Memória muscular
“Faz aquilo”, ela diz, sem muito entusiasmo. Memória muscular dos tempos de outrora. Por “aquilo”, ela quer dizer “descrever a situação como se eu estivesse escrevendo um livro”. Algo bobo que costumávamos fazer, algo já velho quando o mundo explodiu em 2020. Respondo com um simples “okay” e então…
Covers de músicas famosas tocadas no piano como música ambiente, a voz da cantora é doce, suave, num tempo mais lento do que as versões originais. É cedo, então não tem mais do que dez pessoas no restaurante. Meia-luz, tentativa de criar um clima romântico. Deve funcionar para quase todo mundo. As toalhas das mesas são extremamente brancas. O leve ruído de conversas, de um garçom anotando o pedido de uma mesa próxima. Existem plantas e flores de plástico, plantas e flores reais decorando o lugar. Mentiras e verdades misturadas. Alguns quadros desconhecidos completam a decoração.
Não, não está bom. Em parte, porque eu não escrevo há muito tempo, estou enferrujado. Em parte, porque nada disso me importa: o cenário ao redor é um contexto ignorável. O que me importa é: estamos ali, ela e eu. Ela gira vinho na taça. Com tantos ISRS, ela não pode beber. Então, ela simplesmente gira o vinho na taça, sentindo os aromas de vez em quando. Bordeaux, não um dos grandes vinhos de bordeaux que custam quantidades absurdas de dinheiro, porém não um vinho de entrada. Algo mais próximo de um vinho médio. Ela o trouxe da coleção do pai dela. Novamente, a memória muscular: beber vinhos juntos era a nossa coisa. Bem, pelo menos, foi a nossa coisa por algum tempo, há muitos anos.
“Tem escrito algo?”, ela pergunta, sem muita expressão, olhando para o vinho girando na taça.
“Rabisquei algumas coisas há uns meses, porém foram só isso: rabiscos”, eu olho para uma mecha do cabelo dela que está particularmente ondulada demais, quase cacheada, por nenhum outro motivo além de não ter outro lugar para olhar. Bebo um gole do vinho: macio, sedoso, frutas vermelhas, pimenta, terra. Eu gosto.
“Sobre?”, ela me olha, talvez pela primeira vez desde que chegamos aqui há uns 20 minutos.
“Lembra da última vez que nos encontramos? Falamos sobre como nunca fomos imprudentes na época da graduação, sobre todas as coisas imprudentes que deveríamos talvez ter feito. Tentei fazer uma música sobre isso”.
“A gente deveria ter feito, eu tava com umas amigas e todas elas tinham algo maluco para contar, me senti ridícula, uma criança se encolhendo numa mesa cheia de adultos”. Ela ainda gira o vinho e o encara como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
“Eu te entendo. Sabe, o refrão era sobre explodir carros, pichar muros e transar em banheiros da universidade”. Olho para o rosto dela, procurando alguma expressão.
“Pop-punk, a bateria papocando, rápida e explosiva, né?”, e ela me olha pela segunda vez. Ela está certa: é exatamente assim que a música deveria ser. Algo que poderia estar em enema of the state da blink-182. Essa é uma das coisas que eu adoro nela: ela me conhece. Apesar de ser argumentável que essa seja a única opção possível para uma música sobre explodir carros, pichar muros e transar em banheiros de universidades.
Eu apenas concordo com um “uhum” e ela bebe um gole do vinho. Gira-o na boca, arqueia os ombros, expressando aprovação, então levanta para cuspir o vinho no banheiro.
Quando ela volta, ela questiona “Tu acha que seríamos melhores se tivéssemos feito essas coisas? Tu acha que elas teriam feito com que ficássemos juntos?” e ela me olha, ela me olha com curiosidade. Eu dou de ombros e respondo “Não sei, mas pelo menos teríamos histórias para contar”. Ela balança a cabeça num movimento curto e rápido, não em negação, simplesmente algo que ela faz quando apaga um pensamento.
