esperei o tiro
sem colete à prova de balas

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@comoacertar
esperei o tiro
sem colete à prova de balas
a verdade é que a vida não vai te esperar se curar. ela vai te bater e ensinar na dor que você precisa colar seus cacos enquanto o tempo te alcança e te sufoca.
voarias
O que me falta é coragem.
Tá. Eu sei que não tem necessidade de exposição. Mas fala muito mais de mim do que de nós. Do tanto que eu me doei. Eu tinha pavor de dançar valsa. Nos meus 15 anos tiveram que fazer uma força tarefa pra eu aceitar dançar com meu pai e isso diz muito de quem eu fui pra nós. Inteira. Completa. Entregue. E me diz pra quê? Eu te aceitei na minha vida e confiei no teu sentimento por mim e perdi o mais importante. Que hoje eu tento recuperar. O meu brilho. E eu vou brilhar… nem que pra isso o amor morra.
como eu explico que, às vezes você vai ter que dar um tapinha nas próprias costas e se carregar no colo e fugir pra longe disso
Capítulo 1
O dia amanheceu tão lindo.
Como foi gratificante sentir as ondas do mar cristalino da Praia da Cachoeira pelo meu corpo. A nossa praia. Ainda posso ver a Bella Maria correndo pela areia.
Eu não imaginava que precisava tanto daquele banho até estar dentro dele.
Minha canga na areia, “melhor que nos filmes”, meu livro de romance esperando em cima dela pra ser devorado, minha garrafa d’água… e nada mais me interessava.
Saio da água com meu biquíni cavado, os seios quase escapando, e quando olho pro lado, vejo ao fundo algo que faltava, vindo na minha direção, correndo pela praia.
Era ele.
E, apesar de saber que ele morava muito perto, não podia imaginar que nos encontraríamos ali. Ou talvez devesse. A nossa energia é tanta que parecia inevitável — como se ele tivesse sido puxado de casa pra me encontrar.
Meu corpo já suplicava por esse encontro.
Segui até minha canga como se não tivesse visto. O sol já não estava tão forte, perto de se pôr.
Ele me viu? Será que vai fingir não ver?
Ele passou correndo, com seu tênis da moda, sem parar. Mas eu percebi o sorriso no rosto. Não tentou disfarçar — queria me provocar.
Segui com minha dor de cotovelo, sem me estressar. Abri o livro e comecei a ler, ou pelo menos tentei.
Quando me dei conta, alguns minutos já tinham passado. A praia estava quase deserta, poucas luzes ao redor.
Hora de ir embora. Ou pelo menos… eu achei.
Levantei e me inclinei pra pegar a canga. E então vi, atrás de mim, o tal tênis.
Que cena.
Eu, com meu biquíni cavado, inclinada bem na frente dele.
— Tu quer acabar comigo assim?
Antes de me virar, algo em mim suplica por contato. O corpo se move sem pedir permissão.
Volto à posição e, ainda de costas, me aproximo devagar. Faço ele sentir meus glúteos tocando de leve a pelve dele.
— Eu quero várias coisas… nenhuma delas me favorece acabando contigo — digo, rindo.
Antes que ele reaja, viro depressa, olho nos olhos dele e sigo em direção ao mar.
É o convite.
Ele rapidamente tira os tênis, a camiseta, os fones, o relógio… e, antes que eu entre na água, corre na minha frente e me molha inteira.
Se ele soubesse… que parte de mim já estava encharcada.
O que parecia uma brincadeira leve muda no instante em que vejo o peito dele molhado e sinto uma sede absurda de estar em cima dele. Ele percebe. Meu olhar não disfarça.
Mas não podia ser eu a ceder primeiro. Tava fácil demais.
Me viro. Dou a ele o que sei que desarma.
Mas não demora. Os braços dele me cercam, firmes, decididos, e o toque vem sem pedir permissão. Meu corpo responde na hora, traindo qualquer tentativa de manter distância.
Quando eu viro, já não tem mais espaço pra fingir.
O olhar dele prende o meu, próximo demais, quente demais, e o resto simplesmente desaparece. O controle escapa, a respiração falha, os sons começam a surgir sem filtro.
Ele me puxa, e eu acompanho. O corpo dele reage contra o meu sem esconder nada, e eu sinto — forte, impossível de ignorar — o efeito que causo nele. Isso me atravessa, me acende ainda mais.
