érine costuma não dar espaço a memórias tristes ou permitir que as mesmas povoem seus pensamentos – afinal, faz questão de tapar esses buracos com momentos em que se sentiu plena e realizada como sempre deveria ser, mas há uma memória muito específica que, vez ou outra, acaba surgindo em sua mente.
era natal. natal este que passou completamente sozinha, após a turbulenta saída da faculdade. era seu primeiro ano em paris. sem contatos ou amizades em tão pouco tempo, e sem a visita dos pais que permaneceram na cidade onde ela nasceu, tentou assar sua primeira ave natalina, confiante de que a data iria ser tão agradável para ela quanto era para outras pessoas. era claro que poderia ter seu natal, mesmo que apenas na companhia de si mesma. ela podia aproveitar como todo mundo. não, faria muito melhor. se divertiria cem vezes mais.
ela até hoje não sabe se sentiu-se absurdamente pequena no mundo e na vida de qualquer pessoa devido ao fato de sua ceia ter dado errado ou se foi porque percebera que não haveria ninguém ao seu lado por um bom tempo.
nessa noite, sua jantar fora o sal das lágrimas fujonas e a comida chinesa de um restaurante muito cretino.
"você é tão estúpido! que situação ridícula, por que foi tentar fazer isso sozinho?" esbravejou, emputecida da cara. por que diabos ele estava tentando trocar um dos raios de led da boate sozinho? um homem endinheirado daqueles e cheio de gente pra fazer o serviço braçal em seu lugar escorado em uma escada enorme pendurado nos pés dos corrimãos do mezanino, com medo de descer. "pelo amor de deus, aslan, se olhar pra baixo é pior! eu estou segurando aqui, você não vai cair." prometeu, sem paciência alguma. o pior era que estava mesmo, de forma que se certificasse de que a escada não fecharia com o peso dele enquanto ele descia. como o koray havia conseguido subir sozinho? e se não tivesse chego na hora, como ele iria sair dali se não tinha nenhum funcionário ainda? suspirou ruidosamente, enquanto aslan descia da escada, trêmulo. se fosse pra confessar, diria que adoraria poder rir, mas se o fizesse, com certeza ele ficaria tão puto que não iria nem mesmo querer olhar em sua cara. a medida em que o mais alto se aproximava do chão, mais rápido descia, o que ocasionou num pisão em falso em um dos degraus. quando ele caiu pra trás, o instinto de érine foi soltar a escada para tentar segurar o corpo do outro. "te peguei!" exclamou, pouco antes de aslan cair de costa em seus braços, fazendo com que ela abraçasse seu tronco e o apoiasse – e dar graças a deus por não ser uma mulher pequena, se não, tinha ido com deus junto com ele. "aposto que tá se sentindo uma princesa turca agora, não é, boneca? caindo nos braços do seu príncipe aqui."
[ dramatics ] as sender and receiver argue back and forth, sender launches forward and kisses receiver to stop the fight
dessa vez, ir até o escritório dele não fora um ato de sua natureza infernizante e provocativa – por incrível que parecesse. aslan não queria que ela estivesse lá (ou tivesse qualquer coisa a ver com ele, pelo visto), e isso o mais novo já havia deixado bem claro, mas apesar do orgulho ferido e da raiva aparente, sentia-se obrigada a ser a pessoa que deveria abrir os olhos do koray. não era a intenção de retratar-se de alguma forma – ele não a veria com bons olhos por tentar ajudá-lo independentemente do que fizesse, e disso érine tinha plena convicção –, mas sim um certo tipo de zelo, o qual ela guardava para poucos. e mesmo assim, não a livrava das discussões, fosse pelas alegações de aslan sobre sua falta de noção, suas mentiras e seus jogos quanto pelo fato de que ela apenas não deveria meter o bedelho. mas ela estava, e estava muito. berrando aos quatro ventos que se ele quisesse ver o próprio negócio ruir, era só se meter com investidores bem específicos que haviam aparecido na última noite, e que ela percebera movimentarem-se para uma sala vip com o moreno. se aquele tempo todo não era uma tentativa de firmar um negócio, então ela não era érine bouvier. "você não diz que eu sou uma golpista? pois bem, eu reconheço meus pares! me escuta pelo menos uma vez hoje. não fecha nada com eles. você vai perder dinheiro e vai se comprometer!" a discussão se mantinha, enquanto érine tentava manter o próprio ponto. estava quase desesperada, e cansada de ser desvalidada pela opinião do mais alto. "aslan, para de ser trouxa! acredita em mim! custa não ser um imbecil? se eu não estivesse fazendo isso pra te ajudar eu não estaria aqui ouvindo desaforo seu de graça, seu idiota! burro, estúpid-..."
