❛❛ — Okay, o que posso fazer se eu sou super requisitado pelos meus novos amigos do hospital?❜❜ ergueu as mãos como se estivesse entregando ❛❛— Eu ia te chamar, mas você tinha que trabalhar e se te consola foi horroroso. A vista era feia, a trilha mal construída e a companhia não chegava aos seus pés❜❜ provavelmente ela sabia que se tratava apenas de uma brincadeira, mas Chris não podia não concordar que a não companhia de Tess não fez falta. A vista também não era nada desagradável e, apesar de não se tratar de seu trilha favorita de Wisconsin, não podia dizer que não era uma boa trilha. ❛❛— A gente vai juntos na próxima e eu prometo não te deixar cair num buraco. Aquele dia eu fiquei horas planejando como te empurraria num daqueles com a ajuda da minha fiel mochila. Foi muito planejamento e eu fico feliz que tenha dado certo.❜❜ encostou sua cabeça por um instante no ombro de Teresa ❛❛ — Foi um bom dia. Grande Devil’s Lake.❜❜ suspirou ao se recordar do fatídico dia. Tantos planos foram feitos — e isso não incluía a queda da atual esposa —, mas sua vergonha e medo de tentar sair da zona da amizade, não foi vencida e isso se estendia até os dias atuais. Ao menos não pode reclamar do maravilhoso dia que passaram juntos. ❛❛— Cindy? Oh please. A Cindy tá muito feliz com a esposa hoje em dia. Tanto que ela comentou pra minha mãe que não tava interessada em mim e minha mãe parou de encher nós dois. De qualquer forma, tem dias que eu penso que a Isobel ama mais a Cindy do que eu. Bom, ela fez Harvard e tem a mesma especialidade que a minha mãe, o que explica todas as vezes que minha mãe preferiu sair pra almoçar com a Cindy do que comigo❜❜ comentou enquanto balançava a cabeça discordando das atitudes da mãe, era típico da loira e, de certa forma, achava engraçado. O que o surpreendeu mesmo foi a lembrança sobre a amiga ter sido trazida por Teresa. Não sabia que aquilo foi notado por ela ou minimamente tê-la incomodado. ❛❛— Você não devia levar o que minha mãe fala a sério.❜❜
O assunto do divórcio foi tocado. Justamente aquele assunto. Christopher não podia dizer que nenhuma esperança de firmar um casamento com sentimentos genuínos tinha parado de cercar seus pensamentos. Todas as vezes que a palavra divórcio era citada, suas esperanças esvaíam e o desconforto poderia se tornar aparente, apesar de toda sua tentativa de disfarçar. Engoliu seco e assentiu, sem ao menos se dando ao trabalho de silabar alguma palavra. ❛❛— Pergunta? Qual pergunta?❜❜ se fez um momento de desentendido e buscou rapidamente alguma palavra que fosse suficientemente boa para suprir a curiosidade alheia ❛❛— Hum, eu acho que sim? Eu tô gostando de Salt Lake. É uma boa cidade. Tem um pouco menos de pessoas, mas não é tão diferente de Madison, a não ser o sotaque de Wisconsin que é insubstituível❜❜ brincou colocando um pouco de exagero de sotaque do estado natal na última parte da frase ❛❛— E você, Teresa Castillo, acha que valeu a pena ter saído do estado de That 70′s show?❜❜ perguntou. Ser chamado de amigo foi como uma pontada no peito. Repetiu a palavra num tom mais baixo assim que dito por ela, esperando que ela não ouvisse ou o questionasse por aquilo ❛❛— Bom, tudo bem❜❜ comentou mesmo sem estar plenamente convencido sobre o total bem-estar da mulher ❛❛—Ei, Tess❜❜ a chamou atenção mais uma vez e como sempre se perguntou se a devida pergunta deveria ser feita, a sobre o casamento, a sobre o sentimento real que um tinha pelo outro ou mesmo sobre os encontros que tinham com outras pessoas, mas, como acabava sempre fazendo, voltou atrás. ❛❛— Uma paciente minha faleceu ontem. A Penn. Te falei dela, já. Não?❜❜
