some days, I believe in communication. some days, I believe in silence.

blake kathryn
d e v o n
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@costisaias
some days, I believe in communication. some days, I believe in silence.
estamos com medo. nosso sistema educacional nos diz que podemos ser todos grandes vencedores. eles não nos contaram a respeito das misérias ou dos suicídios. ou do terror de uma pessoa sofrendo sozinha num lugar qualquer - Trecho de “o estouro”, Charles Bukowski
você é um príncipe
um princípio
um precipício.
proparoxítona rebelde
fugaz
quiçá marina, fullgás
estéril no meu tom
estério:
aqui dentro estronda.
agora jaz o terço do fim dos minutos para o findar da quarta-feira, sem cinzas
eu estou no dia de hoje como um cavalo
você está na ciclovia ladeira acima
atravessando o estado até o quintal da casa de sua mãe, desde os anos dois mil.
"todas as cartas de amor são ridículas" – você começa
eu, rindo, pois isso já se tornou coisa-de-somente-nós-dois, continuo
"e não haveria de ser amor se não fossem ridículas"
ou algo do tipo, pois você quem decora os textos tão bem.
enquanto batuco as unhas sobre a borda de uma das taças
você esfrega outra com a manga do punho e me diz que
devemos tomar cuidado com analgésicos, ansiolíticos e opióides
e eu te falo sobre a classe dos benzodiazepínicos
sobretudo, sobre o amor
entretanto, nossa dor
contudo, com todos
todavia, tento, tanto, aos trancos
às vezes até aos prantos
triscar em tudo que há
tenazmente
você.
as vezes sinto que amo certas coisas como quem nunca mais fosse sentir aquilo por algo parecido e é exatamente nesse ponto que eu me derramo. assim mesmo, depressa, sem vírgulas.
luciferandes das cordilheiras – canta pausadamente o poeta e eu, dentro do meu quarto, chave passada na porta, som estéreo abafado sob a mesa de canto, também canto que acredito nas plantas que curam, sim. também acredito no dom do encanto.
tem sido um prazer imenso acompanhar os seus atravessamentos. você também sente isso, não?
perceber o crescimento das unhas, reparando na ponta dos seus dedos, as cutículas, as falanges, os seus dígitos e, subitamente, sinto inveja das tuas digitais. perdoe-me o uso da hipérbole, meu amor.
despercebidamente temos crescido juntos, na beira dos quase trinta e, confesso, também nunca lembro se já cheguei a comentar contigo que não acredito no destino, pois prefiro ouvir o delírio.
prefiro delirar ao mesmo tempo que te conto que, às vezes, sinto que não nos encontramos somente nesta vida.
e que bom.
foi enquanto eu esfregava as suas costas largas
sob os quarenta e oito graus celsius, no jorro de água quente
tal qual Queiroz escreveu
que me dei conta da profundidade de sua ferida.
você ria no meio do tempo
naquele buraco do vento
enquanto seus sisos apareciam
que eu vi a sua dor velada
mal cuidada
roliça e encaracolada
com mau cheiro e avermelhada.
tratei tudo com zelo e paciência
com unguento e banhos de Abô
pedindo para o meu bom senhor que te lavasse
e levasse embora essa tristeza garrida:
"chamam isso de espinhela caída" – sorri chorando ao lembrar.
foi no meio daquela estrada
em meio à relva e das folhas de meada
onde as pedras do rio Itapicuru mirim caíram de suas mãos feito rosas de Hiroshima:
só eu vi, pois de soslaio também se vê o outro desaguar.
"nesse mundo de tantos anos, entre tantos outros, que sorte a nossa, hein?"
não bastava ser o mesmo número de Odu;
não bastava ser a mesma casa nove em trígono com Capricórnio;
não bastava a mistura da seiva quente que escorre entre nossas coxas;
tudo isso não bastava.
tudo isso me abastou.
você, que é tão você e tão meu.
eu, que em três partes sou do mundo, seu e tão somente meu.
nós, que somos nós, à sós – Aragão entenderia
eu e você, sempre.
e agora me pergunto que animal entre nós dois devorará primeiro o outro física e por fim espiritualmente?
bukowski.
nunca mais você vai me ouvir dizer
falando sobre o que eu já te disse
que já te falei
porquê eu também já te contei sobre isso.
I'm gonna remember you as a promise
because I promised
so many years ago:
if I survive this
I'm gonna make so much poetry
or never talking about anymore.
BOGARIM
na vastidão de terras mortas, entrevi alguém são, corpulento, de pé, revestido em um manto triste.
era a primeira manifestação de vida em anos em mim.
você foi a planta carnívora que transformou meu eu bucólico num frenesi. permanecem vivas, mediante isto - esse susto, esse rebu de ti - a setecentos dias minhas mãos prolíxas, uma vez que escrever é o único caminho nobre que sei trilhar. não haveria forma mais digna de dizer sobre as flores franzinas que se curvaram para que você crescesse senão escrevendo, jamais me passaria outra ideia tão congruente a fim da libertação de dores inexpressivas senão a de escreve-las.
houve uma noite de solidão em que o quarto se encheu de um flagelo infeliz e a máquina de escrever riu enquanto eu te sufocava numa caixa miúda pela inclemência de amar sozinha até que a sua impetuosa estada virou um único espinho.
talvez você nunca saiba que junto às suas pernas, enroscado, agarrado, encarapinhado, me veio também uma devoção calada, inclusa, sobre o que passaria a nos pertencer. eu pude amar o abraço inepto, a miséria do cenário, as cartas niilistas, e me atentei enraizada, desde o que era ao que me tornara, por tal amor.
foi você que entregou visão, tato e olfato a esse corpo inerte, que desviou os ventos pacíficos, que roubou os meus poemas ruins. ao longo de todo este tempo, tudo que havia entre nós eram poucas palavras de dor e um áspero silêncio entalando no peito cada sonho pretendido, mas, hoje, hoje eu acordei, lavei os pés, pus o lixo para fora e vi você florir.
yasmin d.