foi tudo muito rápido. érine nem mesmo teve tempo de reagir ao ímpeto do koray, mas isso acordou tanto seus sentidos e fez seu corpo formigar de tal maneira que correspondê-lo na mesma intensidade foi uma resposta automática da sua própria memória. era como se houvesse acabado de voltar no tempo. o gosto dele, as mãos, o cheiro, o corpo firme. tudo era como antes, e como nunca mais fora desde então. e, por pelo menos alguns segundos, ela se permitiu não querer mais sair dali.
ela sabia que não era um hábito saudável desenvolver uma hiperfixação com a ideia de atormentá-lo, mas era mais forte do que ela – e, com certeza, correlacionava a consequência de suas ações com a atenção que recebia dele, mesmo que negativa, quando visitava seu estabelecimento. érine deixava os limites fora daquela sala privada na boate toda vez que aslan se metia e a tirava da ciência pública, como se fosse um elemento fora do lugar naquela lugar. e sim, ela era. principalmente quando se envolvia com pessoas importantes para o negócio dele e com quem claramente não deveria ter qualquer tipo de assunto. a bouvier já havia se metido em tantas situações perigosas diferentes que mesmo alterada pelo álcool claramente não tinha receio do que ainda podia controlar. entretanto, aslan não parecia ter o mínimo de fé em seu comportamento errático e impulsivo. "o que foi agora?" reclamou, tentando soltar pulso que o koray puxava com afinco. "me solta, aslan! me solta e explica o que eu fiz demais lá embaixo!" empacou no meio da sala fechada depois que ele fechou a porta, esbarrando no sofá. sentiu que ele a segurou, mas não deu trégua e mais uma vez tentou se desvencilhar, descontrolada. quando menos percebeu, já estava contra a parede. o susto a fez piscar os olhos com força, mas logo habituou-se com a competição pelo controle. ela queria tanto quanto ele precisava. "eu mandei me soltar." foi a primeira vez na noite em que sua voz tremeu. moveu-se contra koray, na tentativa de soltar-se e empurrá-lo, mas a presença tão próxima e o cheiro dele invadindo seu olfato enganaram seu corpo. érine culpou o álcool pela tontura repentina, mesmo que a respiração houvesse ficado pesada no primeiro sinal do corpo dele contra o seu. os enormes olhos encontraram os castanhos dele, em meio à tensão construída pelo momento. o brilho perverso e masoquista das orbes estava lá mais uma vez. não era essa a atenção que ela tanto queria, desde o início? "mas eu entendo. o problema agora é você não querer soltar, não é?"
❛ once trust is broken, can it ever be truly repaired? ❜
"é você quem tem que me dizer isso. você faz questão de mostrar todos os dias que não confia mais em mim. que nem ser humano eu sou mais!" riu alto no meio da rua, encostando-se em um poste. mais uma noite adentro na boate de aslan, mais uma madrugada em que saía sozinha e caminhava a pé pra casa. ela não aguentaria isso se não estivesse bêbada, claro. agir como se estivesse tudo bem sair assim de um lugar, ziguezagueando sozinha pela calçada. na realidade, agir como se estivesse tudo bem, no geral. principalmente, agir como se não estivesse indo todos os dias lá pra reaver algo que parecia não ter mais faz tempo. captar a atenção que já estava morta, muito embora ele tivesse ido até lá fora, para caminhar atrás dela como se a qualquer momento ela fosse se matar de alguma forma. mas em sua visão turva, não era mais do jeito que era. não gostava do jeito que aslan a olhava agora, não gostava de discutir toda vez, e não gostava de saber que não era mais bem vinda pelo koray. nem fora e nem dentro dele. "eu não sei o que fazer, e mesmo que eu faça algo, não vai significar nada pra você, porque você não quer que signifique. então volta pra dentro da sua boate e vai viver a sua vida. tenho certeza que se eu sumir, você vai dar graças a deus."
