Talvez você também tenha percebido. Tem algo errado. Ou talvez… a gente só esteja vendo certo demais. — do lado de fora
Misplaced Lens Cap
Show & Tell
dirt enthusiast
KIROKAZE

Janaina Medeiros
Cosimo Galluzzi

oozey mess

Love Begins

Andulka

Kaledo Art

pixel skylines
Lint Roller? I Barely Know Her
Three Goblin Art
DEAR READER

ellievsbear
d e v o n
"I'm Dorothy Gale from Kansas"
Peter Solarz
$LAYYYTER
YOU ARE THE REASON
seen from Romania

seen from United States
seen from Israel
seen from Philippines

seen from Philippines

seen from Philippines
seen from Philippines

seen from Philippines

seen from Türkiye
seen from Israel

seen from China
seen from France
seen from Israel

seen from United States
seen from Myanmar (Burma)

seen from United States
seen from United States

seen from United States
seen from United States
seen from United States
@cartasdoladodefora
Talvez você também tenha percebido. Tem algo errado. Ou talvez… a gente só esteja vendo certo demais. — do lado de fora
Eu ainda estou aqui.
Eu pensava nela mais do que gostaria. Ao mesmo tempo tentava não criar expectativas. Ela parecia mais jovem que eu. Tinha medo de envolver ela na minha confusão. Ela sempre pareceu fugir, e agora quem parecia fugir era eu. Já de noite eu descreveria meu habitat. um caderno de capa preta, transpirando anotações seguidas por goles de cerveja. Um espelho trincado encostado na televisão, com um silêncio aprisionado. toda vez que escrevo minhas sensações eu tento simplesmente escrever. É como uma sessão de terapia. Me analise. Quer adivinhar o final? Talvez esse silêncio esteja respeitando minha sanidade. Uma subida na guia. Toda essa adrenalina. Pensando em sexo. Pensando nela. Pensando em deixar meus pensamentos em paz. E finalmente uma última frase, já que tudo termina. Essa falta de motivo começou com conversas de frente para um espelho. Em uma confusão carnal trêmula que deixa o sentimento vermelho. Eu ando sem tempo, pontualmente bêbado. Me sinto brincando com uma espingarda que atira rolha para ganhar um prêmio. Enquanto alguém entra atirando em uma igreja. E perceber o absurdo não faz eu me sentir melhor que os outros. É que eu simplesmente não consigo me ver fazendo parte disso tudo. Isso tudo que escrevi agora é minha própria voz me devorando. Me cuspindo de volta. E cada passo que dou, sinto que entro em uma queda livre. Cada palavra que escrevo nasce torta e amarga minha boca. Tento decifrar um manual escrito em uma língua morta. E acordo sempre com a náusea de tudo parecer igual. Broken Mirror.
Eu queria contar tudo que passa pela minha cabeça. Quanto mais escrevo, mais pareço querer me afogar em alguma coisa que me faça sentir vivo. Talvez eu tenha passado tempo demais procurando alguém que pudesse me ver. Posso estar fantasiando tudo. Criando saídas criativas. Eu entendo o quanto posso ser invasivo. Existem milhares de certezas intocáveis. Tudo é pessoal demais. Por isso não conto com ninguém. Eu nunca quis incomodar. Nada do que já senti, foi culpa de alguém. Eu sabia que tudo era sobre como eu me sentia com os outros. Sinto falta de um amigo que se mudou de país. Passávamos horas na madrugada falando sobre tudo. Lembro das risadas. Temos todo o tempo do mundo para aproveitar instantes. Eu deveria ter dito algo do tipo para ela. Mas sempre escrevo melhor do que digo. Continuo escrevendo para ver se me livro do que eu nunca disse. Mais uma noite com o espelho na sala. Mais uma noite bebendo demais. Mais uma noite mal dita. Mas um silêncio descrito. Porque no final dos dias, as coisas continuam. Apagar as luzes, acionar despertadores e cobrir nossa razão. Broken Mirror
Você parece preocupada hoje. — Arrisquei. Ela desviou o olhar como se fosse fugir. Estou cansada. Respondeu com um tom seco. Posso te fazer uma pergunta? — Ela perguntou. Por que você vem para cá escrever? Gosto daqui. Gosto de ficar olhando o movimento pela janela e pensar sobre o sentido da vida. Me olhou com profunda estranheza. Visivelmente você sempre parece um pouco perturbado. — Disse ela, com um sorriso raro. Aquele sorriso chegou a tirar meu ar por um instante. Fiquei sem saber o que dizer. Para onde você vai? — Ela questionou. Como assim? — Respondi. Às vezes você parece que não está mais aqui. Ela concluiu: Bom, preciso ir. – Disse com pressa. Logo em seguida levantou-se. Pareceu uma fuga novamente. Apressada. Antes de sair, ela falou: Talvez a gente se veja por aí. É, talvez. – Respondi. Fiquei algum tempo sem saber o que pensar. Broken Mirror
