Está frio. As coisas ficam mais lentas.
As partículas estão devagar.
Chega-se a hora de refletir.
Sobre aquilo que a tempos me incomoda.
A introversão me faz notar pequenos detalhes.
Detalhes que passaram despercebidos.
Oportunidades que eu tive, mas que desperdicei.
Assisto a cenas que eu criei em minha mente.
A imagem tem cores opacas, cores neutras.
As câmeras apontam para mim.
Gravam um filme sem rótulos, sem tema, sem sinopse.
Me pego fazendo os velhos hábitos nocivos.
Devagar, sutilmente observo os outros.
Mesmo que o inverno traga neblina que limita a visão.
Por pouco ver, vejo apenas o que está por perto.
Está calor. Tudo parece tão rápido.
As partículas se desalinham-se e vibram.
Não posso mais ver a fumaça do escapamento dos carros.
A luz do sol é refletida pelos vidros das janelas.
Vejo o grande céu aberto em que prédios desafiam a gravidade.
As pessoas andam com pressa.
Elas entram e saem de suas casas.
Eu sou mais um entre elas.
No guarda-roupas, separo as roupas curtas.
A moda acompanha a velocidade das partículas.
Vou por outros caminhos, crio hábitos novos.
O cheiro da cidade entra pelas minhas narinas.
A luz do dia contrai minhas retinas.
Ando quase correndo, sem muito pensar.
Sem criar planos de longo prazo.
Sem olhar muito pro futuro nem para o passado.