A maneira de ser budista
(Transcrição da Palestra do XIV Dalai Lama - 30/Maio/2014)
Buddha Darma tem agora quase 2600 anos de existência e todos nós budistas e também países aonde a religião budista é predominante deveríamos ser Budistas do Século 21. Isto significa a prática do budismo com um total conhecimento de todo os sistemas que envolve o dharma de Buda.
Tradicionalmente, nós simplesmente recitamos textos, algumas orações, fechamos os olhos e começamos a repetir (ele fecha o olho e começa a recitar uma oração, pára e continua): isso não é eficiente. (Risos). Com freqüência muitos tibetanos, chineses, hindus rezam e rezam, mas depois quando eu pergunto prá eles “o que é Buda?”, eles respondem “não sabemos” (risos).
Também muitos tibetanos se consideram budistas mas simplesmente pela tradição, mas sem ter o verdadeiro conhecimento dos ensinamentos de Buda.
Então, agora, nós devemos ser budistas com total conhecimento. Buda é uma pessoa respeitável. Não podemos analizar e examinar uma pessoa por como ela aparenta, mas sim pelo seu comportamento, seu conhecimento espiritual, seu conhecimento do budismo e suas experiências espirituais mais profundas. Devemos analizar a manera de se expressar dessa pessoa e seus ensinamentos, então só aí diremos “ah, essa pessoa sim tem seu valor porque é uma pessoa que usa seu intelecto e foi capaz de transformar a sua parte emocional baseada nestes conhecimentos”. É assim que as mudanças reais em nós mesmos acontecem e é com essas pessoas que demonstram esse comportamento que os ensinamentos são realmente eficazes.
Para conhecer Buda, você tem que conhecer o dharma. Sem o conhecimento do darma é impossível conhecer o verdadeiro Buda. E o próprio Buda estudava e se reunia com outras pessoas (Sanga) para discutir o estudo e a prática do dharma, como nós estamos fazendo neste seminário. Foi através destes estudos e destas práticas ao longo dos anos que ele alcançou a iluminação. Então, mesmo Buda, só desenvolveu a experiência espiritual através primeiramente do conhecimento, depois reunindo-se com outros para discutir e praticar os ensinamentos (Sanga). Só depois disso ele se transformou em Buda.
(Dalai Lama lê uma oração em tibetano y diz: “depois eu explico em inglês, esse inglês ruim que eu falo. Eu sempre aviso às pessoas que meu inglês é bem limitado e às vezes tem que ter cuidado porque as pessoas interpretam da maneira correta o que eu disse errado. - risos).
O sentido dessa oração é: quando nós examinamos qualquer coisa devemos abrir nossa mente e ser imparciais. Em relação ao estudo de Tara é preciso um certo nível de ceticismo porque quando somos céticos qüestionamos. O qüestionamento nos leva a investigar e investigando conseguimos respostas.
Então, no começo da prática do budismo muita gente diz “sim, sim, sim... fantástico, fantástico” mas isso depois não nos dá uma base sólida para estudar Tara. Por isso é muito importante ter ao mesmo tempo a mente aberta, ser céticos, imparciais e examinar tudo objetivamente.
Por esse motivo, os Grandes Mestres de Nalanda são o nosso exemplo pois eles examinaram inclusive as palavras de Buda. Se você aceita esse ensinamento de Buda literalmente isso pode contradizer os seus princípios.
O próprio Buda disse: nenhuma pessoa deve aceitar meus ensinamentos movida nem pela fé e nem pela devoção, mas sim investigando esses ensinamentos e experimentando a prática desses ensinamentos como um laboratório.
Então principalmente na escola de Nalanda existe muita ênfase na investigação e no questionamento. Por essa razão, este texto escrito pelos 17 Grandes Mestres de Nalanda é muito útil. Apesar disso esse texto me deu muito trabalho quando eu era pequeño e tinha uns 7 ou 8 anos de idade porque eu tinha que decorá-lo na escola e isso me trouxe um monte de problemas (risos). Assim que graças aos meus mestres eu aprendi (gargalhadas) mas eles tiveram que me dar alguns tapas no traseiro (gargalhadas). Só que hoje em dia é quando eu realmente vejo que esse texto é muito útil e baseado nele eu compus esta oração.
Existe outra razão: no final do século XX, algumas pessoas que saíram do Tibet decidiram que eram Lamas e que se sentariam num trono alto (risos). Existem muitos “pudjas” tipo assim. E também existem Lamas com esposas e que tomam drinks. :D E esses auto-proclamados Lamas não têm nem idéia dos ensinamentos, nunca estudaram o budismo tibetano e o seu sistema de aprendizagem. Esses supostos lamas são chamados “Lama Easy” e eles também não entendem o chamado Sistema Tântrico. É difícil de entender e geralmente as pessoas sem saber o verdadeiro significado da tantriana budista fazem os rituais sem o conhecimento necessário. Por isso, esse tipo de budismo não é o verdadeiro e genuíno.
O verdadeiro budismo tibetano foi introduzido no século VIII por Shantarakshita (monje budista hindú da universidade de Nalanda, levado ao Tibet pelo rei Trisong Detsen). Ele traduziu ao tibetano mais de 200 livros de textos originalmente escritos em sânscrito e vindos da índia. Então, até os dias de hoje, nós estudamos rigorosamente esses textos, além dos 100 volumes de ensinamentos escritos por Buda.
Os hindús são nossos gurús porque eles aprenderam primeiro. Eu costumo dizer que os hindús são os gurus e nós tibetanos somos os aprendizes. Mas eu estou me referindo aos hindús antigos, não os modernos (risos). Os modernos estão muito ocidentalizados. Você por exemplo (aponta prá uma pessoa): está vestido como um hindú, mas a sua mente é ocidental (gargalhadas). Tô brincando, tô brincando! (risos) Eu não sei se é assim. :D
É claro que a modernidade e o desenvolvimento são muito importantes, mas não se deve esquecer a tradição de 1000 anos do pensamento e do conhecimento hindú.













