My Boy, Brahms Heelshire.
Às vezes, eu precisava do menor dos motivos para justificar minhas atitudes, e a desculpa da vez, era o sumiço de um casal podre de rico, pelo menos era o que aparentavam ser pela mansão que tinham.
Não que eu fosse detetive, embora quisesse muito, mas tive que seguir os negócios da família, o que logo me saturou, contudo, eu ainda continuava.
Estacionei o carro em frente aos grandes portões, que estavam destrancados e fechados de qualquer jeito.
Parecia uma casa típica de filme de terror, onde espíritos assombravam a casa, e pensando nisso, um arrepio percorreu minha espinha. Infelizmente, era uma possibilidade, já que o único filho do casal havia morrido em um incêndio ali mesmo.
Era final de uma tarde de sexta, e eu pretendia ficar o fim de semana fora, me mandar dali o quanto antes, e sair pela cidade.
A casa não possuia campainha, então apenas um puxador com um formato assustador. Revirei os olhos, estava tentando transformar minha pequena aventura em um filme.
Enquanto esperava alguém responder, ou o menor sinal de vida, observei ao meu redor.
Sim, era uma grande propriedade, majestosa, até. Seria uma grande venda, se eles aceitassem. Um grande negócio a ser feito.
Esperei alguns minutos, e nada. Tentei abrir a porta, que para minha surpresa, estava destrancada, e abriu com um rangido.
Comemorei internamente, não teria ido por nada.
Se externamente a casa era grande e bonita, em seu interior, era ainda mais. Os móveis rústicos pareciam repletos de pó, e haviam teias de aranha aqui e ali.
— Oi. Eu vim aqui por... — minhas palavras morreram ao ver um boneco de porcelana sentado no sofá. Ele parecia ter sido quebrado e colado, pois seu rosto estava repleto de "cicatrizes". — O que aconteceu com você? — pedi, acariciando o rosto dele.
Sabendo que não teria uma resposta, pego-o no colo, e continuo minha exploração pela casa.
Os quartos estão vazios, a cozinha parece ser o único cômodo que recebera visitas, pois estava limpa.
— Bem, eu preciso voltar à cidade, vou deixar você aqui, já que nem sei se você pertence a alguém.
Ouço passos, e viro-me bruscamente, sem encontrar nada. Meu coração parecia prestes a sair pela boca. Largo o boneco na bancada da cozinha.
— Acho que não há ninguém aqui, pelo menos ninguém que queira companhia. — o telefone toca. Não o meu, que estava sem sinal, mas o da casa.
— Sim. — digo olhando para o boneco, que antes parecera até fofo, mas que agora parecia assustadoramente macabro. — Apareça, querido.
Encerro a chamada, e desvio o olhar do boneco, não havia nada de estranho. Até que ele sumiu.
— Vamos brincar de esconde-esconde com um boneco, não é? — digo, andando pela casa.
Encontrei-o em um quarto, e sinto como se mais alguém estivesse ali, uma presença humana.
Não pergunto quem estava ali, apenas falo:
Corri até o andar inferior, tanto por medo do que quer que fosse, como para me esconder.
Vou até o jardim, e me escondo atrás da fonte de um anjo, de onde ainda jorrava água.
Sinto as mãos de alguém em meus ombros, e vejo o boneco sentado no gramado.
— Tá com você. — diz, e antes que a pessoa possa fugir, viro-me e seguro-o pela cintura.
Era um homem, alguns centímetros mais alto que eu, com um cheiro misto de poeira e desinfetante, que usava uma máscara estranha no rosto.
— Quem é você? — pergunto, assustada com a proximidade em que nossos corpos estavam.
Ele segurou-me pela cintura, e eu pensei que fosse me empurrar, ou me afastar, contudo, ele continuou ali, parado, me encarando.
— Eu não estou com medo, só quero saber quem você é.
— Brahms. — responde, soltando-me, e lentamente, se afastando.
— Espere. — pego o boneco, e tomo-o pela mão. — Posso preparar algo para tomarmos enquanto você me conta isso direito.
Ele parece perdido. Como se estivesse considerando fugir, ou me levar a algum lugar escuro, para que eu não contasse sobre ele.
Deixo a água para o café esquentar, e vou ao banheiro, onde há uma banheira. Faço o que gostaria que fizessem para mim, e preparo um banho para ele.
— Brahms?! Pode vir aqui?!
O homem surge na porta. Indico a banheira, e por alguns instantes, ele parece considerar, por fim, concordando.
Suas roupas logo são deixadas de lado, e eu viro o rosto, até ele estar embaixo da água e da espuma.
Com sua permissão, tiro sua máscara. O rosto estava coberto de cicatrizes, cicatrizes de queimaduras.
Não sei se pergunto do incêndio ou de sua falta de companhia ali.
