A provocação do rapaz lhe fez revirar os olhos e sorrir espontaneamente, ele a tirava do eixo de formas que era muito difícil ver normalmente. A fazia largar de seus medos e seus principais instintos ao estar em um encontro: de se fechar e não compartilhar nada - enquanto ao lado dele tudo parecia ser ótimo de ser transformado em uma conversa, mesmo que os temas não fossem dos mais agradáveis. “Eu não me considero romântica.” Provavelmente acreditava de fato naquilo, mas conforme Chord descrevia o que poderia ser, Hazel lutava mentalmente para não se encaixar no padrão determinado - era o que sempre fazia, e provavelmente tentaria continuar a fazer. Em sua cabeça, demonstrações assim, eram fáceis demais de serem transformadas em fraquezas e isso, bom, isso ela não aceitava para si. Assimilar tudo aquilo e ainda associar à história da ausência de seu pai, aquilo era bastante para que ela tentasse se fechar e ao mesmo tempo falhasse miseravelmente, contando sempre sua história trágica de forma cômica para aliviar o sentimento tão desconfortável que aquele pensamento ainda lhe trazia. “’Tá tudo bem, sério.” Disse, falsamente.
Nada estava bem e, apesar de terem se passado quase trinta anos, a garota sentia aquela dor constantemente - e lhe afetava em suas escolhas, afinal, assim como o rapaz, tinha medo do abandono. Diferente dele, nunca se arriscava o suficiente e nem se entregava o suficiente para que isso pudesse acontecer. Pigarreou e imaginou que talvez pudesse ser o momento de compartilhar um pouco mais e ser um pouco mais humana, menos ácida e permitir o outro lado daquela parede - e o mundo todo, lhe conhecer um pouco mais a fundo, e um pouco mais da garota que vivia naquele exterior tão bem pensado. “Acho difícil o teste do BonJovi dar positivo, mas seria bem legal poder ter uma explicação mais certa do porquê ele ter ido, sabe?” Começou a dizer e sentiu suas mãos gélidas. “Eu sempre senti que a culpa foi minha…” Hazel franziu o cenho, negando com a cabeça. Sentia-se tola, mas já estava falando. Buscou ar para encher os pulmões - e aquele ar serviria, também, para evitar derramamento de lágrimas a qualquer custo. “Eu era recém nascida, mas mesmo assim… Eles tinham um bom relacionamento, pelo menos é o que ela me conta…” Não precisava dizer nomes. Era óbvia a história que narrava. “Então a única coisa que não encaixou nessa equação… Bom… Fui eu.” Deu uma falsa risada, baixando a cabeça como se sentisse vergonha do que relatava.
Sentia-se ainda mais tola de compartilhar com tanta dor algo tão pequeno, sabendo da história daquele com quem dividia a cabine. Levou a mão ao rosto, negando com a cabeça por um pouco e fazendo-se amiga do silêncio por um pouco. “Me desculpa…” Limitou-se a dizer, após ter dito tanto, enquanto voltava para o silêncio que aproveitara anteriormente. Respirou um pouco mais, deixando o ar sair fazendo até mesmo barulho - sentia os pulmões quase arrebentarem com o tanto de ar que permitiu entrar, até se acalmar por completo.
Por compartilhar tanto de si em um programa de televisão para um desconhecido que provavelmente não se lembraria dela na próxima semana. Como poderia ter sido tão entregue? Em tão pouco? Eram apenas dois dias. Todo aquele experimento era um grande teste, de fato. Desde antes do início era um grande desafio para Hazel, e não seria diferente até o final dessa situação toda.
Riu baixo com o que Chord lhe contava e principalmente sobre o pequeno drama que ele estava fazendo - era no mínimo fofo ver algo assim. E em seu íntimo, invejava a forma como ele conseguia demonstrar seus sentimentos e expressar-se como o fazia - aquilo provavelmente vinha de sua criação, visto que o rapaz sempre tinha palavras de afeto para falar sobre sua mãe. Antes de entrar em outro assunto tão pessoal, sentiu a necessidade de brincar um pouco e liberar um pouco de si. “A minha sogra parece ser uma pessoa muito amorosa.” Seus braços cruzaram na altura do peito e ela lhe sorriu. “Duvido que ela se canse. Ninguém se cansaria do filho demonstrar emoções, ela estava apenas te ensinando a lidar com o mundo de uma forma melhor - e que talvez você seria melhor entendido. Nesse nosso mundo machista, eu aposto que não sou só eu quem estou sofrendo…” Completou o início de seu pensamento.
