Me pego pensando: o que resta na cabeça de quem se esquece?
Talvez ainda reste uma imagem aqui ou ali, mas embaçada e difícil de reconhecer. Um rosto que não pertence a ninguém e que logo mais sumirá. Um corpo nômade para uma desmemória.
Agora, o que acontece na cabeça de quem lembra, eu consigo responder.
Em uma manhã de sábado qualquer, eu lembro do frango assado da ceia de Natal que eu nunca mais vou comer, porque quem preparava agora é uma cabeça que se esquece — da receita do frango e de mim também. Eu sou a face sem rosto e o corpo nômade. Ela é a cabeça desmemoriada.
Hoje ela me contou uma história espontaneamente, como se, de repente, estivesse se lembrando de que costumávamos fazer isso: conversar.
E logo em seguida, esqueceu.
Eu continuei lembrando.












