chord tinha o hábito de tagarelar bastante, especialmente quando acreditava ter um ponto, às vezes ele poderia pecar e ser ligeiramente inconveniente, em outras, conseguia perceber o limite do bom senso. a sorte aparentemente sorriu para si e o homem notou que não deveria persistir no assunto. “oh, eu entendo.” disse o mais natural possível, pensando se deveria acrescentar algum comentário quando ouviu a frase seguinte. para chord, mascarar suas emoções nunca foi uma alternativa válida, mas esta era a sua história, não de hazel. o marceneiro não soube como reagir a princípio, deveria aceitar aquelas palavras vazias ou oferecer sua escuta para que ela falasse sobre seus sentimentos abertamente? antes que pronunciasse qualquer outra coisa, a mulher criou seu próprio caminho e chord escutou silenciosamente, sentindo uma vontade esmagadora de abraça-la, talvez fosse demasiadamente afetivo fisicamente e pensar em como ela reagiria a isso o deixou distraído por alguns segundos. ela o afastaria ou cederia? “eu posso imaginar a angústia disso tudo.” começou vagarosamente, se colocando no lugar alheio. somente por se imaginar naquele cenário seu coração partira uma centena de vezes. “você sabe quem ele é?” perguntou, cuidadoso. meneando a cabeça negativamente conforme escutava o resto, muitos homens apenas abandonavam suas parceiras e filhos e seguiam sem culpa, outros nutriam algum arrependimento, mas nenhuma iniciativa para arrumar a bagunça, qual seria o caso deste em particular? “a culpa não é sua, ann.” garantiu docilmente. “as pessoas tomam decisões na vida, ele tomou a dele, é injusto que se torture por algo que não é de sua responsabilidade. por outro lado, eu entendo, não ter uma explicação faz com que criemos algumas por conta própria. e agradeço por ter me contado isso, eu gostaria de poder te dar um abraço agora, bem apertado, nossas histórias são diferentes, mas também tenho algumas dores que me acompanham há muito tempo.” percebê-la vulnerável fez com que seu coração se apertasse, um misto de sensações: era merecedor daquela confiança? sendo ou não, sentia-se profundamente lisonjeado. “não há motivos para se desculpar.” tachou suavemente.
ele riu alegremente, hazel parecia tão cativante quando se colocava no papel de sua esposa. “ela é sim. mas eu sou nitidamente suspeito para falar dela.” gracejou, esboçando um largo e saudoso sorriso. “vocês se dariam bem. será que eu me daria bem com a sua mãe?” se pegou pensando nisso por um momento. “é, realmente, você tem um bom argumento. gostaria que fosse diferente, que muitas coisas fossem diferentes na verdade, quem sabe no futuro não passemos mais por esses problemas, não é?” imaginar que o mundo seria um lugar melhor era uma das maiores motivações para não desistir de seguir em frente, especialmente quando se pensava em ter filhos.
“é verdade, eu te fiz prometer isso!” indicou com graça, erguendo um dos indicadores e o balançando ligeiramente. tinha um sorriso afetado nos lábios, pequenos detalhes o cativavam e não seria diferente na presente situação quando tudo que hazel parecia falar era interpretado com muito entusiasmo e doçura. chord rejeitou o comentário seguinte veementemente, sua cabeça balançou e uma carranca se formou em suas feições. “ora, por favor, você olharia pra mim e torceria o nariz justamente por eu ser tão… bobão.” se eles se limitassem pela aparência, talvez nunca realmente chegassem a se conhecer, mas naquele experimento onde não existiam quase nenhum estímulo visual, a história era outra. “eu sei que você não leva a sério todos os meus elogios, mas continuarei firme e forte, vai que um dia eu a convença que você é maravilhosa.” tagarelou de maneira extrovertida. com o assunto seguinte, seu sorriso vacilou um pouco, não tinha pretensão de partir o coração de ninguém e como havia expressado sua confusão há pouco, ficou ligeiramente sem graça. “que isso.” e soprou uma risadinha, esperando que o assunto terminasse.
