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não sou trapaceiro, mas quero te passar a perna, a mão, o rodo
você é tão gato que eu vou te dar uma bolinha de lã de natal pra você brincar
você não é o apocalipse mas é cheio de mistério!
teu relógio tá atrasado. No meu a gente já tá se pegando faz uns minutos
@EveXCharlie
Evangeline hesitou enquanto olhava o rosto do homem. Aqueles tempo todo sem uma resposta, só poderia significar um coisa: O belo fora que ela iria levar. E por mais estranho que seja, ela não sabia o que era isso desde a adolescência. A mulher poderia ter quem quisesse, independendo de gênero. Ah não ser, claro, que essa pessoa não gostasse do mesmo que ela.
Riu ao ouvir a frase que o homem soltou, já sabendo o que estava acontecendo. A linguagem corporal dele, talvez, por isso tivesse demorado tanto tempo para responder. Não sabia como dizê-la que o que ela queria fazer com ele, provavelmente ele faria em outro naquela noite. Virou-se para o bar, sem dizer uma palavra e pediu dois uísques, deixando um dos copos no balcão para Charlie, esperando que ele entendesse que se ele era gay, pouco importava para ela, naquela noite, ele ganhou uma nova amizade.
“Vamos Charlie, já que terminarei a noite sozinha, espero arranjar um rapazinho para você” Falou, sussurrando a frase perto do homem “Do jeito que eu tenho tato para homens, logo te arranjaremos alguém para o fim da noite. Você quase me enganou direitinho” Soltou, rindo baixo e puxando-o pelo braço, adentrando a festa.
Aquela não era a primeira vez que Charlie se via naquela situação, mas era definitivamente a mais constrangedora das vezes. Quando viu Evangeline rir, no entanto, sua tensão aliviou um pouco, sendo substituída por um pouco de curiosidade: o que ela estava achando engraçado, afinal? A situação provavelmente seria cômica para quem estava assistindo – mas para aqueles que a estavam vivendo? Difícil dizer o mesmo, ao menos do ponto de vista de Charlie. Pegou o copo de whisky que ela havia pedido, mas não bebeu, ainda incerto do que estava acontecendo. Só foi realmente começar a compreender o que se passava na cabeça da mulher quando ouviu o que ela tinha a dizer. Ficou um pouco incrédulo, uma vez que ela parecia realmente não se importar com toda aquela cena. Após ponderar a tranquilidade que ela transparecia, era difícil não rir também do que ela dizia. “Ah, não...” Sorriu, agora não mais por mera educação e sim por sentir verdadeira simpatia pela jovem. Sentia que podia voltar a relaxar na presença dela e esquecer o constrangimento que viveram até ali. “Eu não queria enganar ninguém. Na verdade...” Bebeu um gole do whisky que Evangeline pedira, antes de concluir seu raciocínio. “Eu... Acho que já estou de saída.” Disse em um tom de voz tão baixo que ela provavelmente sequer escutara. Antes que pudesse ser realmente convincente, foi puxado pelo braço. Tudo o que Charlie menos queria era se ver embrenhado novamente naquela festa, mas se sentia extremamente desconfortável de dizer qualquer outra coisa negativa para Evangeline. Queria dizer que não precisava de ajuda para encontrar nenhum rapaz, que já havia encontrado quem queria e que provavelmente já era a hora de voltar para casa... Todavia, apenas seguiu a mulher pela festa. Talvez ele pudesse retribuir o bom humor dela de alguma forma – ao menos com sua amizade.
A coffee with a stranger // @James x @Charlie
Não era como se James fosse uma pessoa antissocial, assim, o motivo pelo qual estava apreensivo era simples: O homem a sua frente parecia antissocial e ele precisaria controlar sua língua para não ficar puxando assunto. Dessa forma, o jornalista tentou se restringir a analisar o homem antes e falar qualquer coisa. Elegante, educado, sotaque bem colocado. Por um momento, um perfil sobre o estranho a sua frente foi traçado na mente de James. Deveria ter crescido em uma das mansões da Oxford Street, com pais ocupados demais ou algum tipo de perca familiar. - Obrigado. - Abriu um sorriso e sentou rapidamente, como se o outro pudesse, de alguma forma mudar de ideia. - Desculpe mesmo incomodar, esse lugar não costuma estar tão cheio, eu me pergunto o que está havendo aqui. - Fez uma pequena careta e então riu. - Aliás, James Hound. - O jornalista estendeu a mão, para cumprimentar o outro.
Diferente da maioria dos britânicos, inclusive do outro homem, o Hound não era um obcecado por controle e educação, ele era ligeiramente despreocupado e talvez essa fosse a causa de sua continua maré de azar. James se virou, procurando alguma garçonete no lugar e então fez sinal para a mesma vir até mesa. Uma garota com não mais que vinte anos se aproximou da mesa com um sorriso largo, ela tinha longos cabelos ruivos e um rosto lindo. Aquela era Savannah Hamish.
Savannah havia saído de uma pequena cidade no Sul da Inglaterra e se mudado para Londres a cerca de um ano, trabalhava naquele café para bancar a faculdade de literatura com a qual tanto sonhara e James sabia disso porque uma vez ele derrubara café nela sem querer, e, como pedido de desculpas, a esperara terminar o expediente e a acompanhara em casa. No começo, a garota ficara um pouco assustada com a companhia e as perguntas, entretanto, fora a partir desse dia que os dois acabaram se tornando…”Amigos”? É, acho que amigos é uma boa palavra.
-Então, Jim? O que vai ser hoje? - A garota perguntou sorrindo gentilmente. - O de sempre, por favor. - A garota riu e assentiu com a cabeça. - Coloque um pouco de sorte nele, por favor. - James brincou. - Dia complicado? - O rapaz fez uma careta e concordou com a cabeça, a moça riu e deu um toque leve em seu ombro. - Volto já. - Murmurou antes de ir embora.
Agora que Sav havia ido embora, a situação estava ligeiramente tensa, afinal…James não sabia se comportar quando não sabia se podia falar muito ou não. O Hound coçou a nuca e sorriu. - Então…Você não costuma vir aqui, certo? Desculpe, é que eu venho aqui todos os dias e não lembro de bom…Eu quero dizer, certo, esqueça, vou só…calar a minha boca. - Parabéns, James, agora você realmente conseguiu parecer um tonto.
Ser minimamente simpático com o desconhecido com quem dividia a mesa não seria nada doloroso – afinal, apesar de um pouco mal humorado, Charlie era não só excessivamente educado, como também uma pessoa tranquila de se conversar quando a situação não era desconfortável de alguma forma para ele. Ainda assim, soar um pouco ameaçador acabava sendo um pouco cômico, porque parecia acentuar o quão desconcertado James já estava. “Charles Ramsey. Muito prazer, sr. Hound.” Se o intuito era conseguir tornar aquele momento na presença do outro homem minimamente agradável, o médico começou a prestar atenção nos pequenos detalhes que acabavam escapando enquanto ele conversava com a garçonete que chamara minutos antes. Os dois pareciam já se conhecer – Charlie logo se pegou imaginando situações cômicas em que James tentava dar em cima da moça com tanta destreza quanto demonstrava naquele momento. Não que ele mesmo tivesse muito mais destreza. Na verdade, seu riso era menos por deboche da situação e mais por se identificar minimamente com a falta de jeito do rapaz. De qualquer forma, divertiu-se com a ideia de tal forma que um sorriso acabou brotando em seus lábios, o que com certeza amenizava seu semblante. Também notou quando a garçonete mencionou um dia difícil, algo que Charlie já desconfiava desde o momento que o outro aparecera. Já tinha alguns tópicos de conversa possíveis para explorar nos minutos seguintes ao lado de Hound.
