Pavese escutava-o, sentado numa poltrona, embaixo da luz, fumando o cachimbo, com um sorriso maligno: e de todas as coisas que Balbo lhe dizia, ele dizia que já sabia delas há muito tempo.
Entretanto, escutava com vivo prazer. Tinha sempre, nas relações conosco, seus amigos, um fundo irônico, e costumava analisar-nos e conhecer-nos com ironia; e essa ironia, que talvez estivesse entre as coisas mais bonitas que tinha, ele nunca sabia usá-las nas coisas que tomava a peito, não em suas relações com as mulheres por quem se apaixonava, não em seus livros: usava-a somente na amizade, porque, nele, a amizade era um sentimento natural e de algum modo desleixado, ou seja, era algo a que ele não dava excessiva importância. No amor e também na escrita, mergulhava com um tal estado de espírito de febre e de cálculo, a ponto de nunca saber rir disso, e de nunca ser ele mesmo por inteiro: e às vezes, quando agora penso nele, sua ironia é a coisa de que mais me lembro e sinto saudade porque não existe mais: não há sombra dela em seus livros, e não é possível encontrá-la em outro lugar a não ser no vislumbre daquele seu sorriso maligno.