past âą the dream âą parte 5/5
Sonho: bateu duas vezes na porta do quarto da filha, desenhado especialmente para ela, a fim de lembrar um lugar na Terra que ela gostasse. ApĂłs as batidas, ele abriu a porta.
â Cassandra. â chamou, apĂłs vĂȘ-la alguns metros adiante.
Entrou no cĂŽmodo e fechou-o atrĂĄs de si.
â Eu queria que fosse a primeira a saber, Cassandra. Partirei amanhĂŁ, com Ruby, para o mundo desperto. SerĂĄ nossa lua de mel.
Cassie: tinha acabado de acordar. Cassie achava estranho que tivesse dormido. Ali ela nĂŁo precisava fazer isso, mas ainda assim o fez.
â Eu nĂŁo estou dormindo! - exclamou, esfregando os olhos e bocejando.
Piscou duas vezes para o pai antes de murmurar alguma coisa como "tudo bem vocĂȘ vai pra casa, vai pro desperto".
â VocĂȘ vai quando? Que? Onde?.
E caiu da cama, com o susto.
S: â Ă claro que nĂŁo estava dormindo. VocĂȘ nĂŁo conseguiria.
Sonho nĂŁo entendeu porque ela disse aquilo, mas logo mudou para o outro assunto.
â Em algumas horas. Vamos Ă s Cataratas do Iguaçu.
C: â Eu podia tentar pelo menos!
Teimosa do jeito que era, a garota que tinha sentado no chĂŁo do lado da cama, fizera um bico. Detestava achar que nĂŁo podia algo.
â Brasil? VocĂȘs vĂŁo pra lĂĄ? De tooooodos os lugares possĂveis escolheram justo lĂĄ? - incrĂ©dula era a melhor descrição pra filha do Sonho nesse momento.
NĂŁo me leve a mal, ela gostava do paĂs tropical, afinal tinha sido concebida lĂĄ. PorĂ©m por isso mesmo, as lembranças, que estava um tanto confusa.
S: â Ruby ainda nĂŁo sabe onde vamos, eu escolhi sozinho.
Sonho entendia que aquele podia ser um assunto delicado para ela. Justamente por isso fizera questĂŁo que Cassie fosse a primeira a saber.
Aproximou-se da filha e se agachou de frente para ela.
â SerĂŁo apenas alguns dias. VocĂȘ ficarĂĄ bem?
C: Faziam seis anos, no tempo mundano, que estava ali. Seis anos que nĂŁo sabia o que era viver longe do pai.
EncontrarĂĄ a paz e certa estabilidade emocional no Sonhar e agora? Agora nĂŁo sabia muito bem o que dizer.
Ficou calada por alguns instantes.
â Eu nĂŁo sei. â decidiu ser sincera â NĂŁo quero ficar sozinha. â pausa â Mas nĂŁo quero atrapalhar vocĂȘs.
S: â VocĂȘ nĂŁo estarĂĄ sozinha. â Ele resolveu sentar-se no chĂŁo, e cruzou as pernas. â Seus irmĂŁos tambĂ©m ficarĂŁo aqui. Lucien, e todos os outros funcionĂĄrios. O PalĂĄcio nunca estĂĄ vazio. Tomou a destra da filha entre suas mĂŁos, gentilmente. â E eu voltarei instantaneamente, se precisar de mim. NĂŁo hesite em me chamar.
âEw. Chamar bem no meio da lua de mel e correr o risco de estragar a diversĂŁo dos dois?â, pensou, âNo way.â
â E se eu tambĂ©m for? Digo, nĂŁo com vocĂȘs, mas pro Desperto? â perguntou, falando rĂĄpido e embolado como sempre fazia quando tinha uma ideia maluca e estava insegura.
Ainda estava com a mão junto dele, afinal não era todo dia que tinha a atenção do pai tão perto assim. Mesmo no sonhar.
Sonho: ficou em silĂȘncio por um tempo, olhando para ela.
â Tem noção do que estĂĄ pedindo, Cassandra? Uma viagem ao Desperto nĂŁo seria apenas um passeio para vocĂȘ.
Mais uma vez ele deu uma pausa.
â HĂĄ consequĂȘncias em passar tempo demais no Sonhar, quando nĂŁo se Ă© nativo daqui.
ConsequĂȘncias? O que sĂŁo consequĂȘncias? Uma palavra bonita para aquilo que Karma gostava de entregar, resultados derivados das açÔes que os seres tomavam.
Mas Cassandra nĂŁo era conhecida por entender ou antever as consequĂȘncias de suas açÔes. E por isso, havia pendido a cabeça para a direita, franzido levemente a testa e olhava confusa para o pai.
C: â Eu nĂŁo posso mais voltar? â indagou, sua voz levemente infantil, indicando que estava realmente surpresa e levemente chateada.
S: â Eu avisei a vocĂȘ quando me pediu para vir ao Sonhar. Este lugar Ă© para as mentes, nĂŁo para corpos de carne.
Ele suspirou e olhou para as mĂŁos de ambos, ainda juntas.
â Sim, vocĂȘ poderia voltar. Mas uma transição nĂŁo serĂĄ fĂĄcil para vocĂȘ.
