𝗂'𝗆⠀𝘀𝘂𝗰𝗵⠀𝖺⠀𝐒𝐈𝐍𝐍𝐄𝐑⠀ᴀɴᴅ⠀ɪ⠀ʜᴀᴠᴇ⠀ʙᴇᴇɴ⠀𝑠𝑖𝑛𝑐𝑒⠀𝑏𝑖𝑟𝑡ℎ⠀;⠀𝖿𝗎𝗅𝗅⠀𝗈𝖿𝖿⠀ᵍ͟ʳ͟ᵉ͟ᵉ͟ᵈ⠀𝖺𝗇𝖽⠀𝖿𝗎𝗅𝗅⠀𝗈𝖿⠀ 𝒍𝒖𝒔𝒕⠀.⠀𝗒𝗈𝗎⠀𝗌𝖺𝗒⠀𝗂'𝗆⠀𝗵𝗲𝗱𝗼𝗻𝗶𝘀𝘁𝗶𝗰⠀𝑎𝑛𝑑⠀𝑎⠀𝑏𝑖𝑡⠀ᵉ͟ˣ͟ᵗ͟ʳ͟ᵒ͟ᵛ͟ᵉ͟ʳ͟ᵗ⠀,⠀𝖽𝖾𝗌𝖼𝗋𝗂𝖻𝖾𝖽⠀𝖺𝗌⠀𝑝𝑜𝑠𝑖𝑡𝑖𝑣𝑒𝑙𝑦⠀ 𝑠𝑎𝑑𝑖𝑠𝑡𝑖𝑐⠀.⠀ 𓂃 ⠀ but⠀i⠀ᶜᵒᵘˡᵈ ᵇᵉ⠀so⠀much⠀𝘄͟𝗼͟𝗿͟𝘀͟𝗲 .
𓈀 ㅤ𝐡𝐞𝐚𝐫𝐭𝒍͟𝒆͟𝒔͟𝒔 ⠀𓂃 ⠀ já era esperado que laurent hervé bernard lefevre viesse para a ilha de treatan , afinal , ele é um príncipe vindo da velraisse ( frança ) . não que seja elegante perguntar , mas sei que ele já conta com seus trinta e quatro anos , e não esconde a fama de ser impiedoso , mas é sabido que seu lado perspicaz compensa . se não tivesse sangue azul , eu diria que é um descendente direto de arnas fedaravicius , porque não poderiam ser mais idênticos !
* 𝘁𝗮𝗴𝘀. * 𝗽𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗲𝘀𝘁. * 𝘄𝗮𝗻𝘁𝗲𝗱. * 𝗵𝗾𝘀𝗮𝗹𝘁𝗵𝗮𝗿𝗮.
𝗮͟𝗲͟𝘀͟𝘁͟𝗵͟𝗲͟𝘁͟𝗶͟𝗰͟𝘀 ⠀𓂃 ⠀ anéis de sinete com o brasão da frança , abotoaduras em ouro branco , onde uma serpente se enrola em torno de uma fleur-de-lis estilizada e perfume amadeirado com fundo de tabaco e âmbar .
ㅤ𓈀 ㅤ𝐬𝐭𝐨͟𝐫͟𝐲͟𝐭͟𝐢͟𝐦𝐞 ⠀𓂃 o que dizem nos corredores da cidadela é que laurent foi o último restante de uma dinastia em chamas . filho único de uma casa nobre que ousou se voltar contra a coroa francesa , ele nasceu sob brasões que não existem mais e com um sobrenome que ninguém mais ousa pronunciar . pelo menos não em voz alta . em menos de um ano , tudo o que cercava aquela família foi desfeito — seus títulos cassados , suas propriedades congeladas , seus rostos apagados de fotografias oficiais . os pais de laurent desapareceram com a mesma frieza com que foram julgados . há quem diga que foram executados . há quem jure que ainda vivem , reclusos em algum buraco úmido e bem guardado . mas o que importa mesmo é o que aconteceu depois . antoine apareceu diante das câmeras com um gesto “ magnânimo ” : adotaria o menino órfão da vergonha . um ato de clemência , disseram e aplaudiram . mas antoine não era ingênuo . ao adotar laurent , ele não apenas eliminou a possibilidade de o garoto virar um mártir no futuro — também herdou , legalmente , os bens congelados da antiga casa . propriedades , contatos , e o tipo de influência que não morre com escândalos : apenas muda de sobrenome . ao rebatizar o menino com o nome lefevre , também matou , oficialmente , o último resquício de uma linhagem manchada .