“Me conta o que tu pensou?”, eu peço, do jeito mais simpático que consigo, sorrindo e apoiando meu cotovelo na mesa.
“Hã, a gente poderia, sabe, a universidade é pública, a gente pode ir lá na segunda, essa rua tá cheia de carros de gente rica pra caralho, a gente poderia descer a rua riscando todos os carros no caminho, pelo menos os que a gente sabe que são caros”.
Eu quero. Ou pelo menos, eu acho que quero. Pelo menos, é melhor do que qualquer outra coisa que eu tenha para fazer. Eu penso na chave do meu portão no meu bolso direito. Andar pela quadra com a chave na mão, passando-a suavemente pelos carros. Do apartamento do pai dela até nossa antiga universidade deve ter alguma loja de materiais de construção que venda tintas em spray. A universidade deve estar com poucas pessoas por causa da greve. Podemos pichar riscos aleatórios, não precisa ser algo significativo. Podemos também nos esgueirar em algum banheiro. O calor e a falta de espaço seriam desconfortáveis, porém imagino entrelaçar minha mão na dela, lembro da sensação de passar minha mão no pulso dela para então entrelaçar minha mão na dela, segurando-a firme. Ah, a memória muscular, novamente, a porra da memória muscular. Não seria tão ruim assim, seria?
Pondero tudo isso enquanto bebo mais um gole do vinho.
“Os alarmes iriam tocar”, eu digo.
“A gente corre, e o pior que poderia acontecer? Sermos presos? Meu pai pagaria a fiança. Aposto que ele preferiria pagar a fiança disso a gastar com remédios, psiquiatras, psicólogos, e todo o show de horrores”. (”open the blinds, let me see your face, you wouldn't be the first renegade to need somebody” toca na minha mente). Então, ela bebe um gole do vinho e o engole. Diante do meu olhar de reprovação, ela diz “Tá tudo bem, não vou beber muito e o pior que pode acontecer é eu ficar um dia caída na cama, que é o que eu tenho feito ultimamente. Talvez eu vomite, mas tá tranquilo”. Eu simplesmente aceito. Não conseguiria fazê-la parar.
“Acho que ficaríamos fichados. Não seria legal.”
“É, mas valeria a pena por brincarmos de Bonnie e Clyde. Ou talvez não, não sei”. Ela dá de ombros enquanto coloca um croquete no prato.
“Não acha que estamos atrasados? Quero dizer, essas são coisas que as pessoas fazem na adolescência, nos early twenties”. Corto um pedaço de um croquete e o como.
“Verdade”, ela diz, apontando a faca para mim em um gesto espontâneo, logo antes de cortar um pedaço do croquete. “Mas importa? Vivemos nossa adolescência nos early twenties, ou quase isso. Perdemos os mid pra pandemia. Vivemos os dois nos late e é isso”. Ela come um pedaço do croquete e prossegue com “É bom, mas meu irmão faria melhor”. Então, corta outro pedaço e passa-o no molho que veio acompanhando. “Fica melhor com o molho” e bebe mais um gole do vinho. “O que as pessoas da nossa idade fazem?”, ela olha pro croquete, cortando mais um pedaço, enquanto pergunta.
“Bem, certamente não vêm casualmente a um dos restaurantes mais caros da cidade, com um vinho de 600 reais”. Gesticulo com minha mão, movendo-a em um arco, na intenção de fazê-la olhar ao redor e perceber que somos os mais jovens ali. A maioria das pessoas parecem ter pelo menos 45 anos, exceto por um casal que chegou há pouco tempo. Eu diria que ele tem uns 36~37 anos e ela tem uns 35~36 anos. Eu sei que ela vai julgá-los, porque eles pediram água, coca-cola e cerveja. Uma dessas cervejas comuns feitas de milho. Não que ela faça isso com maldade, ou por se sentir superior a eles, não, é somente algo que ela faz para passar o tempo. “Quero dizer, eles até vêm, porém para comemorar aniversários, dia dos namorados, aniversários de namoro e afins. Eles se arrumam, et cetera, não como nós, que simplesmente viemos assim, quase como que para um fast-food. Agora, parecemos mais como aqueles velhos ali”, aponto discretamente para uma mesa atrás dela, usando a faca e sem levantar a mão da mesa. Ela os olha rapidamente por cima do ombro.