“Não, não... Por favor, não cale a boca.” O sorriso acabou se alargando. Era preciso confessar, aquele jeito desconcertado beirava o... Bonitinho. “Você está certo, eu nunca estive aqui. Mas é um lugar agradável.” Esperava que a cortesia enquanto falava logo fizesse James se sentir um pouco mais confortável para conversar normalmente. No entanto, resolveu arriscar um dos assuntos que tinha em mente, só para garantir que o momento não voltasse a ser um pouco constrangedor. Antes, bebeu um gole do café à sua frente. A bebida já estava esfriando, então o médico imaginava que aquela conversa não ia se estender por muito mais tempo. “Então... Dia difícil?”
Things have gotten closer to the sun | Charlie & Noah
Conforme a situação se encaminhava para um desfecho deveras agradável, Noah concluía debilmente que aquele incidente viera no momento certo para salvar uma noite aparentemente condenada ao fracasso; Tão entretido diante das atitudes alheias, a música alta não mais lhe causava dores de cabeça, a aglomeração de pessoas num mesmo ambiente não mais deixava o ar abafado e o biomédico acreditava que havia feito a mais correta das escolhas ao comparecer àquela festa. Os sorrisos ilegítimos e as conversas superficiais que haviam integrado grande parte de sua noite já não se faziam importantes – e tampouco ocupavam a mente daquele que não conseguia nada além de manter-se fielmente atento a cada atitude tomada pelo outro homem. E mesmo geralmente se considerando como alguém que pouco se adequava aos clichês, não podia evitar sentir como se nada mais ao redor existisse; Sua concentração se postava totalmente sobre Charles para que pudesse se distrair com pormenores que em nada lhe ajudariam naquele momento. O olhar esquadrinhava as feições do mais velho de uma forma quase que meticulosa, quase como se quisesse gravar o que via caso aquele momento viesse a se desmantelar sem qualquer motivo aparente, por mais que soubesse que poucas eram as chances de tal fatalidade se concretizar – e isso não por ser possuidor de grande confiança nas próprias atitudes, mas sim por ser capaz de observar que o outro homem parecia tão entretido no desenrolar da situação quanto si mesmo.
O sorriso – este agora apenas lhe tomando os cantos dos lábios – viera de forma natural conforme notou a aproximação alheia, de modo que reagia a essa com a completa ausência de movimentos para afastar-se; Queria sentir a proximidade de Charles ao máximo que ambos os corpos poderiam agüentar, de modo que pouco pudera fazer para evitar que tivesse sua própria parcela de culpa na hora de deixar-se pender levemente na direção do outro. Acostumado, também, a só tomar iniciativa ao real flerte quando as condições lhe eram desfavoráveis, Noah não podia evitar em sentir-se plenamente satisfeito com o andamento acelerado de toda aquela interação – tal pensamento sendo completamente dispersado quando a voz alheia carregada num tom absolutamente agradável lhe adentrou os ouvidos, antecedendo o ato que fez com que o coração do biomédico praticamente lhe falhasse uma batida antes de retomar seus trabalhos em um ritmo diferente do normal. As ações lhe fugiram por uma fração de segundo, no momento em que os lábios se juntaram com os alheios, antes que o biomédico pudesse portar-se de acordo com a situação; Em questão de segundos levou uma das mãos para a nuca do outro homem, enquanto o outro braço se ocupava em enlaçar o pescoço do mesmo. Não demorou, também, em transformar o beijo em algo mais intenso – mesmo que tão fora de seu feitio se deixar protagonizar tal ato com um homem que mal conhecida, Noah nem ao menos conseguia se importar com a atenção que poderia vir a receber dos demais.
Seu corpo já estava completamente entregue aos instintos a partir do momento em que decidira ceder àquele impulso – e, no entanto, seria falso da sua parte negar que sentira como se seu coração tivesse literalmente parado nos segundos que se seguiram entre seu ato de insensatez e finalmente sentir o toque do outro homem em resposta. Em compensação, se seu coração pareceu cessar de bater naquele momento anterior, agora batia tão descompensado quanto o resto do seu corpo parecia estar: a adrenalina outrora sentida por se lançar tão afoito ao desconhecido parecia triplicada agora que o seu pescoço era envolto por ele; e mesmo com os dois corpos já colados, ainda assim parecia inevitável para o médico a cobiça por mais – cobiça esta que se refletia na maneira abrupta com que suas mãos tateavam cegamente as costas de Noah, até chegar em sua lombar, ou em como continuava incessantemente puxando o corpo dele contra o seu, como se fosse possível que os dois ficassem ainda mais próximos do que já estavam. Sentia como se aquelas últimas horas de frustração agora tivessem sido canalizadas na urgência com que se entregava àquele beijo e, sem se dar conta, Charlie logo se viu pressionando o corpo de Noah contra o balcão onde há poucos minutos o incidente que os apresentou aconteceu. Era uma grande sorte que sua afobação não criasse outro acidente, mas ele estava concentrado demais no que fazia para até mesmo se importar.
Ao mesmo tempo em que este era um daqueles momentos que você deseja genuinamente que nunca acabe, era igualmente difícil continuar mais um segundo que fosse e resistir à tentação de começar a explorar outras partes do corpo do mais novo. Se não estivessem na presença de tantos conhecidos, – e Charlie sequer sabia quantos conhecidos Noah tinha por perto – o médico provavelmente puxaria o homem pela gravata e e tentaria levá-lo consigo para outro lugar um pouco mais reservado, mesmo que ainda fosse nas dependências da festa. Ainda que fosse quase impossível uma atitude minimamente racional, decidiu bruscamente encerrar o beijo, nem que fosse para buscar por ar antes de se entregar novamente àquilo. Seja pelo absurdo da situação que protagonizavam expostos aos olhos de curiosos, seja pelo quão satisfeito o médico se sentia por ter conquistado aquele momento tanto prazeroso quanto improvável, este havia sido um daqueles beijos em que a pessoa termina sorrindo contra os lábios do outro. Afastar-se um milímetro que fosse era árduo, mas decidiu fazer isso para conseguir olhar melhor para o rosto do outro enquanto recuperava o próprio fôlego. Parecia inviável resistir ao que via. Uma vez entregue a toda sorte de banalidades, não pôde resistir a aproximar-se novamente, mas agora a fim de sussurrar contra o ouvido dele. “Definitivamente...” O sorriso tolo não deixava seus lábios nem por um segundo, o que provavelmente refletia em seu tom de voz um pouco falho pelo fôlego roubado. “A melhor das desculpas”. Suas mãos continuavam espalmadas na lombar de Noah, não dando nenhuma chance para que ele se afastasse se quisesse. Ao invés de voltar a fitá-lo, Charlie enfim decidiu trilhar um caminho pelo pescoço dele com seus lábios, deixando um rastro de beijos rápidos e pequenas mordidas inofensivas. Sentia como se pudesse fazer aquilo por horas a fio e ainda assim não se cansaria do outro homem.
@EveXCharlie
Eve sorriu, ao ouvir a pergunta do homem. Não sabia exatamente o que estava acontecendo, normalmente ela nem precisaria flertar… Era só aparecer e ploft, that’s a joke. Adrian dizia que ela seria uma ótima agente, se não fosse tão geniosa. Ergueu os olhos, dobrando os braços e mordendo o lábio inferior rapidamente antes de falar “Por aqui não conheço nenhum, no centro de Londres, conheços alguns. Mas sou capaz de fazer um ótimo café no meu apartamento…” Contou, pensando dentro de sua cabeça que aquilo era realmente uma ótima idéia. Evangeline estava realmente querendo saber qual era a força de atrito da cintura de Charlie. Talvez não para aquela noite, mas se acontecesse, seria lindo de se ver.
