“Eu sei, Victor, e incorporei lindamente o meme. Pergunta: Quantas vezes você assistiu? Resposta: Sim.” Não podia ser culpada nesse caso! O aplicativo tinha toda a tecnologia estranha para colocar o que mais interessa na página principal, certo? Okay que fazendas não eram um dos interesses (muito parecidos com a casa na cidade natal!), mas Victor? Caía direitinho, tal qual luva, no que consumiria sem nem pestanejar. Não vamos comentar sobre as vezes que ficou só com os olhos para fora do corredor, o vídeo em loop, só para ver o reflexo dele em um frame da filmagem. Hyacinth apenas balançou a cabeça, a garganta apertadinha com a falta de resposta. Seus lábios ainda fizeram aquilo, o franzir suave antes do que precedia o choro. Não era hora para chorar, não tinha vindo ali para desmanchar-se na poça de água salgada, não de novo. “Você vai se arrepender disso… Desse convite… Porque eu vou trazer…” Minha estufa para cá. Era o que a mente alegremente completou, ansiosa como uma criança às vésperas do Natal iluminado. Contudo, não era bem aquela realidade que estavam… Era aquela que tinha recusado quando rompeu tudo meses atrás. “Não! Corrijo, vou já deixar minhas coisas aqui. O kit vai ficar aqui, tenho outro em casa. É isso. Precisa de voluntários para cuidar dos jardins? hum… Decoração natural, talvez…?” A verdade era… O trabalho como advogada, de defesa das pessoas, não preenchia o buraco dentro do peito, não do jeito que tinha encarado. Alguma coisa tinha mudado nessa vida assumida em Storybrooke, os interesses orbitavam ao redor de outras estrelas e astros. “SIM!” Levantou as mãos em pedido de calma, tanto para si quanto para Victor. Os lábios segurando a risada que a entregaria. “Sim, por favor. Eu adoraria.” A voz profissional, divertida, com uma piscadinha singela no fim. E assim, doeu. A lembrança dos dois na recepção de um necrotério (risos), relembrando o passado e combinando um jantar mais tarde. Hyacinth respirou fundo e começou a andar, os passos evoluindo para uma corrida mais rápida. Pulos na entrada para chegar logo à porta. “Eu abro! Eu abro porque você vai na frente pra começar o tour. Não! Sem cavalheirismo dessa vez!” A mão na maçaneta era firme, resoluta, mas o resto do corpo não seguia a mesma segurança. Hyacinth tinha espionado pela janela, um erro enorme, tinha sentido a aura antes mesmo de ter visão concreta do lado de dentro. E o que vira… O que veria… Precisaria estar um passo mais distante para usar as mãos e os cabelos no disfarce perfeito. “Eu preciso de nomes, Victor. Nomes. O endereço consigo em uma pesquisa rápida de computador. Quem está te zoando claramente não tem… Noção. Não que minha opinião seja final, mas… Você fica bonito com todos os tipos de cabelo e esse… Está dando a melhor versão de…” Levantou a mão, polegar e indicador unidos num ok aprovador. A Springsteen girou a maçaneta e empurrou o material da porta, olhinhos revirando contrariados porque entrou logo e ficou no canto, esperando que ele tomasse à frente.
✧ ˚ · . Ele sabia que ela se animaria com a ideia, então não tardou em mexer a cabeça, assentindo. “Pode trazer o que for preciso, espaço é algo que não falta.”, brincou, apesar de não estar mentindo. Fora o espaço que deixava para os cavalos e as cabras, todo o restante podia ser dedicado à jardinagem, se ela quisesse, poderia ter umas vinte estufas. Estaria mentindo se dissesse que não imaginou os dois lucrando um pouco através de flores e hortaliças que poderiam ser vendidas de forma orgânica, crescidas com muito amor e carinho. A ideia trouxe um sorriso bobo aos lábios dele, que teve de disfarçar quando começaram a caminhar em direção à casa, o convite para o tour sendo aceito. Ele estava um pouco nervoso, esperava muito que ela gostasse do ambiente, afinal, tudo que havia feito, pensara nela, num dia os dois morando juntos ali.
A imposição dela abrir a porta o pegou de surpresa, mas ele apenas riu e chacoalhou a cabeça; ela era sempre assim, imprevisível, mas divertida. “Muito obrigado, senhorita.”, agradeceu com uma pequena reverência, uma cordialidade desnecessária, mas que servia como brincadeira para os dois. A porta já aberta, Victor retirou os calçados sujos de terra antes de entrar --- era uma regra da casa. No hall de entrada, colocou-os sobre o banquinho que ele mesmo havia feito para tornar de sapateira. “Bom... seja bem-vinda.”, havia um quê de orgulho em sua voz. “Eu planejei tudo para ser bem rústico, mas aberto? Não sei explicar...”, ele riu baixo. “Preferi usar cores claras, como pode ver.”, achei que você ia gostar mais, completou mentalmente. Um pouco de tons claros poderia trazer a ela melhores memórias do que as coisas vividas no submundo; ambos os deuses precisavam de uma mudança. Logo em seguida, caminhou com ela até a sala. “Aqui é meu lugar preferido, uma boa lareira para os dias frios, um bom espaço para se ter um cachorro, ou um gato, e uma TV para assistir os jogos.”, quem o visse daquele jeito, jamais um dia imaginaria que sua antiga profissão era cuidar de um cemitério, ainda que a morte fosse algo muito importante para ele.
Voltando ao assunto do cabelo, ele riu com a reação alheia. “E não precisa se preocupar, eu consigo me defender sozinho.”, levantou os braços, dando dois beijos aéreos nos muques, em brincadeira. “E honestamente, se você gostou, é tudo que importa para mim.”, agora tinha o olhar fixo no dela, observando a reação alheia. Havia se contido até aquele momento, mas agora, longe do olhar dos outros, talvez pudesse tentar um pouco mais, descobrir como seriam as coisas por ali.