Quem idealizou e como surgiu o Coletivo Transverso? Quem são os integrantes?
O Coletivo Transverso foi criado em janeiro de 2011, em Brasília, com a proposta de intervir poeticamente na cidade. Na verdade, antes da poesia, eram amigos que se reuniam numa república da Asa Norte, para almoçar e compartilhar existências. O núcleo criativo do Transverso é formado por Cauê Novaes, mestre em literatura, Patrícia Bagniewski, artista plástica, e Patrícia Del Rey, poeta e atriz. O Cauê tinha realizado algumas intervenções com stencil em São Paulo no ano anterior, e foi durante esses encontros, trocando experiências e anseios, que se fortaleceram os princípios norteadores do coletivo, sobretudo o foco na poesia e no desenvolvimento de novas técnicas de arte urbana.
As mensagens deixadas com a técnica de estêncil pelos diversos cantos de Brasília são de autoria exclusiva do Transverso?
A primeira técnica utilizada por nós foi o estêncil, aliado ao haikai, à poesia concreta e aos ditos populares. Visávamos construir uma linguagem própria, por meio da criação de conteúdo autoral, mas queríamos fugir da necessidade da assinatura de cada intervenção, da repetição incessante de uma marca, como faz a publicidade. O momento de ruptura proporcionado pela poesia parece ser mais intenso quando a pessoa desconhece a autoria, e o passante pode se apropriar do que lê, sem saber a personalidade, o gênero ou a origem social de quem escreveu.
Queremos chamar a atenção daqueles que andam de olhos abertos para a poesia que há, ou que pode haver nas ruas. Nesses quase 3 anos de existência do Transverso, já realizamos mais de 400 intervenções, em diversas cidades brasileiras e alguns países, como China, Inglaterra, Portugal e Alemanha. Utilizamos técnicas como o lambe-lambe, aplicação de adesivos, de placas, de lonas, performance, projeção, entre outras. Mas não somos os únicos, ainda bem. Percebemos e incentivamos o surgimento de novos artistas, novos coletivos de arte urbana.
Quanto dessa arte estampada pelos muros diz sobre os integrantes do Coletivo transverso?
Grande parte da nossa poesia diz sobre nós, sobre nossas experiências, desejos e críticas. Muito também está inserido numa tradição que cultua os provérbios populares, por vezes pela ironia, de forma a questionar algumas certezas e preconceitos que ouvimos diariamente. Como já dissemos antes, a arte urbana é coletiva por natureza, cada mínima intervenção modifica a composição sempre transitória da paisagem urbana.
Em quais lugares o Transverso procura intervir?
Procuramos intervir em lugares abandonados, tapumes de obra ou muros onde já exista algum tipo de manifestação artística anterior. A poesia ganha sentidos diferentes, mais profundos, de acordo com o lugar onde está escrita, com o tamanho e com a técnica utilizada. Alguns poemas foram criados para um lugar específico, ou escolhemos o local e usamos algum dos poemas que já temos, mas a maior parte das intervenções acontece numa espécie de improviso. Saímos com algum lugar em mente que já mapeamos anteriormente, mas acabamos fazendo mais intervenções no percurso.
Temos intervenções de dez centímetros, para pedestres, geralmente usadas em paradas de ônibus, ou locais em que a pessoa tenha algum tempo pra reparar e ler, e outras de até 15 metros de comprimento, para serem lidas do ônibus em movimento ou de bem longe.
Uma das características do movimento artístico de rua é ser irreverente, e pedir permissão seria uma forma de desvirtuar esse conceito. O Transverso concorda com essa afirmação? Já procurou de alguma forma permissão para utilizar um local?
Não acreditamos que pedir autorização desvirtue necessariamente o
conteúdo da intervenção para quem vê na rua. Já fizemos o mesmo poema, com e sem a permissão do proprietário. É possível ser questionador e irreverente mesmo num outdoor pago, por exemplo.
