Doce Adeus
— Você é estranho — ela disse, abotoando o vestido vermelho.
Olhei para ela, tomei um gole do meu vinho barato e respondi: — Eu sei. Sempre soube.
Sentei-me na cadeira. O dia estava frio, chuvoso. A janela aberta deixava o vento gelado passar pela nuca.
— Já dormi com pessoas estranhas — ela continuou —, mas você é o mais estranho que tive o prazer de conhecer.
Olhei para ela e perguntei: — Que diabos está falando?
— Parece ser desprovido de amor. Eu sinto tudo ao seu lado, e você não transparece nada. Fico me perguntando por que ainda estou contigo.
Observei seus cabelos longos e negros. Senti uma leve pontada no estômago — algo dentro de mim dizia que ela estava certa. Para falar a verdade, eu sempre soube disso. Sempre fui um cadáver ambulante. Não consigo ser uma pessoa normal desde os meus sete anos.
Lembro-me perfeitamente daquela tarde fria. Ao voltar da escola, fui encurralado por garotos mais velhos. Não lembro o motivo da surra, mas chorei e corri para o colo de minha mãe — onde todo garoto da minha idade se sentia seguro. Ela olhou para mim, viu meu olho roxo, minha boca sangrando. Disse a ela que apanhei na escola. Olhei para sua mão esquerda — segurava uma garrafa de uísque. Quando abaixei a cabeça, fui surpreendido por um soco no rosto. Caí no chão. Ela chutou meu estômago. Fiquei alguns minutos sem ar, sem conseguir gritar. “Você é fraco”, ela disse, com um sorriso.
Naquele momento, soube que estaria sozinho.
Eu a observava trazer homens para dentro de casa. Eles batiam nela. Sempre. Com onze anos, morava conosco um infeliz chamado Carlos — um homem de bigode grande e cabelos negros. Gostava de bares, festas e bebida. À noite, batia na minha mãe.
Deitava-me no quarto escuro, fechava os olhos e rezava para acabar. Ela gritava. Seu grito era agudo, cheio de raiva e dor. Eu não podia fazer nada.
No outro dia, ela estava com os olhos roxos — abraçada a ele, fazendo-lhe agrados, como se nada tivesse acontecido. Assim foi durante anos.
Numa sexta-feira à noite, Carlos chegou bêbado. Eles discutiram. Tudo começou novamente. Fechei os olhos, mas seus gritos eram diferentes daquela vez — agonizantes, desesperados... até que silenciaram. Fiquei alguns minutos à espreita.
Levantei-me e caminhei até o quarto. Estava tremendo. O quarto estava escuro, iluminado apenas por uma faixa de luz vinda do corredor. O café sobre a penteadeira ainda estava quente. Aproximei-me. Ela estava deitada. Toquei-a, chamei por ela — minha voz saía trêmula. A camisola de seda estava rasgada, os seios expostos, os olhos brancos. Percebi marcas no pescoço. Não chorei. Não senti dor. Não senti nada.
Os gritos dela ecoavam na minha cabeça, me devorando por dentro. Fiquei parado, sem saber o que fazer. Então senti alguém atrás de mim, sentado na velha cadeira de minha mãe. Ele se levantou. A fumaça do charuto passou pela minha nuca. Senti o cheiro do desespero. Uma voz grossa disse: — Ela mereceu, garoto.
Era Carlos. Não consegui gritar. Nem correr. Fiquei em transe.
Ele tirou minha calça com delicadeza e disse: — Não vá contar pra ninguém, garotinho. Isso acaba rápido.
Jogou-me sobre o corpo da minha mãe. Senti seus dedos ásperos arranhando minha pele...
Depois disso, lembro-me apenas de acordar em uma maca. Policiais. Psicólogas. Conselho tutelar. Médicos. Todos tentando me fazer esquecer.
Mas há coisas que nunca se esquecem.
Cresci no meio do ódio. Onde cresci, não habitava amor. Um homem é o que viveu, o que passou, o que sofreu.
— Agora você entende por que sou assim? — disse a ela, terminando meu vinho.
Ela me olhou, espantada, sem saber o que dizer. Peguei um cigarro amassado do bolso da camisa, acendi e traguei fundo. “Uma bela forma de morrer”, pensei.
— Por que não me contou isso antes? — ela perguntou.
Sorri de canto. — Isso não é algo que se diz. É algo que se esquece.
— Você é cheio de problemas. Todo torto. Eu preciso de alguém normal ao meu lado. Não sei se consigo passar por isso. É tão solitário que acabará sozinho — mesmo tendo alguém. Vai acabar morrendo sozinho.
Ela bateu a porta. Sabia que aquilo era um adeus.
Apenas concordei. Esse é o destino de pessoas como eu.
Sentei-me no velho sofá, peguei o telefone e liguei para meu amigo Carlos. — Ei, Carlos, venha com algumas cervejas. Ela partiu. Mas, pelo menos, não quebrou minha coleção do Pink Floyd — e sem aquele maldito drama. Lhe devo dez pratas. Ela caiu na história.
