“Agora sei por que você me olhava tanto, achou que eu não tinha percebido? Esses olhos captam tudo, Chris.” Já havia desconfiado pois ficara todo o passeio encantada com o outro, mesmo assim tinha certeza que seu pequeno acidente acontecera não por conta da mochila de Chris e sim por ela não conseguir desfocar dele um único segundo. “Você tem razão.” Sorriu, dar muita atenção para assuntos que não demandavam tanta importância era algo que Teresa considerava parar, e rápido. O olhar confuso da cubana acompanhou a mudança repentina na expressão do mais velho, o nó que se formou em sua garganta foi instantâneo, assim como a dúvida de ter feito algo errado como sempre. Recolheu as mãos lentamente do rosto dele, apertando-as contra o próprio corpo enquanto olhava para o outro lado. Limitou-se a um simples balançar de cabeça com a resposta dada. “Se fosse há um ano, talvez eu estivesse mais assustada de recomeçar tudo em um lugar novo, como foi quando cheguei de Cuba. Mas agora eu estou com você, então sim.” Hesitou por um instante, decidindo então revelar o real significado do questionamento. “Na verdade, eu não estava falando necessariamente da cidade e sim do motivo. Às vezes eu sinto que isso não foi a coisa certa a se fazer.” Colando a mão por dentro da gola do agasalho, puxou um cordão dourado e tocou a aliança que peculiarmente usava como pingente junto de uma meia lua. Por conta da sua função como socorrista não utilizava nenhum acessório nas mãos, usar o anel junto com o colar que ganhara da avó era uma maneira de ter Chris sempre perto de si. “Você poderia tá agora em um cargo importante no melhor hospital de Wisconsin realizando tudo o que planejou sua vida inteira, com uma esposa de verdade e até mesmo com filhos... Mas você tá aqui do outro lado do país vivendo uma mentira. Não quero parecer ingrata, por Díos, só não achei que tudo chegaria a esse ponto.”
De maneira alguma ela tinha se arrependido das escolhas tomadas, quando viu Christoper pela primeira vez teve certeza que havia encontrado sua alma gêmea. A incerteza sobre como ele realmente se sentia naquela situação lhe perturbava, no entanto, sempre que chegavam perto do assunto, davam voltas e voltas parando sempre no mesmo lugar. Sem pausa, como se quisesse se redimir por algo, as palavras saíram rápidas e com o característico sotaque cubano mais carregado do que nunca. “Não que eu não quisesse casar com você, te acho a pessoa mais incrível do mundo é claro que eu diria sim, e se você demorasse muito eu mesma faria o pedido... Quer dizer, se a gente tivesse se conhecido em outra ocasião, não outra ocasião de ‘ah, nosso primeiro encontro foi horrível’, digo que se tivéssemos nos apaixonado e feito todas essas coisas de um relacionamento normal, mas não... Não aconteceu. E tudo bem, né? Existe oito bilhões de pessoas no mundo e não é possível a gente não se apaixonar por nenhumazinha. Comigo já aconteceu uma vez, eu cuidava da sobrinha dele. Hoje ele trabalha na fazenda com meu pai, acho que você já o viu em uma foto de quando fui pra lá. Um de cabelo preto que tava usando uma camisa listradinha verde, lembra? Ele é mais velho, mas você também é. Não te chamando de velho ou confir- dizendo que eu gosto de você como eu gosto do David, só foi uma observação fora de hora." Teresa nunca fora boa em expressar seus sentimentos, guardar tudo em uma caixinha para si mesma era mais cômodo. Em momentos como aquele, onde o medo da rejeição era imensamente maior que o seu desejo de revelar como se sentia em relação à O’brien, acabava falando nada com nada, entrando em assuntos dispersos. Quando finalmente respirou, riu ao esconder o rosto entre as mãos, sentia toda sua face queimar. Muito bem Maria Teresa, continue assim que vai estragar tudo. “Quer saber, esquece. Ignora tudo que falei, acho que o frio já tá congelando meu cérebro.” Ao ter a atenção chamada, o sorriso se desfez rapidamente, dando lugar a um vazio em seu peito. Sabia do apego de Christopher com a paciente, estava sendo um momento difícil para ele e Teresa por mais que tentasse, não sabia agir em situações como aquela. Ficando de joelhos o abraçou, esperando que o ato trouxesse um pouco de conforto. “Díos mio, Chris. Eu sinto muito.” Sussurrou, levemente apertando os braços ao redor dele.