O que muitas vezes esquecemos é que há muito mais a ser dito do que aquilo que domina a comunicação no espaço público, em geral voltada para a publicidade, a indução ao consumo ou a orientação do trânsito de carros e pedestres. Predomina uma comunicação hierárquica e impositiva: atenção, compre, siga, cuidado, perigo, sentido proibido. Nossa proposta é propor formas mais solidárias de comunicação, que instiguem a reflexão dos passantes, e eventualmente estimule o surgimento de novas vozes, novos poemas.
Ainda existe muito preconceito com a arte de rua e na particularização de espaços urbanos. O Transverso já se deparou com alguma dificuldade, crítica ou reprovação? Se sim, conte um pouco sobre.
A recepção em geral é muito positiva. As pessoas fotografam, comentam, perguntam, incentivam, dão sugestões. Mesmo quando há críticas, o que tem prevalecido é o diálogo. A técnica do estêncil, que é a mais utilizada até hoje por nós, é menos controversa que a da pichação, ainda que se possa escrever o mesmo poema com ambas. Muito também depende da forma como você realiza a intervenção. Em geral é melhor estar acompanhado, e encarar a coisa como um trabalho. Muitas vezes é preferível intervir numa manhã de domingo ensolarada do que agir como criminoso mascarado durante a madrugada. As interações com as pessoas na rua, e depois pelos meios virtuais são muito ricas na verdade.
As obras do Coletivo Transverso não estão apenas nas ruas, também estampam camisetas, bottons e recentemente galerias de arte. O que podemos dizer diante do cenário atual, a rua imita a galeria ou a galeria imita a rua?
Existe um processo, bastante amplo mundialmente, de reconhecimento da arte urbana enquanto expressão artística legítima. Esse processo passa pelas faculdades, pelos colecionadores, pela mídia, pelos museus, mas principalmente pela avaliação das pessoas nas ruas. A natureza da arte urbana é democrática, sem a necessidade de compra de ingresso ou de produto. É nisso que acreditamos, nossa motivação inicial e nossa principal atuação até hoje.
Mas se a arte urbana é gratuita, o spray custa caro. Os produtos com
nosso conteúdo autoral representam uma tentativa de viabilizar financeiramente o Transverso. Por outro lado, somos pesquisadores também, estudamos a história do movimento, e a interface da arte urbana com diversas outras áreas do conhecimento, de forma a embasar e aprimorar nosso trabalho. O reconhecimento da galeria é um passo importante, social e historicamente, para a diferenciação entre arte e vandalismo.
Vocês imaginaram que a vontade de fazer arte urbana fosse se tornar algo com vida própria, uma comunidade que estampa mensagens poéticas por vários lugares do Brasil e fora dele?
Hoje perdemos o controle sobre a amplitude das nossas intervenções.Além das nossas intervenções que resistem até hoje, temos quase 13 mil seguidores no Facebook e muitos colaboradores. Muita gente já participou de pelo menos uma etapa do nosso processo criativo, em nossas oficinas ou por conta própria. Nós disponibilizamos para download alguns arquivos de lambe-lambe para que as pessoas imprimam e colem em suas cidades, de forma que temos nossos poemas colados em lugares onde nunca fomos. Outras pessoas nos dizem que fomos uma inspiração para a realização de seus trabalhos autorais, o que vai bem na linha do que desejamos desde o princípio, e que tem a ver com a nossa recusa da assinatura. Queremos que as pessoas se apropriem da rua e da poesia, de forma que se sintam livres também para criarem seus próprios poemas.
A principal característica das intervenções urbanas é mexer com o dia-a-dia das pessoas, fomentas ideias e brincar com o imaginário de quem por acaso se depara com elas. O Coletivo transverso já observou a reação de alguém ao avistar a mensagem de estêncil? Se sim, como foi a experiência?