Minhas mãos seguram ele, as unhas marcando, puxando, e a cada reação dele o calor só aumenta. Os sons escapam dos dois lados, cada vez menos contidos, cada vez mais verdadeiros.
Sem vergonha nenhuma do volume evidente na bermuda, ele me solta só pra pegar minha mão e me puxar até a areia. Rápido, direto, como se já não pudesse esperar.
O olhar dele muda — menos controle, mais urgência — enquanto procura um lugar onde aquilo possa finalmente acontecer sem interrupção.
Atrás das pedras, ele encontra.
Ali, isolados o suficiente, com o som do mar cobrindo tudo, não existe mais jogo. Só necessidade.
Ele me puxa de novo, o corpo colando no meu com uma intensidade que não deixa espaço pra dúvida. Eu sinto tudo — o calor, a pressão, o ritmo que cresce sem pedir licença.
— Tu tá fazendo de propósito… — ele solta, a voz já falhando.
— Agora tu percebeu? — respondo, sem fôlego.
Os sons escapam mais altos, os corpos se encaixam sem pensar, e tudo o que foi segurado até ali começa a transbordar. O ritmo acelera, a respiração descompassa, e o mundo inteiro se resume àquele ponto onde a gente se encontra.
— Não para… — ele pede, baixo, sem marra nenhuma agora.
Eu sorrio, sabendo exatamente o efeito que tenho.
O momento cresce, se intensifica, até chegar naquele limite onde não dá mais pra segurar.
Ele desacelera por um segundo — e eu sinto.
A tensão no corpo dele muda, vibra diferente.
Ele não vai aguentar.
Me inclina mais contra as pedras, segura meu cabelo com firmeza e solta, rouco:
— Que delícia…
Aquilo me atravessa inteira.
— Quero tudo… — respondo, quase sem voz.
Era o que ele precisava.
E então ele perde o controle de vez, e eu sinto o peso daquele momento, da entrega, de tudo o que ficou guardado tempo demais.
Meu Deus… que sensação única.
Por um segundo passa pela minha cabeça dizer que eu cheguei lá só com os sons dele.
Mas não.
Ele não merece tanto.
Ele me vira.
E o que parecia ser só mais um momento… muda completamente.
O olhar dele prende o meu, profundo, sem pressa, sem jogo. Pela primeira vez não tem provocação, não tem disputa — só presença.
E então ele se aproxima.
O beijo vem intenso, verdadeiro, sem máscara nenhuma.
E é ali que ele me desmonta de um jeito diferente de tudo que veio antes.
Ficamos ali por um instante, sem pressa e sem palavras, deixando apenas o som do mar preencher o silêncio enquanto a respiração, ainda descompassada, tentava voltar ao normal. O corpo ainda sentia tudo, a pele ainda reagia, mas já era outra coisa — mais calma, mais densa, como se aquele momento ainda estivesse suspenso no ar.
Ele não se afasta, e eu também não. Como se nenhum dos dois quisesse quebrar aquilo. Passo a mão de leve pelo peito dele, sentindo o coração ainda acelerado, e ele segura minha mão com simplicidade, sem força, sem pressa — mas com uma presença que diz mais do que qualquer provocação anterior.
Olho pra ele de novo e não tem mais jogo, só um reconhecimento silencioso de tudo o que aconteceu ali.
— Acho que agora valeu a pena não ir embora — murmuro.
Ele solta um riso leve, ainda perto demais.
— Ainda acha?
Sustento o olhar por mais um segundo antes de me afastar devagar, não completamente, nunca completamente, porque algumas coisas não terminam ali — apenas começam de um jeito que a gente ainda nem entende direito.
E de repente me vejo deitada no sofá.
Aquele branco de quatro lugares, enorme, confortável, reclinável até os pés — o que compramos quando ainda éramos nós.
Estou atravessada nele, te observando cozinhar sem camiseta.
Você ri das minhas frases idiotas enquanto mexe na panela.
Eu te olho de longe, te desejando em silêncio, como se fosse só mais uma brincadeira nossa.
Lembro do episódio de The Big Bang Theory.
Eu sou a Amy vestida de Branca de Neve, te implorando por um beijo para acordar do sono eterno.
Você olha para mim, com as mãos sujas de comida, ri e diz que vai me sujar inteira se eu não parar.
Ah…
como eu não me importaria de ficar completamente suja.
Provoco mais uma vez, mas dessa vez com uma proposta mais convincente.
A Branca de Neve precisava de um beijo diferente.