foi treinado para ser impecável — em comportamento , aparência , discurso . aula de dicção antes do café . esgrima antes do almoço . história diplomática europeia entre uma dança de salão e outra . nunca reclamou . não porque fosse obediente , mas porque queria ser excelente . desde cedo , deixava claro , mesmo sem palavras , que não aceitava ser segundo em nada . se alguém tentava competir , ele passava por cima . se não podia vencer com habilidade , vencia com influência . ou charme . ou chantagem . aprendeu todos os métodos , testou todos , refinou os que funcionavam . aos doze anos , sua inteligência já era afiada o suficiente para entender que os outros ao seu redor estavam ali apenas como peças , especialmente os vermelhos . ele não os via como iguais ; eles eram apenas ferramentas , maneiras de alcançar o que ele queria . é claro que cresceu com um complexo de superioridade . como não ? era inteligente , articulado , charmoso quando precisava e cruel quando exigido . tinha aquilo que todos os lefevre aprendiam a cultivar desde cedo : uma presença inexplicável .
laurent sabia desde sempre que o amor era uma fraqueza . não por alguma lição mal dada ou por excesso de rigidez — mas porque , para alguém como ele , amar implicava descer . mas até o mais insensível dos príncipes tem um lapso de juventude . o dele tinha nome , cabelos escuros e o sangue errado . ela era vermelha . não era serva — jamais teria se rebaixado tanto . era filha de uma curadora de confiança na ala nobre , alguém que sabia manter a cabeça baixa e a boca fechada . ele a conheceu nos bastidores de um sarau qualquer , num verão abafado em lyon , quando a única coisa mais sufocante do que o calor era o tédio . laurent nunca deixou de sentir vergonha — nem nos beijos escondidos entre colunas de mármore , nem nas cartas secretas que ele queimava depois de ler . mas também nunca conseguiu parar . e isso o enfurecia . durante quase um ano , ela foi o segredo mais bem guardado dele . e também o mais sujo . ele nunca pensou em fugir com ela ou desafiar a ordem das coisas — laurent não era idiota nem romântico . mas parte dele , por um tempo , quis acreditar que podia mantê-la ali , um brinquedo privado entre os escombros do que ele não podia ser em público . até o dia em que a viu com outro .
não nos braços de um vermelho — o que seria apenas previsível . mas nos braços de outro azul . um herdeiro . um nome importante . um rosto que estampava selos reais e contratos comerciais . um tolo , evidentemente . um idiota apaixonado que acreditava estar vivendo uma grande história . e ela… ela o havia escolhido . no dia seguinte , o herdeiro e sua família foram denunciados por manterem relações ilícitas com sangue impuro — com provas . ninguém jamais soube quem entregou os documentos ao conselho . mas boatos circularam : diziam que foram deixados numa caixa de prata , com um único cartão escrito em caligrafia primorosa : " não há lugar para traidores em um trono que exige sangue puro . " a punição foi exemplar . toda a linhagem foi caçada até o último respiro . terras confiscadas . títulos dissolvidos . a garota ? ninguém sabe ao certo . há quem diga que foi levada . outros , que desapareceu por conta própria . o desprezo que antes era doutrinário virou algo visceral . não era mais apenas o reflexo de sua educação ou da cartilha lefevre — era pessoal .
