rip us apart, muscle from bone · corteschi
reynadaporratoda:
Reyna estava cansada. Não só pelo machucado, não só pelo cenário caótico e a luta por sobrevivência que a cercava, não só por precisar conviver com um erro seu que condenou a cidade inteira àquele colapso. Reyna estava cansada por, depois de ter que lidar com todos os problemas que surgiram nos últimos meses, precisar aturar a presença de Francis ali. Já era difícil o bastante conviver com o italiano desde o incidente no baile e ali, com tantos sentimentos misturados e a raiva que Bergamaschi nutrira por ela durante todo aquele tempo, Cortéz sentia até dor de cabeça enquanto tentava não demonstrar nenhuma emoção.
Era engraçado o quanto o moreno poderia lhe parecer um mapa do qual já tinha decorado todos os lugares ou um livro que ainda não tinha aberto. O que se passava na cabeça dele, o que ele carregava no coração por trás de todo aquele escárnio com que a tratava agora, não poderia adivinhar. Mas Reyna se lembrava da maneira em que suas sobrancelhas se uniam quando estava aborrecido ou o jeito em que ele se mexia, o som que seus ossos emitiam ao caminhar, o sorriso zombeteiro que ele a lançara segundos atrás. Até a cautela que ele fizera questão de assumir ao tocar suas costas, sem necessidade, no dia em que cuidara de seu ferimento ainda era fresco em sua memória. Quase como se estivessem naquele apartamento de novo, Reyna no sofá e Francis logo atrás, costurando seu machucado depois de uma noite tão cansativa para os dois. Acima de qualquer contato sexual entre os dois, aquele toque ela nunca poderia esquecer.
Cortéz mais uma vez respirou fundo. Era impossível não fazê-lo no momento. Precisava de calma, de estabilidade, de uma mente mais sã e devidamente em seu lugar para que não mostrasse a Bergamaschi mais do que já fora exposto.
Tudo o que devia dizer já fora dito. Apesar de reconhecer que sim, houveram problemas em seu plano que ela não pôde previr, não pediria desculpas. Nem para ele, nem para mais ninguém. Orgulho era uma das poucas coisas que não tinha perdido em Bradcliff - preferia que cortassem sua cabeça e a dessem como prêmio para os humanos do que precisar pedir algum perdão a alguém. Não precisava da piedade dos outros - ela mesma se perdoava, e se Francis desejava mais alguma explicação além daquela, permaneceria um bom tempo esperando.
Mas não era esse o assunto que ele, com tanta sede de vingança, viera tratar. Porque, obviamente, Bergamaschi não pensava no coletivo, portanto, não se importava com a queda da cidade ou o plano falho que Cortéz havia feito. Era uma questão pessoal. A mexicana precisou fechar os olhos para não revirá-los. Mais um suspiro. Já deveria ter imaginado.
Reyna permaneceu imóvel, os olhos azuis assistindo o mais novo sucumbir à raiva. Começou com mágoa, mas agora era ódio. Aquilo ela podia afirmar, porque já era algo que conhecia bem. Ouvia as reclamações enfurecidas de Bergamaschi, com os olhos fechados de novo e a expressão quase farta, como uma mãe cansada que precisava aguentar mais um dos rompantes de raiva de seu filho adolescente. Mas não ousou demonstrar mais nada além disso: de resto, estava da mesma forma que antes.
O único momento em que perdeu a calma foi quando ouviu o punho fechado se chocando contra a mesa. Abriu os olhos e deu um pulo assustado, quase receosa de que Bergamaschi pudesse fazer algo para machucá-la. Mesmo assim, não se sentia ameaçada.
No fim, era tudo sobre ciúme. Aquele ciúme ridículo e mesquinho que Francis sentia por simplesmente não ser incluído, a disputa entre ele e Yansan que beirava o auge da criancice e infantilidade. Já tinha o advertido antes e não era mais tão paciente para fazê-lo outra vez. Ela fitou o rosto do mais novo - não era mais tão calma, mas sua raiva não chegava nem perto daquela que Francis sentia.