Terminei meu café e saí. Fui a um velório de um conhecido. Fiquei o tempo todo no canto observando as pessoas. Aos parentes, não muito mais que poucas palavras convencionais. Foi só mais um silêncio imposto. Faz um tempo que as coisas ficaram sombrias. Desde que minha vó se foi, não tive mais domingos em família. A morte tem uma normalidade que caminha até a beira do abismo. Me sinto escrevendo como se fossem minhas últimas palavras, com a corda no pescoço. Talvez eu consiga enterrar as insuficiências em frases que passei a vida ditando. Talvez isso tudo pareça um monólogo qualquer. Talvez faça algum sentido póstumo. Mas sigo afiando as palavras em cada construção. Há uma coragem quase indecente em escrever o que não se entende. Então apenas assisto atento à loucura possuindo cada frase. Então direi sobre o óbvio e não vou parar até ficar inacessível. Como um bêbado que diz tudo que pensa enquanto usa o álcool como álibi. Eu nunca sei como começar, e mesmo assim pareço me reconhecer. Talvez eu só queira colocar um ponto final. Assumir que finalmente enlouqueci. Broken Mirror
Meu olhar parecia atravessar a atmosfera. Quando ouvi uma voz vindo de uma mesa a poucos metros pedindo um café. Meus olhos tentavam desviar, mas era como se meu olhar tomasse a decisão antes de qualquer pensamento. Eu não consegui parar de olhar. Os olhos dela eram escuros como a noite. Sobrancelhas marcadas, cabelo escuro e volumoso. Tinha um ar de realeza persa com certo esoterismo. Lembrava alguma deusa mitológica, uma beleza que parecia fora de época. Depois do tanto que meu olhar insistiu, ela percebeu. Me olhou diretamente. Senti que ela se incomodou, pois fechou a cara instantaneamente. Eu não queria parecer mais estranho do que aparentava. Percebi que ela me olhou mais uma vez com certa curiosidade, mas evitei olhar de volta. Ela se levantou e foi embora. Voltei lentamente ao meu desespero. Broken Mirror
Bebemos algumas cervejas e rimos. Eu consegui me distrair um pouco. Ele reclamava da mesa torta, o que me fez rir. Por alguns momentos, parecia que eu ainda sabia como era estar aqui. Mas constantemente meu sorriso morria sem avisar. Em um momento mais silencioso, me senti confortável e acabei falando entre alguns goles de cerveja: Eu acho que estou ficando louco. Ele me olhou e em seguida, deu risada. Eu também. Disse ele. Ele achou que eu estava falando da cerveja. Quem me dera. Jogamos bilhar e nos despedimos. Ele saiu me zoando por vencer o último jogo. Fui embora caminhando. Não era longe de casa. A noite estava com uma escuridão, daquelas que simplesmente cobrem tudo. Andei como se não me importasse em andar a noite toda. E o mundo parecia se importar menos ainda. O silêncio abençoava meus passos. Meus olhos brilhavam como lâmpadas cansadas. Ainda carregando uma lata de cerveja. Broken Mirror
Estou em silêncio há um bom tempo. Pareço vagar como uma alma penada pelo meu apartamento. Olhando para os cantos como quem procura alguma coisa. Respirando com pavor nos pulmões. Enquanto lavava a louça, nem sentia a dor do sabão nas unhas roídas. As coisas perderam ainda mais o sentido. Desci até a cafeteria novamente. Passei a beber o café quando ninguém estava olhando. Tinha medo de tremer as mãos e derrubar todo o café. Segurava com as duas mãos a xícara para evitar derramar. Todos os dias um vizinho me dava bom dia. Eu o cumprimentei com um movimento rápido e forcei um sorriso. Assim que passei por ele, fiquei sério instantaneamente. Percebi uma tristeza ao pensar que fazia tempo que eu não sorria genuinamente. Degustei essa sensação insípida com café enquanto observava pela janela. Broken mirror
Quando voltei para casa, fui direto para meu quarto. Fiquei encarando o espelho torto na parede. Aquele espelho desalinhado parecia equilibrar a minha tontura. Parecia ver meu rosto embaçado e sem nenhuma expressão. Você pode perceber as coisas mais estranhas da vida, mas nada como olhar no fundo dos seus próprios olhos. Broken mirror
Todos os dias eu lembro.
Não consigo esquecer como vocês esquecem.
Parece tão fácil.
Talvez eu não esteja mais por aqui. Talvez eu já tenha passado. Talvez eu veja meu reflexo torto. Como um espelho desalinhado que reflete, mas não convence. Talvez essas frases não sirvam para nada. Talvez seja só uma tentativa elegante de esconder meu pânico. Talvez eu seja estranho mesmo. Talvez eu esteja vendo meus pensamentos queimarem devagar com encanto. Talvez eu esteja enlouquecendo. Talvez eu esteja acordando. Já nem sei se existe diferença. Talvez eu só queira ficar assistindo o mundo inteiro acontecer do lado de fora da janela. Broken mirror.
Amar é baixa, quando estamos para partir.