Muitas pessoas fotografam, posam do lado, riem, comentam. É como a criação instantânea de um mini ponto turístico. Quando passamos por intervenções que fizemos há algum tempo é comum ver um casal apontando, alguém lendo em voz alta o poema pro seu filho. Isso é ainda mais legal quando não sabem que fomos nós que fizemos, porque percebemos que a coisa continua viva, e que mais gente se sensibiliza de maneira espontânea, e não apenas por nossa presença no local.
Em janeiro passado, numa praia no sul da Bahia, nós fizemos uma placa escrita "foice o tempo", e afixamos num barco encalhado e abandonado na areia. Imediatamente depois de pregar a placa formou-se uma fila de três famílias, que se revezaram pra tirar fotos e subir no barco, como um pequeno parque de diversões. O barco que estava ali quebrado, como um entulho na praia, de repente ganhou um novo uso social, apenas pela presença de uma placa não encomendada.
Banksy definiu a parede como uma arma. Vocês acreditam que a street art favorece o questionamento e o engajamento em questões sociais e políticas?
Antes de ser uma arma simbólica, pela arte e pela poesia que nos muros se apresente, a parede é uma violência física. Os muros de uma casa representam o cerceamento da liberdade de ir e vir de toda a população em favor do direito de propriedade de um indivíduo. Sem questionar esse direito, ainda é preciso reconhecer que a parede é uma área de tensão, destinada a selecionar e impedir fisicamente o acesso a determinado território. Principalmente num país desigual como o nosso, com tanta gente sem dinheiro pra ter um teto, a legitimidade dessas barreiras é constantemente questionada.
Muitas vezes a única rebeldia restante, a única forma de expressar oposição ao muro é se apropriar dele simbolicamente, transformá-lo em suporte para expressão de discursos ausentes da mídia tradicional, de pautas ignoradas pelo Congresso, de preocupações abafadas pelo cotidiano violento a que estamos todos submetidos. Talvez o traço em comum mais marcante entre as paredes das celas dos presídios, o Muro de Berlim e o Muro da Cisjordânia sejam as palavras e os desenhos por eles espalhados.
Diversas mensagens propostas pelo Coletivo carregam críticas sociais, tais como: "Estado não se meta no meu útero" ou "O afeto te afeta?". É correto afirmar que vocês são ativistas do ponto de vista político/social e que o grafite acaba se tornando uma forma de protesto?
Ativista é uma palavra redutora, não contempla o componente estético e artístico propriamente, nem o trabalho literário que é fundamental na nossa proposta. O título pensado recentemente para designar nosso trabalho foi de "poeta de parede", conceito que não se prende a uma técnica, como "grafiteiro" ou "pichador", não é tão amplo como "artista de rua", nem tão restrito como "ativista".
A arte presente nas ruas carrega um componente político inquestionável. O espaço público é o local privilegiado para a manifestação de discursos dissonantes, de vozes ausentes da mídia tradicional Mesmo um poema ingênuo de amor romântico, quando inscrito na rua, representa uma espécie de reivindicação, a proposta de formas mais solidárias de compartilhamento do espaço público. Algumas das nossas intervenções são mais contundentes, mais críticas, ou mais voltadas para alguma questão importante que vivemos hoje. Por ser efêmera, a arte urbana precisa se reinventar constantemente, e dialogar com as demais vozes que se ouvem nas ruas.
Qual é a principal motivação do Coletivo Transverso para continuar a intervir?
É uma espécie de vício. As interações na rua, no contexto da realização da arte urbana, são muito particulares, difíceis de imaginar em outro lugar. Da primeira vez que saímos para colar o lambe-lambe com o dizer "Espaço destinado à poesia", por exemplo, um pedestre nos abordou e terminou declamando um poema de sua autoria. Quantas vezes ouvimos poemas de desconhecidos no meio da rua? Esta mesma parede, que era branca antes do lambe, hoje está coberta de poemas e desenhos, de pessoas diferentes que passaram por ali e se sentiram autorizadas a expressar algo que talvez já levassem entalado há algum tempo. É um desejo básico de comunicação, de solidariedade, de expressar e tentar compreender a vida que levamos.
