazes e ficou ao lado dele na maca. "Com licença." Ela se aproximou novamente o suficiente até que com movimentos calmos, apoiou a gaze larga no abdômen de Cassius. Em seguida, o braço dela passou brevemente por suas costas enquanto puxava a gaze para o outro lado para dar a primeira volta. "Você não vai querer mais me ver depois de hoje, não é? Estraguei todos os seus planos de terminar em cinco minutos."
O filho de Júpiter hesitou no exato momento em que ela tocou seu braço. Não puxou, não protestou, mas o corpo ficou rígido por um segundo, como se aceitar o cuidado fosse mais difícil do que enfrentar outra investida do leão. — Eu sei. — Murmurou, baixo, quase contrariado. — Só… não é meu costume precisar parar. — Acabou cedendo quando ela indicou a maca. Sentou devagar, o maxilar travado quando o movimento puxou o abdômen ferido. O orgulho queria levantar. O corpo, não. Quando Eysan lhe entregou o copo, ele olhou para o líquido esverdeado com desconfiança automática e depois bebeu tudo de uma vez, como se reclamar fosse perda de tempo. O efeito veio rápido o suficiente para fazê-lo soltar o ar que estava prendendo. — Horrível. — Murmurou ao reclamar. — Funciona, mas continua sendo horrível. — Completou. Enquanto ela trabalhava, os olhos claros acompanharam os movimentos dela sem perceber. Precisos, calmos e firmes, a mesma serenidade que ele desejava ter em batalha quando tudo desandava. Havia beleza ali, sim, mas não só a óbvia; era a segurança com que Eysan ocupava aquele espaço, como se o caos respeitasse suas mãos. Quando se deu conta de que estava encarando demais, desviou o olhar, pigarreando baixo. Ao mencionar o corte no abdômen, o maxilar travou. — Leão. — Respondeu, simples. — Tentei puxar ele pra longe quando vi um grupo encurralado. Funcionou… por alguns segundos. — Ergueu a camisa o suficiente para revelar o corte mais feio atravessando o abdômen definido, ainda sangrando e bordas irregulares marcando a pele. Não fez comentário algum. Só respirou fundo e manteve a postura como se não tivesse acontecido nada. Era orgulho jupiteriano lutando contra o instinto de proteger até a própria vulnerabilidade. — E isso aqui foi descuido meu. — Acrescentou fazendo um gesto vago com o braço ferido. — Lamentável para um filho de Júpiter, eu sei. — Soltou um riso curto, amargo, sem humor algum. — Não posso me dar o luxo de cometer esses erros. — Completou, mais duro consigo mesmo do que com qualquer outro. Houve um silêncio pesado enquanto ele respirava fundo, tentando reorganizar a própria cabeça. Então ele falou de novo, a voz um pouco mais baixa, menos marcial. — Você tava saindo pra cuidar dos outros quando eu entrei, não tava?
Apesar de concentrada no que precisava fazer, Eysan não conseguiu evitar um sorriso de canto achando graça da reação de Cassius com o gosto da solução que tinha preparado para diminuir as dores que ele sentia. Era uma reação comum entre todos os semideuses. "Para ganhar os remédios com gostinho de morango você precisa passar por aqui para me visitar depois do café da manhã. É o horário que os mais novos que precisam são atendidos. Eles ganham até pirulito quando se comportam." Ela enviou um rápido olhar bem humorado por cima do ombro para Cassius e depois, seguiu separando tudo que precisaria para cuidar dos ferimentos dele. Panos limpos, gazes largas, a pequena tigela com a pomada espessa que havia preparado ali mesmo, misturando plantas medicinais até alcançar a textura certa. "Pelo menos funcionou, não é?" No momento em que Cass mencionava o Leão, ela já tinha tudo pronto e deu tempo de observar enquanto ele levantava a camiseta e revelava o ferimento feito pelo monstro. "Ai não, Cass!" Ela balançou a cabeça e fechou os olhos por um segundo, sentindo a preocupação subir por todo seu corpo. O corte era ainda pior do que estava imaginando. Atravessava todo o abdômen dele. "Eu sinto muito! Isso devia estar doendo tanto. Deveria ter vindo antes." Por mais forte que o filho de Júpiter fosse, Eysan acreditava que seria difícil mantê-lo consciente se a dor não tivesse diminuído com a solução que havia tomado. Colocou tudo que precisava ao lado dele na maca. Sem perder tempo, pressionou um pano limpo diretamente sobre o ferimento. Seu toque era delicado, mas firme, pois precisava controlar o sangramento antes que pudesse avaliar qualquer outra coisa. "Respira comigo." Inspirou e expirou devagar. Estava próxima o suficiente para que ele pudesse sentir o ritmo de sua respiração em seu rosto e acompanhasse. Precisava que a pressão dele se estabilizasse. "Somos todos descuidados as vezes." Comentou em voz baixa, enquanto, sem tirar a mão do lugar, alcançava outro pano para reforçar a pressão. Não pararia até que notasse que o sangramento tinha cessado. "Eu também saí hoje a noite sem nenhum kit de emergência da enfermaria e simplesmente entramos em uma guerra com três tipos de monstros diferentes. Me senti muito culpada, pois fiquei sem ter como ajudar os feridos. Então entendo a sua frustração..." Colocou mais um pano. Agora estava percebendo que o sangramento diminuía, então aquele seria o último. "Mas mesmo que tenha cometido um breve descuido, esse corte aqui mostra que estava disposto a ir além de todos os seus limites na linha de frente. Já te vi treinando, Cass. Você é um guerreiro incrível. Eu não consigo fazer nem um terço do que você faz." E era verdade, apesar de ter alcançado um bom nível com o uso de seu poder nos anos de Acampamento, sua habilidade em luta e uso de armas não era boa. Ergueu os olhos para encarar os dele e sorriu sincera para tranquilizá-lo. "Sim, mas você é um dos que eu cuidaria, então é até melhor que tenha me encontrado aqui." Ajustou a pressão uma última vez, satisfeita ao perceber a melhora. Afastou os panos e enviou um olhar atento para Cassius, para tentar captar se ele estava se sentindo bem para continuarem. "Diminuiu o sangramento. Agora vou limpar, tudo bem?"