Só conseguia imaginar o que o marceneiro sofria por ser uma pessoa que chora, que gosta de demonstrar suas emoções e que sente de forma tão intensa. Ela sofria, com toda certeza. Mas isso não anulava o que possivelmente ele passara em seus anos de vivência. Não era o que todos pintavam como o esperado de um homem - e talvez por isso se sentia tão atraída pelo rapaz mesmo sem vê-lo: ela também não era a imagem de uma mulher que a sociedade esperava.
Chord parecia ter muitas camadas, muitas delas eram mais bonitas do que podia esperar ver em alguém que se inscreveu para um reality - mas ela também havia aceitado aquela proposta, então como poderia julgar alguém que estava lá antes de conhecer de forma mais profunda? “Eu havia te prometido cantar todos os dias, lembra?” Sorriu pequeno. Ainda gostava de imaginar como seria seus dias ao lado do outro, cada momento que poderia ser construído após aquelas câmeras serem desligadas. Não pôde deixar de sorrir com o que Chord disse em seguida, era difícil para ela acreditar em qualquer um desses elogios, mas ainda assim era bom ouvi-los. “Eu acho que na verdade seria o oposto…” Começou a dizer. “Não imagino um rapaz fofo e educado como você parando para dar atenção a alguém…” Deu uma pausa e olhou para si mesma, fazendo movimentos com a mão como se mostrasse. “Assim.” A risada que deu era um pouco forçada. “Don’t go breaking my heart, Chord Francis Hopper.” Sua voz possuía uma falsa animação. Estava pensando, de fato, se sairia machucada de toda aquela situação - por mais que não fosse a intenção do rapaz, pouco era possível de ser previsto e Chord não possuía controle de nenhuma situação. Ela estava ciente de que dividia cabine com alguém que também estava se envolvendo com outras pessoas, e quando parava para pensar é como se estivesse saindo em encontros e a pessoa que se envolvia também estivesse saindo com outras duas pessoas - lhe causou um enjoo momentâneo. Não queria pensar naquelas situações agora e muito menos comparar com o que já havia vivido antes, afinal, toda a situação era completamente diferente do que eles estavam vivendo naquele momento.
Mordiscava os lábios, a parte interna da bochecha e ainda assim sentia que não havia lugar para onde deixar sua ansiedade sair. Seus passos começaram a fazer som pelo cômodo - afastou-se da divisória e parou atrás do sofá, deixando-se derreter pelas costas do sofá e encostou a cabeça naquele mesmo local. Suas pernas esticadas, conseguia ver a ponta das botas. Abriu o vestido, ocupando um grande espaço no cômodo em que estava. Tudo isso enquanto ouvia as palavras do rapaz. Queria sorrir. Queria gritar. Queria poder abraçar e beijar Chord. Queria sumir. E, principalmente, queria conseguir definir e entender todas aquelas emoções que lhe consumiam no momento.
Parecia que ali, atrás daquele sofá, se escondia e se sentia segura para tomar um tempo para se entender e entender as palavras do rapaz. “Eu gosto da sua simplicidade.” Foi o máximo que conseguiu dizer em primeiro momento. “Simples não quer dizer pouco. É só…” Soltou o ar dos pulmões e riu. “Simples.” Parecia óbvio, mas para ela fazia todo o sentido do mundo: ele trazia a simplicidade que sua vida nunca possuiu, a calmaria que talvez era o que precisava - ou que sempre fugiu? Uma risada da garota cortou o cômodo, de forma com que a fizesse olhar para cima um breve momento. “Você também não tinha o direito de ser tão legal…” retrucou o comentário enquanto o assunto dos filmes e quadrinhos se finalizava sozinho. Era outra imagem que se formava em sua cabeça em que estavam toda semana assistindo um filme de heróis com pizza e seus filhos - era uma tradição que poderia se tornar muito agradável entre eles.