Em Brasília, pelas passagens subterrâneas do Eixo monumental, as paredes gritam “Estado não se meta no meu útero” ou “O afeto te afeta?” na cara de qualquer um que passe. O concreto da cidade planejada manchou-se de confissões e sutilezas. As mensagens muitas vezes dão voz ao que ficou esquecido e aprisionado pelo cimento. Em um dos muros do Espaço Cultural Renato Russo, lê-se “As flores aqui são de concreto”, enquanto o desenho de um corpo feito no chão brinca com o olhar do pedestre.
Um dos responsáveis por essas intervenções poéticas na capital é o Coletivo Transverso. Munidos de ideias e spray, Cauê Novaes, Patrícia Bagniewski e Patrícia Del Rey constroem diferentes narrativas nos arredores candangos. “Queremos chamar a atenção daqueles que andam de olhos abertos para a poesia que há ou que pode haver nas ruas”, conta. O Transverso foi criado em janeiro de 2011 e desde então espalha poesia por aí, usando técnicas como estêncil, lambe-lambe, adesivo, performance, projeção e diversas outras.
“Já fizemos o mesmo poema, com e sem a permissão do proprietário. É possível ser questionador e irreverente mesmo num outdoor pago, por exemplo”, revela o Coletivo. O portfólio do grupo já conta com mais de 400 intervenções espalhadas pelo Brasil e fora dele, além de diversos colaboradores. Fora a proposta do Transverso de mudar o cotidiano de quem desavisadamente se depara com uma poesia, existe também a intenção de fomentar ideias, criar e incentivar a liberdade de modificação do meio urbano.
O termo encontrado em consenso pelo grupo é o Poetas de Parede. “O conceito não se prende a uma técnica, como grafiteiro ou pichador, não é tão amplo como artista de rua, nem tão restrito como ativista”, afirma Cauê. Os trabalhos não são assinados, possibilitando que a mensagem ganhe novos donos e que a prática entusiasme poetas de parede mundo a fora. “Outras pessoas nos dizem que fomos uma inspiração para a realização de seus trabalhos autorais. Vai bem na linha do que desejamos desde o princípio, que tem a ver com a nossa recusa da assinatura”, concluiu.
Confira a entrevista completa com o Coletivo Transverso aqui.
Em frente à escola, transeuntes param para observar as pinturas do muro. Jogadores de futebol. Lampião e seus cangaceiros. Capoeiristas. Renato Russo e seu violão. Um menino com uma placa em que se lê “Não precisamos da educação falida do GDF”. Na parede daquela escola, a realidade está claramente estampada.
O muro citado é o do colégio CAIC Unesco de São Sebastião, região do entorno do DF. A revitalização voluntária dessa escola aconteceu no final de 2012 e a ideia partiu do Instituto Metamorfose, uma ONG da cidade que busca inserir crianças e adolescentes no mundo das artes visuais. Com a verba cedida pelo comércio local e pela escola, 46 membros do instituto – alunos e professores – usaram técnicas das artes plásticas para trazer cor aquele muro, antes pichado. São 102 painéis com temáticas culturais, além de aspectos sociais e políticos.
Em abril deste ano, foi aberta uma sindicância dentro da Secretaria de Educação do DF para a retirada de cinco pinturas que abordavam temas polêmicos, dentre eles críticas à corrupção e à educação pública. O processo só acabou em junho, quando a causa foi ganha e a justiça determinou a permanência dos murais.
A comunidade de São Sebastião teve um grande papel nesse processo. Quando aberto, pais, alunos, professores e moradores do local protestaram contra a retirada. “Faz parte da liberdade de expressão, mas eles não aceitam”, disse o segurança do colégio Joaquim Souza. A população acredita que os painéis devem permanecer. “É arte e, desse jeito, não tem pichação”, conta Giselda Gomes de Oliveira, mãe de Matheus, estudante do quarto ano.
