Termino de fazer a tarefa que os professores que não tem nada mais interessante pra fazer mandaram. E escuto um barulho no primeiro andar. Levanto da minha cadeira, abro a porta do meu quarto e escuto meu pai resmungando. Desço as escadas e olho o lugar, tá parecendo um lixão, agora entendo porque minha mãe foi embora.
E lá está ele, na cozinha, jogado no chão e pra variar com uma garrafa de bebida. Chego mais perto dele e vejo que a sua mão está machucada.
-Eu tava tentando colocar a cerveja no copo- ele engole seco e volta a falar- daí a merda do copo caiu da minha mão eu fui juntar e me cortei.
-Você não sabe fazer nada mesmo né?- me agacho e começo a pegar os cacos de vidro.
Termino de limpar os cacos de vidro, pego uma sacola e coloco eles dentro.
-Ai merda!- me corto com um dos cacos que resta jogar na sacola.
Meu pai ri como um porco. Isso me irrita.
-Você é que nem seu velho aqui- ele ri.
Eu termino de lavar a louça que já estava ali há uma semana, enxugo minhas mãos na minha camisa. Bom hora de voltar para o tédio das tarefas. Dou um passo e ele segura meu pé.
-Cê odeia o seu pai- ele grita furioso.
-Odeia sim não é? É culpa sua, ela deixou a gente porque você é um inútil!- ele grita.
-Pai, a mamãe nos deixou porque ela nos traiu!- eu grito de volta.
E então como se ele tivesse lembrado disso, ele tira a mão do meu rosto, pega a garrafa de cerveja que estava na mesa e dá um gole.
-Acho melhor você parar agora- digo puxando o álcool da mão dele. Ele nega e puxa de volta.
-Olha cê num pode me dizer o qui faze ou não. Cê num pode mandar em mim que nem a tua mãe- Ele fala totalmente bêbado e sai andando tropeçando nos móveis, ele para na sala de estar e vomita no carpete que já estava sujo. Pelo menos ele tá verde agora. Melhor do que aquele branco sem graça.
Ele então coloca a garrafa na mesinha da sala. Coloca a mão no bolso procurando algo, ele finalmente acha o que tava no bolso é uma chavinha pequena, ele pega ela e se agacha, tira uma madeira do piso falso, lá dentro tem uma caixa com uma fechadura, ele coloca a chave e destranca, ele pega o que tava na caixa. Uma arma.
-Ta veno essa belezinha aqui? É uma arma, filho. Um dia eu ameacei um cara com ela!- ele ri.
-Cê precisava vê a cara do sujeito, ficou branco- ele diz admirando a arma.
-Pai, eu tava lá, ele era nosso vizinho.
-Foi é? Num mi lembro. Que seja, vem cá.
-O que você quer agora?- resmungo e vou até ele.
Ele pega a arma, coloca na minha mão e meu dedo acaba ficando perto do gatilho.
-Pai o que você tá fazendo!?- largo a arma que é bem mais pesada do que eu imaginei e ela cai no chão, fazendo um barulhão, por sorte não foi um tiro.
-Cê reclama do seu papai mas nem uma arma tem coragem de segurar não é?- ele dá uma risada de porco e logo fica sério.
-Você pensa que sou um inútil mas quer saber de uma coisa? Eu cansei!- ele grita pega a arma e aponta para mim.
-Eu não tenho mais nada a perder! Eu já perdi tudo o que me fazia feliz.
-Pai não faz isso!- eu falo tentando conter o medo.
Eu me abaixo e ele atira mas ele erra e acerta a parede. Eu corro o mais rápido até a cozinha, vejo tudo um vulto, não vejo nada direito. Consigo chegar até a cozinha mas tropeço, que nem um personagem de um filme de terror idiota. Consigo me levantar e corro até a gaveta onde fica os talheres e pego uma faca. Eu escuto passos, ele está vindo aqui. Me sento atrás da bancada e espero ele chegar, não planejo acerta-lo, só quero assustar ele. Escuto ele se aproximando e resmungando, ele chega na cozinha e para.