"tente encarar a vida com mais calma", você me dizia, com sua voz terna, com alegria, como quem apascenta uma alma, tal qual Iansã encaminha todos ao Òrun.
desfranzir o cenho, com empenho, tem sido uma atividade diária emplacavel de se perder em qualquer radar ou às vistas. hoje, escrevo nesse diário sobre as meias gastas nos calcanhares.
a verdade é que não nos interessa se o verde das estações dará lugar ao opaco no próximo outono, pois sua presença não é mais um lugar; é um estado, e você está. essa é uma promessa aos quase trinta anos.
o abraço inepto, na fala descrente dos remédios para induzir ao sono, nada disso traz mais calma do que sentir no colo de algodão as doces súplicas para ver o mundo mais devagar. preste atenção: essa é uma promessa aos quase trinta, não aos dezessete, onde tudo é infinito. Pessoa se orgulharia.
talvez no deserto, decerto, haja alguma boa miragem que torne a paz mar revolto em pausa e você pausou a ira nessas calhas puidas. na verdade, Campos quem se orgulharia.
sobre a antítese, uma figura de linguagem, a sapiência seja a calma da devoção brusca. nesses vinte e poucos, tudo ainda é infinito, pelo menos, enquanto dure. espero que perdure.
não é mais sobre ser, nem estar; é sobre ficar, apesar de tudo, apesar de mim.
apesar de mim, você ficou. sobre tudo o que restou, mais calma. mais alma em nosso amor.
você é clarice lispector não porque escreve nem porque me inspira mas porque quando vejo clarice lembro de ti não há você sem clarice e se não fosse você não haveria clarice para mim
você também é gal não porque canta nem porque tem tanto bom gosto mas porque quando escuto gal lembro de ti não há você sem gal e se não fosse você não haveria gal para mim
a antítese da coragem é o medo, uma fé ao contrário, uma faca que corta cega pelas costas.
"mesmo com o passar dos anos, a roda foi e é uma invenção incrível, não acha?", pensando alto, te lancei. depois caí.
você nunca ousou contar o toque monocromático dos ponteiros, mesmo quando era chegada a hora de nossa partida, mas eu sim – você sabe.
tantas coisas minhas somente você soube. clemente, tantas coisas suas ousei te dizer para que assim, quem sabe, você pudesse entender. acho que não entendi.
me fascinava as minúcias, as frestas, as rachaduras, a sua casca dura, seu doce e teso dom, pois o leon disse para matilde e eu também te contei que é por lá que a luz entra; o axé, a fé, a lágrima, o gozo, o suor e o som entram também, contudo, não sei se reparou na falha da projeção. foi contusão.
ir de encontro à sua presença era como subir ao monte parnaso; ele não existia até ser inventado, pela razão da necessidade de suas nove musas, da mesma forma que conjurei, em sussurro, enquanto lavava sua cabeça, o caminho mais fácil para chegar até a mim. até aqui. até agora. até o fim.
doeu ter que te dizer e mostrar a marca da lágrima. foi fora de tom o som gutual que rangeu entre os seus dentes na hora do adeus. é pesado demais sustentar o vento sob as plumas que desejam voar soltas por aí, porque tem sido leve alçar voo por aqui.
ainda te vejo, de longe, claro como um borrão, súbito como um supetão, escuro como a imensidão: no esmo desse breu, te sinto em tudo, mesmo mudo, no escuro, sinto muito por não querer mais sentir.
enquanto lounder than bombs ecoa o quarto afora
imagino como deve ser ensurdecedor o barulho de uma bomba
"Einstein deve ter sentido orgulho ou tristeza"
e acredito mais na segunda possibilidade.
sempre acreditei mais nas segundas possibilidades:
na segunda vez, não era mais um cisco, era lágrima
de segunda foi melhor que de primeira,
pois consegui acertar o tom.
coincidências existem, pensei
porquê numa segunda-feira
que decidir te enfeitar de fitas
argumentei que chorar também é som
reorganizei todos os móveis da casa
e te chamei para andarilhar por aí.
essa inconstância ainda vai me matar
ou me salvar
de mim mesmo
nunca mais você vai me ouvir dizer
falando sobre o que eu já te disse
que já te falei
porquê eu também já te contei sobre isso.
I'm gonna remember you as a promise
because I promised
so many years ago:
if I survive this
I'm gonna make so much poetry
or never talking about anymore.
ainda estou aqui,
no dia de hoje, como um cão;
sentado numa mesa de fórmica
sob um salão de cerâmica.
observo olhos que se vêem
mãos que tateiam o inato
peço a deus para conseguir ser um pouco mais grato,
pois ainda há motivos para chegar
tanto quanto para ir.