Como levantar a estima de jovens de uma comunidade carente do Rio de Janeiro aonde o futuro é totalmente incerto? Pensando nisso, Júlio César de Lima fundou a produtora de modelos Jacaré é Moda, localizada na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio.
Júlio César começou a produtora com muita dificuldade, contado com a ajuda de lojas, bares e costureiras da comunidade do Jacarezinho. Hoje seus modelos tem projeção nacional e internacional. E sabendo que o empoderamento é a chave para a resolução de muitos dos males de uma comunidade, fomos bater um papo com a equipe da produtora que estar transformando vidas.
O que vocês procuram nas new faces?
Buscamos new faces que expressem, por meio de sua beleza, a potencialidade da miscigenação brasileira. Ou seja, estamos à procura de modelos que revelem em sua aparência a mistura de raças e etnias pela qual se originou o povo brasileiro. Nós acreditamos que, assim, conseguiremos formar um (a) modelo com uma imagem versátil que venda para todos os clientes, que seja adaptável a todas as esferas e exigências do mercado da moda. Desde uma campanha publicitária, até as passarelas de grandes eventos. Atitude, classe e bom comportamento também são características que buscamos encontrar nos modelos new faces. São meninos e meninas que estão no começo de sua carreira profissional. Cabe a nós oferecer a eles todo suporte necessário e ajudá-los a alcançar essas qualidades. Além disso, queremos formar uma equipe de modelos que compreenda o nosso objetivo e seja capaz de representar, por meio do seu trabalho, a identidade da produtora Jacaré é Moda.
Como vocês vêem as iniciativas de fazer casting em favelas e periferias?É, de fato, algo inovador. De acordo com a nossa visão, essas iniciativas são uma forma de penetrar na vida e na cultura dos jovens da periferia carioca, oferecendo conhecimento, educação, inclusão social, conteúdo de moda e, assim, projetar uma mudança em suas identidades.
Vocês acreditam que a moda está cada vez mais democrática nas passarelas e as modelos estão cada vez mais 'normais'? Ou os novos biotipos, como as plus sizes, transsexuais e pessoas com defiências que aparecem nas passarelas, são pontuais e podem ser encarados como jogadas de marketing?
O mercado da moda sempre foi exigente no que diz respeito à aparência, medidas e pesos. Talvez essa conduta tenha sido responsável pela construção - em nossa sociedade - do estereótipo de que modelos precisam ser lindas, altas e muito magras. Por se tratar de um universo onde a beleza exterior é o principal atrativo, a democracia não é um estágio fácil de alcançar. Existe um padrão de beleza que é imposto pelo mercado. Como o maior exemplo, temos o mercado europeu. Podemos destacar um assunto que está em pauta nesse momento: o governo francês pretende adotar leis que proíbem modelos excessivamente magras nas passarelas e em anúncios de propaganda, medida já tomada nos países como Itália, Espanha e Israel. A nomeada “elite da moda e da alta costura” sempre exigiu modelos magras demais. Infelizmente, o mundo da moda não é democrático.Apesar de existirem projetos que reforcem a inclusão de novos biotipos nas passarelas de moda, eles ainda não estão inseridos de maneira significativa nesse universo. É perceptível o surgimento de diversos projetos e movimentos que levantam essa bandeira, mas estes ainda são vítimas de um sistema de consumo de difícil acesso. Esse é um tema de cunho cultural e, portanto, muito delicado. A padronização do perfil de modelos que encontramos nas passarelas nacionais e internacionais vem acompanhando o meio da moda há muitas décadas. Qualquer mudança que diz respeito a isso irá demandar muito investimento, cautela e persistência.
Por que vocês acreditam que existem tão poucas modelos negras em um país como o Brasil?O que pode ser feito para reverter essa situação?
A questão racial no Brasil é um problema social e não uma exclusividade do mundo da moda. É importante estudar a história, a formação e as características do mercado em que atuamos. Enquanto produtores e agenciadores de modelos profissionais, acreditamos que existe espaço para todos os perfis e biotipos. Basta ser profissional, ético, estar preparado e ser bom naquilo que faz. Nós, da produtora Jacaré é Moda, estamos nessa jornada para criar oportunidades, oferecer conhecimento e preparar jovens que até então não tinham acesso ao mundo da moda.
Você poderia dar os nomes das duas modelos que estão trabalhando na Europa e enviar alguma foto delas?
Beatriz Fortunato. A modelo foi vencedora do concurso Top Cufa de 2012. É agenciada pela Base Model Agency, na África no Sul, e pela Louisa Models, na Alemanha. No momento, mora e trabalha na França.Mariany Almeida. A modelo foi a 12ª colocada no concurso Menina Fantástica de 2009. Trabalhou em Milão, na Itália, pela agência The Lab. Atualmente, está morando e trabalhando no Japão.