O dia que eu fui na Cosmos
Enfim chegou o dia tão esperado. Estava esperando a quase 2 meses aquele dia chegar, desde o dia que o evento foi criado no facebook. O nome da festa era Cosmos, e já era sua terceira ou quarta edição, mas a primeira que eu iria. Era um sábado lindo, tirando o fato de que estava chovendo torrencialmente desde cedo.
Isso mesmo, estava chovendo pra caralho e fazia um frio de matar mendigo, mas eu ia naquela festa até embaixo de chuva de meteoro. Olhando para trás agora, não entendo porque eu fazia tanta questão em ir nessas festas open bar, não entendo mesmo. Essas festas geralmente eram todas iguais, frequentadas pela mesma galera e tocavam sempre o mesmo tipo de música. Mas ao auge dos meus 16 anos, para mim aquele era o rolê perfeito.
O plano era o seguinte: Eu iria até a casa de um amigo, de lá íamos para a festa juntos, na volta eu iria de carona com o mesmo amigo e dormiria na casa dele. OK, até aí é um ótimo plano. Não tem como dar errado. Mas deu.
Quando foi se aproximando do horário da festa, a chuva foi dando uma trégua e já dava para pelo menos sair de casa. É claro que minha mãe tentou me convencer de que era uma furada, mas eu como um bom adolescente idiota, não dei atenção. Sai de casa. Voltei. Peguei o casaco. Sai de novo. No caminho, percebi que as ruas estavam vazias em pleno sábado à noite. Parece que todo mundo ouviu o conselho da mãe, menos eu. Desculpa, mãe.
Cheguei na casa do meu amigo, que para não dar merda, chamaremos de Astolfo. Os pais de Astolfo, que iriam levar a gente, também não estavam botando fé nessa festinha. Astolfo começa a discutir com os pais enquanto eu tento não ser notado naquela sala. Ficamos nesse empasse por mais ou menos uns 30 minutos, até que o pais dele cederam. Entramos no carro e fomos pra lá num clima tipo “Eu tô falando que vai da merda” dos pais dele. Eles estavam certos. E como estavam.
Depois de rodar muito, chagamos na chácara que iria acontecer o evento. Como dizia aquela música do Facção Central, “Freddy Krueger teria medo do cenário”. Havia barro pra todo lado, e poças do tamanho de rios, tudo o que protegia as pessoas da chuva era uma tenda improvisada. O primeiro passo que dei fora do carro, meu tênis branco deixou de existir imediatamente. Enquanto olhava a situação deplorável com que aquelas pessoas dançavam no barro, me fez pensar que talvez não fosse uma boa ideia ter saído de minha humilde residência.
Mas agora foda-se, já estamos aqui, vamos pelo menos tentar curtir a festa. Depois de 10 minutos já tinha perdido Astolfo de vista, mas não me preocupei na hora. Encontrei outros amigos lá e começamos a beber a vodka vagabunda que estavam servindo. Bebemos, rimos e logo não importava mais toda a chuva e a lama. Não importava mais nada.
Depois de alguns copos decidimos ir tentar pegar alguém no meio da multidão de enlameados. Eu nunca tive muito jeito para chegar em uma garota, mas o álcool me faz esquecer isso por um tempinho. E eu já tinha bebido uma quantidade considerável de álcool.
- Que? Não tô te ouvindo. O som tá muito alto.
Eu sei, é uma abordagem ridícula, mas foi o que eu consegui pensar na hora.
- AH NÃO, VLW. EU SOU LÉSBICA.
E esse diálogo se repetiu mais umas três vezes com as outras três garotas que eu tentei algo. Estranho. Ou tem muitas lésbicas aqui, ou todas as garotas leram o mesmo manual de toco antes de irem pra festa. Era a primeira alternativa. No mínimo 80% mulheres que estavam lá, gostavam da mesma fruta que eu hhahahah. Ok, já que eu não ia pegar ninguém, decidi encher ma cara mais ainda. Porque não? Não iria voltar pra casa, dormiria no Astolfo. Inclusive, o Astolfo já tava sumido a um tempinho já.
