Vaelin Al Sorna havia, realmente, contrariado seu pai ao não voltar para casa naquelas duas semanas em que Hogwarts paralisava. Os Al Sorna eram uma família extremamente tradicional nos Estados Unidos, o “Al” que carregavam entre nome e sobrenome sendo a prova disso, uma alcunha de nobreza. Os trouxas de algumas localidades compartilhavam tal costume. Na Alemanha, por exemplo, era comum o “von” aparecer no século passado, assim como o “van” na frente do nome, na Holanda.
De qualquer maneira, Vaelin havia contrariado a vontade de seu honorável pai ao permanecer em Hogwarts. Muito por causa de Snape e de seu chamado.
“Vou precisar de você”, Snape lhe dissera e Sorna simplesmente assentiu. Não nutria qualquer simpatia por Snape, mas o reconhecia como um grande bruxo e Severus era um dos poucos do grupo ao qual Vaelin realmente prestava alguma obediência.
Entrou na mansão dos Valenti de modo atento. Apesar de Vaelin ser um excelente bruxo, ter uma boa aparência e um nome forte, o rapaz era dono de uma personalidade tranquila e, até, tímida. O que o fazia ficar em silêncio, na maior parte do tempo, velando os acontecimentos próximos, sempre pronto para intervir, mas nunca a participar.
A apresentação toda lhe pareceu algo extremamente maçante. Aqueles três pareciam gostar de atenção e de piadas tolas. Quando um dos rapazes colocou uma das mãos em seu ombro, Vaelin foi ligeiro, lhe dando uma cotovelada na altura da boca do estômago. - Desculpe, irmão. Não gosto de contato físico de estranhos. - Disse imediatamente, sem sequer olhá-lo.
Snape, que parecia prestes a ter uma reação semelhante, aproveitou-se para se desvencilhar do outro irritante rapaz. - Tudo está correndo nos conformes. Dentro dos procedimentos e estamos tendo um excelente progresso. A não ser, é claro, o incidente que tivemos, dois meses atrás, envolvendo a pequena princesa de vocês. - Snape olhou nos olhos de Bianca e Vaelin soube que ele sabia.
“É claro”, percebeu. “Como pude ser tão tolo? Ele deve ter usado a legilimência em Lenny.”
Fosse como fosse, Snape não parecia disposto a colocar mais lenha na fogueira. Apenas deixou a frase no ar.
- Achei que, entretanto, essa reunião tivesse outro propósito. Ouvi um boato de que um bruxo estrangeiro absorveu o Lorde das Trevas. - Snape começou, de modo cauteloso. Vaelin nunca ouvira falar naquele tipo de feitiço e, se ele fosse real, sentia que o tal bruxo era realmente poderoso. - Confesso que, ao invés de manter os olhos para dentro de Hogwarts, você estivesse pensando um pouco maior, Helio. Que desagradável surpresa. - Snape não deixou de ferroá-lo. Vaelin sentiu que se as coisas estourassem ali dentro, mesmo sendo apenas alunos, os três teriam vantagem sobre os irmãos. Pois tinha certeza que Bianca os odiava mais do que ele e o próprio Snape.
Mesmo assim, Snape apertou a mão do homem, embora uma expressão apática estivesse estampada em sua face. - Eu esperava que você tivesse algo a dizer sobre isso. Como sabe, odeio navegar nas águas da ignorância.
Vaelin viu a mão estendida para si, mas não gostou de nenhum dos três homens então manteve-se quieto. Sabia que estava sendo extremamente descortês com seus inquilinos, mas não sabia ser duas caras. - Vaelin Al Sorna. - Foi tudo que disse de volta, encarando-o no fundo dos olhos até a mão dele ser recolhida.
Foi automático sorrir, e segurar-se para não gargalhar, quando os gêmeos foram prontamente afastados. O que fora atingido por Vaelin soltou um pequeno gemido de dor, logo sendo aparado pelo irmão, que olhou para o intruso com certa desconfiança, sua carapaça de superioridade rachando aos poucos - Não se esqueça de que estão na nossa casa. - ele disse, afastando-se com a cópia para perto de Hélio como guardas costas. Uma situação tão ridícula que faria Bianca chorar de vergonha mais tarde. Ela não podia crer que estava ali.
