Ao me entender mais e mais dentro da bruxaria me deparei com uma angustiante sensação: o medo.
Mais especificamente o medo do escuro.
Ao longo de minha vida sobrevivi á uma culpa cristã gigantesca, onde eu não podia fazer nada e a minha existência nesse mundo era altamente ligada ao grande pecado de Eva. Mas sempre fui diferente, sempre questionei á tudo o que ouvia, principalmente ás formas de abuso que insistiam em me mostrar como amor. Sempre questionei porquê só eu na igreja católica via a imagem de Maria como a mais intrigante e amorosa. Apesar de questionar, sentia culpa do "não acreditar", e sempre me coloquei dentro de uma padronização para ser aceita no meu círculo social, fossem minha família, fossem meus amigos, ou até desconhecidos no meio da rua. A sorte é que sempre admirei o atuar, mesmo que custasse a vida social, me considerava uma atriz de método.
Ao conhecer meu grande amigo e marido, me deparei com a liberdade gritante de um ser despreocupado com os termos da sociedade. Aquilo me fascinou, e graças á meu par pude vivenciar ás amarguras e doçuras de ser diferente. Mas devo á minha filha e a vivência ao seu lado toda a liberdade dessa vontade fascinante de ser curiosa novamente. Parte de minha curiosidade morreu para o medo de ir ao inferno, e só voltou agora quando percebi que talvez eu só tenha essa vida para viver. Nada como a beleza do novo para mostrar ao velho que há sempre novidade.
Quando viemos de religiões Abraâmicas e iniciamos na bruxaria nos deparamos com uma visão sobre ser bruxa totalmente deturpada. Algumas de nós achamos que as trevas nos consumirão ao extremo, e temem. Outras querem ser fadas verdes iluminadas e boazinhas. Talvez almejem serem os seres mais iluminados da terra, vestidas de linho branco, que sentam pra tomar chá nas cadeiras de suas casinhas cheias de plantas, brilhinhos e incensos com cheiro de canela, sempre evitando magias profundas, também por temer. Tememos a sombra. A escuridão dela. E acaba que nos afastamos de nós, e consequentemente da "luz".
A bruxaria é uma filosofia que coloca á frente a natureza. E no início sempre lemos que a natureza tem de elementos o ar, a terra, o fogo e a água. Mas dificilmente interpretamos de cara que esses elementos também estão nos momentos de escuridão, que eles não vieram para serem utilizados por nós, apesar de serem grande aliados na nossa vida de bruxa, nós que somos utilizados por eles. O fogo pode ser amor ardente ou ira, a água pode ser purificação ou força. O ar pode ser sabedoria mas também dispersão. A terra pode ser parte da vida e da morte. E por isso é tão importante ficarmos cara a cara com a sombra. A sombra nada mais é que parte dos nossos "nós" naturais, trançados no nosso ser.
Por isso como bruxa (iniciante) natural, costumo rir ou me questionar quando alguém vem dizer que alguma prática vai acabar atraindo um obsessor ou demônio. Como poderia eu?! Eu em meu banho de ervas, ou lendo tarô para mim mesma atrair outro ser com essa tamanha facilidade?! Que mediunidade abismal a minha! Obrigada por achar que sou tão poderosa assim.
Mas temo quando dizem isso, pois parte de mim acredita muito no sobrenatural físico, por um momento vem o mesmo pensamento de quando era menina: todo ser que carrega trevas é por sua natureza, mal.
Mas e eu? Eu tenho minhas trevas.
Ainda assim não durmo no escuro, ainda assim não tenho coragem de pedir em rituais mediúnicos para ver o que meus olhos e mente não aguentariam. Por que? Se sei a origem de meu medo, por que?
Porque é mais confortável ficar com a resposta ao medo, do que passa por todo o processo delirante de que a verdade é a coragem. É mais fácil fantasiar que a realidade é igual nos filmes e seguir no meu mundinho verde e salmão com poções que talvez não terão tanto sucesso, pois não passei pela caverna escura para ver luz.
Tenho de me permitir sentir um pouco de medo ás vezes. Para que eu possa verdadeiramente me conectar com o eu. A natureza é parte de nós. É sim a fruta que come, mas naturalmente também é o defecar dela. É a morte, é a vida. É o sujo e o limpo. E não há pensamento medonho que deva obstruir o fato de que para fazer magia é necessário parar de esconder o que é vivo, e como humanos temos essa dualidade moral sobre o que é bom e mal criada por construção social. Pois que morra o que pensam eles.
Encarar as sombras é encarar seus erros, elas não vão se materializar, elas vão só te mostrar por um caminho escuro os seus medos, mas lá na frente te mostrarão as armas para lutar contra a volta ao abismo que insistimos em dizer que não existe. E a natureza externa vai sim ajudar a limpar tudo, mas é VOCÊ quem terá que lidar com toda a bagunça.