O fato de interagir com um espaço público previamente existente faz com que o projeto possa ser denominado intervenção urbana. As pinturas incitam a consciência social dos alunos e proporcionam um visual mais agradável para a cidade. O professor de Estética e Cultura do IESB, Cláudio Bull, afirma que o papel da intervenção urbana é causar impacto em lugares que não são específicos à arte e sugerir para um olhar viciado uma maneira de repensar o que se vê. “É uma das maiores expressões da arte contemporânea, pois traz a ideia do diálogo com a própria cidade. É uma arte transitória, efêmera, que se preserva e que tem a cadência da velocidade da vida urbana”, diz.
Segundo o idealizador do projeto, Chico Metamorfose, a street art é uma galeria a céu aberto, seja usando as técnicas do grafite, da escultura ou das artes plásticas. “O artista é livre desde sua concepção no ventre da mãe. Nascemos para liberdade, somos formadores de opinião. Nossa maior meta é abrir a mente da atual juventude e que nossos trabalhos fiquem para a posteridade”, conclui.
Esta reportagem foi produzida pelos alunos de Jornalismo do IESB para a disciplina Gêneros Jornalísticos. Para ler as retrancas desta reportagem, clique aqui e aqui.
Em uma curta entrevista, Chico Metamorfose, o idealizador do projeto que pintou os muros do CAIC Unesco, conta detalhes do Instituto Metamorfose e de seus ideais.
O que é a ONG Instituto Metamorfose e como são realizados os trabalhos por lá?
O Instituto Metamorfose Cidadão com Profissão nasceu em 1997 com o objetivo de incluir crianças e adolescentes no mundo das artes visuais, levando-os à conquista da cidadania e do profissionalismo. A Metamorfose surgiu em meio a uma cidade onde a arte não era vista e as pessoas não tinham incentivos artísticos e culturais para se desenvolverem na área. Não ensinamos somente pintura, mas também artesanato e música. A faixa etária necessária para se matricular é a partir dos 7 anos, sem restrições para idade avançada, afinal, não existem limites para o amplo mundo das artes.
Como é o espaço onde a ONG é localizada? O lugar é cedido pelo governo ou é uma iniciativa privada?
Eu transformei a minha casa em um ateliê e galeria. Minha esposa, Madalena, foi muito compreensiva quando viu a minha necessidade de amparar estes jovens. Ela abriu mão do conforto e da privacidade de uma casa comum, e deixou que eu construísse o meu sonho. Hoje moramos e compartilhamos o mesmo espaço junto à oficina e ao salão onde acontecem as aulas. Nunca existiu apoio do governo em nossas ações ou até mesmo para o Instituto.
Já que metamorfose é uma mudança na forma e na estrutura do corpo, por que decidiram colocar esse nome?
Eu, um ex-alcoólatra, após sair de uma casa de recuperação, abri meus olhos para este novo despertar. Metamorfose significa mudança e transformação, e foi o que houve na minha vida: uma grande mudança de hábitos. Sendo assim, saí de lá decidido a montar um projeto com esse apelo de transformação, usando aquilo que Deus me deu, que é a arte.
O muro do CAIC Unesco em São Sebastião, que atualmente é conhecido pela arte que o rodeia, era antes mal cuidado e repleto de pichações. Agora, com um visual modificado, traz à tona a reflexão: quando as manifestações nos muros deixam de ser vandalismo e passam a ser arte?
Em 2011, foi publicada a Lei dos Crimes Ambientais que estabelece, no artigo 65, pagamento de multa e punição de seis meses a um ano de cadeia a quem pratica vandalismo. Para grafitar os muros, é necessária prévia autorização do dono do imóvel.