“Ah, eu arrumei meu cabelo e vim com minha bolsa nova”. A bolsa nova de 900 reais, eu sei porque vi essa bolsa em uma loja de um shopping há poucas semanas, presente do pai dela. “E o vinho foi presente de uma médica com quem meu pai tava saindo, ou ainda tá, eu não sei, não falamos sobre isso, ele só me contou na esperança que eu me abrisse com ele, mas não tenho o que falar sobre, sabe, físico-química girl fazendo nada além de coisas de físico-química girl. Então o vinho é de graça”.
“Não sei, elas vão pra pubs, karaokês, andar de kart, talvez beach tennis. Aqui, notou que somos os mais jovens?”
“Sim, mas aquele casal ali não parece muito mais velho do que a gente”, ela diz logo após terminar de comer o segundo croquete e seguindo para mais um gole do vinho. Em francês, ela critica as roupas do cara, que de fato são ridículas. Ela usa francês para evitar que alguém por perto entenda, já que as chances de alguém saber francês são baixas. Eu concordo, porém respondo em inglês, que é um idioma mais provável das pessoas ao redor conhecerem. However, my French is not that good.
É algo que fazíamos: falar em inglês quando não queríamos que as pessoas ao redor nos entendessem. Não é uma boa escolha de idioma, já que muitas pessoas sabem inglês, porém é melhor do que a alternativa. O francês veio depois, depois do fim do mundo. Ela é muito melhor do que eu, então volto para o inglês quando meu francês não é suficiente. Raramente é.
Em tom de zombaria, ela fala que a cerveja que eles estão bebendo é na verdade refrigerante sabor milho e prossegue para mais um gole do vinho. “Diz a garota bebendo um vinho de 600 reais”.
“Diz a garota bebendo um bordeaux bem decente grátis”, ela responde batendo levemente os dentes e movendo a cabeça de um lado para o outro a cada palavra para indicar o deboche. Eu rio, ela ri. De repente, não somos adultos em um restaurante supostamente de alta gastronomia, bebendo um vinho de 600 reais. Somos adolescentes no intervalo, lanchando nas arquibancadas da quadra do colégio. Somos universitários nos primeiros anos da faculdade, comendo um salgado com um suco de qualidade questionável em alguma cantina da universidade, um suco que definitivamente não enche minhas narinas com baunilha e cogumelos, ferrados com provas e trabalhos. Eu gosto. Da próxima vez, deveríamos nos encontrar em alguma cantina da nossa antiga universidade.
“O que tu acha? Primeiro encontro? Segundo encontro? Terceiro encontro? Namorados? Eles não têm aliança e nem anéis que pareçam ser de noivado. Mas não são amigos. Nem ferrando que um guri que se veste daquele jeito viria com uma amiga num restaurante assim. Ele quer fodê-la. Tá, o que tu acha?”
Nesse momento, o garçom enche nossas taças novamente e avisa que os pratos principais estão chegando.
“Se fossem namorados, eu acho que teriam chegado de mãos dadas (ela não os viu chegar, eu estou sentado com visão para a porta, ela está de costas para a porta) e estariam pelo menos tocando as mãos um do outro às vezes, mas também não parece ser um primeiro encontro. Eles parecem ter alguma intimidade. Pelo menos um segundo encontro, eu diria”, dou um gole do vinho. Está melhorando, alguns minutos recebendo ar na garrafa e ele está ainda mais sedoso.
