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Metrópole
Olhei pela janela do carro e vi a São Paulo com os olhos que a minha mãe me ensinou a olhar. Ela segurava firme minha mão, e me fazia olhar para o céu e encarar as duras e esguias contruções. Me pergunto se propositalmente para que eu evitasse notar a dura vida que existia ali no chão. Se eu perguntar, talvez ela não vá se lembrar. Mas na época, minha mãe lia "A Hora da Estrela", e chorava com a Macabéa. E eu romantizava os prédios, sempre vi rostos em suas janelas. O clima era o típico paulistano, 18 graus, garoa, e as ruas cheirando a urina. Hoje eu olho para o chão, e reparo nos corpos que ali habitam, transitam, e então olho para o céu, e ainda me sinto uma menina.
Nua
Nua, nua, nua, nua Completamente despida, exposta À flor da pele Com cicatrizes a mostra A carne viva Nua, nua, nua, nua Frágil e sozinha Nessa cidade suja, suja, suja, suja Nem mesmo o odor das minhas feridas Pode ser pior Não, ouso dizer! Nada pode ser pior Do que tua água que não me mata a sede (É chorume) Teu ar não me preenche o pulmão (É fumaça de caminhão) Lixo, lixo, lixo, lixo Nessa cidade de arranha-a-pele Nada é maior do que o "Eu" Eu... Eu... Eu...
Nunca estou sozinha em São Paulo
As vezes me pego pensando se estou realmente feliz completamente solteira, se é isso o que eu realmente quero. Me sinto sozinha, e aceito que talvez esse seja o meu destino, estar cronicamente solteira. Ainda tenho muito a melhorar, talvez um relacionamento não seja exatamente o que eu precise agora, e sim aprender a apreciar minha companhia. O que eu esqueço é que nunca estou sozinha, nem mesmo quando tomo a decisão de estar sozinha. Sempre esqueço o quanto sou amada, e o quanto a minha companhia é desejada. Tenho bons amigos, pessoas que tem a mesma energia de vida que eu. São Paulo é a minha terra, e estou sempre cruzando pessoas que querem o mesmo que eu: Se divertir! Se decido estar sozinha, recebo um convite pra sair, ir a um museu, tomar uma cerveja. E quando faço essas coisas sozinhas, encontro quem a muito tempo eu não via e nutro um carinho reciproco. O universo tem um jeitinho especial de me lembrar que sou amada.
O amor é sorte
Nenhum relacionamento é perfeito, e todos eles tem uma data de validade. Seja até que a morte os separe, ou os conflitos do dia a dia. Nenhum amor é por acaso. Nenhum relacionamento se sustenta sozinho. Eu diria que é uma combinação de fatores e magia. Alguns encontros aconteceram em alma, muito antes do encontro de corpo. Alguns amores são assim, pessoas que foram feitas uma pra outra. Algo que poucos têm. E mesmo quando essas almas se encontram, é necessário muito trabalho pra fazer dar certo, pois nessa vida, o ego sempre se sobressai. Para encontrar um amor, é preciso abandonar o ego e deixar nas mãos do destino. É preciso entender que antes de amar a si mesmo, é necessário amar o próximo a um limite do incondicional. Não é abandonar quem você é, mas entender que você se torna outro quando está com ele. E o melhor sinal de que um amor nasceu pra dar certo, é quando você se torna uma pessoa melhor do lado da pessoa amada. O amor é sorte. É a sorte de estar no lugar certo, na hora certa.