Foi com certo esforço que a menina não mostrou alarde quando percebeu que o “incidente” ao qual Snape se referia era o ocorrido dentro das tubulações, o que a fez desvencilhar o foco do rapaz e procurar os olhos de Vaelin automaticamente. Saber que outra pessoa, sendo ela Severus, tinha visto a posição na qual ficara, era tão humilhante que fez suas bochechas e pescoço avermelharem, e ela ficou feliz naquele único momento pelo ego inflado do seu irmão e pelo ódio mútuo que nutriam e o impediam de perguntar sobre o que ocorrera. Eles nunca estariam lá para ela, afinal. A única coisa que o Valenti mais velho fez foi alargar o sorriso e dizer, apenas para não ser grosseiro - Uma pena... Que bom que foi capaz de resolver as coisas, Severus.
Se Bianca estivesse acompanhada por outras pessoas, ela duvidaria que notariam a forma como os lábios de Helio tremularam, por pouco não perdendo a pose, e seus cabelos ficando levemente mais escuros. Caninos mais afiados surgiram dentro de sua boca, e os gêmeos se entreolharam no plano mais distante. Snape tinha, de fato, atingido um ponto fraco, Vaelin tinha rompido com os protocolos - o que a fez sorrir diretamente para ele, colocando uma das suas mãos sobre a dele rapidamente -, e a pequenina começava a achar aquela reunião interessante. Adorava ver os irmãos estressados. No entanto, mesmo com a felicidade que sentia por vê-los se desconcertando, se Severus falava a verdade, e alguém tinha conseguido não apenas derrotar, mas absorver os poderes do Lorde, as coisas estavam fora de controle. Ela respirou fundo, olhando para o irmão e esperando por uma resposta como sabia que todos ali esperavam.
- Cada coisa ao seu tempo, Severus. - começou ele, pigarreando levemente e flexionando os dedos para formarem punhos firmes. Bianca se lembrava daqueles punhos a atingindo mais vezes do que deveriam. - Tudo o que precisa saber no momento é que os boatos são verdadeiros, e realmente possuímos outra pessoa no poder, uma pessoa mais adequada para nossos propósitos, mais centrada. - e com isso, todos pareciam saber, ele queria dizer “mais violenta” - Nosso novo líder é o que precisamos para conseguir efetuar os planos de forma correta, e está muito interessado em Hogwarts, razão da minha indagação anterior. É óbvio que por lá temos pessoas prodigiosas, como nós que aqui estamos, e... e pessoas que não merecem o dom da bruxaria, correto? Pessoas impuras que precisam ser controladas antes que comecem rebeliões. Ou devo dizer... prossigam? - alfinetou de volta o Valenti, fixando seus hipnotizantes olhos castanhos no Sonserino mais velho, ignorando Vaelin e Bianca com primazia - Tive notícias de que existe um grupo de resistência, dentro da escola, e eu não gostaria de informar isso ao nosso novo líder. Posso saber, Severus, a razão desse grupo não estar eliminado ainda?
- É verdade. - um dos gêmeos ousou falar, antes de qualquer coisa, sendo logo emendado pelo próximo - Se fossemos nós, não restaria mais traço algum de sangues-ruins fazendo travessuras. - os dois olharam para Bianca, que daquela vez não se encolheu com aquele movimento. Estava segura de si, e também de que não tentariam fazer nada com Vaelin e Severus ali para defendê-la - B. sabe muito bem que não aceitamos respostas erradas por aqui, não é? - a garota apenas revirou os olhos, embora soubesse que estavam falando a verdade. Cabelos repletos de gosma, quase asfixiada por travesseiros, matarem seu gato de estimação. Os gêmeos Valenti não brincavam com vinganças, e ela temia o que fariam com aquele trio caso soubessem tudo o que já ocorrera fora dos padrões. Voltou seus olhos para Severus, esperando que ele falasse alguma coisa que a tirasse daquela desconfortável posição.