[ argue ] sender gets into a heated argument with receiver
o cansaço a acometia de uma forma absurda. não apenas físico – afinal, não era fácil encontrar um bom imóvel consideravelmente barato e com um processo menos burocrático para alugar em des moines. a estafa era mental também e, com certeza, discutir com aslan não estava rendendo mais do que uma enorme dor de cabeça. ainda assim, não tinha a quem recorrer. enquanto suas contas estivessem congeladas devido à investigação, precisaria de um fiador. ainda não havia encontrado bonnie, então a única pessoa com dinheiro mais próxima que conhecia-... bem, a pessoa de quem era mais próxima em tempos mais remotos era o próprio empresário. não que ele quisesse se lembrar disso, claro, algumas pessoas às vezes só querem enterrar uma parte do passado, e aslan era assim. o koray tinha raiva dela, e a bouvier entendia que provavelmente, ele gostaria de enterrá-la. agora, ela querer fazer o mesmo era outra história. "escuta aqui, você não tem moral nenhuma pra me dar alguma lição, entendeu?" érine se aproximou, a expressão conturbada traduzia a irritação, o constrangimento e a mágoa, por mais que lhe matasse pensar em admitir. sabia que não tinha agido bem com ele no passado. com certeza sabia. mas ver que aslan ainda guardava rancor depois de tanto tempo de certa forma também a desapontava. isso despertava dentro de si sentimentos que odiava ter: arrependimento. e sentir isso por alguém como ele – por quem nutria tudo, inclusive ódio – a frustrava. "eu jamais estaria aqui se eu não estivesse totalmente ferrada, então vá se foder com essa incredulidade falsa!" foi a vez dela de mostrar a amargura, berrando com aslan. percebeu que estava se alterando em frente a ele – que já era sempre tão dramático–, então levou as mãos ate o rosto, o esfregando como se não acreditasse naquilo tudo. um riso frouxo e sarcástico despontou na sala. "aposto que está se divertindo. por algum motivo eu não me surpreendo, mas é triste. bem triste." mordeu a parte interna da bochecha, controlando a garganta apertada. queria gritar, brigar, ter toda a razão do mundo mesmo sabendo que não tinha, mas estava tentando se conter em prol de evitar ainda mais atrito. "não estou te pedindo dinheiro, estou te pedindo uma janela aberta. e você me deve, esqueceu?" os olhos brilhantes o encaram ambíguos, sem deixar transparecer se era realmente ódio ou apenas as lágrimas se formando. "apesar dos nossos problemas, eu já te livrei de muitas no passado. você seria muito mal caráter se negasse. então, por favor, você pode fazer isso por mim? não foda comigo, aslan. não agora."
"well, you can hide a lot about yourself, but honey, what are you gonna do? and you can sleep in the coffin but the past ain't through with you. cause we are all a bunch of liers, tell me, baby, who do you wanna be?"
2024.
w/ @themoonishly. 🍒
érine nunca diria que estava feliz por estar de volta – muito pelo contrário, sentir que precisava começar de novo era, no mínimo, humilhante. não era do tipo que dava o braço a torcer, isso nunca, mas voltar da mesma forma que partira (sendo sincera, sozinha, malquista e indesejada) era um pouco desanimador. a sensação seria um pouco mais agressiva se ela se importasse o suficiente com os outros para sentir-se mal, mas não era como se a bouvier houvesse saído daquela cidade repleta de amigos.
amigos. amizade era um conceito bastante aberto para a morena. o que e quem ela poderia elevar a tal patamar? difícil dizer quando sua vida fora repleta de aliados temporários – um claro reflexo da conduta individualista e duvidosa de seus últimos anos, mas quem poderia culpá-la? todos tentam sobreviver o tempo todo – e, apesar da simpatia, vazia de pares. érine era solitária porque não era fácil pensar da mesma forma que ela. na maior parte do tempo, não era legal pensar da mesma forma que ela.