A linha tênue entre os dois, entretanto, sempre foi uma polêmica. A professora de História da Arte da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Elisabeth Seraphim Prosser, afirma em seu artigo “Intervenção urbana: vandalismo ou arte?” que os autores das pichações e do grafite, ainda que vistos com maus olhos por grande parte da população, são em sua maioria politizados e preocupados com causas sociais. “Encaram a intervenção urbana como uma arte genuína e como instrumento de mudança de uma realidade que os assusta”, declara a professora.
Além do perfil dos artistas, os dois se assemelham na hora da prática. Ambos usam tinta látex ou spray para pintar, têm como suporte os muros ou paredes, e possuem como temas a denúncia, a crítica ou a contestação. Em compensação, a pichação utiliza linguagens e símbolos complexos restritos a um grupo específico, enquanto o grafite se preocupa em acomodar elementos, cores e formas, a fim de passar sua mensagem a todos que passam por ali.
Contudo, o maior divisor de águas é a interpretação. Cabe a quem visualiza o muro identificar a prática como vandalismo ou não. O papel de demarcar o limite da arte é, especificamente, do transeunte.
O antropólogo inglês Rafael Schacter recentemente publicou o livro The World Atlas of Street Art and Graffiti, onde mapeia os diferentes estilos da arte urbana ao redor do mundo.
Brasil: Rafael Schacter afirma que o Brasil tem uma estética única. “A mistura de realismo, atmosfera mágica e temas políticos é imitada em todo mundo”, declara. O uso da pichação e de questões reflexivas são um dos grandes causadores desse sucesso mundial.
Estados Unidos: A arte urbana americana é rica em obras excêntricas. O país tem fortes influências culturais locais, como por exemplo o hip hop, o cartoon e o design clássico. Segundo o pesquisador, nos EUA é possível detectar com precisão a fusão de culturas que é o grafite. Os primeiros indícios de street art foram os muros pintados por gangues latinas em Los Angeles.
Austrália: Com a intenção de reduzir o vandalismo, as principais cidades da Austrália trazem espaços dedicados ao grafite. No país, o que faz mais sucesso são as instalações criativas, destacando-se as de Anthony Lister. O artista usa de várias técnicas para criar obras monumentais nas ruas.
África e Ásia: Os dois continentes aderiram há pouco tempo a prática da street art. Por enquanto, os artistas são em sua maioria europeus que usam as ruas destes países para se expressar.
Europa: A arte urbana europeia segue dois extremos. Em um deles, as cores e os temas são vibrantes, influenciados pela arte latina. Já no outro, a street art segue diferentes estilos, marcados por obras minimalistas e com pouca ou nenhuma cor. O que determina os padrões da arte é em que país ela é realizada. Em lugares que possuem pouca tolerância ao grafite, os artistas tendem a ser mais habilidosos, ao passo que áreas mais receptivas a esse tipo de arte, os desenhos são menos trabalhosos, porém em maior quantidade.
O artista de rua e britânico Banksy confirmou, nesta quinta-feira (31), a vinda a Fortaleza durante a realização do Festival Concreto - Festival de Arte Urbana, que acontecerá entre os dias 15 e 23 de novembro na capital. Apesar da confirmação, o artista não será uma das atrações do evento e não informou qual será a natureza das atividades em sua estadia em solo brasileiro.
As obras do artista britânico são marcadas por fortes críticas sociais e se tornaram famosas no mundo inteiro, junto com sua identidade que é mantida em mistério. Veja este post para saber mais sobre a técnica do artista.
O contato aconteceu através de um amigo em comum que participou de um projeto com ele há 4 anos em Londres, Narcélio Grud, também artista urbano e um dos realizadores do evento. As conversas entre os organizadores e o artista plástico aconteceram via e-mail.
Confira o teaser oficial do festival no vídeo abaixo:
Para mais informações, visite a página oficial do evento. | via Catraca Livre
Grafiteiro francês tem uma forma bem diferente de chamar a atenção das pessoas para a desigualdade social. Dan23, como é conhecido, costuma grafitar pelas ruas de Paris e Estrasburgo "olhares", que tem como objetivo convidar a sociedade a estar de olhos abertos para os problemas sociais.