Eu tenho um amigo que me chama de estranho. disse que lembrou de mim depois que viu um ET verde em um caminhão. Faz sentido. Eu continuo aqui, mas como alguém que voltou diferente de uma viagem que não consigo explicar para ninguém. Escuto as pessoas falando sobre as coisas e parece que falam outro idioma. Não sinto raiva do mundo. Não sinto muita coisa ultimamente, verdade seja dita. Não é tristeza. Não é drama. Nem paz. É outra coisa. Uma espécie de exílio consciente. Como se eu tivesse tocado a parede do mundo. E agora preciso saber o que tem atrás dela. Há pensamentos surgindo e desaparecendo o tempo todo, mas algo percebe os pensamentos. Há algo percebendo que as emoções queimam por alguns instantes e depois somem sem deixar rastros. Então o que sobra? Medo. Apego. A necessidade desesperada de continuidade. A tentativa de preservar o personagem. Mas às vezes, em raros instantes de exaustão absoluta, alguma coisa desacopla. E surge um espaço interno. Um silêncio atrás do pensamento. Como se a mente finalmente cansasse de narrar a própria existência. Tudo muda. Tudo escapa. Tudo passa através da experiência como fumaça. A mente transforma tudo em desejo. Cria um “eu espiritual”. Tentando alcançar uma experiência definitiva. Uma paz permanente. Uma iluminação contínua. Apenas mais uma versão sofisticada tentando sobreviver. Tentando controlar o silêncio. Possuir a paz. Garantir felicidade eterna, como quem assina um contrato metafísico com o vazio. Todo êxtase termina. Toda expansão recolhe. Toda experiência dissolve. A realidade, não pode ser tocada, nem descrita. Nem sequer ser saboreada pela linguagem poética. E isso desacelera tudo. Porque o ponto mais perturbador, é perceber que aquilo que mais buscamos, não existe em nenhum futuro. Não existe numa conquista. Nem numa transcendência final. Nem numa revelação definitiva. Existe apenas essa inquietude impossível de explicar. Uma presença sem rosto. Sem nome. Sem identidade. Apenas paredes e o silêncio. Repetindo um ciclo de sensações terminais. Tudo parece despedida. O amor parece despedida. A infância parece despedida. Os domingos parecem despedidas. E eu não julgo ninguém. Também tenho meus anestésicos. Só acho assustador o quanto todos nós estamos improvisando consciência enquanto fingimos controle. Porque ninguém sabe realmente o que está fazendo aqui. Somos apenas herdeiros da inquietude. Principalmente eu. Passei anos tentando parecer alguém compreensível. Agora só observo. E quanto mais observo, mais silencioso eu fico. Não por superioridade. Mas porque algumas percepções mudam para sempre a maneira como a linguagem toca a realidade. Sigo vivendo os dias com uma calma estranha, como alguém que já começou a desaparecer sem necessariamente morrer.
Broken Mirror
Já nem é só saudade de você.
Agora eu também sinto saudade de como você fazia eu me sentir.
Estava pensando em como minha cabeça funciona afundada em melancolia que minha alma doma. Não é tristeza. Seria mais fácil se fosse. É uma espécie de clareza, Um entendimento profundo que me envolve. Passando a vida toda sentindo falta, do que eu nem sei, pedindo calma, que eu nunca terei. Em apresentações rasas, que levamos a sério, tomamos decisões rápidas, apressadas pelo medo estético. Disseram que sou dramático talvez até seja um pouco esperando retornos imaginados, eu me sinto louco. Abriguei analistas na minha cabeça, como quem conversa com fantasmas. E toda vez que ouvi com franqueza, senti o tom de ameaça. Talvez eu esteja sempre um pouco atrasado para a vida dos outros. sempre deslocado. Tudo gira em torno de algo que eu não encontro. E ainda assim, o movimento continua. como um sistema que esqueceu de desligar. Sou eu quem me procura, sem conseguir me encontrar. E depois disso, o mundo continua pedindo reações simples. Uma normalidade que insiste, como se fosse possível voltar de onde eu fui sem trazer nada comigo. Sirvo então o luto tardio de todos que já fui em essência, com a boca amarga, sorrio, mastigando lentamente a própria existência. Levo as dores e alegrias de uma vida, explodindo no meio de tantas outras vidas. Tudo chama e nada responde. O mundo em chamas, enquanto a frieza nos esconde. Algumas experiências humanas não são feitas para serem compreendidas com pressa, São feitas para desmontar quem tenta compreendê-las.
Ela se derrama como vinho no meu sangue sem pressa, e eu fico assim, meio tonto, meio salvo diante dela. por um instante, pareço presenciar um milagre, me sinto vivo de novo, algum tipo de necessidade, que toda vez eu encontro. Diante de tudo, é a única coisa que fez o mundo parecer ligeiramente menos absurdo.