Sangrar é inevitável quando o coração resolve se apaixonar. Um olhar diz tudo, porque ela não conseguiu enxergar nos orbes dele, que a última coisa que deveria ter feito era não se apaixonar? Descobriu então da maneira mais fácil que aquela piscadela era a estrada para se foder. Primeiro o verbo foder e não da melhor maneira possível, para depois partir para o verbo tentar esquecer? Não coloque todas as suas cartas na mesa garota. Aprenda com os erros de Marcela que definhou dos vinte cinco anos até alcançar os quarenta, pelo menos o boyzinho dos anos setenta chegou aos anos noventa com uma conta bancaria tão gorda quanto si mesmo. E pelo menos Marcela não ficará na rua sem grana, sem teto e sem glamour, é não se pode esquecer-se do glamour. É importante e só vem junto ao dinheiro. Dinheiro não compra amor, de facto, mas vem como uma penhora ou indenização se assim o quiser após o divórcio. Marcela não ficará pobre, isso é o que importa no final das contas, após longos anos servindo o marido em cama, mesa e banho. No entanto perdeu seu coração quando se entregou achando que seria feliz para sempre e isso seria cômico se não fosse trágico! Mas talvez sejam os dois, só depende do ponto de vista. O para sempre não existe, apenas em contos de fadas, e talvez este seja o erro das mulheres que tem filhas; contar estórias maravilhosas de contos de fadas onde a mocinha casa com o príncipe e tudo termina bem, porque o conto sempre acaba em casamento, mas nunca ninguém conta o pós-casório, digamos depois de dois anos após o casamento, onde tudo pode terminar em fim ou se arrastando em estado terminal até que se finde em uma bela cerimônia com lágrimas e brigas alucinantes. Mas estes contos maravilhosos nos dão um final surreal e sem graça se olhar-mos em um ângulo moderno! Marcela caiu no conto da carochinha, pelo menos tem como se sustentar e ainda tem a pensão gorda do porco do ex-marido, que se casou com uma moça de vinte e cinco anos, a mesma idade que tinha quando se casou com ele. Tomara que morra esfaqueado e chifrudo! Estás são as preces de Marcela faz todas as noites antes de dormir ao seu bom Deus. E você ainda sonha em se apaixonar? Marcela é o retrato de algumas mulheres, de todas as tolas que raciocinaram com o coração e não com a razão. Ouviu querida? Tome cuidado o lobo mal é galante e bonito, mas muito perspicaz e você é jovem, burra e sonhadora. Que gracinha aquele galante cordeirinho. É mentira! Estude, arrume um emprego, seja independente, pode se casar, mas não pare sua vida, não seja somente do lar, porque depois dos filhos e de uma cinturinha mais larguinha, depois dos mimos escassos, da ignorância mais notória do marido, vem às brigas, as humilhações, os descasos, a amante, a dura separação e para findar o fatídico divórcio, mas se no final a dama ainda for esperta conseguirá linda e maravilhosa sua parte merecida dos bens na separação e ascenderá feito o sol, gloriosa em uma manhã de inverno, rejuvenescida pela separação que faz bem a cútis. Mas vamos retornar ao item divórcio que a maioria dos homens negam dar se for por escolha da esposa, é que muitos hominídeos gostam de viver duas vidas, a do lar com a amada esposa e os filhos, e a outra vida; tipo marginal em que tem um caso escondido com a amante. Ele é o senhor, é o homem viril, o macho alfa, o provedor do lar, é quase onipotente a esposa lhe deve amor e dedicação, tem as costas quentes pela sociedade, mesmo que traição seja profana e repudiada pelas leis da Santa Igreja. Ao homem é tolerado, pois ele é o macho alfa, a virilidade que exala de si, por isso tem perdão quase que divino, os juízes da assembleia social e ele mesmo como sua testemunha mais justa e senil á vista exclamam - A carne é fraca! E a culpa sabrecai sobre a mulher, a do lar que não soube cuidar de seu homem, não lhe deu afeto, não correspondeu suas necessidades carnais no leito e a amante; o fogo quente da indecência que lhe rodeia, a destruidora de lar que tentou feito Eva a oferecer o fruto proibido a Adão, o qual caiu em desgraça por “culpa” da companheira que o persuadiu a comer, e assim a amante é a causa e única culpada pelo honrado marido pai de família cair em tentação. É uma Geni! Uma Elza! Uma Madalena! Uma Maria! Uma Penha! Merece ser apedrejada... Uma puta! E ao homem coitado, cabe o manto protetor do perdão, e ele se assenta novamente a cabeceira da mesa de jantar, lê o jornal e onde está a mulher para servir a mesa? O tempo de nossas avós já passou, vamos nos lembrar de que o tempo de Marcela não é o nosso e ao mesmo tempo o é, quanto às cobranças descabidas nos atingem com dedos apontados, a Gení é bendita, Marias e Penhas são leis. São livres, Evas deixam dúvidas quem quiser que vá quem não