— Então foi por isso que você se deu o trabalho de atravessar uma cidade em guerra — começou a montar sua conclusão. — Foi por isso que você veio até aqui. Por ciúme de algo que não te justifica sentir essa exclusividade. — fez uma pausa. Bergamaschi dissera tanto e fizera tanto alarde que agora teria que escutá-la, e esperava que ele escutasse com atenção. — Eu te avisei uma vez, Francis, e vou avisar de novo. Espero que dessa vez guarde a informação nessa cabecinha infantil, porque comigo não existem repetições. Eu me comprometi a te chamar quando fosse necessário, e apenas aí. Se eu julgasse que daria conta do recado, não precisaria dos seus serviços — sua voz começava a ficar um pouco mais firme.
— E já que você tem tanta certeza de que eu não te dei importância, vamos então falar de importância — Reyna ainda media suas palavras, mas não tinha certeza do que poderia escapar de sua boca em algum momento. — Desde o começo, você deixou claro seu desinteresse nos Hounds e ironizava todo o Clube do Livro pelos objetivos que tentávamos atingir. Como eu poderia priorizar alguém que não se preocupava em me priorizar também? Se você queria ser privilegiado, deveria ter se empenhado mais por isso. — Cortéz não se preocupava mais em ser moderada. Sentia-se ultrajada por ser cobrada daquela forma, como se Francis fosse o único assunto que merecesse sua atenção. — Eu nem preciso citar o fato de que o Clube do Livro exige confidencialidade. Se eu pudesse abrir todos os tópicos conversados na reunião para todos da cidade, não faria sentido ter que me esconder na porra do sótão da cafeteria do seu amiguinho com mais uma dúzia de habitantes para tentar arrumar um jeito de sair desses muros infernais.
Francis já estava irritado antes e enlouqueceria de raiva agora. Reyna não dava mais a mínima; ele que aprendesse a lidar com suas próprias frustrações sem parecer uma criança birrenta saindo da loja de brinquedos. — Você tem noção do quanto isso é infantil? Sim, nós fizemos um acordo e eu honro minha palavra. Mas negociei com um uomo, não com um bambino. Eu já te dei muito mais do que deveria ter dado, Francis. Você é a única pessoa nessa merda que sabe meu verdadeiro nome… Que sabe as músicas que eu cantarolo quando estou na cozinha ou minha posição preferida para dormir. O que mais você quer de mim? — Talvez já estivesse arrependida de ter dito a última parte, no entanto, estava cansada, com dor, irritada e com saudade. Tantos pensamentos ao mesmo tempo já tinham roubado parte de sua sanidade.
— Você não tinha a porra do direito de vir aqui apenas para me cobrar. Não tinha a porra do direito de exigir que… — Antes de completar sua frase e sem mesmo perceber, motivada pelo desejo de ficar cara a cara com ele para afirmar que não, ela não era obrigada a fazer todas as vontades que ele julgasse apropriadas, Cortéz tentou se levantar. Quando colocou a perna machucada no chão, porém, sentiu o ferimento latejar. A dor a impediu de se firmar e o joelho vacilou, obrigando-a a segurar na mesa para não levar um tombo. A vergonha inundou seu interior no mesmo momento: não era capaz de ficar em pé sem precisar de ajuda, muito menos de atestar sua independência para alguém que já sabia que ela não era tão poderosa assim.
Cada palavra que deixara os lábios do italiano fora carregada do mais puro rancor e incômodo, e cada frase construía um teor que se distanciava mais e mais de toda a pose que ousara ostentar na frente de Cortéz naquela noite.
Assumir num surto de cólera que sua raiva estava dirigida a traição sentida por parte dela, era sem dúvidas um erro colossal. Um erro gigantesco, incomensurável, que colocava em risco os muros de defesa que Bergamaschi havia construído ao redor de seu peito, expondo assim uma parte verdadeira dele, mais verdadeira do que havia demonstrado nos últimos tempos: O ciúme.