“Sher-lock Holmes”, ela diz, mexendo a cabeça de um lado para o outro para indicar a zombaria. Quando ela faz isso, o cabelo dela balança, como que dando pulinhos. Até pouco tempo, isso me faria derreter. Faria cada célula do meu corpo implorar por ela, cada milímetro da minha pele com sede da pele dela. Agora, não sei, eu rio enquanto ela bebe mais um gole do vinho.
“Regardless, a guy who dress like that wouldn’t know how to properly fuck a woman”. A mistura de sotaques: regardless e properly parecem ter saído da boca de uma aristocrata inglesa, fuck vem das músicas de punk rock que amamos, com a maioria das bandas sendo estadunidenses, woman entrega a parte brasileira dela. Ela poderia falar usando inteiramente o sotaque inglês, se quisesse, porém ela está sendo espontânea, o que é ótimo.
“Só mais essa taça, tá? Talvez outra. Mas relaxa, eu tô bem”. Eu digo apenas “okay”, erguendo as palmas das minhas mãos em desistência.
Falamos então sobre todos os amores que poderiam ter sido se pensássemos em algo encantador para dizer. Não que sejam muitos, dois para mim, um para ela.
“G’day, mate!”, eu digo em tom de piada com o fato que a poderia-ter-sido-namorada dela é australiana.
“Ela não falava isso, qual é”, e bebe mais vinho, e então xinga minhas duas poderia-ter-sido-namorada.
Eu como meu prato até a metade e paro. Fico bebendo vinho enquanto ela chega na metade do prato dela. Continuamos fazendo críticas ao casal supostamente no segundo encontro: eles estão na terceira cerveja que está mais para refrigerante sabor milho, o que, com a coca-cola, soma o valor de dois drinks decentes. Menciono isso e termino falando “escolhas, né?”. Ao que ela responde “choices, right?” dilatando as pupilas para expressar divertimento, algo que ela faz desde que eu a conheço. Eu rio novamente. Já existiu um eu perdidamente apaixonado por esse gesto bobo dela. Me vem à memória uma vez, há alguns anos, em que estávamos em um banco do estacionamento da geografia (ou da geologia? Ou da matemática? Bem, existe um estacionamento grande entre os três departamentos, faz diferença a quem ele pertence?) e vimos um casal a alguns metros se beijarem após alguns minutos de conversa. A guria e o guri pareciam ter 17~18 anos e estavam próximos à uma árvore conversando. Até que se beijaram. Eu estava sentado com ela, não lembro sobre o que falávamos, talvez estivéssemos em silêncio (“even the silence that i have with you is okay” toca na minha mente). Seja como for, ela disse algo como “olha aqueles ali se beijando, parece um beijo horrível”, “virou sommelier de beijo dos outros?”, eu respondi em tom de brincadeira, “ah, vai negar? Parece horrível!”, “okay, ele poderia usar as mãos”, eu cedi, “mas vai que é o primeiro beijo deles, não digo nem o primeiro beijo deles como casal, porém o primeiro beijo da vida deles”, eu ponderei. Ela fez um som de reprovação e deu de ombros.
Comentei com ela essa memória. “A gente não prestava, né?”, ela disse, engolindo mais um pedaço de carne. Bem, falávamos esse tipo de coisa, às vezes, das pessoas que víamos pelo campus, porém sempre inofensivos e, fala sério, todo mundo faz isso, não é?
Ela chega na metade do prato e simplesmente os trocamos. Não combinamos isso previamente, não falamos sobre: simplesmente os trocamos. Novamente, a memória muscular. A maldita memória muscular.
Conversamos banalidades até a sobremesa. Estamos na quarta taça e a garrafa está vazia, o que significa aproximadamente 93 ml de vinho por taça. Minha mente faz a conta antes que eu possa não fazer a conta e eu odeio fazer contas.