quiser não vá! Madalenas benditas e malvistas nas esquinas da vida. Elzas vão e vem do trabalho, da faculdade, do barzinho, para casa, para onde quiserem e cantam e encantam. Mas ainda hoje somos putas se somos violentadas, e hoje se prova que não é apenas um homem que violenta nós mulheres livres, através do voto, da escravidão. O estado nos violenta através da violência obstétrica, do poder judiciário que dá penas brandas a assassinos, estupradores, molestadores, agressores de mulheres de todas as idades, as igrejas que nos fazem parir os filhos pródigos de nossos agressores que molestam não só nossos corpos, mas nossas mentes, nossas almas. A igreja que manda em nossos úteros privados- pedaço de nossa carne humana e livre. A sociedade que apontam os dedos. Nos atiram pedras, que nos cospem palavras duras de ironia e repúdio, que gritam “elogios” de revirar o estômago; devo ser gostosa, não posso andar na rua de roupas curtas, de batom vermelho ou eu procurei e achei. Se somos gostosas, se somos feias não merecemos nem mesmo ser estupradas? Se formos bonitas mereceríamos? Não estamos voltando ao tempo da barbárie em que povos antigos invadiam vilarejos, roubavam mulheres e crianças, escravizavam e vendiam. Onde homens violentavam crianças e mulheres, dividiam o ouro do roubo e coletivamente violavam os corpos de objetos feminis, este tempo está armazenado não só no conhecimento histórico, mas no sangue, na mente de povos humanos, e são expelidos com acessos de ironias e xingamentos á mulheres de nossa era. Quando falamos sobre isso, quando erguemos nossas vozes para lutar contra tudo isso e pedir políticas públicas sérias contra estas abominações, tentam nos queimar nas fogueiras inquisidoras onde o combustível são lenhas de palavras duras e sarcásticas da sociedade, querem nos acorrentar nestes argumentos insanos como as correntes onde meus antepassados estiveram presos não fazem nem meio século, quanto meus descendentes marginalizados e catequisados pela força nas margens dos amazonas e que agora brigam por suas terras de direito o foram. Nada disso foi esquecido e descontruído, foi varrido para debaixo do tapete com uma vassoura rota, sécular e vai se revelando diariamente, homens e mulheres andam pelas ruas mascarados cuspindo naquelas e naqueles que não dançam esta ópera medonha e descabida. Nossa marcha não é pequena é uma fagulha que se acende diariamente mais forte que sua ópera de ilusões. Somos um roseiral de chamas eternas, onde uma cai, milhares brotam, vivam as Elzas, as Evas, as Madalenas, as Genís, as Marias, as Penhas, a todas que queimaram nas fogueiras, as Dandaras, as Rrainhas Guerreiras que vieram nos navios negreiros, as Laudelinas, as Indígenas, a todas as mulheres de hoje, de ontem e que continuam nesta luta, onde não deve caber cor, religião, raça e gênero, mas o mesmo sentimento de visibilidade, reconhecimento, justiça e respeito, tudo deve vir á luz da justiça, da democracia, do bem estar social junto com esclarecimento. Não podemos fechar os olhos e desviar nossa atenção para nossos próprios problemas de lutas individuais, todas nós temos que meter o bedelho na luta uma das outras, sejamos, brancas, negras, indígenas, hétero ou lésbicas, trans que seja! Nossa luta tem algo em comum a perseguição social, política e econômica a outra parcela juntas a problemática que não é problema mais incomoda os ogros que estão assentados sobre o sistema governamental que é a questão de gênero, cor, raça, etnia e religião. Não quero ser apenas a voz de uma mulher jovem negra, espiritualista e hétero, quero ser a voz de todas nós, me sinto a vós de todas nós, porque sei que nesta luta não estou sozinha. Levantemos irmãs de mãos dadas, de corações abertos, levantemos nas zonas rurais, nos acampamentos do MST, no meio urbano, nas universidades, nos movimentos estudantis, nos movimentos afros, nos movimentos religiosos, em cada terreiro, em cada oca, em cada maloca, em cada lugar deste país, em cada país da América latina. Devemos dizer não a tudo que nos é nocivo, não podemos deixar que as futuras gerações vivam da mesma forma os abusos que vivemos e que hoje são tolerados. Não quero carregar esta falsa culpa que jogam sobre meus ombros nos ombros de minha filha de meus netos como uma herança maldita. E quero deixar claro que aqui não existe vítima, mais uma sobrevivente que resiste valente e forte como minha mãe e minha avó, como minhas antecessoras. Pelos sangues indígenas e africanos miscigenados que correm em minhas veias, sou uma mulher negra e tenho orgulho do que sou. Sou filha de Iemanjá e quem nasce em meio à tempestade marítima meu bem, não nasceu para afundar em meio enxurradas da podridão humana. Lápis Lazulli- 24/06/2016