Se fosse para descrever aquela situação com apenas uma palavra, a certa seria, no mínimo, “constrangedora”. Não que Charlie não tivesse notado as intenções da jovem desde o primeiro comentário sugestivo, porém caíra na tentação de manter-se um pouco neutro tanto tempo quanto possível, a fim de evitar alguma espécie de confronto ou exposição desnecessária. Por mais que suas intenções fossem as melhores, no entanto, o homem logo se viu perante um tipo de situação que genuinamente detestava: qual é a maneira mais polida e, senão agradável, ao menos o menos desagradável possível de dizer que simplesmente não está interessado? Definitivamente, dizer assim tão diretamente era uma das piores opções, principalmente porque conhecia Evangeline há tão pouco tempo que não sabia como ela reagiria às suas palavras. Era estarrecedor pensar em como ser simplesmente sincero poderia ser completamente desastroso. Para agravar o constrangimento que o médico já sentia de antemão, demorar a efetivamente responder o que a moça dissera parecia tornar a situação ainda pior. Charlie não podia ver a si mesmo, mas tinha certeza que estava impresso em seu semblante toda a confusão mental a que Evangeline não tinha acesso. Seu cérebro repassava todas as opções de fala que o homem podia protagonizar – “agradeço pelo convite”, “talvez seja melhor deixarmos para outro dia”, “foi um prazer conhecê-la, mas preciso ir agora” (essa ainda era a melhor opção até então) ou simplesmente “eu sou gay” (não, absolutamente fora de cogitação) – e nada parecia ser o certo a dizer. Até porque, antecipando também as respostas possíveis, o médico logo percebeu que continuar neutro apenas adiaria ainda mais o desfecho daquela desventura. Sem mais delongas, enfim o seu veredito: “Acho que... Temos um mal-entendido.” Chega a ser risível que ele tivesse escolhido essa como a melhor coisa a dizer. Seu tom transparecia apenas insegurança, mas o médico realmente esperava, de coração, que ela entendesse o recado. Afinal, ela trabalhava com espionagem, mesmo que fosse alguma área forense – ela tinha a obrigação de entender as entrelinhas. Ou não. Claro que não. Se ele repetisse aquilo para si mesmo algumas vezes, talvez acreditasse. O pior é que ela entendendo ou não, Charlie sabia que aquele episódio o assolaria – e, infelizmente, não só no que dizia respeito à sua vida pessoal, como é possível que também no que diz respeito à sua vida profissional. A menos que ela reagisse positivamente e deixasse isso pra lá, mas é claro que era muito cretino da parte dele esperar por isso.
A coffee with a stranger // @James x @Charlie
Ah…As noites silenciosas de Londres. Curiosamente, nem o pacato James Hound dormira bem na noite anterior. Ele levantara cedo, depois de uma noite conturbada. Havia ido testar uma nova boate no centro da cidade e não que ele gostasse, na verdade, boates lhe pareciam pedaços musicais do inferno, onde as pessoas ficavam suadas e se esfregando uma na outra de um modo que praticamente poderiam gerar filhos, não fosse a proteção das roupas que usavam. Mas, o lugar da noite anterior lhe parecera, razoavelmente agradável. Não tinha aquelas musicas estranhas e pessoas com cara de drogadas como nas boates em que Martin, seu colega de apartamento, praticamente o obrigava a ir. Bem, talvez ele estive indo apenas aos locais errados. No entanto, aquele não era o ponto, James não tinha dormido, na realidade, por que precisava entregar uma reportagem cedo, ou sua chefe acabaria pegando em seu pé, como fazia geralmente. Não que ele fosse um mal funcionário, era só…Bem, em um dos encontros que o atrapalhado Hound tivera, ele derrubara café na camisa cara da mulher e desde então, ela tem uma pequena antipatia pelo mesmo.
James batera as pálpebras algumas vezes antes de se situar, ele virou para o relógio e novamente tomou um pequeno susto. Não entendia o porque mas, parecia que aquele maldito despertador sempre o acordava pelo menos quinze minutos mais tarde do que deveria. Veja bem, não era que o homem vivesse atrasado, ele apenas tinha de fazer as coisas com pressa demais e isso acabava o atrapalhando, porque de certo modo ele em si era atrapalhado. Ergueu o corpo, xingando um palavrão qualquer ao bater novamente a cabeça na pequena prancha que ficava em cima da sua cama, ele tinha de mudar aquilo de lugar, mas, não era exatamente bom com moveis e decoração de casa. Hound ignorou a pancada e acabou de levantar, andou até o banheiro e tomou um banho rápido, escovando os dentes enquanto fazia isso, porque ele não tinha exatamente tanto tempo, tinha de entregar a reportagem em menos de meia hora. Você pode pensar que meia hora é muito tempo, mas, não quando se tem uma cidade grande como Londres para atravessar, afinal, o London Now não era exatamente na esquina.
Calça jeans, camisa de botão, gravata slim e seu cardigan cinza, ele procurava as chaves do carro enquanto amarrava os sapatos, graças ao fato de se acordar quinze minutos atrasado, James desenvolvera a fantástica habilidade de fazer diversas coisas ao mesmo tempo. Ele passara o perfume, porque dias atrás, uma amiga tinha elogiado seu cheiro, então porque não manter o mesmo? Vai que desse sorte e achasse alguma corajosa a ponto de sair com ele. Pegou sua mochila, trancando o apartamento ao sair e bagunçando o cabelo, esperando que parecesse que ele havia penteado, porque entenda, ele não estava com tempo para procurar a pente pilha de papeis que deixara em sua escrivaninha no dia anterior. Desceu as escadas praticamente correndo, o maldito elevador continuava quebrado e isso era um verdadeiro inferno, porque se parecia bastante com um tipo de exercício físico, coisa que o Hound a vida toda odiara fazer. Depois que chegara ao seu carro, fora um longo caminho até o London Now, mas, vamos a um pequeno resumo:
Trânsito, corrida, esbarrão, elevador, bronca, pastas, suspiro aliviado, um novo lugar, revirar de olhos. Depois dessa passagem longa de fatos ou nem tanto assim, James estava parado em seu carro, estapeando o volante enquanto balançava a cabeça. Quimery James, também conhecida como sua chefe, reclamara dos dois minutos de atraso dele. Maravilha. Agora aquela mulher diabólica queria que ele escrevesse reportagens em dois dias. Mas, antes disso…James precisava urgentemente de um café. Estava cansado, estava com sono, estava de ressaca.
Havia uma cafeteria muito boa perto do jornal, onde ele costumava ir sempre que acabava o trabalho. O lugar lhe pareceu ideal naquele momento, entretanto, foi só chegar no mesmo e o jornalista viu que estava engano. O café estava completamente lotado, o que deixou o rapaz irritado. Por sorte, viu uma mesa com alguém que quase parecia agradavel e resolveu tentar a sorte. - Hm… Bom dia…Será que eu poderia…sentar aqui? - Ele prensou os lábios, inconformado com o fato de ter de estar fazendo aquela pergunta a um estranho. - É que o lugar está um tanto lotado. - Disse, para que o homem sentado entendesse que não é que ele quisesse ficar ali o incomodando, era apenas o único lugar disponível.