Ela me pergunta se eu já falei para alguma garota sobre expressividade de linguagem, algo relacionado à minha dissertação de mestrado. Eu digo que surgiu um problema no trabalho que eu precisei explicar para o time de requisitos o básico sobre expressividade de linguagem.
“Elas entenderam?”
“Hããã…” e então dou de ombros. Ela revira os olhos.
“Sabe o que é pior? Eu lembro dessa porrinha, daquela vez que tu me explicou. É legal, na real, mas prefiro minhas equações, prefiro entender as trocas de energia desse vinho com o ar, sabe, quase consigo ver os átomos”, e procede para mais um gole.
“Certamente um assunto muito interessante para a g’day, mate!”.
Ela chuta minha perna por baixo da mesa, não um chute de verdade, um mini-chute, com aquelas botinhas de 600 reais que ela simplesmente ama. Implicar com o preço das roupas dela sempre foi uma das nossas brincadeiras.
“Se algum dia tu tiver num date ou algo assim e por alguma loucura chegar ao ponto de tu explicar pra guria sobre expressividade de linguagem (ela sempre fala isso em tom de zombaria) e ela não levantar e for embora, antes de ir pra casa, beija ela. Não tem como ela ficar a não ser que seja porque te quer”.
“E se por acaso ela for da área, tipo mestranda, e quiser saber porque sim?”
Ela dá de ombros, tira uma mecha de cabelo do rosto e bebe mais um gole do vinho. A camiseta cobre os ombros dela, porém consigo visualizar as clavículas dela se movendo. Não chega a ser um caso de memória muscular, porém, com certa licença poética, é um caso de memória muscular.
Assim como com os pratos principais, comemos a sobremesa até a metade e então trocamos. Novamente, sem combinar, créditos para a memória muscular.
Quando vamos sair do restaurante, meu braço se move para o ombro dela e eu tenho que forçá-lo a parar. Memória muscular, apenas memória muscular. Quase na porta, ela toca meu braço, porém para. Eu sei o que ela queria fazer: entrelaçar o braço no meu. A memória muscular nos assombra.
Fora do restaurante, nos encostamos em uma parede próxima, ela manda uma mensagem para o pai dela ir buscá-la. Eu seguro a mão dela e entrelaço meus dedos nos dela. Com nossas mãos aninhadas, levanto a mão dela e inclino minha cabeça para beijá-la. Beijo logo acima do dedo indicador. Olho para ela e ambos balançamos a cabeça em negativa, num movimento sutil. Desço a mão dela e a solto lentamente, fazendo com que as pontas dos meus dedos toquem as pontas dos dedos dela, esperando alguma faísca, alguma eletricidade. Entretanto, nada.
Ela guarda o celular na bolsa, vira para mim e abre a boca como se fosse falar algo, porém a fecha e me abraça. Ela passa os braços pelas minhas costelas e coloca a cabeça no meu ombro. Eu a abraço: minhas mãos envolvendo as costas dela. Após alguns instantes, subo minha mão esquerda para a nuca dela e começo a acariciá-la lentamente com as pontas dos meus dedos num movimento de sobe e desce. Sinto o cabelo dela no meu braço. Sinto o cheiro do shampoo dela. Morangos e flores. Ela usa o mesmo shampoo desde que a conheci e me pergunto se a Inglaterra tinha esse shampoo ou ela precisou usar outro enquanto morava lá. Então percebo que eu não sei qual é o shampoo, porém o cheiro é o mesmo desde que a conheci. Minha mão direita vai para o cotovelo dela e eu o acaricio com meus dedos, suavemente, envolvendo o cotovelo com minha mão e então fechando-a, o que tem o efeito de puxar meus dedos para baixo. Sinto a pele dela, sinto o osso. Eu realmente não pensei sobre, minhas mãos se moveram no automático. O caralho da memória muscular. Não sei se ela gosta disso, porém é algo que eu costumava fazer e ela nunca reclamou, então continuo. Os dedos dela agarram minha camiseta, uma mão no meu ombro, a outra nas minhas costas. Meu polegar faz um movimento circular em torno do cotovelo dela, com um pouco mais de pressão do que os outros dedos. Memória muscular. Eu sei que ela tá tentando não chorar. Eu tô tentando não chorar.
