selfpara: inverno de 1532, dinastia joseon.
A perna balançava inquieta por debaixo dos tecidos pesados do Hanbok, o sapato tradicional afofando a terra como consequência daquela crise exagerada de ansiedade. Ansiedade. Nem doença era considerada naquela época, e se realmente fosse tão recorrente, nunca que o jovem Ju saberia - considerava aquilo um simples e irritante nervoso, que combinava perfeitamente com o coração acelerado dentro do peito. A quantidade de perguntas que levava em mente eram tantas que havia perdido a conta: Estava nervoso de felicidade pelo melhor amigo estar casando? Nervoso por estar em um casamento real? Nervoso por que estaria acompanhado da própria noiva? Nervoso por que depois dali, quem se casaria era ele? Ou apenas estava nervoso porque... Seu coração doía?
Sentado em um dos templos do Palácio, esperava pelo horário correto do casamente, aguardando a presença de Injong em seu local secreto. Era uma tradição se encontrarem ali todos os dias, e de alguma forma, Mahoon rezava para que aquele não fosse exceção. Inseong não era mais importante que ele, não. Ela nunca havia estado ao lado do príncipe quando ele precisou, nunca enxugou suas lágrimas de frustração, nunca roubou-lhe um sorriso como ele fez. Mas já dormiu com ele, e essa era uma certeza. Tudo bem, na realidade, sabia que Injong já havia deitado com tantas outras cortesãs desde a maturidade, mas ainda assim... Nenhuma delas casaria com ele. Não fazia sentido sentir tanta inveja da princesa quando ele próprio se casaria em breve.
"Mas você nem conseguiu tocar nela, Mahoon." Comentou consigo mesmo. Não entendia seus pensamentos, não entendia. Nada se encaixava, nada se encaixava desde o primeiro momento em que esteve a sós com uma mulher. Não era um santo, muito longe disso, e sequer podia negar que era um homem com desejos, necessidades e que vez ou outra, fugia para um dos cabarés local a procura de uma noite de prazer. Mas por que diabos nunca conseguia sentir prazer de verdade? Nem atração. E por que, dentre todas as que não o satisfaziam, nem sua noiva, que tanto se esforçava em lhe agradar, conseguia fazer senti-lo o calor que o sorriso do melhor amigo fazia?
Lembrava-se da noite passada, quando a moça de olhos mais claros que o normal para a maioria do povo coreano invadiu seus aposentos com um sorriso doce nos lábios. Lhe trouxe uma refeição caprichada e alguns goles de bebida, e mesmo assim, quando soltou as madeixas escuras longas e retirou as vestes tradicionais, Mahoon encontrou a primeira desculpa que veio a cabeça para se livrar daquela situação. Poderiam ter tido uma noite de amor, uma noite onde talvez pudessem até mesmo plantar uma semente que viria a tornar-se seu filho ou filha, e mesmo assim, ele simplesmente... Não conseguiu. Era bela, estonteante, uma escolha digna do bom gosto e exigências de sua mãe, mas não era ele.
"Bu!" Assustou-se, tirado de seus pensamentos pela brincadeira infantil de Injong ao aparecer no local exclusivo deles. Quase o xingou, o que roubou do príncipe uma careta séria. "Quer perder a cabeça? Nem pense nisso!" Apontou para ele, o sorriso carismático tomando seus lábios logo em seguida. Aquele sorriso, capaz de acabar com um exercito inteiro. "O que foi? Está triste por que me casarei antes de você? Bem que seu pai disse que já estava envelhecendo, hyung." Hyung. A brincadeira de tratar Mahoon informalmente só piorava a situação. Era só ele, só ele quem o príncipe chamava de hyung.
"Não posso negar que lhe invejo, Majestade. Ter um casamento no Palácio... Não é para qualquer um, sabe bem." O respondeu, o sorriso desanimado entregando um Ju que se torturava por dentro.
