A família Essaex não era uma das mais coesas no Império de Aldanrae, assim como a maioria do alto escalão da nobreza. Traições, segredos, mentiras, assassinatos── incontáveis eventos negativos tingiam o sobrenome real, e Niamh sentia o peso ameaçar curvar as costas. Dos irmãos, era a única que tentava a qualquer custo manter as aparências, peneirando com os dedos o que seria passado ao público: mantendo o sorriso e a compostura durante os jantares e tratando com uma fineza quase dócil Tiye e seus meio-irmãos, enquanto outros olhos lhes observavam. Isso, pois as costas de Meritaten lançavam uma sombra confortável nas obrigações e deveres; refrescavam serenamente o cansaço. Niamh se alimentava do afeto implícito dos pequenos gestos, ganhando forças para desempenhar com perfeição seu papel. Não mais.
Os olhos claros alternavam-se com os do príncipe, inquietos, vibrantes de pura atribulação. Incrédulos. E o silêncio se estendeu após aquela fala dúbia. Dentes tão cerrados que lhe renderiam uma dor de cabeça ao se recolher. Niamh soltou o ar pelo nariz, escancarando seu desprezo e descrença. Mudado? Ridículo. Talvez conectar-se a um dragão tenha alterado composições de Vincent, afinal, para a Princesa "Ouro não deixa de ser ouro apenas por puro furor, Vincent."
A réplica, porém, não durou muito──O lábio inferior se repuxando num espasmo de cólera e dor, incitando o pé direito para a frente num falso movimento de aproximação. Pálpebras estreitas, dobrando a aposta, Niamh tinha a voz moldada num tom perigosamente retumbante, ronronando de volta à espreita da jugular alheia. Lábios se entreabriram para soltar a avalanche de censuras para cima do Príncipe Vincent, mas ela hesitou. Sim. Niamh desejava mais do que qualquer outra coisa a presença da mãe. Queria muito mais do que tudo poder lhe envolver num dos tantos abraços que não lhe dera. Queria lhe perguntar todas as coisas que por compostura e hierarquia não lhe perguntara. Niamh tinha um sofrimento translúcido estampado nas córneas opacas, encarando o irmão como se tivesse tido as costas apunhaladas. "Deixe minha mãe descansar em paz." Foi o que murmurou, antes de inspirar profundamente e tornar a estampar a calma gélida e plácida das expressões comuns. Como se arrancasse do cabideiro uma máscara e a colocasse por cima do próprio rosto, encobrindo toda a vulnerabilidade.
"Não tente me distrair com promessas vãs. Não me esqueço de muito, e certamente não de Tadhg. Não é a primeira vez que ele me causa problemas, e a nossa família não precisa estar associada a um assassino neste momento delicado. Sei que há suas divergências com nosso pai..." Abarcando todo o negativo e o comprimindo para que coubesse aos pés do próprio âmago, Niamh tornava à principal demanda: manter as aparências. A mão esquerda capturava a direita, limpando o sangue que escorria num lenço bordado e perfumado, que combinava com o tom de voz agora em equilíbrio. "Mas você deve se colocar em seu lugar. Pare de ter contato com esse criminoso, ou será investigado também. É uma promessa."