Meu próximo movimento seria mover minha mão direita até o queixo dela: subir pelo braço, acariciando-o com a parte de trás dos meus dedos, afagar os cabelos dela e então, usando o indicador e o polegar, levantar o rosto dela pelo queixo e beijá-la. Sinto a memória muscular passando pelo meu braço. Minha mão esquerda desceria para a lombar dela e a puxaria para mim. Sinto a memória muscular. Quando me dou conta, meus lábios estão muito próximos dos dela, porém não nos beijamos. (“put your lips close to mine as long as they don't touch, out of focus, eye to eye, ‘til the gravity's too much”, a Taylor canta na minha mente). Eu sinto o cheiro dela, um perfume floral e cítrico, eu sinto o cheiro do vinho no hálito dela, não aquele cheiro desagradável de álcool de vinhos horríveis, não, é um cheiro amadeirado (her tongue must taste like that wine, the devil speaks in my mind). Entretanto, a gravidade não é o suficiente.
Em outros tempos, ela moveria as mãos para o meu rosto e me beijaria, jogando os braços pelo meu pescoço à medida que o beijo se intensificasse. Até que ela pularia em mim, abraçando-me com as pernas. E minhas mãos passeariam pelas coxas dela. (O beijo do casal do estacionamento tinha que ser ruim, eles não usavam as mãos, porém não nós, ah, não, não nós). Memória muscular, love. Entretanto, ela balança a cabeça sutilmente em negação e enfia o rosto no meu ombro. Afago os cabelos dela novamente e beijo-lhe na testa. Ficamos assim, abraçados por um tempo. Eu queria querer beijá-la. Eu queria que ela quisesse me beijar. Eu sabia que, se ela me beijasse, eu a beijaria de volta. Eu sabia que, se nos beijássemos, não iríamos parar ali, assombrados pela memória muscular. Entretanto, está morto. O que sentíamos um pelo outro está morto.
Abruptamente, ela aponta para um carro que ia passando. Um porsche. Estamos em uma das poucas partes da cidade onde alguém circularia com um porsche. Então ela me solta e se afasta, limpando as poucas lágrimas e jogando o cabelo para trás. Então ela limpa as minhas poucas lágrimas com os dedos e começa a olhar ao redor. Erguendo-se na ponta dos pés, ela olha os carros ao redor. Alguns parecem caros, muito caros. Ela aponta para um em particular e diz, animada e vibrante.
“Eu teria coragem, sabe, a gente passa correndo um de cada lado, riscando ele com uma chave, mas acho que teria que estar bêbada” e então ri. Eu rio de volta e seguimos pela quadra, olhando os carros e chutando o quanto eles custam. A rua tem vários restaurantes, então está movimentada. Seguimos assim, apenas planejando riscar carros, apenas uma piada interna.
Ela se equilibra em um meio-fio. Reparo nas botinhas. É o mesmo modelo que ela sempre usava e ama, porém são novas. O par anterior deve ter ficado demasiadamente gasto. Ela se apoia no meu ombro, eu a ajudo a manter o equilíbrio, o que tecnicamente é trapaça quando se trata do icônico jogo de andar em meios-fios (alerta de ironia), but who the fuck is counting?
Sou transportado para o passado. Fizemos exatamente a mesma coisa em um meio-fio da UFC. Lembro-me do sol matinal batendo nas botas dela, aquele sol que não incomoda. O toque inocente da mão dela na minha. O cabelo dela caindo em cascata pelas costas.
Lembro-me da gente nos bancos próximos do STI, “ele tá cheio de pontas duplas, tenho que pedir pra mãe cortar”. Nesse mesmo lugar, alguns dias depois, ela pediu para morder minha mão para descontar a raiva e quase a arrancou fora. “Trabalho em grupo com idiotas” era a causa da raiva.