Sua bolha fora estourada tão rápido quanto surgira. Sabia que tinha dito palavras fortes, mas não podia para sempre ficar soltando provocações agressivas e esperar que todos ao seu redor aceitassem e simplesmente absorvessem tudo aquilo. Pôs-se de pé de mais uma vez e aproveitou para dessa vez deitar no sofá, com os olhos mirando a parede que os dividia e concentrada não só na voz, mas no conteúdo do que Chord lhe dizia. “Não quero que você mude completamente por mim…” Começou a dizer, com a voz um pouco baixa. “Você tem seus motivos para ter seus traumas e restrições e não deve mudar para aceitar ninguém que não lhe cabe.” Mal podia acreditar que dizia aquelas palavras, mas com um pouco de calma tomou ar para continuar o que dizia a ele. Concordava com o fato de que aquele era o momento para se conhecer melhor e entender não só o que era bom na outra pessoa, mas suas falhas e seus defeitos, e principalmente seus limites. E aquele era um limite importante para ele. Não queria continuar a revirar o passado e os traumas que ele carregava - não estava ali para machuca-lo, repetiu aquilo algumas vezes a ele e realmente sentia isso. “Como eu te disse, não posso te prometer que nunca vou beber, mas também não sou a pessoa que precisam carregar para casa.” Lidava tanto com pessoas alcoolizadas que não conseguia ser como eles, não se sentia bem e, a grande verdade, sentia um pouco de raiva de quem agia dessa forma. Mesmo assim, não abria mão de um bom vinho na sexta feira para tentar escrever, nem em um almoço para aguentar sua mãe reclamando sobre o novo trabalho, muito menos em uma saída com seus amigos para se divertir - em uma festa, um show? Não dava para não tomar uns bons copos de cerveja. “E se isso for um limitante para você, eu não posso fazer nada que não aceitar sua decisão.” Sentou-se e deu de ombros. “Mas eu te digo que meus drinks não se limitam aos alcóolicos, e eu posso te fazer algumas coisas bem gostosas.” Seu sorriso era curto. Não sabia como continuar após ouvir tanto do rapaz.
chord tinha o hábito de tagarelar bastante, especialmente quando acreditava ter um ponto, às vezes ele poderia pecar e ser ligeiramente inconveniente, em outras, conseguia perceber o limite do bom senso. a sorte aparentemente sorriu para si e o homem notou que não deveria persistir no assunto. “oh, eu entendo.” disse o mais natural possível, pensando se deveria acrescentar algum comentário quando ouviu a frase seguinte. para chord, mascarar suas emoções nunca foi uma alternativa válida, mas esta era a sua história, não de hazel. o marceneiro não soube como reagir a princípio, deveria aceitar aquelas palavras vazias ou oferecer sua escuta para que ela falasse sobre seus sentimentos abertamente? antes que pronunciasse qualquer outra coisa, a mulher criou seu próprio caminho e chord escutou silenciosamente, sentindo uma vontade esmagadora de abraça-la, talvez fosse demasiadamente afetivo fisicamente e pensar em como ela reagiria a isso o deixou distraído por alguns segundos. ela o afastaria ou cederia? “eu posso imaginar a angústia disso tudo.” começou vagarosamente, se colocando no lugar alheio. somente por se imaginar naquele cenário seu coração partira uma centena de vezes. “você sabe quem ele é?” perguntou, cuidadoso. meneando a cabeça negativamente conforme escutava o resto, muitos homens apenas abandonavam suas parceiras e filhos e seguiam sem culpa, outros nutriam algum arrependimento, mas nenhuma iniciativa para arrumar a bagunça, qual seria o caso deste em particular? “a culpa não é sua, ann.” garantiu docilmente. “as pessoas tomam decisões na vida, ele tomou a dele, é injusto que se torture por algo que não é de sua responsabilidade. por outro lado, eu entendo, não ter uma explicação faz com que criemos algumas por conta própria. e agradeço por ter me contado isso, eu gostaria de poder te dar um abraço agora, bem apertado, nossas histórias são diferentes, mas também tenho algumas dores que me acompanham há muito tempo.” percebê-la vulnerável fez com que seu coração se apertasse, um misto de sensações: era merecedor daquela confiança? sendo ou não, sentia-se profundamente lisonjeado. “não há motivos para se desculpar.” tachou suavemente.
ele riu alegremente, hazel parecia tão cativante quando se colocava no papel de sua esposa. “ela é sim. mas eu sou nitidamente suspeito para falar dela.” gracejou, esboçando um largo e saudoso sorriso. “vocês se dariam bem. será que eu me daria bem com a sua mãe?” se pegou pensando nisso por um momento. “é, realmente, você tem um bom argumento. gostaria que fosse diferente, que muitas coisas fossem diferentes na verdade, quem sabe no futuro não passemos mais por esses problemas, não é?” imaginar que o mundo seria um lugar melhor era uma das maiores motivações para não desistir de seguir em frente, especialmente quando se pensava em ter filhos.