-Cade cê? É o único jeito filho.
Ele chega perto da bancada, olha para um lado, me procurando, ele olha para outro e anda dá alguns passos pra conseguir olhar a sala. Ele dá mais alguns passos para enxergar a sala e saio correndo, consigo sair por trás dele sem que ele me veja. Largo a faca no chão e corro até o segundo andar.
Consigo correr até meu quarto. Fecho a porta e fico encostado nela, tentando recuperar o fôlego, fecho meus olhos. O que parece segundos se tornam séculos, pelo menos é o que parece, inspira, expira, inspira expira, inspir- Droga!- escuto ele resmungando do andar de baixo e me assusto que nem um cão medroso. Abro meus olhos e volto para mim. Pego meu celular e dígito o número da polícia.
-Olá é da polícia, qual sua emergência?
-Meu pai tem uma arma, meu pai tem uma arma, meu pai tem uma arma- eu acabo paralisando de medo. Nunca pensei que fosse contar isso para alguém, mas com certezas essa não é a pior parte. Já que todos os pais tem uma arma, mas nem todos tentam matar o próprio filho, que sorte a minha não?
-É melhor você correr!- a moça do outro lado da linha fala.
-Meu pai tem uma arma- repito de novo.
-É melhor você correr! Ou se esconda em algum lugar, tranque a porta e permaneça calmo, me diga a sua localização que enviarei viaturas o mais rápido.
Respiro fundo e consigo passar a localização.
-Certo. Estou enviando viaturas para aí agora mesmo, permaneça calmo e continue na chamada, não desligue o telefone.
Tudo fica muito quieto, quieto até demais. Sem um barulho sequer, seria uma ótima noite para dormir se não fosse meu pai tentando me matar. Escuto os degraus da escada rangerem, é ele! Ele está vindo atrás de mim!
Ouço ele pisar forte no chão, meu quarto é o último do corredor do segundo andar, tenho que pensar em algo e rápido! Ele chuta a porta do quarto dele, ele demora um tempo, provavelmente me procurando, ele chuta a porta do banheiro e novamente aquele silêncio, escuto batidas do meu coração até no ouvido, minha cabeça lateja, minha boca está seca e minha garganta dói, minha respiração está rápida, não consigo recuperar o fôlego e quando tento recuperar o ar, ele arromba a penúltima porta, que é uma salinha qualquer.
Droga! Preciso pensar em algo, olho ao redor do meu quarto, cama, armários, posters de bandas de rock, para a parede, para a janela... É isso, a janela! A janela do meu quarto é ligada ao telhado do primeiro andar, se eu abrir ela e descer pelo telhado consigo chegar ao chão e fugir.
Largo o celular, desculpa moça mas tenho que sobreviver. Corro até a janela e puxo com força, e puxo de novo, merda deve tá emperrada, faz séculos que não abro essa janela. Puxo de novo com muita força, sinto dor, sinto que meus braços vão cair, que vou perde-los, suor cai nos meus olhos fazendo eles arderem, sinto que vou desistir. É acabou, já era.
Escuto um barulho e sinto os meus braços mais leves, abro os olhos que estão queimando, eu abri a janela! Me jogo para fora da mesma e tento me equilibrar no telhado, escuto passos, ele está vindo para cá! Dou alguns passos, o telhado está escorregadio, começou a chuviscar. Escuto um barulho alto, ele conseguiu, ele arrombou a porta do meu quarto.
-Eu te achei!- ele grita e corre até a janela.