Se Charlie tinha apresso por algo na sua vida era por sua profissão – e isso obviamente refletia em sua rotina. Plantões, consultas, até mesmo palestras sobre sua área de trabalho eram coisas que o homem fazia com tanto prazer que era raro se deixar abater pelo cansaço. Por isso, nada irritava mais o médico do que ter alguém criticando essa rotina, ainda mais alguém com quem ele não tinha nenhuma intimidade, chegando ao ponto de sequer se lembrar qual era o nome da pessoa em questão. Tudo o que Charlie fez foi escutar atentamente às palavras do colega que estava fazendo plantão com ele e havia se dado ao trabalho de tentar supostamente aconselhá-lo com frases vazias como “você precisa pegar leve” ou qualquer coisa do tipo. Melhor dizendo, talvez Charlie nem estivesse prestando tanta atenção assim, uma vez que já estava entregue a devaneios sobre como seria o meio mais rápido de assassinar o colega sem chamar a atenção do resto do hospital. Com medo de que esse instinto assassino transparecesse em seu semblante de alguma forma, tentou suavizar sua expressão com um sorriso tão largo que provavelmente convenceu o colega de que toda aquela perda de tempo realmente tinha sido agradável. Sem de fato ter escutado metade do discurso desagradável do outro homem ou mesmo ter se lembrado qual era o nome do mesmo, Charlie conseguiu se livrar dele e se viu novamente sozinho.
Quando esse tipo de coisa acontece, parece que a situação é envolta de tamanha energia negativa que a pessoa pode desistir do seu dia – nada dará certo. E foi exatamente isso que aconteceu com Charlie, enquanto fazia atividades muito complexas e exaustivas como atender ao telefone. Aquela parecia ser a primeira vez em que o seu trabalho começou a deixá-lo realmente cansado, quase como uma praga rogada pelo colega. Tão logo atendeu a ligação de um paciente, viu-se preso em uma série de ameaças de auto-mutilação e tão poucas informações pessoais da pessoa na linha que estava simplesmente de mãos atadas, precisando ouvir os delírios e tentar inutilmente dissuadi-la. Charlie se via tão raramente naquele tipo de situação que a sensação de frustração era o suficiente para fazê-lo desistir de tudo. Não que ele realmente pudesse deixar o hospital naquele momento, mas já era derrota o suficiente para fazê-lo agir apenas mecanicamente pelo resto do dia.
Que horas eram quando o pobre Ramsay finalmente se viu livre? Ele não se lembrava. Sua última lembrança era chegar em seu apartamento tão cansado que sequer tinha em mente que o dia seguinte era dia de folga. Os dias de folga eram geralmente recebidos com entusiasmo – não que ele ficasse empolgado só com o fato de não precisar trabalhar. Eram dias planejados e normalmente produtivos. No entanto, a frustração era tanta que Charlie sequer sabia quais eram seus planos para o dia seguinte. Se é que ele tinha realmente planejado. A primeira pontada de dor de cabeça fez ele se sentir como se fosse um de seus pacientes da neurologia.
Acordou no dia seguinte com tão pouco ânimo que decidiu se presentear com um breve passeio. Não se lembrava da última vez que havia simplesmente caminhado pelas ruas de Londres. Devia fazer tanto tempo que talvez ele fosse capaz de se perder em algumas vizinhanças, mesmo tendo morado na cidade a vida toda. Estava próximo ao London Now – há quanto tempo ele já estava caminhando? – quando decidiu parar para tomar um café. Afinal, nada como um café para combinar com aquele clima londrino. Escolheu um café onde nunca havia entrado e se surpreendeu com o quão cheio o lugar estava – seria tão bom assim? Sorte a de Charlie ainda ter uma mesa vazia, assim não teria que tomar seu café sob o olhar de algum estranho.
Talvez fosse seu inferno astral. Pouco tempo depois de Charlie se sentar e começar a apreciar seu café, justamente um estranho veio pedir para se sentar à mesma mesa. “Claro. Por favor, fique à vontade.” É claro que sua cordialidade britânica falaria mais alto, com um tom tão natural que o estranho sequer desconfiaria do incômodo que Charlie sentia. Suspirou e deu uma boa olhada no homem – analisar pessoas era provavelmente seu maior talento e algo que não conseguia evitar, mesmo quando não estava trabalhando. Um detalhe ou outro na figura do estranho indicavam que ele estava em uma situação parecida, principalmente alguns trejeitos que indicavam que o homem estava à beira de um transtorno de ansiedade. Acabou sorrindo.
Things have gotten closer to the sun | Charlie & Noah
Diante da ausência de qualquer trejeito irritadiço vindo do homem a sua frente, por alguns instantes o biomédico até mesmo deu-se o luxo de esquecer o que havia dado inicio àquela ainda incerta interação; Conseguia até mesmo isolar a parte de si que ainda carregava o breve constrangimento, de modo a reassumir a postura segura que gostava de sustentar diante de outros. Sorriu em plena satisfação ao conseguir manter a voz naturalmente firme – ainda que carregada no típico tom suave – ao apresentar-se, dando por eliminado qualquer traço de embaraço pelo incidente de apenas minutos antes. O entusiasmo passava a tomar o espaço que antes era totalmente ocupado pelo receio, conforme imaginava que aquela situação talvez pudesse vir a findar todo o dissabor daquela festa enfadonha – e de tal modo atentou-se diante da apresentação daquele que agora abandonava o patamar de desconhecido. O nome não lhe soava estranho, mas ao mesmo tempo não o chamava para qualquer memória em especial que pudesse vir a ajudá-lo a identificar melhor quem era o outro homem; Certo de que não lidava com alguém da mesma agencia, só poderia ser alguém que posteriormente – e de modo deveras infantil, como aquela rixa já antiga por si só – tacharia como um inimigo ou então um cidadão normal que nada tinha em relação com toda aquela rivalidade. Por um ínfimo segundo, Noah se pegou tentando obter mais informações apenas pelo que via a sua frente; Talvez pela situação ímpar que o levara a conhecer Charles, o biomédico via-se estranhamente interessado em saber mais do que conseguia apenas naqueles primeiros instantes, e não só para ter certeza de que não passava a se relacionar com um tão dito inimigo.
Entretanto, deixando de lado tais analises que de nada serviriam naquele momento, adiantou-se apenas o suficiente para apertar a mão que lhe era estendida num ato de educação que pouco vira naquela noite; Não que, em momento algum, tenha lidado com qualquer ato oposto, mas era sempre bom encontrar aqueles que ainda insistiam em exercer a polidez diante daqueles que ainda não conheciam. “O prazer é todo meu, Charles.” O sorriso após a curta frase lhe fora inevitável, enquanto ainda sustentava o olhar sobre aquele que tão rapidamente lhe atraíra a atenção – não precisando nem ao menos chegar a pensar na longa lista de coisas que tornavam tal fato tanto mais fácil quanto agradável. Arqueou levemente as sobrancelhas em uma expressão discretamente divertida no segundo seguinte, quando o comentário do outro homem se fizera audível; Os pensamentos de Noah rapidamente penderam para o tom levemente insinuante das palavras, mas o mais novo ali rapidamente os corrigiu de volta ao rumo normal, onde todo o cuidado era pouco para que não viesse a arruinar aquela interação cedo demais. Estranho pensar que via-se em tamanha necessidade de conhecer mais de Ramsey, mas o biomédico simplesmente não conseguia evitar diante da esperança de ver-se entretido com algo realmente interessante pela primeira vez naquela noite. “Primeiramente, você pode me chamar de Noah…” Começou, tentando evitar de todos os modos que a formalidade se tornasse padrão dali em diante – ainda que contasse com a boa educação alheia para que continuassem a seguir o rumo deveras agradável, não queria que a seriedade se fizesse tão presente diante de algo que podia vir a ser promissor. “Se não se importa, eu adoraria ouvir as outras desculpas… E mantenha em mente que qualquer uma delas pode colocada em prática desde que cumpra seu objetivo.” Concluiu quase rindo de si mesmo por conta das próprias palavras, apenas ao concluir que soara tão ridículo e que aquele papel definitivamente não lhe pertencia. Tão entretido estava com todo aquele desenrolar que mal teve tempo de preocupar-se em soar absurdo em demasia diante do outro, que até então não havia externado qualquer sinal de absoluto incomodo.
