Com medo de encarar o papel, de encarar os sentimentos que me assombram há alguns dias, de passar pelos tópicos mentais que pretendo escrever, de esvaziar, de reler e acessar tudo aquilo que eu gostaria que se transformasse apenas em tinta. É assim que começo esta carta, que fala sobre a retrospectiva do meu ano – ou melhor, de parte dele. Deixarei algumas histórias isoladas, ainda vivas e latentes apenas no pensamento.
Sem me apegar à cronologia dos fatos, citarei alguns que me marcaram: o bônus de performance e a promoção no trabalho, a viagem a Salvador, a compra do carro, a descoberta da doença da Panda, o aniversário da Ray, o relacionamento com muitos baixos com a Vitória, as incontáveis vezes em que me senti perdida, meu aniversário e conhecer a Amanda.
Eu me lembro como se fosse hoje da minha queda na escada no domingo de Carnaval. Era cedo, por volta das 9 horas da manhã, eu estava sozinha. Peguei todos os itens espalhados do sofá, e o copo d’água ficou meio de mau jeito, mas achei que conseguiria levá-lo até a pia. Quando o copo caiu da minha mão no meio da escada, eu tive a chance, por um segundo, de parar, de não continuar descendo, de largar as coisas que segurava, me apoiar e descer com cuidado. Eu pensei nisso, nesse único segundo. Mas escolhi continuar, desci mais um degrau, confiante, pé firme — e escorreguei na água. Caí livre para trás, e na tentativa de proteger meu corpo, bati o meio das costas numa quina da escada. Eu chorei muito, por horas seguida. A primeira sensação que me invadiu foi um desespero por morrer sozinha. O medo não era de morrer, era de morrer sozinha. Eu devo ter ficado imóvel no chão, sentindo muita dor, por uns 30 minutos. Durante todo esse tempo, só consiga chorar e sentir desespero. Fiquei imaginando: quantos minutos foram para minha irmã? Será que ela se sentiu absolutamente sozinha? Será que sentiu medo? Ainda me sinto culpada. Eu sabia que eu não ia morrer, mas eu tinha dúvidas do quão forte a batida foi pela dor insuportável que eu sentia. Chorei por mim, mas eu chorei muito mais pela minha irmã, que talvez soubesse que morreria. Teve uma outra vez que eu levei um leve escorregão na escada, suficiente para eu sentar, e chorar horas seguidas pelo mesmo gatilho. A escada, pra mim, não foi simplesmente o tombo, foi o desespero de me sentir só, e de me sentir culpada.
É estranho falar que o nosso maior medo é de nos sentirmos sozinhos na vida? E na morte?
Pra mim a terapia é um espaço onde posso me encontrar, me entender, me acolher e ser verdadeira comigo mesma, independe de qual seja a verdade. Além disso, é um lugar para construir novas perspectivas de autocuidado, à medida que vou compreendendo sobre quem eu sou. Acredito que ninguém se reinventa do zero, nem muda da água pro vinho. Acredito que vamos construindo, aos poucos, novas formas de enxergar o mundo e viver de forma mais coerente com nós mesmos. E eu já disse algumas vezes na terapia sobre o medo de me sentir sozinha, e o quanto esse medo é perigoso por me colocar sempre em confronto com o que eu aceito de outras pessoas.
Esse ano eu mesma quebrei alguns dos meus limites. Eu me senti perdida em alguns momentos, sem honrar muito a minha própria história, sem respirar fundo e longo, sem me esvaziar quando a mente esteve muito barulhenta. Me importei um pouco mais do que eu deveria com a opinião alheia, e cedi a essas opiniões muito mais do que eu gostaria. Menti para mim mesma e para as pessoas ao meu redor. E, o pior de tudo, desejei atender às expectativas do outro. Que versão de mim eu achei que eu poderia construir ao tentar frustrar menos os outros do que a mim mesma?
Sobre limites, aprendi que eles não são estáticos nem imutáveis, assim como nada do que compõe o que somos. Talvez entender os motivos e as consequências de quebra-los seja mais importante do que a própria fronteira, que por vez ou outra, pode se mover.
No geral, acho que encarei pouco os meus sentimentos e comuniquei menos ainda sobre eles ao longo do ano. Encarei menos ainda os medos, e menos, muito menos, os limites. Se eu tentasse me descrever em poucas palavras sobre quem eu sou, e sobre quem eu fui esse ano, eu teria dificuldades porque me descrever significa também me encarar.