Lembro-me de caminharmos pelas engenharias enquanto ela caçava pokémon. California (blink-182) era recente e ficamos obcecados por esse álbum. Éramos teenage satellites, antes de nos perdemos em tantos rabbit holes. Pokémon tinha voltado à moda e a blink-182 estava de volta aos charts. Os anos 2000 faziam o seu comeback.
Lembro-me do cabelo dela bagunçado, ela comentando que a camiseta dela estava com o meu cheiro, a cara de sono, ela me empurrando de volta para a cama dizendo que queria dormir mais enquanto me abraçava como se eu fosse um urso de pelúcia gigante.
Lembro-me dela me beijando após uma dose de glenlivet 15 e a língua dela tinha o gosto do whisky.
Lembro-me das crises de ansiedade, lembro-me do pai dela me buscando porque ela estava trancada no quarto, querendo falar com ninguém, porém ela me deixa entrar, “fica aí, mas não me toca, não fala comigo”.
Lembro-me da maldita geladeira inox de duas portas smart transformer de 14 mil reais que ela queria tanto comprar.
Lembro-me do desespero, o desespero de não saber se ela estava bem (alive, you mean, say the proper words, you fucking bastard). Cinco dias sem conseguir comer (“no, i've not been eating”), na cama, dormindo o tempo todo, acordando apenas para olhar as notificações no celular para ter notícias dela. “I put you through all this and do you still love me?”
Lembro-me de dirigimos por aí ouvindo música, mais ela do que eu, a bem da verdade. Comendo fast-food de vez em quando, a bagunça do porta-luvas dela (“the glove compartment is inaccurately named and everybody knows it”, Ben Gibbard canta na minha mente).
Lembro-me de ficarmos bêbados, a ponto de não conseguirmos ficar em pé, nos segundo um no outro em vão, rindo do vento, só para dormirmos no sofá e acordarmos com os pais dela em casa, morrendo de vergonha enquanto o irmão dela se acabava de rir.
Lembro-me do toque dela no meu rosto, nos meus braços, dos dentes dela nos meus ombros, os carinhos dela no meu joelho pelo jeans, os dedos dela enrolando meu cabelo enquanto ela adormece no meu peito, a sensação do corpo dela esfriando à medida que ela dorme, os diferentes tipos de abraço, os diferentes tipos de beijos.
Lembro-me dela tocando photograph no violão, green day na guitarra.
Até que minha mente entra em overdrive (“cause my head is in overdrive”, Oliver Sykes berra na minha mente). Então eu a puxo para mim e a abraço. Sinto os braços dela deslizando pelos meus e me abraçando pelo pescoço. Então, eu quebro. Choro no ombro dela, com os cabelos dela na minha cara. Ela soluça, então noto que ela está chorando também. As suas lágrimas inundam minha camiseta.
Sentamos numa calçada no final da quadra, acho que as pessoas devem ter pensado que estávamos bêbados. Ou simplesmente pensaram nada, sequer repararam na gente. O pai dela chega e acho que ele pensou que estávamos bêbados. Ele me oferece carona, e eu aceito. Ela me faria aceitar de um jeito ou de outro. Ajudo-a a se levantar, não que ela realmente precise de ajuda para isso, é só a memória muscular agindo. Para ser sincero, não que ela tenha precisado de ajuda para levantar, literalmente falando, muitas vezes a ponto de ficar gravado na memória muscular. Acho que é apenas algo que eu faço.
Ela poderia descer antes, porém me acompanha na carona para casa. Ela comenta a comida, o vinho, sobre a tese dela. Não falamos sobre nós, onde nós não significa ela e eu, e sim ela + eu, se isso fizer sentido para você, dear reader. Tem coisas que não precisam ser ditas em palavras para serem entendidas. It was time to let go so something new could begin.