O projeto, conhecido como Open Your Eyes, convida a refletir sobre a forma que escolhemos para nos organizarmos enquanto sociedade.
Nas ruas de São Paulo grafites de mulheres nuas e mastectomizadas (cirurgia de retirada do seio) vêm chamando a atenção do público.Esse é um projeto do A.C. Camargo Câncer Center que tem como objetivo alertar para a importância de se fazer a mamografia, auxiliando na prevenção ou diagnóstico prematuro da doença. O mês de prevenção contra o câncer é outubro, nomeado como "Outubro Rosa", mas mesmo com o mês finalizado a iniciativa persiste pelas ruas.
Os grafites são feitos pelo grafiteiro Ricardo de Athayde Leitão, mais conhecido como Anão. Os trabalhos levaram em média dois meses para serem concluídos, pois a ideia do artista era intervir em grafites já prontos.
Nascido em São Paulo, Alexandre Orion Criscuolo é um artista visual, fotógrafo e designer, que levou a arte de pintar murais a um outro patamar. Orion mescla, em apenas uma arte, o estêncil (técnica de graffiti), a fotografia e as milhares de pessoas que circulam pela cidade.
Em 2006, iniciou a intervenção Ossário, utilizando apenas panos para remover a fuligem impregnada nas paredes do túnel Max Feffer, na cidade de São Paulo, criando então imagens de caveiras humanas.
Em 2002, criou o projeto Metabiótica, que utiliza da arte urbana e da fotografia para desenvolver uma obra só. Involuntariamente os transeuntes interagem e completam seus desenhos, sendo em seguida clicados pelo artista. As fotografias não são encenadas e realmente aconteceram.
Para este artista visual, as latas de spray não são suficientes para expressar suas ideias e conceitos. Ele aproxima a ficção da realidade, com o compromisso total da casualidade.
Para mais informações de seus projetos, visite seu site.
Imagine alguém que utiliza diversos cenários obsoletos e cria vida e formas de uma maneira divertida e ousada. A tentativa de quebrar a monotonia vem do artista italiano Mr. Thoms que, além de grafiteiro, é escultor, ilustrador e designer gráfico.
Thoms recria ambientes de uma forma totalmente irreverente, com diversas cores e formas chamativas, com a finalidade de enxergar de um ângulo completamente diferente aquele mesmo ambiente, criando a ideia de objetos vivos dentro da cidade cinza.
Tendência que tem ganhado força é a de espalhar a vida através da arte. Vários artistas tem se empenhado em fazer com que nosso cenário corriqueiro se torne menos maçante e possa ter algo de bonito e atrativo.
Em seu site, podemos acompanhar todos os projetos novos: grafites, ilustrações, esculturas e também maneiras de colaborar com o trabalho do artista.
Para participar basta fazer o login no site com sua conta do Google. Lá você poderá reservar uma muro para sua arte ou doar o espaço para outros artistas usarem.
A intervenção urbana dessa vez é diferente. Lançada em 2009 e chamada de urbano-literária, a ideia do escritor e publicitário Alessandro Garcia foi de criar um conto e dividi-lo em 17 cartazes espalhados pela cidade de Porto Alegre. A história é uma narrativa urbana de ficção, e cada parte da trama é contada onde realmente acontece.
Nas palavras do criador, o projeto "visa criar uma narrativa metalingüística na cidade de Porto Alegre". A intervenção de Alessandro difundiu a literatura a quem passava por ali, além de criar uma interação desta com a própria cidade.
No tumblr do projeto, Alessandro Garcia divulga mais detalhes e disponibiliza, para quem não mora em Porto Alegre, todos os 17 cartazes que foram espalhados pela cidade. No vídeo abaixo é possível visualizar seu objetivo, sua estratégia, os pontos em que os cartazes foram divulgados e muito mais.