É impressionante como um grupo de homens que não pegaram ninguém, começa a chorar as mágoas depois de algumas doses. Acho que as mulheres são mais maduras nesse sentido, não seí. Enfim, éramos três rapazes bêbados sentados em um banco reclamando de nossas vidas infelizes e cruéis (lembrando que eu tinha 16 anos hahaha), naquele momento eu desejei estar em casa pela primeira vez na noite. Não seria a última.
Lá para umas 3:00 da manhã, comecei a procurar Astolfo para irmos embora, nesse momento já não aguentava mais afundar meu pé naquele barro todo. Não encontro Astolfo em lugar nenhum. Pqp! Vai gelando a barriga, batendo o desespero de ter perdido a carona, mas tento não me abalar, mantive a calma e comecei a perguntar pros amigos dele se tinha o visto.
- Cara, vc viu o Astolfo?
- O Astolfo deu PT (não o partido, coma alcoólico mesmo)
- Caralho, e onde que ele tá?
- Vish, ele foi embora já faz um tempo.
- Ah, ligaram pro pai dele e ele veio buscar.
Se estivéssemos em um episódio de Avenida Brasil, com certeza esse seria o momento em que a cena congela, a câmera dá um close no rosto do personagem e acaba o capitulo. Fique em choque. Comecei a procurar na minha cabeça alguma maneira de ir embora, mas não achei nenhuma. Estava em uma chácara no cu do mundo, não fazia a mínima ideia de onde estava ou de como chegar lá. Na época não tínhamos carro em casa, então ligar pra mamãe vir me buscar não era uma opção. Não passava ônibus naquele horário e mesmo que passasse, aposto que não acharia um ponto perto naquele fim de mundo. FUDEO, VOU MORRER AQUI. NO BARRO.
Comecei a pedir carona para meus amigos, mas todos moravam muito longe da minha casa, tipo, do outro lado da cidade. Um morava até em outra cidade. Pedi carona para um amigo de um amigo que apenas troquei algumas palavras, esse cara iria embora de carona com um terceiro rapaz, esse eu nunca vi na vida. Mas esse cara morava em um bairro pelo menos um pouco próximo do meu, era minha melhor chance.
Engoli o orgulho e praticamente implorei para o cara, que até hoje não sei o nome, por uma carona. Ele aceitou, gente boa. Entrei no carro com um monte de estranhos, eu podia ter terminado a noite em uma banheira de gelo sem meu rim. Tava bem apertado, tinha sete pessoas em um carro que cabia cinco, e eu com quase dois metros. Naquela altura a adrenalina já tinha me deixado sóbrio, mas a galera o carro estava em um estado de calamidade. Até que aconteceu o que eu temia, vomitaram no carro.
A situação que era já desconfortável, agora estava impraticável. Lá estava eu, com a cara colada no vidro do carro de um estranho e com um cheiro insuportável de vômito no ar. Porque não ouvi minha mãe?? Puta merda. Fiquei o resto do caminho prendendo a respiração o máximo possível para não vomitar e piorar mais ainda a situação. Já estava pensando seriamente em suicídio quando finalmente chegamos ao nosso destino. Que noite.
Mesmo com a carona, eu ainda estava bem longe de casa, com sono, fome e com a moral lá embaixo. E lá fui eu, as 4:00 da manhã, a pé, na chuva. Já estava amanhecendo quando eu cheguei em casa.
Pensei em muita coisa depois desse rolê desastroso. A partir daquele dia, passei a pensar duas vezes antes de ir em uma festa open bar de baixo de chuva. O foda é que além da minha noite ter sido horrível, eu havia arrastado meus amigos para aquele barco furado. O rolê deles também foi deprimente. Até hoje eles me culpam por ter cagado o sábado deles.
Mais tarde descobri o que aconteceu com Astolfo. Colocaram alguma coisa na bebida dele, e parece que ele não reagiu muito bem hahahaha. Isso só me faz pensar que por mais merda que essa experiencia tenha sido, sempre pode ser pior.