A interação entre os dois homens parecia já não mais conter nenhum traço de constrangimento – o que era absolutamente positivo, tendo em vista o curso que os acontecimentos aparentavam tomar. Na verdade, Ramsey nunca teve afinidade com esse tipo de jogo: ao mesmo tempo em que o médico preferia ser extremamente direto sobre as suas intenções, também se sentia pouco à vontade nesse tipo de situação, porventura demasiado afastado da sua zona de conforto para extrair suficiente satisfação desse tipo de exposição. Talvez por isso que Charlie se viu caindo a todo momento em pequenas armadilhas, ora estendendo um aperto de mão por mais tempo que o necessário só para sentir o toque do outro homem por mais tempo, ora sentindo um estranho prazer em ouvir o seu nome na voz do outro – chegando ao ponto de se pegar tendo devaneios clichês, como o incauto desejo de ouvir aquela voz repetir o seu nome mais vezes e em outros contextos. Sentia-se beirando o ridículo e, no entanto, aterrador era perceber como não se incomodava nem um pouco com isso. A sensação que havia se apossado do médico era uma ausência total de peso, o peso que em condições normais o deixaria irresoluto perante o outro homem – ausência de peso esta que transparecia na sua voz grave, cujo tom em nada era titubeante. “Noah,” começou, consentindo ao outro homem que deixassem a formalidade de lado. Se apenas isso já não fosse o suficiente para julgar que o outro homem possuía as mesmas intenções de Charlie, suas palavras seguintes definitivamente eram a confirmação disso. Se Foakes soubesse o que suas palavras haviam causado dentro do médico... De qualquer forma, ele já estava prestes a descobrir.
Desde o momento em que Charlie descartou os guardanapos e se viu livre, seu corpo já quase inconscientemente – se é que o médico podia falar em inconsciente – se aproximava cada vez mais do outro homem, ainda que tentando manter alguma discrição. Quando finalmente respondeu ao comentário que até mesmo o desestabilizara um pouco, estava a tão poucos milímetros de Noah que conseguia sentir sua respiração. O médico era tão preciso em seus movimentos que provavelmente transparecia uma segurança que não tinha, uma máscara audaz que encobria aquele turbilhão de sensações que lhe roubara a cautela: seus olhos que há pouco haviam recaído nos lábios do outro agora voltavam a fitar diretamente os olhos claros, sustentando seu olhar de um jeito quase intimidador; e sua voz grave era inaudível para qualquer outro que não fosse o mais novo, enquanto respondia qualquer coisa genérica que lhe veio à mente. “Acho que você já sabe qual é a melhor das desculpas.” Se tivesse pensado um pouco antes de agir, provavelmente teria mantido a cordialidade anterior e teria acrescentado algum pedido de desculpas por agir tão impulsivamente perante um total desconhecido, mas não encontrava freios ou qualquer resquício de amarra social para tal. Ao invés disso e como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se não houvesse nada de absolutamente impulsivo no que estava fazendo, uniu seus lábios com os dele. Se o outro homem ansiava por aquilo tanto quanto ele, o que começava agora como um beijo calmo logo se tornaria muito mais urgente.
Things have gotten closer to the sun | Charlie & Noah
Sua preocupação com o que havia acabado de acontecer era mais do que genuína e absolutamente justificável; Nem ao menos conhecia o outro homem para prever quais seriam suas reações diante daquele incidente, de modo que pouco podia se adiantar para amenizar qualquer episódio ainda mais desagradável que estivesse por vir. E, antes mesmo que pudesse evitar, viu-se tentado a oferecer qualquer tipo de ajuda que viesse a quebrar o lado negativo da situação – o que o obrigava, também, a deixar a postura naturalmente distante suspensa até segunda ordem. Enquanto tentava compensar a falta de jeito ao se desculpar repetidamente, Noah chegava à conclusão de que aquela noite encastoada a uma comemoração sem sentido já havia excedido seus limites – ficar trabalhando teria sido indiscutivelmente mais prazeroso do que se dispor àquele evento. Todavia já não mais era o momento para se perder em lamentações diante de algo que já havia acontecido; O biomédico já tinha comparecido à festa, protestado silenciosamente contra a mesma e já estava decidido a ajudar o outro homem a se recuperar do pequeno incidente alcoólico para só então poder seguir rumo ao próprio apartamento.
Parado ali, diante da incredulidade alheia, Noah não conseguia parar de pensar sobre o infeliz momento em que tirara para ser desajeitado, como se houvesse perdido toda a polidez com a qual costumava se portar apenas para protagonizar o momento mais ridículo de toda aquela noite; Pouco acostumado a ocorrências de tal tipo, pouco sabia como agir e tampouco pensar, de maneira que quase consentiu para que se pusesse do mesmo modo estático que observava no outro homem. Quando estava prestes a embarcar num desespero silencioso, teve a voz alheia vinda num tom marcante para lhe acalmar – ou ao menos refrear-lhe os pensamentos, uma vez que o outro se postava com a educação de alguém que dificilmente criaria toda uma cena ainda mais embaraçosa. Contudo, o alivio completo lhe atingira apenas quando os olhos claros se focaram no sorriso que agora o desconhecido com o qual havia tão desastrosamente trombado apresentava, este vindo seguido de uma frase que em outra ocasião até mesmo teria feito o biomédico rir em concordância; Mas este preferiu permanecer com o semblante sustentando um leve ar de preocupação, ainda que as atitudes do outro homem parecessem calmas e devidamente controladas. Os lábios já finos se foram pressionados juntos enquanto Noah tinha – pela primeira vez – a atenção do outro sobre si, de modo que estranhamente não lhe deixara tão incomodado como de costume; Ou talvez estivesse ocupado demais ao analisar todos os traços que compunham as feições alheias para se atentar a tal detalhe.
Lhe fora inevitável não sorrir nos segundos que se passaram, conforme a fala daquele á sua frente muito era compatível com os próprios pensamentos – sempre lhe seria agradável saber que não era o único desgostoso com aquele evento, uma vez que a idéia de ser excepcionalmente não adepto a tais tipos de interações sociais de grande escala não lhe era agradável. “Oh, me desculpe. Meu nome é Noah Foakes…” Optara por privar o outro homem de maiores detalhes sobre a própria pessoa, visando evitar qualquer tipo de conflito caso estivesse diante de um funcionário da agencia rival; Não que tivesse paciência para postar-se competitivo àquela altura da noite, mas queria evitar qualquer atrito diante das circunstâncias que pareciam estar se estabilizando. “E a quem devo pedir para fazer o mesmo comigo, pra que eu também possa ter os motivos ideais para sumir desse lugar?” Completou, suavizando o sorriso que oferecia ao outro homem enquanto voltava atrás na conclusão que havia tomado apenas minutos antes; A noite talvez não tivesse excedido os seus limites, e quem sabe a situação que começara com um grande potencial para o desastre pudesse vir a ser justamente a salvação do biomédico diante da infelicidade social com a qual até então lidava.