Daddy Issues
Cresci sendo a garotinha do papai. Mimada financeiramente, mas nunca afetivamente. Quando criança, eu não notava sua ausência emocional, porque ele se fez muito presente em tudo. Além das notas sarcásticas que recebia sobre o quanto meu fazia por mim o que nunca fez para os meus irmãos. Essa culpa de ter nascido na época certa, de maturidade paterna do meu pai, me acompanhou durante muito tempo. Até eu crescer, e perceber que o que eu recebia do meu pai eram muitas coisas, menos esse afeto de filha favorita do pai. E o sentimento de ingratidão e mágoa se mesclou em meu coração, o deixando frio. Mas o padrão já havia se instalado, e contrariando meu analista, algumas coisas eram sim culpa do meu pai. Cresci acreditando que homens indisponíveis emocionalmente eram os únicos capazes de me amarem, que seus sinais de indiferença eram na verdade sinais confusos, "ele me ama, só não sabe demonstrar isso em gestos afetivos... olha só, ele me levou pra jantar! e pagou a conta. não é demais?" Depois de muitos corações partidos e bons anos de terapia, percebi que assim como meu pai, também sou emocionalmente indisponível. Olhei para o meu passado com olhos desvendados e percebi quantos amantes eu perdi por procurar algo que me trouxesse emoção, a adrenalina de não saber o que vai acontecer. Meus problemas com comprometimento não são causados pelo meu pai, e sim pelo os meus traumas, que deixei de cuidar e viraram feridas em meu coração. Que me fizeram procurar amor em todos os lugares errados, e não olhar para as ações de afeto que meu pai sempre demonstrou. Me trazer um chá quando estou doente, me socorrer todas as vezes em que tentei tirar minha vida. Só Deus sabe de onde ele tirou a força pra me carregar desacordada ao hospital, mais de uma vez. De me dizer a verdade, mesmo quando eu não quero ouvir, de aceitar em silêncio todas as vezes em que eu fui errática, e mesmo assim, me trazer um doce no final do dia. Meu pai atravessou estados pra me ver, tantas vezes que não posso contar. Inclusive a ponto de me visitar em outro país. Ele, assim como todos os outros homens, tem dificuldades com a sua masculinidade, mas se o meu pai, que é o homem mais indisponível emocionalmente, consegue demonstrar afeto em pequenos gestos, por que eu deveria esperar menos de quem um dia jurou querer passar a vida ao meu lado? Por que nós mulheres, que cuidamos tanto dos homens, não podemos esperar o mesmo em troca? Por que o caminho pro amor verdadeiro tem que ser grandes gestos ou migalhas? Eu quero o meio termo. Eu sinceramente, não ligo se você não me disser nunca que me ama, desde que suas ações me digam isso. Eu quero pequenos gestos, pequenas gentilezas. Eu quero o que meu pai, meu irmão, e todos os homens da minha família me ofereceram a vida toda: O esforço.
Manolo Blahnik
E Mary Janes
Por muito tempo minha única maneira de comunicação foi a escrita, não sabia transmitir meus sentimentos se não por palavras, e ainda assim, era uma situação confusa. Muitas causas para o porquê disso, embora nenhuma seja justificativa para uma certa discordância de minhas linhas para minhas atitudes. Minhas palavras e ações nunca conversaram entre si. Eram uma desarmonia, uma orquestra "desinfônica". Mas era o que me aliviava. Viver em um mundo tão caótico quanto a minha cabeça é um desafio que nem mesmo se eu tivesse o repertório de 40.000 livros, e saber de cor e salteado as palavras de 23 dicionários de idiomas, eu conseguiria descrever a rapidez do meu fluxo de ideias. E não digo isso de maneira arrogante, coloco como algo assustador. Uma hora estou no céu, logo seguida encontro o inferno, sem sequer sair do lugar. Lembro de todas as poesias que escrevi chapada, drogas que eu usava na tentativa de limpar o pensamento, mas quanto mais eu tragava, mais haikaiss o meu raciocínio ficava. Algumas poesias eu deveria ter guardado, outras acredito que nunca deveriam ter sido postadas, mas o que posso fazer? Ao contrário de muitos dos meus colegas artistas, não é maconha que me inspira, e sim o amor. Hoje, inclusive, o que me inspirou a escrever sobre meu contato com a escrita não foi um exercício de leitura e escrita que me foi solicitado pela professora na faculdade, e sim o meu amor pelos sapatos. É, eu sei, parece estranho, como pode alguém ter seus olhos umedecidos, marejados, coração aquecido e apertado, apenas ao ver uma linda edição de