Será que um dia saberemos quem somos? Mas eu sei algumas coisas que eu quero ser. Quero ser mais coerente, mais integra e mais verdadeira comigo e com o que eu sinto. Quero ser mais centrada, menos melancólica, saber honrar de onde eu vim e com quem eu vim. Não quero me rodear de pessoas, entendo que tenho uma bateria social baixa, mas não posso usar esse argumento para não me comprometer com manutenções básicas com pessoas que são importantes e eu quero que permaneçam na minha vida. Eu quero olhar para o outro com menos expectativas e projeções minhas, quero julgar menos, e enxergar mais o único e o belo que há nas outras pessoas. Quero experimentar a vida sendo confrontada o tempo inteiro das minhas verdades e crenças, quero ser um pouco mais rio, um pouco mais mar agitado no campo das opiniões. Porém, honrar o que eu acredito e defender, sem desrespeitar opiniões contrárias. Eu quero ser uma pessoa melhor, pra mim, e para quem eu amo. E enquanto eu querer viver (e eu quero), quero que seja menos sobre às expectativas do outro, e mais sobre mim mesma.
Esse ano eu fui egoísta e mimada, me coloquei como o centro de todo o universo, sem responsabilidade sobre os meus atos, e sem gentileza. Não consigo descrever de outra forma. E eu me arrependo disso, só que, acho que não tenho conseguido encarar, confrontar, e ter ações claras para me colocar no meu devido lugar da insignificância, e ser gentil, coerente.
Eu não lembro de gostar de aniversários, desde criança e eu não sei o que me deu esse ano. Quis receber minha família na minha casa, quis me sentir acolhida, amada, talvez um pouco menos sozinha, pertencente a algum grupo de alguma forma. Apareceram algumas pessoas, família, amigos. Não apareceu todos que eu convidei por intrigas sobre as minhas escolhas sobre a vida e sobre quem eu sou. E eu não posso deixar de ser, e as pessoas não precisam aceitar ou conviver com minhas escolhas. Doeu um pouco essa quebra de expectativas, mas eu também preciso aprender a estar com pessoas que queiram estar comigo, que me amam. Não é sobre a quantidade.
Não quero e não consigo citar a confusão de sentimentos que me causaram a descoberta das doenças da Panda e toda a correria que foi para conseguir estabilizar o quadro dela, e o quanto isso custou financeiramente. Fato é, algumas coisas doem muito, muito mesmo, e muitas vezes não quero falar em voz alta para que não se transforme numa dor maior do que já é. Eu sempre fui sensível as coisas. Tive uma infância marcada por várias dificuldades de me expressar. Eu acho que eu fui amada, mas não tanto quanto uma criança precisa, sabe? E eu sigo tentando lidar com os sentimentos sozinha, me recuando, me guardando. Não gosto de falar sobre mim mesma, não confio nas pessoas. Inevitavelmente, sinto muito, sinto tudo, absorvo, sou atravessada e carrego.
Continuei colocando o trabalho em primeiro lugar, mais um ano. Será que eu tenho outra opção? O ambiente tenta me contaminar a ser uma versão ruim de mim, e eu continuo tentando seguir meu coração. E tenho falhado, é tudo muito cruel, acho que estou me perdendo lá dentro.
Eu errei muito, errei errando, errei tentando, errei consentindo, errei ignorando, errei ao confundir e me beneficiar da diferença entre liberdade e escolhas. Acabei magoando muito quem eu menos gostaria de vê sofrer, quem sempre me amou e me incentivou ser a melhor versão que eu poderia ser. É desafiador respeitar e ser gentil com as individualidades de quem convive todo dia com você, e eu foi desrespeitosa em vários momentos. Eu fui cruel, eu deixei sutilezas e detalhes pequenos passarem, e depois fui deixando os grandes também. Eu sinto muito. Eu fui o meu pior com quem deveria receber o meu melhor. Me faltou presença. Viver o agora com qualidade segue sendo a grande chave (na minha percepção). Não sei bem como encarar isso, como entender as faltas, como recuperar as mágoas, como conseguir uma outra chance de mim mesma. Eu a amo, e quero o melhor do mundo aconteça. Ela merece.
Carta sem um fim... Eterno 2024.