Por menor que tivesse sido o estrago promovido pelo incidente, ainda assim era impossível que apenas os guardanapos sozinhos conseguissem revertê-lo, então Charlie optou apenas por secar a pele por debaixo do tecido. Distraiu-se com o intento por apenas poucos segundos, desistindo enfim de tentar consertar qualquer coisa e amassando os papeis para dispensá-los de volta ao balcão. Voltou seu olhar novamente para o estranho – não mais tanto assim um estranho, afinal, uma vez que Charlie já sabia o seu nome. Enquanto ouvia o que ele dizia, não pôde deixar de sorrir com o absurdo da ideia de repetir o incidente e derrubar uma bebida nele. Provavelmente seria um jeito dos dois homens se verem quites e talvez assim ele se sentiria menos constrangido pelos acontecimentos. Afastou essa imagem mental e atentou para o fato de que, diferente da maioria das outras pessoas com quem ele trocou algumas palavras no resto da noite, Noah não fez questão de acrescentar nenhum nome de agência ou profissão ao se apresentar. Essa escolha foi o suficiente para aguçar a curiosidade do médico, que fitava o rosto do outro homem com a atenção redobrada e minuciosa de quem tenta desvendar uma mensagem criptografada. Geralmente mais interessado no que está nas entrelinhas ou escondido aos olhos do que tudo que está demasiado explícito, o médico logo se viu indagando se o mais novo era um agente, se trabalhava com algo mais técnico ou se, como Charlie, ele estava radicalmente também fora do seu lugar no mundo. Importante ressaltar como essa era uma curiosidade espontânea, algo que raramente conseguiam despertar nesse tipo de interação com ele. Charlie se sentira extremamente entediado ao longo daquela noite e era a primeira vez que tentava se distrair com algo ou alguém. Decidiu replicar com a mesma ausência de detalhes, torcendo no seu íntimo que o seu nome não significasse absolutamente nada para o outro – uma das coisas mais desagradáveis daquela festa era ser reconhecido a todo momento, já que transitar imperceptível e anônimo era muito mais interessante do que os incessantes rituais de bajulação a que facilmente se entregavam as pessoas que frequentava aquele tipo de evento. “Charles Ramsey. Prazer em conhecê-lo.” Estendeu-lhe a mão, tentando manter sempre o máximo de cordialidade e polidez. O homem já parecia demasiado perturbado pelo acontecimento, o que despertava certa empatia por parte do médico. Além disso, à parte ser sempre naturalmente cortês, Charlie também temia que aquele momento se esvaísse rápido demais e ele logo se visse sem a companhia do mais novo. Tendo isso em mente, não só se via na necessidade de tornar a situação o mais leve possível, como também era preciso tentar dar um passo adiante. Claro que não sem muita hesitação, o que é comum quando Charles Ramsey tenta protagonizar esse tipo de cena. “Creio que há desculpas mais agradáveis para sumir daqui, Sr. Foakes.” Arriscou. Seu comentário era propositalmente dúbio – flertava tanto com a possibilidade de ser apenas um comentário neutro quanto algo um pouco mais sugestivo. O outro homem podia interpretar como quisesse.
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O homem já não usava o mesmo tom de quando a cumprimentou e isso deixou-a alerta. Não que ele tivesse deixado de ser cordial, mas soou meio… cauteloso? Até mesmo os cientistas precisavam fazer um curso antes de entrar para agência. Esse curso ousava ensinar para o perito sobre pequenas demonstrações de linguagem corporal que fazia o outro mudar de comportamento. Limitou-se a ir um pouco para trás e apoiar o seu cotovelo na bancada. Olhou para o homem “Eu sou biotecnóloga. Meus trabalhos são voltados para a área de genética.” Bebericou o líquido em seu copo, abrindo um sorriso enquanto o homem se virava e olhava para as outras pessoas do salão, quando o seu rosto voltou-se para o dela, riu das palavras que foram ditas “Para fins meramente ilustrativos…” Sussurrou, posicionando o seu corpo mais perto do homem “Eu sou maior de idade, aliás, bem maior de idade” Contou, erguendo o copo em sinal de cumprimento e bebendo o resto do líquido em seguida, soltando um riso “Se quiser, podemos ir tomar um café caso queira realmente sair daqui”. Ergueu o corpo e pegou a bolsa, abrindo-a e deixando cinquenta euros na mão do bartender, dizendo que era só uma forma de agrado.
Seu trabalho sempre obrigou Charlie a ser observador. Fechar um diagnóstico muitas vezes requer atenção redobrada aos detalhes mais aleatórios, ainda mais quando se trata de condições neurológicas: mesmo que a única queixa do paciente seja não conseguir tirar uma certa música da cabeça, ainda assim é possível chegar à conclusão de que algo não vai bem fisiologicamente. Para se tornar um bom médico, então, Charlie se dedicou para se tornar um exímio observador. Pena que isso se limitou ao seu trabalho, ou, melhor formulado, pena que isso se limitou aos momentos em que ele sabe de antemão que precisa ser observador: fora desses momentos, o médico consegue ser extremamente distraído, até mesmo no que diz respeito aos sinais mais claros. Para piorar a sua situação, o homem ainda tem pouco referencial do que é ou não socialmente bem quisto, o que vez ou outra o coloca em situações onde há um descompasso entre o que ele gostaria de fazer e o que ele realmente deveria fazer. Não é de se surpreender, portanto, que ele estivesse prestes a comentar sobre a escolha da genética como tema de pesquisa quando Evangeline fez o comentário – sugestivo, diga-se de passagem – sobre a sua própria idade. Em um primeiro momento, o médico sentiu que a jovem estava apenas constatando o óbvio – Charlie sabia que ela era maior de idade, provavelmente menos de uma década mais nova do que ele próprio; o contrário sequer havia passado pela sua cabeça. Todavia, quando a jovem acrescentou o convite para tomar um café, aí sim o médico agradeceu por ter permanecido calado até então. A racionalidade exacerbada do homem sempre o fazia hesitar em situações como aquela, o que lhe permitia alguns segundos extras para pensar na coisa certa a dizer, ao invés de simplesmente dizer o que estava pensando. Isso era fantástico, pois se Charlie fosse simplesmente espontâneo naquele momento, provavelmente iria perguntar se ela conhecia algum café que ficava aberto aquela hora ou fazer algum comentário sobre como cafeína à noite seria extremamente prejudicial para o sono – o que seria simplesmente desastroso. Afinal, se havia ou não um café aberto aquele horário pouco importava para as intenções da jovem e provavelmente cafeína não seria o que impediria ambos de dormir. Por sorte, o médico apenas aquiesceu. “Conhece um bom café por aqui?”
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Simplesmente odiava estar ali, tão longe de sua zona de conforto que raramente era submetida a tamanha violação. Definitivamente não havia nascido para a vida descomedida que vinha acoplada aos eventos sociais de grande prestigio, mas ainda sim via-se obrigado a aturar tais ocasiões por vez o outra em nome do profissionalismo; Não que visse grande utilidade para si mesmo em um ambiente onde se postava desconfortável, mas tal pensamento não era o suficiente para induzi-lo a desobedecer uma ordem geral de que toda a Spectre deveria comparecer àquele evento, de qualquer maneira. Então, uma vez não tendo escolha, Noah vestiu-se de acordo e dirigiu-se a festa que pouco prometia lhe ser agradável – já havia planejado de antemão permanecer no local apenas o suficiente para ter testemunhas de seu comparecimento, antes de voltar para a quietude da própria casa onde poderia colocar em dia o descanso que há tanto adiava.
Por várias vezes, no decorrer da festa marcada pela decoração caótica – e quase hilária aos olhos do biomédico –, Noah viu-se oferecendo seu mais polido sorriso enquanto permitia que a voz saísse na mais bem educada entonação diante daqueles que pouco imaginavam o quão descontente estava; Não que tivesse dentro de si a necessidade de se fazer dissimulado, apenas acreditava que tinha o direito de apresentar qualquer forma de indelicadeza para com pessoas que não eram culpadas pelo seu desagrado. Entretanto, era de se esperar que sua paciência viesse a se esgotar em algum momento – e após algumas horas de cordialidades despejadas sem qualquer moderação, o homem já não mais sustentava as feições num sorriso amigável e gestos convidativos. A música, antes servindo como uma distração bem vinda, passava a lhe incomodar e o cansaço se fazia cada vez mais pesado sobre seus ombros. Não mais lançava aos funcionários da agencia rival um olhar superior, uma vez que o aborrecimento o impedia de se importar com o que outros faziam ou deixavam de fazer.