Mary Janes do Manolo Blahnik? Acho que talvez Carrie possa me entender, embora a personagem de Sex and the City escreva sobre sexo na série, assim como eu, ela é apaixonada por sapatos. E crescer com tal referência me fez achar normal em uma mudança de casa, ter que separar duas malas apenas para calçados. Aparentemente, não é a relação mais saudável do mundo, mas em contrapartida, um belo sapato nunca quebrou o meu coração. Sapatos não mentem. E não só porque são objetos inanimados, mas porque se a moda é a expressão de personalidade sem palavras, um bom sapato diz tudo o que você precisa saber sobre uma pessoa. Quer um exemplo? Você pode estar vestida inteiramente formal, mas se mudar os sapatos sociais para um tênis, a leitura sobre você terá um impacto totalmente diferente. Embora o consumismo seja considerado algo fútil, poucas coisas no mundo me fazem sentir as coisas que sinto quando vejo um belo sapato de um designer. Sapatos falam comigo, e eu apenas os escuto. Sem saber muito bem como transcrever o que eles me dizem, eu apenas choro.
Protagonista ou vilã?
Sinto que vivi tempo o suficiente para me tornar a vilã. Tempo demais com o ego ferido, magoado, estraçalhado, faz com que você não olhe muito para o redor. E não é que eu não queira ser uma pessoa melhor, eu quero. Eu só quero ser melhor pra mim. Sinceramente, não quero mais me doar enquanto secretamente sangro em silêncio. Não quero esperar de ninguém, algo que nem mesmo eu posso oferecer: coerência. Mas quanto mais eu tento, mais eu falho. E mais eu adoeço, e pereço neste papel patético de vilã da minha própria história. Quanto mais me aceito e assumo um bosta, mais me afundo nesse esgoto. Nunca imaginei que ao olhar pra mim, encontraria tanta podridão. E o mais incrível, conforto em assumir pra mim mesma que essa sou eu. Eu não sou uma boa pessoa. Não tenho mais interesse em ser uma boa pessoa. Agora, eu só quero me isolar dentro do conforto do meu ego. Ser independente a ponto de não precisar de relações profundas e ser confortavelmente infeliz.
lentamente dançando Shiloh
você me apresentou joji eu te apresentei shiloh é uma forma simplória de resumir nosso amor já que fomos ambos nossos primeiros amores e corações partidos e uma distância terrível nos separou por tanto tempo que mesmo quando próximos nossa única ligação era a traumática
Japanese garden
Pensei em pegar minhas coisas e fugir pro Japão. Recomeçar do zero, em um lugar onde ninguém me conhece, onde não falo sequer uma frase completa com fluidez na sua língua materna. Com o mesmo recurso que tive ao ir para o Uruguai. A motivação definitivamente seria a mesma... Fugir desse sentimento de frustação. Eu sou como um jardim vazio, dentro de mim não há nada a não ser ervas daninhas. Meu solo é infértil. Tudo que eu planto morre de maneira trágica. Não pense que estou encarando minha vida de maneira negativa, pelo contrário, estou sendo realista. Me comparo a objetos e a coisas abstratas pois é mais fácil para que você entenda. Eu sou finita, minha utilidade é facilmente substituível e minha personalidade forte é... desagradável. Não estou me depreciando, embora possa parecer, acredito que numa sociedade egóica, onde o centro de suas ações é o próprio.. eu, requer muito esforço se reconhecer como medíocre. Me comparo a um jardim medíocre porque sou perfeita como plano de fundo na vida das pessoas. Sou a coadjuvante que você sempre desejou, nem bonita demais, nem esperta demais, apenas... mediocre. Alguém que não se importa com as suas próprias necessidades, pelo contrário, molda todos os seus planos de acordo para acomodar as suas. Eu sou uma perfeita personagem passageira para o seu desenvolvimento pessoal. Alguém para tapar o seu buraco. O lugar que você vai para refletir, para ter o conforto necessário. Eu sou quem vai te ouvir, eu sou quem vai se calar e sempre concordar. Eu sou quem vai assumir a culpa por você. E quando você for embora, vai ficar feliz por te dar boas memórias. Eu sou a porra de um jardim contemplativo japonês, no fundo de uma graphic novel, sem o direito sequer de ter nitidez. E o pior disso tudo é que quando eu tentei Quando eu tentei ser protagonista da minha vida... Foi quando eu perdi tudo, e me vi mais sozinha. Então não, não vai adiantar fugir pro Japão, nem pra Alemanha, não adiantaria nem se eu fosse construir casas no Peru. O problema... O problema sou eu.