Francis era um velho conhecido daquele sentimento vulgar e frívolo, havia sentido o mesmo em diversas ocasiões e todas envolvendo competição. Sua autoestima era alta, não em relação ao físico, mas sim às suas competências, e vê-las sendo colocadas de lado por outro mutante era algo que o Bergamaschi não aceitava com facilidade. Sim, tinha noção que, mesmo poderosa, sua mutação era limitada; não era onipotente e não poderia jamais sonhar proclamar-se como tal, pois a gama de mutações naquele mundo era maior que o seu próprio nariz.
Entretanto, era a sua mutação que tão bem combinava com a da mexicana. No fim das contas, tudo voltava para o ponto que mais magoava o maior: Sua relação com Reyna.
Durante anos, havia se acostumado a trabalhar com Cortéz. Nunca havia se interessado pelo ideal dos Hounds, e o Clube do Livro não passava de uma brincadeira política para o italiano, mas seu ódio pelos governantes e o humanos era palpável e sua sede de vingança infinita, e com Reyna surgia a chance de colocá-la em prática: Podia agir em prol de derrubar algo que detestava, sem o compromisso militante que unia os demais capangas da mulher. E Francis gostava de se ver naquela posição: Mais próxima, mais particular, menos pública e mais importante. O que ele fazia, só ele podia fazer, e aquele era o senso comum da relação.
Ele sempre soubera que fazia uma dupla e tanto com Cortéz, contudo, após a noite do baile, aquilo havia se evidenciado de maneira palpável. Sim, haviam encerrado a noite com um ferimento, mas o sucesso da missão fora estrondoso, a mensagem fora entregue, eles haviam sucedido em dobro por agirem puramente como uma dupla. Naquela noite, e nos dias que se passaram depois, Francis experimentou uma nova sensação: A habilidade de se dar bem com alguém, de confiar.
E, após o evento público que culminara no caos atual da cidade, a velha ideia de que sua percepção conclusiva era recíproca, caiu por terra bem como Bradcliff. Reyna não dava uma foda para o trabalho com Francis, tolo fora ele de um dia imaginar que teria alguma relevância para ela logo no âmbito que mais desejava suceder.
O discurso explicativo dela apenas tornou a verdade cruel e tangível, e aquele foi o disparate para o surto do rapaz. Sim, parte dele sabia que era extremamente infantil, e que, mesmo que se esforçasse, provavelmente passaria longe de conseguir expressar com exatidão seu ponto na conversa, correndo o risco de se passar por uma criança birrenta que perdera seu brinquedo favorito, mas Francis já não se importava. Estava exausto. Exausto daquela cidade, exausto de seus novos sentimentos, exausto de ter que sobreviver cada dia em condições inferiores. Exausto de se importar com ela.
Absorto em sua raiva, sequer notou as reações dela, como a face expressando desdém enquanto esbravejava, os olhos azuis fugindo dos seus, até mesmo o estremecer com o encontro de seu palmo na mesa. Bergamaschi falava, e falava como um adolescente que reprimira a mágoa por muito tempo, mas, afinal, era assim que se sentia, e queria que ela viesse a saber.
Com o fim de sua última fala, o sabor amargo invadiu sua boca. Havia se exaltado em demasia e o sangue fervia em seu corpo, fazendo-o provar do próprio gosto. Com um segundo de respiração mais profunda, percebeu enfim as veias da mulher, e se antes havia calma ali, agora era notável: Sua raiva era compartilhada. Ela estava deveras irritada também.
Mais uma vez, eles agiam em dupla.