Decidido a se agradar com um primeiro – e último – copo de qualquer bebida que tivesse disponível antes de finalmente poder ir embora, encaminhou-se até o bartender de modo quase automático, nem ao menos se atentando ao que pedira e tampouco às pessoas ao seu redor. Seu foco agora permanecia inteiramente sobre a vontade de ir embora para poder se livrar daquela sensação incômoda que era permanecer num local em que não mais queria freqüentar; E fora se deixando levar por tal foco que o biomédico cometeu o tolo erro de cálculos ao virar o corpo de modo demasiadamente brusco, sem antes analisar se seria seguro fazê-lo sem causar um acidente que o obrigaria a adiar ainda mais sua ida para casa. Mal teve tempo de processar o que acontecia antes de chocar-se contra outro corpo, de modo que a própria bebida recém adquirida fosse quase que totalmente derramada sobre o mesmo. Travou na própria garganta um xingamento desnecessário, antes de se afastar apenas um passo para permitir que os olhos claros avaliassem o estrago de sua falta de cuidado quase juvenil. Os lábios finos foram pressionados juntos em uma reprimenda muda quando pode ver que a camisa alheia agora tinha boa parte encharcada por sua culpa – e foi só então que permitiu-se encarar aquele que agora pagava por sua momentânea distração. “Me desculpe.” Foi a primeira – e mais óbvia – coisa que lhe escapou aos lábios, enquanto ainda permanecia a observar o outro homem. “Me desculpe, de verdade, eu nem cheguei a vê-lo…” Continuou, enquanto virava-se brevemente para conseguir pegar alguns guardanapos sobre o balcão, e estendê-los em direção ao desconhecido. “… Eu sinto muito pela sua camisa. Talvez se você tentar passar água…” E, após um breve segundo de reflexão, resolveu se calar para dar ao outro homem a chance de se pronunciar pelo acontecido.
Se fosse para destrinchar aquela cena e examiná-la de uma certa distância, algumas afirmações poderiam ser aferidas com tranquilidade sobre os dois homens ali envolvidos. A primeira delas é o fato de que Charlie nunca conseguiria se passar por um heavy drinker – segurava a bebida há tanto tempo em suas mãos que provavelmente o conteúdo do copo já devia estar um pouco menos gelado do que o aceitável para ser considerado um gosto bom; além do fato de já aparentar certa ebriedade, apesar da quantidade quase risível de álcool que havia ingerido naquela noite. A segunda era que, depois de tanto desgaste naquela festa, um incidente como aquele poderia ser o suficiente para dar a noite de ambos por encerrada – ou, muito pelo contrário, poderia ser justamente o tipo de acaso que iria finalmente mudar o curso dos eventos para um desfecho mais interessante. De qualquer forma, essa afirmação ainda era muito precoce, tendo em vista o desenrolar dos acontecimentos: como que petrificado pela incredulidade perante o que tinha acabado de acontecer, Charlie permanecia completamente afônico e imóvel, fitando não o estranho que lhe pedia desculpas incessantemente pelo acidente e sim o “estrago” feito em sua camisa. Não chegava a ser efetivamente um estrago, ele concluiria a seguir, mas ainda assim era o tipo de situação capaz de surpreender até mesmo alguém que estava a poucos passos de desistir da sua noite por completo.
O cérebro do médico sempre fora muito mais rápido do que a sua fala: enquanto o exterior de Charlie parecia completamente enfeitiçado pelo momento, sua mente já não só havia processado totalmente o que havia acontecido como já procurava as palavras certas para tentar acalmar os ânimos. Acordando como de um transe, percebeu que o estranho antecipava uma resposta sua e finalmente reagiu, respondendo aos pedidos de desculpas com um tom bastante polido. “Não, não... Não tem problema.” Sua resposta era sincera – o médico genuinamente não se importava com o que tinha acabado de acontecer. Não era como se pretendesse permanecer muito mais tempo naquela festa e um acidente como aquele podia se tornar o hálibi perfeito para não mais temer o ar inquisidor de um Joseph Arcade que achava que Charlie lhe devia algo. Na verdade, ao invés de contribuir com o mau humor que o assolara a noite toda, aquele incidente parecia divertir Charlie como não havia acontecido ainda naquela festa. Sorriu tão naturalmente antes de continuar falando que em seu semblante já não restava mais nenhum indício de choque. “Acho que finalmente encontrei alguma serventia para essa cor temática da festa”. A camisa social que trajava era de um tom de roxo tão escuro que a bebida não conseguira macular a cor – o único indício do que acontecera segundos antes era o tecido desconfortavelmente molhado. Se havia algo de realmente incômodo naquilo tudo, era o líquido escorrendo pela sua pele e lhe causando pequenos arrepios, mas nada que um punhado de guardanapos não pudesse resolver. Bebeu os últimos resquícios da bebida que segurava – tão rápido que sequer sentiu o gosto extremamente desagradável de bebida quente – e deixou o copo em cima do balcão, assim tendo as mãos livres para pegar os guardanapos que o outro homem lhe oferecia. Enquanto esperava que o papel absorvesse um pouco da bebida, permitiu-se efetivamente olhar para o estranho pela primeira vez desde o incidente. Charlie vez ou outra gostava de brincar consigo mesmo de arriscar algumas deduções sobre outrem e era nessa brincadeira que o médico acabara se perdendo enquanto fitava os olhos claros que o encaravam com um ar preocupado. Seu jogo de adivinhação, naquela noite, tinha opções um pouco mais restritas do que o normal: Spectre? Primera? Não conseguia extrair nada apenas pela observação – mas também não era contrário à ideia de tentar descobrir convencionalmente. “A quem devo agradecer pela desculpa perfeita para sair correndo daqui?” Ironicamente, aquele talvez fosse o primeiro momento em que Charlie realmente não desejou ir embora.
Things have gotten closer to the sun | Charlie & Noah
Não é como se Charlie realmente esperasse que a festa de Joseph Arcade lhe traria algo de bom – só pelo teor do convite, o médico já se sentia condenado a uma noite repleta de desagrados em série antes mesmo de chegar na mansão. Entretanto, mesmo com o seu pessimismo antecipando muitos dos eventos que se seguiriam naquela noite, talvez nada o preparasse para uma decoração tão espalhafatosa e uma música tão alta que seria capaz de enlouquecer a maioria dos seus pacientes com quadro enxaquecoso ou outros tipos de cefaleias. Na verdade, o próprio médico já sentia algumas pontadas nas têmporas, o que parecia minar completamente sua paciência para tantas conversas vazias e tentativas infames de chamar a sua atenção de alguma forma. Estava muito além da sua compreensão o motivo pelo qual as pessoas se esforçavam a manter qualquer tipo de conversa quando não tinham realmente algum motivo para tal, mas ele realmente admirava o quão falsamente simpáticas as pessoas conseguiam ser. Isso era algo que Charlie definitivamente nunca conseguiria fazer. O que ele sentia, no fundo, é que estava chafurdando e se afundando cada vez mais naquela lama de rivalidades e falsa cordialidade – um mundo do qual ele definitivamente não fazia parte. Tudo o que ele mais precisava nesse momento era uma mudança repentina na sua sorte, nem que fosse pelo menos um olhar que pudesse amenizar o sentimento de amargura que se apossara dele a noite toda.