Revanche
Tu és vil, pois quando tento te magoar Percebo que a faca está do avesso E estou ferindo a mim mesmo E tu estás a vida a gozar Escolheu bem as palavras Para que mesmo após o fim, eu estivesse aqui Orbitando seu planeta E dói, dói dói dói dói dói dói Um amor faz sofrer Amar por dois faz chorar E parada em frente ao córrego Minhas lágrimas escorrem no ritmo do rio Dançando em meu rosto junto as gotas de chuva E eu preciso continuar Me refazer no fogo Mas por enquanto me afogo em mágoa
ninho
respirei fundo e fechei os olhos dentro de um carro lembrei da sensação de dançar de braços abertos alguma música pop que eu não tenha lá essa conexão mas o ato de dançar, esticando os braços até o céu me faz me sentir livre como se fosse anunciação na bruma leve da paixão que vêm de dentro... mas memória se vai, tão rápido quanto veio não há espaço pro passado no meu presente embora ainda aprecie o valor da liberdade me sinto muito mais livre pra ser eu quando presa entre seus braços onde respiro fundo fecho os olhos e dançamos agarrados em casa e do futuro, só anseio pelo fim de semana quando nos encontramos pra amar
Renato
o gosto do seu beijo sabor café e cigarro sua língua me abraça e seus braços abertos me recebem com todo amor do mundo como uma miragem te encaro por horas a fio fascinada por seus olhos que complementam tão bem a sua boca cheia como lua
a beira
sentada no telhado do Hotel Cecil ou me preparando no banheiro estou na fronteira dos mundos no topo mais alto do mundo no lugar mais escuro do meu quarto daria tudo, tudo pra nunca sequer ter existido o gosto do remédio preso na garganta o corpo grogue que vai ao chão e que desperta cercada de amor de pessoas cansadas e enfermeiras que murmuram algo incompreensível lithium, ela disse e não era do Nirvana pois pra mim não existe um paraíso pra mim, somente os trilhos do metrô a pólvora o fim enfim
Morsei
Sabe quando você fuma um baseado e só quer deitar na grama, ou na areia, olhando pro céu estrelado? E voar longe... Não consigo fazer isso onde moro. Não fumar um, isso eu consigo, mas digo deitar em um chão onde a possibilidade de ver um céu estrelado é maior. Tem tanta fumaça de carro, tanta poluição, que o céu se esconde atrás de nuvens tóxicas. Me divido entre o sentimento de querer matar o governador ou ir embora. No entanto, o que me é acessível, e saber qual é a última da nova edição do Big Brother. Difícil ter minha vida assim, rendida na mão de um entretenimento forçado, pois me vejo hipnotizada. De tanta saturação que uma pandemia me causa. Antes fosse somente o vírus, tenho que lidar com um total descontrole planejado por bilionários que mandam e desmandam nesta nação de praias, um canto onde a areia é fofa e quente, e quando me deito ali, chapada, me proporciona um céu que só aqui, neste pedaço de américa latina, vejo.