part11. you missed him, I saw it
não paro de escrever ressentimentos. parei de fumar há algum tempo agora, muito tempo na verdade, às vezes penso em voltar, mas a voz de dentro grita um esganiçado “nãaaooo”, eu sempre ouço.
dei uma respirada funda para poder continuar, continuando: eu tenho me ouvido muito ultimamente, mais do que nunca. parece que tenho todas as respostas e aceitá-las como minhas tem sido a escolha diária a ser feita. eu aceito as minhas respostas.
eu jogo um jogo cruel comigo mesmo de sempre questionar a validade dos meus sentimentos, da intensidade, é muito injusto. alimento dentro de mim um deus desleal, um trickster, por isso preciso estar sempre atento. eu sempre me atento quando escrevo e é por isso que escrevo: para ancorar a minha existência no presente ao passo que vasculho outras vidas.
é fácil se perder nas memórias depois que elas estão distantes e, dentro de mim, que vivo em outro tempo, um tempo que tem voracidade por si mesmo, as memórias se afastam da borda do recente com impulso de pernas. a memória do incêndio é sempre remota.
pensei que estou escrevendo e sonhando que Você esteja me lendo, sonhando que Você conheça meus segredos - que eu mantenho escondidos mas dispostos desleixadamente; se Você quiser, qualquer dia, querer saber ou tentar saber: tudo pode ser seu.
amei quem amei e não quero me convencer do contrário. acho que não era o momento certo, só isso. talvez agora seja o momento certo, mas no fundo eu sei que não existe essa coisa de “momento certo”. e além disso eu já não sou a mesma pessoa que eu fui quando estava com eles, eu gosto mais de mim agora. acho que eu não gostava tanto de mim desde que eu era criança (pensar nisso me deixa feliz).
o custo de gostar tanto de si mesmo é não estar disposto a fazer certas concessões e se prestar a certos papéis, talvez seja por isso que eu esteja sozinho agora, talvez seja porque eu sou crítico demais ou covarde demais ou um mix das três coisas. não sei.
não sei se sou um covarde ou um romântico, na prática não faz diferença porque acabam sendo a mesma coisa.
eu estou revisitando as memórias do incêndio e pulando de cabeça com o corpo em brasa.