C: â Eu sĂł nĂŁo aguentava mais ficar lĂĄ... â murmurou, abraçando-o e escondendo o rosto.
Se lembrava levemente do aviso, mas na Ă©poca estava tĂŁo desesperada que nĂŁo ligou. Era isso ou acabar se matando, de novo. Mesmo assim, estava apavorada com a idea de ficar sozinha. E por isso, ainda com a cabeça em sua camiseta, perguntou baixinho â Que tipo de consequĂȘncias, pai?
S: Ficou um pouco surpreso com o abraço, mas não o recusou, e logo a abraçou de volta.
â Seu plano pode nĂŁo aceitĂĄ-la de volta. VocĂȘ terĂĄ necessidades que nĂŁo tem aqui, e que estĂĄ desacostumada. Seu corpo terĂĄ de se readaptar Ă comida material.
Afastou-se um pouco, apenas o suficiente para que pudesse olhar nos olhos dela.
â E acima de tudo, precisarĂĄ lidar com os humanos.
C: Comer jĂĄ nĂŁo era algo que estava muito a fim nos Ășltimos tempos que ficara no Desperto, entretanto o que de fato lhe chamara atenção, causando o que poderia ter sido uma batida rĂĄpida de coração â se tivesse um, Ă© claro â , foi o fato de ter que lidar com humanos. Foram eles que lhe tiraram a paz. Foram eles, ou ao menos alguns dos filhos deles com deuses, que lhe causaram a perda de sono e da pouca sanidade que ainda tinha. Piscou os olhos roxos com uma lĂĄgrima teimosa ameaçando cair e dissera
â Eu nĂŁo gosto de humanos. Nem um pouco.
S: â Se nĂŁo gosta de humanos, por que desejaria voltar ao Desperto, Cassandra? Apesar de quase nunca chamar Cassie pelo apelido, o tom dele jamais era duro com ela. Sonho tinha um tom calmo, suave, atĂ© mesmo neutro, sempre que falava com qualquer um.
â O Desperto Ă© onde os humanos estĂŁo quando acordados, sabe disso.
Ficou em silĂȘncio pelo o que parecera uma eternidade, mas eram apenas dois segundos antes de responder.
â A Ode estĂĄ grĂĄvida e eu queria vĂȘ-la â respondeu, contanto parte da verdade. TambĂ©m havia visto, em um pedaço de sonho, que tivera uma criança, mas nĂŁo sabia se isso era verĂdico, entĂŁo preferiu nĂŁo comentar. Apenas estava cansada de sentir se invisĂvel, mesmo acompanhando a vida alheia de longe. E nĂŁo queria, de jeito nenhum, ficar sozinha ali.
S: â Entendo...â Sonho deixou a mĂŁo de Cassandra e levantou-se. â Preciso que tenha certeza de que Ă© isso o que vocĂȘ quer, Cassandra. Sua amiga nĂŁo estĂĄ na melhor das situaçÔes neste momento, mas vocĂȘ nĂŁo terĂĄ muito poder para ajudĂĄ-la. Ele fez um carinho sobre a cabeça da filha.
â Eu deixarei que pense sobre sua decisĂŁo.
Em duas horas, uma pequena chama irå aparecer em teu quarto. Se decidir que vai ao Mundo Desperto, acompanhe-a. Se decidir que vai ficar, apenas continue aqui. Mas não se desvie do caminho, só posso garantir tua segurança na trilha principal. Estamos combinados?
Cassandra: assentiu entre tĂmidas e teimosas lĂĄgrimas, abraçou o forte e passou as prĂłximas duas horas daquele dia pensando. Sabia que corria um grande risco, mas que tipo de semideusa seria se passasse o restante da existĂȘncia se escondendo? NĂŁo era isso que gostaria de ensinar aos seus irmĂŁos e pior ainda, sentia falta deles e daqueles que adotara. Quanto aos poderes e limitaçÔes, bem ela nĂŁo entendia muito, mas faria o melhor que poderia para entendĂȘ-los e sobrepuja-los.
Mas fosse o que fosse que as Moiras tivessem tecido para a mais velha das Porto, ela enfrentaria de queixo erguido.
âEstou prontaâ, pensou, âagora sĂł falta seguir a luzinha feliz lĂĄ e ir ajudar Ode e todos aqueles que meu coração partido me obrigou a deixar para tras.â
Exatamente duas horas depois: uma pequena chama surgiu flutuando perto de Cassandra. Manteve-se parada durante quinze segundos, como se para ter certeza de que ela estava vendo, entĂŁo começou a se mover, em direção a saĂda do quarto. O fogo atravessou por entre as brechas da porta e começou a seguir por um longo e solitĂĄrio corredor. Havia vĂĄrios quadros nas paredes, representando algo que apenas Sonho saberia. A chama fez algumas curvas, seguiu por vĂĄrios corredores, atĂ© parar diante de uma porta. NĂŁo havia som vindo do outro lado.
C: Respirou fundo, segurando Rufus no colo e abrindo a porta. HĂĄ mais tempo do que poderia ser possĂvel contar, Cassie retornava ao delicioso e apavorante Desperto, cheio de humanos e seus enigmas.