“é verdade, eu te fiz prometer isso!” indicou com graça, erguendo um dos indicadores e o balançando ligeiramente. tinha um sorriso afetado nos lábios, pequenos detalhes o cativavam e não seria diferente na presente situação quando tudo que hazel parecia falar era interpretado com muito entusiasmo e doçura. chord rejeitou o comentário seguinte veementemente, sua cabeça balançou e uma carranca se formou em suas feições. “ora, por favor, você olharia pra mim e torceria o nariz justamente por eu ser tão... bobão.” se eles se limitassem pela aparência, talvez nunca realmente chegassem a se conhecer, mas naquele experimento onde não existiam quase nenhum estímulo visual, a história era outra. “eu sei que você não leva a sério todos os meus elogios, mas continuarei firme e forte, vai que um dia eu a convença que você é maravilhosa.” tagarelou de maneira extrovertida. com o assunto seguinte, seu sorriso vacilou um pouco, não tinha pretensão de partir o coração de ninguém e como havia expressado sua confusão há pouco, ficou ligeiramente sem graça. “que isso.” e soprou uma risadinha, esperando que o assunto terminasse.
deduziu pelas passadas que hazel se movimentava pela cabine e que assim como ele sentia-se ansiosa com todo o contexto, ele sorriu e passou a fazer o mesmo, caminhando com certa cerimônia até. “seres humanos têm uma tendência assustadora a complicar as coisas, alguns até romantizam o sacrifício romântico, estudantil e profissional. não me enquadro em nenhum desses casos, aprecio a facilidade, simplicidade e calmaria.” expôs sabiamente. “então fico feliz por gostar disso em mim, hazel.” emendou o agradecimento, esboçando um sorriso genuinamente grato, mas que infelizmente não seria mirado devido às circunstâncias atuais. “agora me diz, você se considera alguém simples?” hazel era, sem dúvidas, uma mulher intrigante, portanto, chord gostaria de mergulhar nas perguntas para que pudesse conhecê-la além do que era exposto com o avançar do encontro. um novo riso escapou naturalmente de seus lábios, acompanhando o som que vinha do outro lado; uma mistura interessante de timbres, ele poderia se acostumar com som do riso alheio e de ser a razão dele também. sua mente vagou em direção a devaneios atrelados com uma vida a dois, gradativamente se construía os demais; os filhos, as possíveis desavenças e reconciliações, uma velhice compartilhada com simplicidade. morreria feliz se concluísse que viveu bem e que experimentou o amor em sua plenitude. "seria mais fácil, não é?" murmurou, ainda distante.
precisou limpar a garganta na esperança que aquele engasgo o deixasse, mas a sensação permaneceu. seu estômago até revirou com o prosseguir do assunto. e chord se odiou por ser tão sensível, não podia esperar que alguém fosse continuamente cuidadoso consigo ao mesmo tempo não suportaria indelicadezas, era necessário encontrar um intermédio para que as coisas fluíssem num fluxo que funcionasse para ambas partes. "você tem toda razão." concordou roucamente, assentindo de forma automática. "precisamos avaliar todos esses detalhes e coloca-los na balança. você sabe do meu limite e eu sei do seu, temos que ver como isso funcionaria para nós e se funcionaria." esperava que nenhum deles fossem radicais em suas opiniões e que de alguma forma cedessem quando necessário para encontrar um caminho que pudesse ser percorrido juntos. obviamente que uma incômoda apreensão carregava seus ombros, porém não esquentaria tanto a cabeça somente com suposições. "hum, desde que não exagere tanto em quantidade como em frequência, acredito que eu possa… tentar." se colocou lentamente, duvidando parcialmente de si por um segundo, no outro estava um tanto quanto determinado. "mas isso não depende unicamente de mim, de qualquer forma, você precisa concordar também." o comentário sobre os drinks não alcoólicos lhe agradou então sorriu. "eu imagino que sim, da mesma forma, posso fazer com que se divirta sem álcool." ressaltou numa falsa presunção. "sendo eu, unicamente eu, responsável por entorpecer seus sentidos. de maneira bem natural." a princípio era para ser somente uma de suas piadas sem graça, porém conforme a frase se formava e era expelida, sua voz - que já era naturalmente rouca, trouxe um timbre que flertava com a diversão e malícia.