ainda assim, era incrível como seu corpo a levara diretamente à cafeteria italiana próxima à antiga arsenault para encontrar belladonna. mesmo que não admitisse, era como se enxergar à sua frente algo familiar pudesse transformar a experiência de estar de volta menos amarga, muito embora a relação delas fosse tão complexa quanto seus sentimentos e tão simples quanto suas atitudes. bonnie era, de fato, um quebra-cabeça emocional tão difícil quanto parecia, mas érine nunca deixara de ter sucesso em interpretar, pelo menos, sua mente.
observá-la atravessar a rua era como um vislumbre dos dias e noites do passado em que a encontrava para – qualquer um ficaria pasmo ao saber!, mas – trabalhar, pondo planos financeiros da empresa em dia e, quem sabe, ao final da noite, sair pra beber e comemorar qualquer coisa que não precisava ser realmente comemorada. eram bons dias. belladonna a lembrava dos bons dias. eram bons dias onde, por algumas horas, não lembrava que estava tão sozinha.
"apareceu, finalmente." a provocação deixara seus lábios sem muita pretensão, enquanto a arsenault sentava-se à sua frente, na mesa externa da cafeteria. érine usava um óculos escuros como uma celebridade que não queria ser reconhecida, enquanto levava a xícara de café aos lábios. o gole curto a esquentou um pouco, e assim ela descansou a xícara em cima do pires, na mesa. olhou para o rosto de belladonna. o tempo parecia ter passado mais para si do que para ela. definitivamente devia ter enfrentado diversas mudanças ao longo dos anos em que não a encontrara, mas com certeza não era a aparência a maior delas. ela continuava bonita. "não parece ter mudado muito, bonnie. embora eu acredite piamente que, pelo menos, mais insana deve ter ficado." comentou em uma brincadeira, mas ainda assim, não duvidando de nada. bem, bonnie também sumira por um tempo. érine nunca colocava as mãos no fogo por ninguém, e sentia que a conhecia o suficiente para estar ciente da inclinação para aventuras que a outra tinha.
"if i crash on the couch, can i sleep in my clothes? 'cause I've spent the night dancing, i'm drunk, i suppose. if it looks like i'm laughing, i'm really just asking to leave."
w/ @aslankoray. 🍒
dessa vez, érine não tinha pretensão de parecer coisa alguma.
difícil dizer exatamente quando naquela noite havia tomado a decisão, mas havia certo conforto em vasculhar momentos felizes na memória e torná-los prática – principalmente quando sua vida estava preenchida por caos e problemas. honestamente, nunca vira muita beleza em se retirar, mas pessoas inteligentes sempre sabiam a hora de fazer uma pausa. e, se essa pausa significasse agir como se fosse uma jovem universitária novamente dentro da boate de um velho amigo, talvez érine fosse uma grandessíssima estrategista da atualidade. que outra ideia seria mais efetiva que essa quando podia esquecer do mundo e atormentar a cabeça de aslan ao mesmo tempo?
claro, ela tinha trinta e seis anos, e estava rodeada de jovens com – pelo menos – dez anos a menos pesando as costas. mas havia algo de muito certo naquele vestido preto e curto que abraçava suas curvas, assim como no cabelo solto e rebelde que esvoaçava com cada movimento menos suave enquanto dançava e bebia. talvez fosse a sensação de, pelo menos por algumas horas, tornar-se mais uma vez a érine bem sucedida da universidade, sem preocupações aparentes e que tinha a chance de se divertir na hora que bem entendesse, com tudo e todos na palma da mão. sem se importar com olhares ou qualquer tipo de julgamento por ter voltado, ali ninguém ligava pra quem ela era; ligavam apenas pra como ela dançava.
a pausa para um gole da própria bebida foi certeira. ela passara os olhos pelo mezanino da boate atrás de um rosto específico, que não vira a noite toda enquanto aproveitava. mesmo ele sendo dono do lugar, fora pra lá ciente de que talvez não o encontrasse, mas talvez sim. e esse talvez sim a animou de uma forma que há algumas semanas nada conseguia. a última vez que vira aslan fora o dia em que anunciara seu casamento convidando-o como se estivesse o chamando para uma reunião de negócios. pouco depois disso, érine sumiu no mundo. sumiu de des moines, sem o intuito de voltar um dia, e sem olhar pra trás.