Fora óbvio demais. Injong se sentou ao seu lado, a base das vestes tradicionais para o casamento tocando a terra suja, roubando do mais velho um olhar desaprovador, chegando a levar as mãos a barra dos tecidos caros para levanta-los. "Enlouqueceu? Essas roupas são absurdamente caras!" Reclamou e reclamou, mas pouco o príncipe se importou, tirando suas mãos dali e colocando de volta no colo.
"Não se preocupe com isso, ainda tem uma peça a mais, ninguém vai ver." Recebeu uma leve cotovelada no braço, um sorriso ainda mais sem jeito nos lábios. Aquilo parecia o machucar ainda mais. Perderia aqueles momentos, não perderia? "Viu Inseong hoje? Me disseram que ela seria a rainha mais bela de todo reino, mesmo que não seja considerada tal até meu pai entregar o trono."
Pyeong. Como uma flecha, uma bala de festim, direto no coração ansioso que parecia cada mais vez se espremer. Doía tanto que poderia jurar estar tendo um ataque cardíaco, odiava ouvir o nome dela. "Eu não procurei saber." Respondeu friamente.
"Heh?! Como não procurou saber isso para mim? Tenho certeza que espiou os aposentos dela. Como estão os cabelos? Brilhosos como sempre? Fizeram uma boa escolha, correto? Só não melhor que a sua. Se Goryu fosse de uma família mais nobre, seria o primeiro a me opor ao seu casamento para ficar com ela." A risada de Injong fora alta e clara. Ele sempre comparava suas noivas, como se aquele assunto realmente empolgasse o melhor amigo.
"Sim, Goryu é linda, mas não o deixaria se casar com ela." Mahoon o fitou, respirando fundo enquanto brincava com os dígitos na seda elegante. "Nunca pensou em fugir do reino e casar-se com quem ama? Não estou duvidando de seu amor por Injeong, mas mal se conhecem..."
"Nunca pensei nisso." Respondeu. "Viver em meio a floresta por um amor verdadeiro? Talvez."
De novo aquele sorriso, os olhos se espremendo na face delicada que o futuro rei era dono. Aquela beleza parecia anormal, sobrenatural. Era possível alguém ser tão belo? "Mesmo se esse amor fosse... Diferente?" A confusão no rosto do príncipe se tornou clara.
Mahoon sentia que se não deixasse tudo sair, enlouqueceria. Seu coração doía demais, a bola na garganta o incomodava como uma bola de pelos parecia incomodar um gato, o desejo de seu corpo por algo que sequer conseguia entender parecia explodir por suas células. Queria chorar, e ainda assim, não o fez. Se virou, ficando de frente para o moreno. Deveria estar confuso mesmo, entendia aquilo. Por impulso, o Ju aproximou seu rosto rapidamente, roubando um rápido selar dos lábios do mais alto.
A sensação de nadar em um mar de rosas, aqueles lábios rosados e macios, mesmo que por poucos segundos, fazendo com que parecesse ter chegado aos céus. Nunca havia percebido o quanto queria fazer aquilo, e daquela vez, queria repetir mais ainda. Poderiam fugir e viver em meio a floresta, escondidos do restante da sociedade, vivendo apenas da terra. Pensou, por um momento, ter uma chance. Burro.
Injong, depois de alguns minutos encarando o melhor amigo, levantou-se, afastando-se do jovem. "Devemos nos apressar, devem estar esperando."
Definitivamente, aquela não era a resposta que queria receber. "Viver em meio a floresta, você realmente não quer fazer isso? Eu poderia cuidar da comida, poderíamos viver para sempre no nosso próprio lar, sem tantas regras, sem a responsabilidade que do Reino em suas costas, n-não acha que poderíamos?" A voz quase que suplicava por uma reação, uma reação que não fosse ignorar o selar que lhe roubou.
"Enlouqueceu? Se algum guardar ouvir isso, nem mesmo minha posição nos salvaria." Injong soltou, respirando fundo ao levar o indicador as têmporas e massagear o local. "Depois conversamos, Mahoon."
E então, ele voltou em direção as construções do Palácio. E Mahoon? Ali ficou, por tempo o bastante para criar as expectativas mais inocentes que um jovem apaixonado poderia ter.