deduziu pelas passadas que hazel se movimentava pela cabine e que assim como ele sentia-se ansiosa com todo o contexto, ele sorriu e passou a fazer o mesmo, caminhando com certa cerimônia até. “seres humanos têm uma tendência assustadora a complicar as coisas, alguns até romantizam o sacrifício romântico, estudantil e profissional. não me enquadro em nenhum desses casos, aprecio a facilidade, simplicidade e calmaria.” expôs sabiamente. “então fico feliz por gostar disso em mim, hazel.” emendou o agradecimento, esboçando um sorriso genuinamente grato, mas que infelizmente não seria mirado devido às circunstâncias atuais. “agora me diz, você se considera alguém simples?” hazel era, sem dúvidas, uma mulher intrigante, portanto, chord gostaria de mergulhar nas perguntas para que pudesse conhecê-la além do que era exposto com o avançar do encontro. um novo riso escapou naturalmente de seus lábios, acompanhando o som que vinha do outro lado; uma mistura interessante de timbres, ele poderia se acostumar com som do riso alheio e de ser a razão dele também. sua mente vagou em direção a devaneios atrelados com uma vida a dois, gradativamente se construía os demais; os filhos, as possíveis desavenças e reconciliações, uma velhice compartilhada com simplicidade. morreria feliz se concluísse que viveu bem e que experimentou o amor em sua plenitude. “seria mais fácil, não é?” murmurou, ainda distante.
precisou limpar a garganta na esperança que aquele engasgo o deixasse, mas a sensação permaneceu. seu estômago até revirou com o prosseguir do assunto. e chord se odiou por ser tão sensível, não podia esperar que alguém fosse continuamente cuidadoso consigo ao mesmo tempo não suportaria indelicadezas, era necessário encontrar um intermédio para que as coisas fluíssem num fluxo que funcionasse para ambas partes. “você tem toda razão.” concordou roucamente, assentindo de forma automática. “precisamos avaliar todos esses detalhes e coloca-los na balança. você sabe do meu limite e eu sei do seu, temos que ver como isso funcionaria para nós e se funcionaria.” esperava que nenhum deles fossem radicais em suas opiniões e que de alguma forma cedessem quando necessário para encontrar um caminho que pudesse ser percorrido juntos. obviamente que uma incômoda apreensão carregava seus ombros, porém não esquentaria tanto a cabeça somente com suposições. “hum, desde que não exagere tanto em quantidade como em frequência, acredito que eu possa… tentar.” se colocou lentamente, duvidando parcialmente de si por um segundo, no outro estava um tanto quanto determinado. “mas isso não depende unicamente de mim, de qualquer forma, você precisa concordar também.” o comentário sobre os drinks não alcoólicos lhe agradou então sorriu. “eu imagino que sim, da mesma forma, posso fazer com que se divirta sem álcool.” ressaltou numa falsa presunção. “sendo eu, unicamente eu, responsável por entorpecer seus sentidos. de maneira bem natural.” a princípio era para ser somente uma de suas piadas sem graça, porém conforme a frase se formava e era expelida, sua voz - que já era naturalmente rouca, trouxe um timbre que flertava com a diversão e malícia.
Hazel não tinha o costume de compartilhar tanto de si, mas havia algo do outro lado daquela cabine que lhe chamava para abrir seu coração de uma forma muito positiva - e era muito bom para ela. Chegou a abrir um sorriso grande pensando em encontrar o outro algum momento e confirmar que era tudo aquilo que estava imaginando - torcia muito para que ele de fato estivesse tão investido nas conversas quanto ela, e não apenas respondendo coisas genéricas para agradar-lhe os ouvidos. A voz rouca vinda de Chord cortou o seu imaginário e a trouxe de volta para a conversa que estavam tento e ela sorriu lateralmente, lembrando-se da única vez que tivera a oportunidade de ver o pai. “Eu sei quem ele é... Eu o encontrei, quando era mais nova.” Lembrou de como usou suas habilidades de internet para achar seu genitor e ele parecia ter uma vida pacata. “Mas ele não sabe quem eu sou... Nos vimos e eu não tive coragem de me apresentar. Ficou por isso mesmo.” Deu de ombros, com um falso desdém. Era algo que tinha imaginado muito, talvez hoje já não fazia diferença, mas durante muitos anos não era isso o que sentia. Sentia raiva, sentia tristeza e, por mais que odiasse admitir isso mesmo que para si mesma, sentia esperança de tê-lo de volta. As palavras do companheiro eram reconfortantes, soava de forma extremamente positiva para ela, era bom poder compartilhar com alguém de confiança (e talvez mais um milhão de pessoas assistindo?). Ela sorriu, mais uma vez desejou que as paredes não os separassem. “Pelo menos eu sei exatamente o que eu não quero fazer com meus filhos, e sei exatamente o que nunca desejo que eles passem.” Neste momento pensava não só no abandono paterno, mas no distanciamento emocional da mãe. “Então nossos filhos vão ter uma mãe muito amorosa.” Tentou trazer uma brincadeira para aliviar o clima que se encontravam e tentar manter as emoções dentro de si, ainda. Não podia esperar pelo momento que iria vê-lo pessoalmente e manter um abraço por alguns momentos - torcia para que fosse como um casal, mas podia aceitar aquele como amigo e não reclamaria em nada, afinal, era uma pessoa que sabia lhe trazer e acalmar emoções.