O riso desprovido de graça escapou do moreno ao ouvir a primeira retórica dela. Ciúmes? A mera menção da palavra fez Bergamaschi rir daquele jeito rouco e malcriado. Ele sabia que sentia aquilo, mas, em sua mente, as coisas eram muito mais justificadas. E ele claramente havia sido incapaz de comunicá-las como tais. “Eu dar conta do recado? Você falhou miseravelmente uma cidade inteira.” Respondeu de modo rude, sua expressão irritada dando lugar mais uma vez à incredulidade. Como ela ousava confundir tudo daquele modo?
Mas Reyna não ia lhe ouvir. Ele havia abusado da paciência alheia, e o discurso provocativo e mesquinho custaria caro. Tudo com ela sempre custava demais para o homem.
Ouví-la voltar a discutir sobre hounds, clubes e facções fez seu estômago borbulhar. Quantas vezes mais teria que gritar que estava pouco se fodendo para toda aquela merda? Eles estavam à deriva, enfiados entre muros de uma cidade em chamas, prontos para o abate, todo aquele papo conspiratório era uma utopia antiga que parecia vir de anos atrás. As coisas eram outras agora, havia mais do que se falar.
“Um bando de otários incapazes de qualquer merda, você acima de todos deveria saber que--” Quis continuar discutindo; as unhas, mais longas que o habitual, voltando a se enterrar na carne ao fechar os punhos. Mais uma vez o sorriso de escárnio cruzou seus lábios. Não porque achava tudo aquilo engraçado, mas porque não conseguia assimilar o tamanho da ousadia alheia em querer lhe explicar tudo como se fosse um iniciante no assunto. Como se realmente tudo aquilo lhe importasse.
“Sua palavra? Você acha que me deu sua palavra? Que merda você sabe sobre honrar alguma coisa, Reyna?” Não conseguia se calar. O que ela lhe dizia era ofensivo, era absurdo. Era vexatório que ela acreditasse que havia sido tão clara com ele, tão correta. Sim, Francis sabia em algum nível que estava exigindo algo nunca proposto, que estava discutindo abertamente uma emoção que ela causara, que estava se deixando envergonhar por demonstrar o tamanho de sua mágoa em vê-la falhar em algo simplesmente por não tê-lo incluído. Mas não conseguia mais voltar atrás. Não com as coisas tomando um rumo tão íntimo subitamente.
“I never wanted to know shit about you!” Com um tom claramente mais alto, o italiano exclamou, batendo mais uma vez o punho na mesa. Suas veia queimavam, seus ossos se retesavam em um volume absurdo, sua cabeça girava com a velocidade dos pensamentos e a onda de engolir também a agitação do sangue dela. Estava mentindo quanto àquilo, mas sua raiva exigia que continuasse, que dissesse algo para machucá-la, que a fizesse perceber o tamanho de sua chateação em ter acesso tanto dela, de ter permitido que ela acessasse tanto de si, apenas para ser tratado como um objeto descartável depois.
“Eu queria a porra da verdade! Eu não queria ser jogado de lado igual a merda de um humanozinho que você cansou de brincar! Você não teve a menor coragem de sequer me falar o que estava acontecendo depois de tudo entre nós e--”
O resto de suas palavras se perdeu assim que o corpo dela vacilou. Não notou o quão agressivos estavam, o quão próximos tentavam estar. Tanto sua irritação quanto a dela haviam se mesclado e Francis sentia tudo. E assim que Reyna se moveu e a perna machucada tocou o chão, sentiu também a dor aguda invadir suas veias tão logo a ferida latejou.
Em uma questão de milésimos, sua mente apagou. Toda a raiva evaporou de modo instantâneo e instinto puro moveu o rapaz. Bergamaschi contornou a mesa em um único movimento para ficar na frente dela; os palmos largos buscaram o corpo feminino para segurá-la como modo de oferecer apoio, ao mesmo tempo que o rosto se inclinou e as íris foram inundadas pelo contato visual com o par azul. A voz saiu num sussurro apressado e rouco, mas já sem a cólera anterior. Tudo o que o movia era um lampejo de preocupação. “Stai bene?”