mas a vida era muito engraçada às vezes. tão engraçada que olhar pra ele do andar de baixo parecia até mesmo um dejavu de seus dias de glória. sentia como se a mesma coisa já houvesse se repetido dezenas de vezes no passado. ela sorriu em resposta à reação do koray ao encontrá-la quando, como sina, seus olhares se encontraram. um sorriso aberto, arteiro, cheio de intenções falsas que costumava apresentar a aslan toda vez que sabia o que ele pensava. mas dessa vez, ela não sabia nem mesmo o que o homem pensara ao encontrá-la depois de tanto tempo sem notícias. passou a mão pelos cabelos, e bebeu mais um gole de seu copo em meio à multidão. brindou a ele, já que não poderia brindar à si mesma.
A primeira vez que cruzei com ÉRINE BOUVIER em Des Moines, senti alguma coisa diferente… Aos 36 anos, o que mais me chama atenção não é o fato de ser DESEMPREGADA, mas de parecer ser tão INDIVIDUALISTA. Se serve de consolo, me disseram que também é SAGAZ. Fique de olhos abertos porque, apesar de se parecer com ANNE HATHAWAY, sua aparência não me engana. Ela sabe de alguma coisa que nós não sabemos.
skeleton escolhido: xxiv – diamonds.
gênero do personagem: feminino.
aesthetic: joias e dinheiro; brunch parisiense; vestido preto, luvas e colar de pérolas; velas acesas e banhos de espuma; taças de champanhe e vinho branco; sacolas de shopping; apartamento vazio e malas; espelho de ouro e tapete felpudo; anotações e calculadoras.
seu pai costumava dizer que lírios alpinos sempre cresciam em meio às rochas.
érine recebera seu nome na esperança de que fosse capaz de fazer o mesmo.
ela nascera no inverno, gelado como o inferno nunca fora. os pais, jardineiros contratados em uma estufa localizada dentro de uma cidade ainda menor que des moines, usaram a mesma alegria e força de recebe-la para tentar cria-la, mesmo nas condições adversas e a falta de dinheiro frequente. gente boa e trabalhadora, comentavam na vizinhança modesta onde moravam. não tinham muito, muito menos recursos para mimá-la, mas a ensinaram que a única coisa a qual não poderiam lhe tirar era o próprio estudo. portanto, érine – que já pensava ter muitíssimo pouco em tenra idade – concordou e fez da vida e da constância nos estudos a única oportunidade de sair do que chamava de miséria.
sempre odiou que a chamassem de ingrata – o que ocorria frequentemente, desde que o que seus pais lhe proporcionavam nunca lhe trouxera satisfação o suficiente. era pecado estar descontente por não ter o que sonhava ter? se ainda apenas praguejasse aos quatro ventos e não corresse atrás de seus sonhos, daria razão aos mais amargos pobres hipócritas na cidade, mas não deveria. e nem poderia se, mesmo tentando esconder o nariz empinado, esforçava-se para certificar-se de ser e parecer mais especial do que todos os jovens que lá criariam raízes, como capim comum. as melhores notas, o melhor desempenho, o melhor comportamento. tudo corroboraria pra sair de lá de uma vez por todas.
e conseguiu. a bolsa de estudos na université di l'orangerie caiu em suas mãos suadas como um passaporte só de ida para des moines, onde teria a chance de se tornar uma pessoa diferente da qual estava destinada a se tornar. não era isso que seus pais queriam? que se tornasse alguém. que florescesse entre as pedras, tal como não conseguiram em uma vida inteira de trabalho. érine conseguiria. viraria uma figura respeitada, bem-sucedida e abastada, que voltaria àquela cidadezinha tosca e daria a melhor das vidas para os pais. ela tinha todo o plano traçado em moleskines caros e recém comprados.