Para mais informações sobre o desenvolvedor do projeto, acesse seu site.
A história do Afeganistão é marcada por intensos conflitos, intervenções, guerras e extremismos religiosos. A opressão contra as mulheres é algo que está enraizado na cultura afegã, onde elas são severamente vigiadas e punidas.
Nesse cenário, duas mulheres se destacam, Shamsia Hassani e Malina Sulima. Receberam o título de primeiras grafiteiras do país. A grafite para elas é uma das poucas ferramentas de luta pela liberdade de expressão feminina. Foi a maneira que encontraram de expressarem anseios calados e oprimidos em decorrência da guerra e conservadorismo.
A ideia dessas mulheres é apagar com spray, rolos de tinta e desenhos incríveis, as marcas da destruição causada por estes conflitos, saindo pela capital Cabul colorindo as ruínas restantes de prédios que foram destruídos pelas bombas.
Shamisa nasceu no Irã, vive no Afeganistão, possui formação em Belas Artes pela Univerdiade de Cabul e começou a trabalhar como artista digital. Seu estilo no graffiti é similar aos grafismos que vemos no Brasil, porém a distinção é que esta mostra personagens femininas vestindo burcas em uma postura forte e vibrante, normalmente acompanhadas de balões vazios, simbolizando o silêncio imposto às mulheres.
Malina é uma jovem professora que reside em uma das mais perigosas regiões do Afeganistão, Kandahar. Estudou Arte Realista no Paquistão e faz suas obras com o objetivo de espalhar mensagens políticas. Fundou neste lugar a KFAA (Kandahar Fine Arts Association) com o intuito de criar uma cena de arte em uma cidade regida por leis extremamente tradicionais e conservadoras. Mesmo assim conseguiu realizar o primeiro workshop de graffite e as primeiras exposições de sua cidade.
Imagine que caminhando por uma rua qualquer em um dia aparentemente comum, você se depare com uma placa que diz: Escuto histórias de amor. Do lado da placa, uma moça tricotando uma lã vermelha sentada em um banquinho. Bom, você possivelmente iria ficar confuso e intrigado. Algumas pessoas talvez se afastariam, questionando-se o porquê de alguém gastar o seu tempo para ouvir desconhecidos. A pergunta é: você seria uma dessas pessoas? Ou sentaria para contar suas magoas, alegrias, encontros?
Ana Teixeira é a moça de quem estou falando. Entre 2005 e 2012 sentou em banquinhos de diversos países ouvindo histórias de amor. As ações foram registradas e expostas em Toronto, na Canadá, usando recursos como: mídia digital e vídeo-instalação.
O áudio na exposição é a junção de vozes em diferentes línguas e ruídos cotidianos. As histórias de amor não podem ser ouvidas, ficando assim, guardadas apenas no emaranhado de lã vermelha tecida por Ana e no imaginário da artista, onde formou-se para sempre uma colcha de retalhos com as prosas desenroladas.
Viu só? Ainda existem histórias bonitas para contar. Fique conosco. Até a próxima!
É fato que viver em uma grande metrópole é exaustivo. Partindo desse princípio, o artista francês Oakoak teve a ideia de fazer do visual cinza das cidades um grande livro de colorir, proporcionando a diversão de quem passa por ali.
Utilizando das imperfeições urbanas, ele cria uma nova proposta para aquilo que não recebe atenção. Um buraco, um bueiro ou uma rachadura na parede; tudo é cenário para seus incríveis trabalhos.
Oakoak deixa sua marca nas ruas francesas usando stêncils, tintas e adesivos. Seu objetivo é divertir e inspirar, adotando elementos que passam despercebidos no caos urbano.
Para conhecer mais sobre o trabalho do artista, visite seu blog. | A ideia desse post foi sugerida pelo Hebert Madeira.