𝐓𝐇𝐄 𝐓𝐑𝐔𝐓𝐇 𝐔𝐍𝐓𝐎𝐋𝐃 ❞ 𝐓𝐇𝐄 𝐁𝐄𝐆𝐈𝐍𝐍𝐈𝐍𝐆 𝐎𝐅 𝐓𝐇𝐄 𝐄𝐍𝐃. 𝗌𝖾𝗅𝖿𝗉𝖺𝗋𝖺 ⿻ 𝗅𝗂𝗆𝖻𝗈, 𝟣𝗌𝗍 𝖽𝖺𝗒.
“…as notícias de hoje. Um ônibus de viagem escolar fretado colidiu essa manhã (29) com um caminhão de entregas, e em seguida, caiu de um barranco de 160 metros de altura. A escola informa que o ônibus levava 12 estudantes de nível médio e mais 4 professores parte da equipe técnica para uma competição esportiva no final de semana. Não foram encontrados sobreviventes. A empresa responsável….”
Como se tivesse dormido por um longo período como um urso em hibernação que acabava de acordar de um pesadelo, Choi Yobin teve seu primeiro despertar em uma praia desconhecida. Sua mente parecia um embaralhado de memórias e vozes, todas sem seguir uma linha do tempo contínua e vindo em uma enxurrada de sons e imagens, bombardeando o cérebro do garoto perdido.
Os olhos, semicerrados por causa da claridade repentina, procuravam por um ponto conhecido, onde pudessem se agarrar, mas em vão. Estava em uma praia que nunca vira antes, o que não era difícil — raramente ia à praia, tinha aversão ao sol. A paisagem seguia uma paleta de cores limitada, relembrando uma pintura, perfeita demais para parecer real. A areia branca e o céu azul límpido, quase sem nuvens, que no horizonte se misturava com o azul do oceano até se tornarem um só; machucavam as retinas de Yobin, que instintivamente ergueu uma das mãos sobre o rosto, bloqueando parte dos raios luminosos. Seu corpo, dolorido, parecia que tinha passado por um dos treinos intensos do time de vôlei no dia anterior, mas sua memória não conseguia se lembrar se isso, de fato, tinha acontecido.
O que mais o surpreendia é que, além de estar em uma praia, estava usando seu uniforme escolar. Tateou o bolso da calça procurando pelo aparelho telefonico, sua carteira ou seu vídeo game. Vazios. Teria sido um sequestro seguido de assalto? Não conseguia lembrar do que estava fazendo ou onde estava antes de aparecer ali por mais que se esforçasse. Estava tudo nebuloso demais em sua mente. — Talvez um pesadelo — sussurrou, beliscando a própria bochecha, sentindo um ardor incômodo no local. Nada aconteceu, nada mudou. A paisagem continuava a mesma e ele ainda era o único ali pelo menos num raio de três quilômetros.
Descalço, prosseguiu andando pela praia, bem perto da quebra das ondas, que vez ou outra levava um pouco da água do mar para os pés dele. O gosto salgado da maresia nos lábios secos de Yobin o fazia ansiar mais do que nunca por um copo de chá gelado e um pouco de sombra fresca. Definitivamente não gosta de praia e sol. — Ei, você aí, hagsaeng! — Surpreso, o adolescente girou os calcanhares imediatamente em direção a onde achava que vinha a voz, dando de cara com a silhueta de um homem mais velho, trajando algo que parecia ser um uniforme militar escuro, a um pouco mais de um metro de distância. Ele não estava ali antes quando passara, tinha quase certeza disso. Mas sua cabeça doía demais por causa do sol e das tentativas frustradas para relembrar o que tinha acontecido que ele não ligou, se aproximando do estranho. — Finalmente encontrei alguém. Onde estamos? Se não em Seul, como faço para voltar? Se tiver algum telefone posso ligar para os meus pais me pegar- — O estranho não poupou folêgo, cortando Yobin friamente — Você está na sua casa. — Como? — Os cenhos franzidos, em clara confusão. Estava em Gangwon-do? Não parecia com a praia de lá. — Êeh? Então você é mais um dos que não se lembram de nada? — O homem suspirou em frustração, levando os indicadores as têmporas, massageando o local. — Eu deveria imaginar, esse tipo de coisa sempre sobra para mim. Preste bem atenção — falou, cruzando os braços na altura do peitoral — eu só vou explicar uma vez. Não me interrompa até que eu diga que terminei, não importa o que, entendido?