Ainda naquele sentimento de envolvimento, pensou como seria a relação do rapaz com sua mãe, e poupou uma risada alta, limitando-se a dizer “Ela é crítica.” Negou com a cabeça. “Talvez tenha medo de eu repetir os erros dela, mas quando ela gosta de alguém, ela realmente gosta... Você é uma pessoa muito boa, não vejo como ela não gostaria.” Mas tudo aquilo apenas era o que ela podia imaginar. “A verdade é que minha mãe nunca conheceu ninguém que eu saí, então não tem muito com o que eu possa comparar.” Soltou o ar dos pulmões.
A imaginação dos dois os permitia viajar até o futuro e também em um passado alternativo. “Meu compasso moral normalmente me leva para caras duvidosos, talvez eu não te encontraria por você ser uma pessoa boa demais... E nunca perderia seu tempo sequer entrando no tipo de estabelecimento que eu estou.” Reforçou sua ideia, dando uma risada baixa. “Você não é bobão...” Completou. “E pelo som da sua voz, eu provavelmente gastaria bons minutos na sua mesa se fosse sua atendente.” Não podia sequer juntar imagens de como era o rosto do rapaz, mas quando fechava seus olhos, só conseguia imaginar todas as sensações de estar com ele - sua pele arrepiou por um momento e respirou fundo para voltar para a conversa que estavam dividindo.
Talvez a palavra que usou parar descrever o rapaz era o que mais se apegava naquele momento: simples. Era simples para ouvir, para compartilhar, para imaginar, para se entregar. Era tudo muito simples, e isso a deixava contente. E a pergunta do rapaz a fez pensar bastante, e um silêncio foi formado, o que era algo não convencional naquela cabine. “Não sou...” disse, por fim. “Acho que isso que me atraiu em você... Um pouco daquilo de ‘os opostos se atraem’” Fez aspas com os dedos, tinha o cenho franzido e mordiscava o lábio. “Eu tenho a tendência de pensar demais e analisar demais, e quando eu vejo, já estou afundada na situação e transformei em algo muito mais pesado do que deveria ser.” Soltou o ar dos pulmões aos poucos. “Chord, você precisa parar de me desvendar tão fácil, eu não estou gostando disso.” Sua voz tinha um tom brincalhão, mas de fato o rapaz conseguia ler a garota facilmente e aquilo a deixava sem chão, era tão acostumada a se manter em pose - talvez aquele momento não era para isso, afinal, se dessem certo não é um relacionamento qualquer e sim um casamento que iriam levar juntos.
Não era fácil para a garota se lembrar da última vez que saíra para um ambiente sem entorpecentes - mesmo que ela não fizesse o uso, era o tipo de local que frequentava e, principalmente, trabalhava. Nem sempre era de seu agrado, isso era fato, mas estava ali e não podia ser muito diferente. Seu estômago revirou, talvez fosse o momento de fazer uso do seu diploma, finalmente? Deixar de lado sua vida de “Peter Pan” e ser adulta? Afinal, aquele momento era de construir um casamento e uma família, e não só um cara com quem ela iria sair. Tudo precisava ser pesado. “Eu também posso tentar...” Disse, por fim. Não era nenhum sacrifício, oras. As taças de vinho seriam mantidas, mas não havia a necessidade de beber até um coma alcóolico. Era o mesmo peso e a mesma medida. Pensando em aliviar o clima para os dois, a garota não pôde deixar de brincar. “Tivemos nossa primeira dr e nosso primeiro acordo no nosso relacionamento? É isso?” Sua risada foi baixinha e se esvaiu dando lugar ao sorriso malicioso nos lábios, devido ao flerte das últimas palavras proferidas pelo rapaz. “Eu aposto que te ter nos meus lábios vai ser muito mais prazeroso do que álcool.” Ao finalizar as palavras, Hazel arregalou os olhos para si mesma e apenas moveu os lábios com ‘OH MY GOD’. Levou uma das mãos á cabeça, pensando no que acabara de dizer para tantas pessoas ouvirem.
Naquele momento agradeceu que o encontro estava ao fim, não suportaria mais alguns segundos na memória do que estava acontecendo. “Eu espero te encontrar amanhã.” Suas palavras eram simples, mas para quem a conhecia, diziam muito sobre o que ela sentia naquele momento. “Até logo, Mr. Hazel Ann Reich.”