Ele entende na mesma hora.
Desliga o fogão sem dizer nada e, antes mesmo de chegar ao sofá, já abandonou qualquer pressa.
“Não posso deixar a Branca de Neve morrer.”
Aproxima-se com aquele sorriso que eu conheço bem demais — metade brincadeira, metade promessa.
E por um segundo parece que o tempo voltou para aquele lugar onde éramos só nós dois, rindo de bobagens na cozinha, fingindo que o mundo não existia além daquele sofá branco.
Não era para ser grande.
Não era para significar.
Era só um encontro. E só.
Mas nada que nasce de uma história longa nasce pequeno.
Eu fui com o corpo decidido e o coração atento. Nervosa, sim. Como quem entra num lugar conhecido sabendo que já não mora mais ali. Ele veio rápido, direto, como sempre foi. Como se o tempo não tivesse passado. Como se o fim não tivesse acontecido.
Eu achei que sentiria algo diferente. Achei que o corpo denunciaria o que o coração escondia. Não denunciou. Foi bom. Foi familiar. Foi seguro. Foi o mesmo de antes. E isso, estranhamente, me tranquilizou.
O estranho não foi o sexo.
Foi o depois.
Ele falava como quem ainda me conhece. Tocava como quem nunca saiu. Relembrava detalhes de quando éramos nós. Por duas horas, fomos uma memória viva. Um intervalo no tempo. Um lugar confortável demais para quem já decidiu seguir.
Eu não senti borboletas.
Senti chão.
Senti segurança.
Senti conforto.
Senti o alívio de poder desejar sem culpa.
E talvez seja isso que mais tenha me mexido: perceber que posso sentir prazer sem me perder. Que posso revisitar sem querer ficar. Que posso tocar o passado sem sangrar.
Não cheguei lá. E está tudo bem. Meu corpo também sabe quando não é entrega, é presença. Eu estava inteira demais para me abandonar.
Quando acabou, não ficou saudade.
Ficou paz.
E isso diz mais do que qualquer promessa cumprida ou não. Diz que o amor mudou de forma. Que o vínculo virou memória. Que o que existiu foi real — mas já não pede continuidade.
Se ele quiser mais, que seja desejo.
Não projeto.
Não reparação.
Não retorno.
Porque eu não voltei naquela noite.
Eu apenas fui… e voltei para mim.
⸻
Não foi o que eu pedi.
Não foi o que eu imaginei.
Não achei que seria eu a decidir, mas por um instante acreditei que merecia um ano melhor.
Quando bateu 00h, 2026 chegou trazendo uma sensação estranha de liberdade. Não por estar livre de amarras, mas por finalmente estar livre do luto do fim do meu casamento de dez anos. Foram os 365 dias mais desafiadores da minha vida. O que antes era certeza deixou de ser, e eu levei todo esse tempo para recomeçar. Para me enxergar.
Naquele momento, senti a tal virada de chave. Eu sei que o Senhor sabe do que estou falando. Foi conexão pura. Ali eu bati o martelo: seria o meu ano de mudanças — pra melhor. Comecei a academia, iniciei tratamento para emagrecer, mudei a cor do cabelo. Aprendi a me sentir viva, desejada. Era isso. Esse era o objetivo. Foi o que “combinamos”.
Mas o “mas” sempre chega. Sempre ecoa.
Como eu posso querer o meu melhor, como posso acreditar que 2026 seria o meu ano, se o Senhor me tirou a melhor parte que ainda me restava? Aquela que me escolheu, que me acolheu. Tão nova, com um mundo inteiro para vivermos juntas.
Minha Bella Maria.
Meu porto seguro, minha âncora, meu amor mais puro, minha parceira.
O Senhor levou a minha preciosidade, e agora resta o vazio. Na hora, a ficha caiu. Mas aqui dentro ecoa o sobrar. Sobra espaço. É remar sem remo, correr sem sair do lugar.
Ouvi dizer que o Senhor não dá um peso maior do que possamos carregar… mas o combinado não era que este ano seria leve?
Uma parte de mim morreu com ela. Eu sinto isso. É uma dor ardente, que tranca a garganta, que dói na alma. Ela não era apenas uma cadelinha. O Senhor sabia disso.
O ciclo do luto recomeçou. E se eu acreditei que 2026 seria o meu ano, talvez eu tenha me enganado.
Se ainda me sobra estima, por favor, cuide dela.
Eu daria tudo para tê-la aqui.