Já sem nenhuma esperança de que isso realmente pudesse acontecer, aproximou-se do bartender por mais uma última vez. Ao menos, ele esperava que fosse a última vez. Charlie nunca foi um grande fã de bebidas alcoólicas, além de não ter muita experiência nessa área, mas precisava desanuviar a mente e afastar tantos pensamentos negativos que lhe viam à mente em sequência, quase sem permitir sequer um segundo de otimismo pro homem. Na verdade, talvez – muito provavelmente – era o seu próprio mau humor que estava tornando tudo tão difícil, além da sua falta de paciência e, principalmente, sua dificuldade em disfarçar como qualquer (falta de) assunto o desagradava. Se queria ter pelo menos um momento agradável naquela noite, talvez fosse necessário que Charlie se tornasse agradável. Só que, para isso, ele definitivamente precisava de uma bebida mais forte.
@EveXCharlie
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Cumprimentou o homem, tentando pescar em sua mente o nome do mesmo, sabendo que já havia ouvido sobre ele antes. Ficou com o rosto um pouco pasmo quando se lembrou que o mesmo tinha sido consultor nas atividades da agência. E claro que ela já havia lido uma das pesquisas de Charlie sobre neuro-genética.
“Charles Ramsey, o famoso neuropsiquiatra, certo? Que surpresa encontrá-lo por aqui… Nunca havia visto você fora da consultoria da Primera.” Sorriu, bebendo um pouco do seu uísque e olhando-o de cima a baixo “Sou cientista da Agência, já li a maioria das suas pesquisas e posso dizer que você é extremamente talentoso quando se trata de pessoas com distúrbios” Soltou, esperando que Charles não ficasse ofendido com a afirmação.
Levantou um dos dedos para o bar, apontando para o seu corpo e fazendo um sinal de duplo, dizendo que queria o dobro da quantidade que havia em seu copo “Eu não vejo a hora de sair daqui, odeio as festas onde tenho que me vestir como se tivesse 17 anos.”
Ouvir elogios sobre o seu trabalho sempre era um tipo de constrangimento para Charlie. Não que o homem não trabalhasse duro justamente para que o seu trabalho fosse reconhecido, mas ter crescido com alguém com uma indiferença patológica – seu pai – fez com que o jovem médico criasse o “mau hábito” de não esperar esse tipo de reconhecimento, sendo muito tardio o seu contato com elogios e demonstrações do gênero. Por isso, os elogios tecidos pela jovem quase fizeram passar despercebido o fato de que ela trabalhava em uma das agências. Quase. Primera, repetiu mentalmente. O médico estava consciente das ofensas que ambos os lados trocavam – um agente da Primera seria supostamente um assassino sem escrúpulos, enquanto que um agente da Spectre seria um canalha desonesto – mas não tinha propriedade para fazer um juízo moral em nenhum dos dois casos. No entanto, saber que ela fazia parte de uma das duas agências era a confirmação de que ele precisava manter a cautela de sempre. “Obrigado”, limitou-se a dizer com um tom cordial. Talvez soasse um pouco seco, mas era apenas sua “falta de jeito” costumeira. Tentou sorrir para amenizar, ainda que seus sorrisos nunca fossem muito radiantes. “Cientista, você disse? Qual sua área de especialização?” O interesse era genuíno. Ela havia dito que o vira sendo consultado pela Primera, mas o médico não podia dizer o mesmo – e se nunca a vira antes, ela provavelmente não trabalhava na área de saúde mental. Talvez esse não fosse o assunto mais interessante para conversar em uma festa como aquela, mas Charlie geralmente não tinha esse filtro social. Não obstante, o comentário seguinte da jvem fez com que ele voltasse a sua atenção para a festa. Não pôde evitar não apenas analisar o vestido da jovem como perscrutar o local para abstrair a vestimenta dos demais convidados. Realmente, a maioria dos mais jovens efetivamente parecia ter 17 anos com aquelas roupas – e essa conclusão fez Charlie rir. Sua própria roupa não era nada de especial: quase tudo no traje era na cor negra e o toque roxo ficou reservado para a camisa social que ele usava. “Odeio festas em geral. Também não vejo a hora de sair daqui.”
What a night | Charlie & Jamie
jamie-holtby:
Alheio ao motivo pelo qual o médico se postava desconfortável naquele evento – ou talvez preferindo acreditar que o outro homem compartilhava de sua aversão a comemorações tão espalhafatosas –, Jamie nem ao menos cogitou refrear sua aproximação. Estava indiscutivelmente entediado e permanecer enclausurado nos próprios pensamentos apenas pioraria tal sensação maçante em demasia; Portanto, a escolha de tentar iniciar algum diálogo com Charlie, sobre qualquer assunto que fosse, era a melhor opção para os minutos que se seguiriam. Não podendo se dizer alienado à imparcialidade alheia, o agente também pouco se preocupava em perder o próprio tempo ao tentar trazer o médico para o lado de sua agência; A verdade era que pouco importava-se com a vontade – ou falta dessa – de outros de serem relacionados à Spectre, preferindo reservar toda a sua implicância para aqueles ligados a agencia rival apenas.
De tal modo, dava-se o privilégio de comportar-se de forma normal – ainda que distante – do homem que preferia não tomar parte naquela guerra silenciosa por destaque e poder, chegando até mesmo a considerar isso como um adicional favorável para manter qualquer tipo de contato que fosse. Permitiu um discreto – porém breve – sorriso diante da resposta que lhe fora direcionada, meneando levemente a cabeça em negação no segundo seguinte à resposta que lhe escapou antes que pudesse conter. “Claro, porque é exatamente o tipo de evento que me atrai. Ainda mais quando tudo está tão… Roxo.” Comentou de modo irônico, enquanto os olhos claros esquadrinhavam o local mais uma vez, no costume de manter-se atento a tudo em seu redor. Não que aquele local fosse exatamente perigoso, mas tudo deveria ser levado em consideração quando funcionários de ambas as agências se postavam no mesmo ambiente. “Pelo menos você não tinha a obrigação profissional de vir, hm?!”
Não pôde deixar de rir do comentário de Holtby. Era verdade, a cor roxa parecia acentuar o sentimento claustrofóbico que a festa lhe causava. Provavelmente era por isso que usavam o roxo no cinema para assinalar que algum personagem iria morrer... Já estava se divertindo de imaginar que algum assassinato aconteceria debaixo dos narizes de tantos agentes secretos renomados, quando o comentário seguinte de Holtby tirou Charlie de seus devaneios. Só de lembrar o motivo pelo qual não pôde deixar de vir à festa já tornava a deixar o médico desanimado, principalmente porque ele era completamente averso a esse tipo de evento e nunca compareceria voluntariamente. Esse tipo de exposição era excruciante.
“Ah, eu tinha sim...” Suspirou. Talvez não fosse sensato falar nada daquilo para um agente da Spectre, mas, no fundo, Charlie era apenas um médico – não tinha nenhuma experiência com todos esses jogos e se sentia constantemente frustrado quando se via no tipo de situação desconfortável como essa em que o sr. Arcade o deixara. Quando viu, já estava colocando pra fora aquela frustração. “Meu convite veio acompanhado de um cheque. Me peguei tendo todo tipo de conversa nonsense com alguma secretária de Joseph Arcade até entender que ele estava me ameaçando.” Evitou olhar para o mais novo, deixando escapar um riso um pouco amargurado. Joseph Arcade era um homem de muitos contatos. Esse tipo de homem é como uma aranha – seus contatos estavam todos estrategicamente posicionados em uma teia, de forma que o homem conseguia influência em lugares inimagináveis. Charlie entendeu o recado de Arcade e sabia que a verba de seus inúmeros projetos e pesquisas iriam repentinamente secar e ele dificilmente seria novamente consultado – seja pela polícia, seja por alguma agência – se não atendesse a esse capricho. Podia imaginar que Holtby estivesse em uma situação parecida, ainda que talvez um pouco mais simples do que a de Charlie. “Mas não quero ser impertinente falando disso. Talvez nós dois só precisemos de uma bebida... Para ver se essa decoração fica um pouco menos roxa.”