entretanto, à medida em que foi percebendo a natureza ao redor e o tamanho das pedras pelas quais teria de atravessar, esses mesmos planos foram tomando outras linhas e sendo reescritos conforme encontrava brechas para se esgueirar. viu-se pequena em meio aos estudantes que formavam os grupos dos quais queria participar, e isso a fez criar um personagem útil dentre essas pessoas. as mentiras acompanharam o talento com a persuasão e a simpatia plástica, fazendo de érine uma estudante brilhante e popular exatamente por ser quem forjara. uma jovem de família abastada, vinda do interior e que estava tendo um novo tipo de experiência social ao vir para des moines pra viver por conta própria. assim, foi criando conexões, e estabelecendo amizades com pessoas influentes em seus anos universitários.
quanto mais o tempo passava, mais lhe foi exigido como parte do ciclo social do qual participava. não poderia ser apenas a érine brilhante e popular à troco de nada. logo, e aos poucos, tornara-se a fábrica de favores de jovens que sempre tiveram o mundo em mãos. a bouvier era conhecida por conseguir fazer um pouco de tudo. notas? ela tinha as respostas. contatos? ela os conseguia. vinganças pessoais? com certeza ela pedia um valor maior, nem que fosse simbólico, mas não era um problema. a dualidade de sua índole era exposta para poucos, desde que finalmente estava no topo. era boa, mas era ainda mais necessária, e isso a fazia ganhar o que queria a todo o tempo. o pequeno apartamento que ocupava logo começou a encher de presentes e agradecimentos, tornando-a cada vez mais requisitada em festas e eventos importantes dentre àqueles que foi capaz de enganar. a aparência angelical e inofensiva só facilitava suas movimentações sorrateiras, e isso a levou até caminhos sinuosos envolvendo vícios e dinheiro sujo, que com certeza seus pais desaprovariam ainda mais se estivessem ali para ver. se soubessem, talvez não continuassem ligando frequentemente e enviando a comida que muitas vezes érine até mesmo deixava estragar na geladeira.
o topo foi encantador até toda a tragédia acontecer. ela já estava quase terminando o curso superior quando aquilo aconteceu com os calouros. não tinha qualquer sentimento bom ou ruim demais por fiona, mas o episódio a marcara de uma forma que não a faria esquecer nunca, mesmo tentando. o incidente desencadeara investigações pelo campus, o que acarretara a descoberta de seus esquemas – tanto em relação às vendas de resultados de provas, fraudes e pequenos favores, quanto em relação à sua conduta ambígua como membro exemplar do corpo estudantil e figura popular na universidade. érine mal pudera se formar quando toda a verdade viera à tona e descobriram quem era, no final das contas. acabou se afastando de quase todos depois de cair de seu próprio cavalo no tabuleiro – depois de descartada, deixara de ser importante. ela já não era mais a érine de université di l'orangerie.
mas talvez, érine bouvier pudesse se tornar outra coisa. ela precisava sobreviver e, acostumada com o que tivera na palma da mão por anos, jamais voltaria para a cidadezinha de seus pais sem um baú de ouro em mãos. trabalhar na área financeira não rendeu todo o dinheiro que precisava pra manter a vida que queria pra si, então precisou encontrar outra forma. atuar em escritórios e empresas só lhe deu ingressos para alcançar pessoas mais influentes. em meio à jogos manipulativos e pequenas fraudes, ela pulou degraus. secretária, conselheira, assessora e, por fim, amante. não demorou para que influenciasse um divórcio e seduzisse um homem mais velho rico o suficiente para bancar suas futilidades. graças a deus, ele não duraria muito – provavelmente, tempo suficiente para mudar seu testamento. e assim ele o fez, pouco antes de adoecer.
só não com a família entrando com um processo contra ela.
érine não sabe bem o que fazer no momento, já que está perdendo a causa. tudo o que sabe é que está tendo que voltar à des moines do jeito que sempre tivera pesadelos sobre: falida, sozinha e extremamente indignada e ofendida por tudo o que estava acontecendo. e oh, ainda tinha victor. ela também não sabe como se sentir sobre isso. na realidade, ela não sabe como se sentir sobre ele, depois de tudo.
mas era temporário. uma situação temporária, e uma sensação temporária.