As memórias voltaram com uma lufada a cada frase que o outro proferia. A despedida em frente ao ginásio da escola, a imagem de seus pais diminuindo a cada vez mais que o ônibus se distanciava rumo ao destino fatídico dos jovens, os flashs de luz, o barulho metálico e então o breu. Yobin se esforçou para não chorar, mas foi inevitável, sem perceber sua bochecha já estava molhada de copiosas lágrimas e as pernas fraquejavam, procurando por apoio. Antes que perguntasse, Dol Swe — como havia se apresentado seu receptor minutos antes — continuou a explicação, como se adivinhasse o que o recém chegado pensava. E de certa forma ele poderia, já faziam tantos anos que repetia aquele processo que já sabia de cor e salteado as reações, o desespero ao descobrir seu destino, as lamúrias e questionários de sempre.
— Não, você não está no céu, apesar de que aqui se parece com a ideia do paraíso que os humanos têm. Pelo menos quando se trata de paisagem. — Fez uma careta. A cidade era muito bonita, exceto pelos grandes muros que circundavam os limites dela, mas viver ali, por tanto tempo, sem saber o que ainda os mantinham ali, não era tão divertido para a maioria. Muito menos para o guia. — Também não é o inferno, se é o que pensou.
— Onde, então? — Interrompeu, recebendo uma carranca assustadora de repreensão. — Entre os dois. — Dol Swe respondeu a contra gosto, provavelmente por ter sido interrompido ou por ser um mal-humorado nato. — Porque você está aqui? Não sei. Como e quando vai sair daqui? Não dou a mínima. Sei tanto quanto você e, na verdade, depois de tantos anos aqui isso não me interessa mais. Estou aqui apenas para recebê-lo e guiá-lo até seu novo lar e alma gêmea. — A última palavra saiu ácida, como se tivesse uma pitada de inveja ali. A cabeça de Yobin deu voltas, era muita coisa para absorver em tão pouco tempo. Morreu. Repetiu mentalmente, como se aquilo fosse ajudar a aceitar a verdade cruel. E seus pais? Será que já haviam descoberto? Será que seu corpo já havia sido velado? Era filho único, aquilo, a sua morte, provavelmente deixaria cicatrizes profundas neles. Seus companheiros de time, alguém teria se salvado? A partida final de vôlei que os esperava no fim de semana, os exames do SAT que seriam daqui a cinco meses, o jogo que havia encomendado pela internet e que ainda não havia chegado, a viagem para Jeju de conclusão que iria com os amigos. Tantos planos e agora nenhum seria realizado. E ainda assim, apesar de não estar mais lá, sabia que o mundo iria continuar a funcionar como sempre funcionou. Que um dia, seus pais iriam voltar a trabalhar e seguir com a vida, talvez até adotassem um cachorrinho para preencher o vazio deixado, talvez se mudassem para não viver de memórias dolorosas no apartamento em que Yobin passou a sua vida inteira. E o que o ceifador — apelido nada carinhoso que ele dera a Dol Swe — queria dizer com alma gêmea?
— Está pronto? — Dol Swe perguntou após longos minutos em um silêncio esmagador, o qual havia deixado especialmente para que o garoto pensasse sobre a sua condição e, se tivesse sorte, aceitasse melhor que os outros que passaram ali antes dele.
— Unhun. — Yobin concordou com um aceno positivo de cabeça, enxugando as lágrimas com as costas da mão. Não é que havia aceitado a ideia completa de estar morto. Não se sentia morto. Mas por hora, tudo que queria era sair daquela praia maldita, e se isso implicava em um tour não requisitado pela nova cidade ao lado de uma companhia desanimadora, então assim seria.
Yobin seguiu o ceifador por todo lado, que proferia as regras da cidade e seus locais de forma ensaiada, quase como um robô, no modo automático. O espírito recém chegado estava ali em corpo, ou melhor, em alma, mas sua mente rodopiava a todo momento até a última memória em vida, que ficava cada vez menos turva perante aos seus olhos. Queria perguntar se mais algum de seus amigos havia parado ali também, mas se limitou a apenas concordar sempre que Dol Swe lhe perguntava se havia entendido o que havia acabado de falar, mesmo que, de fato, não houvesse escutado uma parcela daquilo.