ㅤ𓈀 ㅤ𝐯𝐞͟𝐥͟𝐫͟𝐚͟𝐢͟𝐬͟𝐬𝐞 ⠀𓂃 ⠀ velraisse é uma obra de restauração constante — uma tentativa desesperada de manter vivo o esplendor de um império que já foi o coração da civilização ocidental . aparências são tudo — e , portanto , nada é real . velraisse , como nação , abraça uma política elitista com a dissimulação de quem jamais admitiria ser elitista . as escolas mais prestigiadas , os cargos de liderança , os teatros nacionais — tudo gira em torno dos azuis . aos vermelhos , resta o entretenimento , a força bruta , os discursos de inclusão cuidadosamente ensaiados que os mantêm iludidos e afastados . a população vermelha , embora numerosa , vive sob vigilância e contenção . são vistos como úteis , mas inferiores . a economia ainda se mantém robusta , com uma classe alta que controla os maiores recursos , principalmente na indústria de luxo , vinhos exclusivos , e as mais finas fragrâncias e tecidos . sua moeda tem prestígio e seu comércio internacional é respeitado . mas por baixo da superfície dourada , crescem as rachaduras . rebeldes vermelhos se organizam nos subterrâneos de marselha , grupos radicais infiltram-se nas universidades da normandia , e nem todos os azuis são tão puros quanto seus certificados de linhagem fazem parecer .
a casa lefevre , atual detentora da coroa , governa com a frieza de quem entende que amar é um luxo , mas reinar é um fardo . são vistos como impecáveis , intocáveis , inatingíveis — e isso não é por acaso . a família real não gosta de ser vista como frágil . eles sorriem . e apertam mãos . e assinam decretos que selam destinos de centenas com a mesma naturalidade com que provam o vinho do jantar . a rainha marie-claire , antes elogiada por sua beleza e fertilidade promissora , sofreu um grave acidente de cavalo poucos meses após o casamento que a tornou estéril . as más línguas dizem que foi sabotagem . os devotos afirmam que foi um castigo divino . mas o fato é que a coroa precisou encontrar outros ventres — e com urgência . quatro filhos , escolhidos a dedo em linhagens azuis menores , foram apresentados como legítimos herdeiros . cada adoção foi envolta em boatos , cerimônias pomposas e revisões genealógicas que só os muito ricos ( ou muito mortos ) conseguem contestar . quatro herdeiros de sangue comprovadamente azul , criados como se tivessem saído do mesmo útero . na prática ? um ninho de serpentes . o amor fraternal entre eles é uma nota de rodapé bonita para os jornais . a verdade vive entre olhares silenciosos durante os banquetes e comentários sussurrados em corredores onde as câmeras não chegam .
ㅤ𓈀 ㅤ𝐩͟𝐨͟𝐰͟𝐞͟𝐫 ⠀𓂃 ⠀ indução à dor : laurent tem a capacidade de infligir sofrimento físico a alguém sem precisar encostar um dedo na pessoa . para isso , ele precisa apenas de um objeto : um boneco . o boneco age como um canal , um espelho . à distância — e só dentro de um raio relativamente curto — laurent pode mirar em qualquer indivíduo e mergulhá-lo num tormento cuidadosamente calibrado . uma pontada aguda sob a costela . um espasmo no músculo do pescoço . uma sensação repentina de ter os ossos retorcendo-se lentamente . ele não está interessado em hematomas feios ou gritos histéricos , por isso é discreto . ele jamais usaria o poder para banalidades . jamais num impulso . a dor é algo que deve ser infligido com propósito . não é um poder para brigas sujas ou fugas desesperadas . é para interrogatórios , execuções exemplares , e demonstrações públicas de poder que não sujam suas mãos .
ㅤ𓈀 ㅤ𝐭𝐫͟𝐢͟𝐯͟𝐢𝐚 ⠀𓂃 ⠀ em breve .