Brahms afirma com a cabeça.
Lavo suas costas, e distraio-me com pensamentos do quanto eu não queria ser uma babá.
Ele segura minha mão de repente, e entrelaça nossos dedos.
Ele suspirou, e me soltou, afastando-se. Talvez, tivesse passado por alguma coisa recentemente, e estivesse magoado ainda.
— Vou preparar o café, ou prefere chá?
Assinto, e saio o mais rápido possível. Deixo o café passando, vou à janela e observo a noite que havia chegado.
Levo um susto quando uma música começa a tocar e Brahms aparece, enrolado em uma toalha.
— Vou me vestir, não se preocupe. — falou, e subiu até o andar superior.
Aprecio a música, e danço de olhos fechados, até que sem aviso, ele me toma nos braços, e dança comigo.
Seu rosto estava muito próximo ao meu, e aquela proximidade era até agradável. Então, a música acabou. Nos afastamos e fomos até a cozinha.
Preparei o café, e enquanto encarava o vapor, esperei que ele começasse a contar, porém, ele permanecia em silêncio.
— Você pode me contar, Brahms. — toco sua mão. — Preciso saber o que aconteceu, para poder decidir se vou ficar ou ir.
Brahms acariciou minha mão, e continuou olhando para além de mim.
— Tudo bem, eu... Tudo começou há muitos anos, quando minha amiga e eu estávamos brincando na floresta. Ela gritou comigo, e eu voltei para casa, mas acabei ficando trancado, o fogo consumiu a casa, e como você pode ver...
Ele estava mentindo, mas estava claro o motivo. Longe de justificar, todavia, estava claro que ele sentia medo.
Sua mão se afastou da mim, como se eu tivesse tocado em uma ferida recente, quem sabe, mais recente do que eu pensava.
— Ela deveria ficar comigo, mas fugiu com o Malcom. Eu salvei ela daquele ex maluco, e o que ela fez? Fugiu.
— Não fique tão chateado, estou aqui com você agora. Não está mais sozinho.
Estranhamente, sua expressão relaxou. Era como uma criança em uma noite de tempestade, que se acalma após ficar com os pais. Então, algo me ocorreu. Havia vasculhado a casa mais cedo, e ele não estava em lugar nenhum.
— Onde você estava? Antes de aparecer no jardim?
— No porão... Por favor, não vá lá.
Assinto, mais para tranquilizá-lo do que para realmente concordar.
— Está tarde, o que acha de irmos dormir? — digo, planejando trancar-me no quarto e não sair nunca mais.
Estava na metade da escada quando ele me alcançou.
— Fique com o Brahms. — disse, entregando-me o boneco. — E fale se precisar de alguma coisa. — ele beijou minha testa. — Boa noite.
— Boa noite. — respondo, e subo para o quarto. O que eu estava fazendo?
Joguei-me na cama, e deitei o boneco ao meu lado. Acariciei sua bochecha fria, e me perguntei o quão dolorida e triste devia ter sido a vida de Brahms, o homem.
Todavia, ao mesmo tempo que sentia medo do que ele poderia fazer, eu precisava de ajuda. Aquela casa seria o suficiente para eu poder partir de vez, e deixar de lado aquela cidade.
Uma pequena ideia surgiu, e eu percebi como o egoísmo pode ser traiçoeiro, contudo, não custaria tentar. Porém, eu não sabia que às vezes, a paixão se sobressai ao interesse.
No dia seguinte, fui até o jardim, no canto mais afastado, onde o sinal pegava. Enviei uma mensagem para meus pais, avisando que ficaria fora durante algum tempo.
Depois, fui até o quarto de Brahms, e sentei na beira de sua cama.
— Eu vou ficar. — sussurro, sabendo que ele poderia gostar da notícia, mas não de ser acordado. — Pelo tempo que você quiser.
Ele piscou, e eu toquei seu rosto, coberto pela máscara.
— Acho que você não vai precisar disso.
— Não quero te assustar, mesmo que você já tenha visto.
Ajudei-o tirar, e então descemos para comer.
Brincamos no jardim pela tarde, e à noite, Brahms tocou piano para mim, enquanto eu adormecia no sofá. Para minha surpresa, ele me carregou até o quarto, e deixou o boneco tomando conta de mim.
E aos poucos, nos tornamos próximos, mais do que eu gostaria de admitir, e que gostaria de sentir. Deveria estar me preparando para ir embora, mas ali estava, prestes a me apaixonar por ele.
Ele me abraçou, e eu perdi a noção. Havíamos cuidado de suas cicatrizes, e ele estava me olhando como se eu fosse seu mundo.
— Por favor, não me deixe.
— Nunca, Brahms. — beijei sua bochecha. — Você é meu garoto.