Eu corro escorregando, meus pés deslizam, começam a cair gotas grossas de água em na minha cabeça e arde, em que horas eu me machuquei? Meus tênis enxarcam, ele consegue chegar ao telhado onde eu estou. Não sei o que fazer, ele vai me acertar? Eu vou morrer? E com o reflexo, eu escorrego e caio do telhado. Sinto que flutuo por alguns segundos, sinto meu corpo bater contra o chão. Sinto dor, sinto sangue escorrer pelas minhas mechas de cabelo até a minha testa e principalmente sinto medo. Eu abro meus olhos e vejo o céu, tão lindo, quando eu parei de olhar para ele? Sinto uma gota grossa cair nos meus olhos. não.não! não posso morrer assim. Me levanto rápido, minha pressão cai, minha visão fica turva, minha perna está machucada, vou mancando até a frente da casa. Escuto sirenes de ambulância e de viaturas da polícia. São eles, eu consegui, eu consegui!
-Você pode ter conseguido mas você nunca vai conseguir viver sem mim. Estou apenas facilitando as coisas, filho.
Eu me viro rapidamente e então... Escuto um som ensurdecedor, sinto uma pontada no meu ombro, mas não é nada demais, eu bato no chão, sofro uma pancada que me faz ficar com dor de cabeça horrível. Resolvo tocar meu ombro, para tirar o mosquito que está engolindo meu sangue. Eu toco e sinto uma queimação, olho para os meus dedos e eles estão cheios de sangue. Droga, ele me atingiu, não era um mosquito. Sinto meu braço enfraquecer, tento me levantar, tento me apoiar, mas meu braço está machucado e caio de novo no chão.
Nunca acreditei que você vê a vida passar enquanto luta para conseguir respirar. Mas que ironia não é? Eu vejo uma lembrança, mas não é como as outras pessoas, não são lembranças boas, são ruins. Me lembro do dia em que minha mãe nos deixou.
Nós fomos a uma fazenda, minha mãe disse que conhecia o cara que comprou e que ele convidou a gente para ir lá, eu quis muito ir, que nem um idiota. Chegamos e o cara nos convidou para sua casa, meu pai e eu estávamos na sala da casa desse cara, meu pai disse que queria ir no celeiro ver como funcionava, na época ele queria comprar uma fazenda também. Eu disse para ele não ir, para esperar a mamãe e o cara, que eles foram ver coisas mas ele foi. Ele me disse que quando abriu a porta do celeiro, minha mãe e esse tal cara estavam no palheiro se beijando. Eles brigaram e meu pai bateu no cara. Fomos expulsos, a gente tava de carro e enquanto estávamos na estrada todos estavam calados. No mesmo dia minha mãe deixou meu pai e eu. Foi assim que tudo começou a piorar pro meu pai, ele começou a fumar cigarros, e beber muito. Essa lembrança ainda dói.
Eu escuto alguém resmungar alguma coisa e volto para a realidade, minha mãe não está mais aqui, nem o cara, nem a fazenda, agora eu estou no chão com o ombro sangrando porque levei um tiro.
Escuto pessoas, escuto alguém gritando, escuto o carro da polícia, escuto uma ambulância, eu abro meus olhos, levanto um pouco a minha cabeça e... Vejo meu pai e políciais, estão algemando ele! Ele vai ser preso. Eu consegui?
-Vamos tragam uma maca, urgente!- alguém grita e se aproxima de mim.
-Vamos te levar para o hospital, você vai ficar bem!- ela diz.
Eu escuto pessoas se aproximando de mim, sinto mãos no meu corpo e elas me levantam e me colocam na maca. Eu sobrevivi! Colocam algo no meu rosto para eu conseguir respirar melhor. Escuto um barulho alto de novo.Eu abro meus olhos, viro um pouco a minha cabeça e vejo meu pai. Ele está caído no chão, sangrando.
Não sei o que vai acontecer agora. Mas eu consegui. Agora eu posso dizer que já levei um tiro. Eu rio mas meu ombro dói.
Inspiração: Mothers Mothers- Hayloft
Música 🔽 ( eu recomendo, é muito boa )